Dever de Capitão
Dezenove
Na nossa casa, o frenesi da mídia se intensificou de novo. Alison saiu para dar uma
declaração, dizendo aos jornalistas que era a manhã do domingo de Páscoa e que os Phillips precisavam de um tempo para dedicar à própria família. O telefone não parava. O senador
Patrick Leahy ligou para dizer que estava dançando no estacionamento da igreja, onde tinha ouvido a notícia. Diane Sawyer disse ao telefone que estava dando piruetas. Nossos senadores
de Vermont, o governador e todos que tinham sido tão bons para nossa família telefonaram para manifestar sua alegria pela maneira como o caso havia terminado.
No final da tarde de domingo, o presidente Obama ligou para Andrea.
— Acabei de falar com seu marido — disse ele.
— Quer dizer que vou receber o segundo telefonema? — brincou Andrea.
Ele riu.
Andrea tinha consciência da importância do papel de Obama no esforço para me libertar e ela queria lhe agradecer calorosamente, mas por outro lado ela sabia que aquele homem era o presidente, e é preciso manter o respeito e a formalidade. Ele disse a Andrea que “a nação inteira tinha orado por vocês” e comentou o quanto tinha ficado feliz por tudo ter dado certo no final. Para ela, ouvir aquilo ao telefone foi muito reconfortante.
— Nunca poderia agradecer-lhe o suficiente pelo que todos tinham feito por nós — Andrea me contou. — Lembro-me de ter dito a certa altura: “Minha cesta de Páscoa transbordou.”
Achei fantástico que ele tivesse encontrado tempo para telefonar não só para mim, mas para minha família em Vermont.
As pessoas chegavam em bandos à nossa casa para comemorar. Porém, a catarse emocional provocada pelo meu resgate deixara Andrea extenuada.
— Era como se um cabo tivesse sido desligado e toda minha força e energia se esvaíssem — disse ela. — Eu precisava ficar sozinha com nossos filhos.
Então ela e Alison conceberam um plano de saída para que todos voltassem às suas respectivas famílias. Uma de suas amigas soube que ela voltara ao seu estado normal quando, horas depois de terem recebido as boas-novas, ouviu a voz de Andrea no outro aposento: “QUEM DERRAMOU REFRIGERANTE NO MEU TAPETE?” Andrea não se lembra disso, mas soa perfeitamente verossímil. Era um alívio tão grande, ela me contou, poder voltar a se preocupar com esse tipo de coisa: “Todo mundo está comendo direitinho?” “Quem está destruindo minha casa?”
O resgate salvou a fé de Andrea — ou colocou no lugar algo que andara mal encaixado por um bom tempo, como ela diz.
— Não acredito no Deus que pune a gente ou fica no encalço de cada pecado cometido, mas sim em um Deus de amor. E depois eu estava meio tipo “Querido Deus, não tenho sido uma de suas melhores seguidoras, mas estou lhe devendo uma tamanho família”. E eu tinha a intenção de ser fiel a essa obrigação.
Fui resgatado no domingo de Páscoa e voei para casa na sexta-feira seguinte. O proprietário da Maersk pôs à disposição seu jato particular, e uma viagem de 45 horas levou apenas dezoito. Eu voltara para Vermont vindo do mar tantas vezes ao longo daqueles trinta e tantos anos, voando de todos os pontos do planeta; dessa vez, porém, me senti completamente diferente. Não apenas por causa do jato de luxo e do voo direto, mas pela expectativa de ver de novo os rostos da minha família. Sentei ali bebericando uma Coca, olhando para as nuvens lá embaixo e pensando no momento em que finalmente iria vê-los.
Andrea me contou que, depois que meu avião aterrissou no aeroporto de Burlington, Dan, Mariah e ela estavam caminhando na direção do avião, e Mariah se virou e disse: “Mãe, eu tenho que correr.” Andrea replicou: “Vá em frente. Se tem de correr, corra.” E Mariah disparou. Era exatamente como no tempo em que era uma menininha. A primeira coisa que vi depois foi Mariah empurrando para o lado os caras da alfândega e pulando para os meus braços. Apertei-a contra o peito e dei-lhe um beijo. Agarrei Dan com um forte abraço e então vi Andrea. Ela pulou nos meus braços e fiquei emocionado demais para conseguir falar qualquer coisa. Ela por fim disse: “Ah, meu Deus, é muito bom ver você de novo.” E emendou: “Você não trocou de roupa?!” Porque eu estava vestindo o mesmo macacão com o qual ela me vira pela primeira vez na TV quatro dias antes. Eu ri. Tinha conservado aquela roupa para manter meu vínculo com o USS Bainbridge, o USS Boxer e o USS Halyburton. E seguia vestindo até a camiseta branca padrão que a marinha me dera, algo que raramente faço. Depois, Andrea ligou o “modo enfermeira”: começou a cuidar dos meus ferimentos (meses mais tarde, ainda tinha as cicatrizes e certa dormência nos braços e pulsos, resultado das cordas apertadas), além de cozinhar para mim e se certificar de que eu tivesse horas de sono suficientes.
Foi algo parecido com a ocasião em que quase fui esmagado por uma carga na Groenlândia. Não nos damos conta do que temos até quase perdermos tudo. Então, passamos a valorizar o que nos cerca.
No aeroporto, nos vimos cercados por uma multidão, pela mídia, pelos que queriam manifestar seu carinho por nós, por funcionários do governo e muitos mais. Podia perceber no rosto daquelas pessoas o quanto estavam felizes por me verem de volta. Só que eu estava louco para ir para casa. Queria voltar à vida que eu amava, à família da qual tinha sentido tanta falta.
Vimos do lado de fora do aeroporto gente segurando cartazes, gente ao longo da estrada, gente em frente à nossa casa. Penduraram um cartaz na porta da mercearia dizendo “BEM-VINDO, CAPITÃO PHILLIPS” e centenas de pessoas assinaram a mensagem. Quando estávamos entrando na garagem, nós o vimos pendurado no celeiro do outro lado da estrada. Não poderia expressar adequadamente meus agradecimentos a todas essas pessoas.
Foi só ao chegar em casa que o peso da emoção por tudo o que eu havia passado me atingiu com toda a força. E, quando isso aconteceu, minha mente voltou a um momento específico vivido na embarcação de salvamento. Lembrei-me de quando estava sentado ali, me despedindo de todos na minha família e pensando em como Dan diria, ao crescer, que ele não tinha um pai e que seu pai não o amava porque estava sempre longe. Aquela lembrança simplesmente me dilacerou. Não podia deixar passar nem mais um minuto sequer sem fazer algo a respeito.
Puxei Dan de lado, as lágrimas aflorando nos meus olhos.
— Dan — falei —, sabe quando você costumava brincar sobre não ter um pai?
— Sei — respondeu ele.
— Nunca mais diga isso, está bem?
Ele assentiu. Só o fato de pensar no meu filho dizendo essas palavras havia me magoado tão profundamente que eu não queria nem brincar a respeito. Agora que eu tinha sido devolvido à minha família, não deixaria que eles tivessem a menor sombra de dúvida sobre o quanto significavam para mim.
Andrea e eu sabíamos o quanto estivéramos perto de perder um ao outro. Estávamos sentados juntos no sofá havia algum tempo, sozinhos em casa, e eu disse:
— Sabe, Anjo, realmente não era para eu ter saído dessa vivo.
— Eu sei.
E era verdade. Então ela disse:
— Da próxima vez que sentir que está com sorte, dá pra comprar, por favor, um bilhete de loteria?
Naquelas primeiras semanas, Andrea ficava com medo de tirar os olhos de cima de mim. Eu acordava no meio da noite e a via procurando por mim, com medo de que o meu lado da cama estivesse vazio. Andrea não se lembra de ter feito isso. Eu lhe dizia: “Tudo bem, Anjo. Estou aqui. Volte a dormir.” Depois de alguns dias, comecei a dizer a amigos meus: “Ela não me deixa nem ir ao banheiro sozinho!” Era um exagero. Mas só um pouquinho.
Ainda não fazia a menor ideia de que o mundo inteiro tinha assistido à provação pela qual eu havia passado. Fiquei completamente espantado ao saber quantas pessoas tinham ficado sensibilizadas: gente que acompanhara aquela situação desde uma cama de hospital, ou que passara por um episódio semelhante, ou que simplesmente entrava em contato comigo para dizer o quanto se orgulhava de mim. Houve até um criador lá do Oeste, que se dispôs (já que tive de lhe confessar que não tinha nenhuma vaca) a me enviar cabeças de gado e ração aonde quer que eu quisesse, e o cara de Vermont que me ofereceu sua área de caça. As pessoas queriam apenas estar conectadas com minha história. Fiquei perplexo com tudo aquilo.
— Isso restabeleceu minha confiança nas pessoas — disse Andrea. — Depois de dezesseis anos como enfermeira de um setor de emergência, onde vemos as pessoas em situações terríveis que poucas vezes acabam bem, sua fé pode ficar bem abalada. Às vezes a gente chega a esquecer que o bem ainda existe em algum lugar lá fora. Porém, depois que as pessoas se mostraram tão generosas conosco, vi que encontramos de fato o bem em lugares totalmente inesperados.
Não foram as celebridades com quem nos encontramos que fizeram com que nos sentíssemos diferentes, mas as pessoas comuns como nós. O vizinho que nos enviou as refeições prontas, dia após dia, sem querer ouvir nenhum agradecimento em troca. E o refugiado somali que, morando em Burlington e trabalhando no hospital de Andrea, procurou-a para dizer o quão feliz tinha ficado por mim e como queria se desculpar pelas pessoas más na Somália. Andrea lhe disse: “Existem pessoas ruins em toda parte.”
E é verdade. Mas o número de pessoas boas é maior. Acredito nisso agora.
Fizemos coisas que jamais sonharíamos fazer. Ir à National Opera, em Washington, comparecer a eventos que exigiam trajes de gala, encontrar algumas pessoas com muita influência. Foi simplesmente inacreditável. Houve um momento em que estávamos sentados no Salão Oval da Casa Branca e Andrea sussurrou para mim: “Como vim parar aqui?” Foi um jeito bastante sofrido de comprar um bilhete para dar uma volta na roda-gigante, como disse Andrea. Ela era uma garota de Vermont que se sentia como se a tivessem deixado entrar nesse enorme parque de diversões. Ela não cansava de me dizer que ainda iria escrever um livro sobre as “1001 coisas que podemos fazer com Richard Phillips”.
O momento mais comovente, no entanto, foi uma reunião com os Seals da marinha. As mulheres desses homens disseram a Andrea que a admiravam pela maneira como se comportava. Ela não conseguia acreditar: estavam dizendo o quanto a admiravam. “Sabíamos que nossos homens iriam fazer o trabalho deles”, elas comentaram. “Mas você tinha de ficar lá sentada, sofrendo sem saber qual seria o desfecho daquilo.” De nossa parte, nós a admirávamos: mulheres jovens, na casa dos vinte ou trinta anos, algumas delas viúvas. A esposa de um Seal da marinha nunca sabe se o marido vai voltar depois de uma missão. Andrea tinha lágrimas nos olhos, e eu também.
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Todos perguntam: “Essa experiência transformou você?” Minha fé, sem dúvida, se tornou mais forte. Não sou o tipo de cara que faz pactos com Deus e nunca lhe pedi para me tirar
daquele barco em troca de ir à igreja todos os dias ou coisa parecida. Não me pareceu um acordo justo. Mas rezei, sim, pedindo força. Rezei pedindo sabedoria. Não pedi pelo
desfecho, apenas pela capacidade de dar o melhor de mim quando fosse necessário.
Serei grato até o fim dos meus dias pelo que os Seals fizeram por mim. E hoje em dia não posso ir a um jogo num estádio sem chorar ao ouvir o hino americano. Quando outros americanos arriscam a vida para salvar você, aquele hino se transforma em algo mais do que uma canção. Ele se torna tudo aquilo que você sente pelo seu país. O vínculo que todos temos uns com os outros e que tantas vezes permanece invisível e é menosprezado. Tive sorte o bastante para vivenciar isso de um modo que talvez só aconteça com os soldados.
Porém a experiência não me transformou. Apenas me fez ver coisas que tinham estado na minha frente o tempo todo. Como a importância de enxergar as coisas pelos olhos das outras pessoas. Durante minha carreira como comandante, sempre que um integrante da minha tripulação fazia algo realmente estranho, eu não me limitava a corrigi-lo. Perguntava por que estava fazendo aquilo daquele jeito. O fato de me interessar pelos motivos das pessoas, pelo modo como viam o mundo, me ajudou a antecipar momentos de perigo que enfrentei mais tarde. Em especial a bordo do Maersk Alabama. A tripulação e eu estávamos prontos para qualquer crise, não apenas porque havíamos treinado exatamente para aquele tipo de situação, mas porque pensávamos três movimentos à frente dos piratas. Eu sabia que iam querer falar com seus líderes. Sabia que queriam algum tipo de recompensa, mesmo que fossem alguns poucos milhares de dólares. E sabia que precisavam encurralar todos os meus homens num único lugar. Isso ajudou enormemente.
Mas o que me manteve vivo foi minha determinação mental. Simplesmente me recusei a deixar que os piratas me derrotassem. Sempre adorei vencer quando ninguém esperava que eu conseguisse. Mesmo ao jogar basquete hoje em dia, sabendo que o outro time é melhor. Quando as probabilidades estão contra mim, o sabor da vitória é ainda mais doce. Temos de treinar nossas mentes para jamais desistir de lutar.
O que pude ver com maior clareza foi a lição que aprendi a bordo da embarcação de salvamento: somos mais fortes do que imaginamos. Houve muitas ocasiões durante minha provação em que tive medo de não aguentar o que me esperava nos cinco minutos seguintes. Em especial durante as execuções simuladas. Esse medo supremo, o de presenciar a própria morte, era tão aterrorizante que pensei que fosse perder o controle e me rebaixar a um papel deprimente. Mas isso nunca aconteceu. Aquilo me ensinou que eu podia aguentar muito mais do que supunha.
Todos acreditamos que nosso nível de resistência é muito baixo, temos medo de fracassarmos. Enquanto tiver esse emprego, ou essa casa, ou essa mulher ou marido, ou essa quantidade de dinheiro, estarei bem. Mas o que acontece quando essas coisas são tiradas de você? E mais — sua liberdade, sua dignidade, mesmo as coisas que nos habituamos a considerar naturais, como usar um banheiro? O que acontece quando as pessoas tentam tirar até a sua vida? Descobrimos que temos uma personalidade maior e mais forte do que imaginávamos. Descobrimos que nossa força e nossa fé não dependem de quão seguros estamos. Elas independem dessas coisas.
“Você poderia fazer o que eu fiz”, costumo dizer às pessoas. “Você só não precisou fazer isso ainda.” E elas sempre respondem: “Bem, não tenho tanta certeza.” Eu tenho. Podem acreditar. Cada vez que duvidei de mim, acabei por superar isso. Sempre que algo era tirado de mim, eu descobria que na verdade não precisava daquilo. Somos mais fortes do que imaginamos.
E há, é claro, a palavra com “H”. “Herói.” Quando cheguei em casa, a mídia foi embora, os amigos disseram adeus e voltaram para as suas casas e suas vidas e os agentes de Hollywood pararam de ligar, pude sentar e ler as cartas que as pessoas tinham me enviado. Algumas vinham endereçadas apenas com “Capitão Phillips, Vermont”. Achei graça disso, era como se eu fosse Lindbergh ou Abraham Lincoln — ou Papai Noel no polo norte! Mas não me sentia diferente por causa disso. Eu era um cara normal. Uma pessoa comum — de verdade. E agora as pessoas vinham usando aquela palavra, que eu havia reservado para pessoas como Audie Murphy e Neil Armstrong.
“Você é o meu herói.” Essas palavras enchiam meus olhos de lágrimas. Mas não eram lágrimas de felicidade. Sinceramente, faziam com que me sentisse um impostor, uma fraude. Não fiz nada de especial, pensei. Não mereço tudo isso. Não quero tudo isso. Realmente não gosto muito de receber cumprimentos. Acho que deve ter algo a ver com o fato de ter sido criado com sete irmãos e irmãs num lar irlandês-católico. Sei como lidar com alguém que está me dando um chute no traseiro. Mas não com quem me elogia. Na verdade, na terceira noite depois da minha volta, tive um sonho de que a coisa toda não passara de uma encenação. Não tinha havido nenhum pirata, nenhum refém fora capturado, nenhuma operação de resgate. E todos estavam pensando que eu era um herói, mas era tudo uma farsa, filmada num estúdio de Hollywood. Eu era um ator, um fingidor, e todos descobriram isso e agora me odiavam. Acordei suando frio.
Porém via que todos que tinham passado por uma situação extraordinária eram chamados de heróis. E eles vão aos talk shows e dizem: “Vocês sabem, não me sinto como um herói. Se o destino pusesse vocês no meu lugar, teriam feito o mesmo.” E é verdade. Lá, ao largo da costa da Somália, não descobri algo a respeito de mim. Descobri algo a respeito do potencial de qualquer pessoa que treina a sua mente para ser forte. Sou um sujeito comum de Vermont que teve a chance de vislumbrar algo que muito poucas pessoas têm sorte o bastante para ver.
Depois de todas as entrevistas e discursos e uma grande festa de recepção (quinhentos de meus amigos mais próximos e vizinhos reunidos num parque da cidade para um piquenique), voltei a ser um pai e um marido. Enfim consegui um novo cachorro, Ivan, uma mistura de spaniel com o DNA de alguma raça misteriosa, e que é tão desobediente quanto Frannie. Nos dias quentes de verão, ele vai ao riacho que passa atrás da nossa casa, conhecido de todos da vizinhança, e mergulha comigo. Depois caminhamos entre as árvores para voltar ao lar.
Foi ali, semanas depois do meu retorno, que um vizinho, varrendo a sujeira e os cascalhos do outro lado da estrada, me viu estender a roupa molhada no varal do quintal para secar. Deve ter parecido estranho ver o herói, o cara que assinara o contrato para um filme, ou seja lá o que fosse, fazendo as coisas mais banais, como se nunca tivesse sido um refém tão perto de morrer.
Ele gritou para mim, e eu me virei e acenei para ele. Eu ri. Não tinha parado para pensar como minha vida acabara de fechar um círculo perfeito. Mas aquele momento de fato me fez ver isso. Estou em casa, pensei. Enfim estava de volta à minha vida outra vez.