Dever de Capitão
Cinco: -3dias
– 3 dias
A ge nte só morre uma ve z.
Pirata somali a bordo de um navio ucraniano sequestrado
em entrevista por telefone ao Ne w York Time s
30 de setembro de 2008
A viagem até Djibuti tinha decorrido sem problemas. Captamos comunicações sobre barcos piratas no rádio, mas não detectamos nada no nosso radar nem ao fazermos buscas visuais.
Navegamos na direção sudoeste ao longo do litoral do Iêmen e chegamos em 5 de abril. Tivemos um dia exaustivo desembarcando nossa carga no porto de lá e no dia seguinte, 6 de
abril, partimos na direção nordeste. Estávamos a meio caminho na nossa rota. Havíamos entrado no golfo de Áden. Agora teríamos de sair dali vivos e contornar o Chifre da África.
Todo porto tem uma reputação. Marinheiros avaliam os portos segundo um conjunto bastante rígido de critérios que não mudou muito nos últimos trezentos anos. É barato? Tem garotas por perto? Cerveja? E há alguma coisa para fazer? É isso. Se a resposta para todas essas perguntas for sim, haverá marinheiros brigando por uma oportunidade nos postos de recrutamento. Alexandria, no Egito, é um ótimo porto por ser barato e por estar a uma hora de trem de uma olhada nas pirâmides. Subic Bay, nas Filipinas, tem cerveja para lá de barata e montes de mulheres bonitas com padrões morais um tanto flexíveis. Por outro lado, Chongjin, na Coreia do Norte, é um porto terrível, porque somos obrigados a ficar no navio e, mesmo se conseguirmos descer, o povo é miserável e vive aterrorizado. Em alguns portos da Colômbia e do Equador é possível escutar tiros de metralhadoras à noite e ver gente se balançando nas espias do navio para tentar embarcar clandestinamente, e há uma boa chance de virarmos picadinho nos bares à beira do cais. Mas qualquer marinheiro ainda preferirá isso ao buraco infernal do falecido camarada Kim Jong-il.
Os portos africanos gozam de uma reputação variada. Mombaça, nosso destino seguinte, era bastante seguro, vigiado por guardas armados e regido por algumas normas de segurança básicas. A gente do lugar costumava se esgueirar na escuridão da noite e surrupiar trancas de contêineres, para depois revendê-las aos antigos proprietários a 25 dólares cada. Nenhum porto do Terceiro Mundo é totalmente seguro.
Eu havia passado em Serra Leoa durante a guerra civil no país, nos anos 1990, e vira as pessoas acenarem da costa. Dava para ver que as mãos direitas tinham sido decepadas pelos rebeldes, como castigo por terem votado na eleição. Estive em Monróvia, na Libéria, uma semana antes de estourar a revolução que deu a Charles Taylor o domínio sobre o país. Era outro mundo: enquanto deslizávamos nas águas do porto, podíamos ver que não havia eletricidade em parte alguma, a não ser nos lugares que contavam com geradores. Os soldados da força de paz da África Ocidental subiram a bordo e imediatamente exigiram propinas. Não havia segurança alguma, apenas centenas de pessoas no cais esperando para nos entregar cartas, algumas escritas no verso de caixas de fósforos. Elas diziam: Pode me deixar aqui, mas leve minha família para a América. Um sujeito me falou: “Sou professor universitário, não consigo trabalho, minha família está passando fome. Não pode arrumar alguma coisa para eu fazer?” Eu me sentia muito mal sabendo que havia tão pouco que pudesse oferecer a pessoas como ele.
Certo dia, um sujeito que precisava desesperadamente de trabalho veio a mim, e eu lhe disse:
— Tudo bem, preciso de quatro trabalhadores. Você escolhe os quatro e será o chefe deles; e eu cuido de você. Se eles não fizerem o trabalho direito, você está fora.
O salário padrão no porto era de um dólar por dia, o que até era um bom ordenado em Monróvia. E esse sujeito fez por merecê-lo, trabalhando muito por uma semana direto, sem criar confusão, o que me agradou muito. No dia do pagamento, ele pediu:
— Não quero em dinheiro vivo; quero tábuas de compensado.
O país havia sido devastado a tal ponto que não havia mais nenhum material de construção por lá, e aquelas tábuas valiam mais do que ouro. Tentei convencê-lo a mudar de ideia, dizendo que dinheiro era mais seguro, mas ele insistiu. Dei-lhe madeira suficiente para encher a caçamba de um caminhão e ele ficou eufórico. No dia seguinte ele voltou a me procurar. Havia sido moído de pancada. O homem mal conseguia andar. Ao deixar o porto no dia anterior, os soldados da força de paz o fizeram parar e começaram a roubar as tábuas. Ele tentara impedi-los e salvar pelo menos um terço da madeira, mas levara uma tremenda surra. Dei-lhe algum dinheiro e roupas, e cuidamos dele. O homem quase morrera por causa de umas poucas tábuas.
Em Monróvia, todos os dias à uma da tarde acontecia algo inusitado. Descarregávamos o primeiro palete de ervilhas e trigo e, então, bastava a carga tocar o chão do cais para uma enorme multidão convergir para lá. Centenas de pessoas lançavam-se para cima daquilo enquanto os policiais batiam nelas com porretes imensos. Os caras pegavam aqueles sacos de trigo de quase trinta quilos e jogavam na água pelos buracos do píer, e depois mergulhavam também. E as forças de segurança iam atrás, enfiando os canos das armas nos buracos e disparando contra o saqueador.
Qualquer comandante que navegasse pela África Ocidental ou Oriental podia ver o desespero daquela gente.
___
Por volta de uma da tarde, já nos encontrávamos longe de Djibuti, em segurança, sem
quaisquer incidentes. Enquanto contornávamos o Chifre da África e passávamos ao largo da costa da Somália, eu sabia que ainda estávamos no meio do trecho mais perigoso da nossa
viagem.
Eu havia marcado um exercício de combate a incêndio e para o uso de botes salva-vidas. Estávamos treinando os novos integrantes da tripulação, checando a embarcação de salvamento e repassando os procedimentos para lançá-la na água. Em seguida, fomos até o bote de resgate rápido instalado a boreste, que é usado em caso de queda de homem ao mar, e mostramos aos novos tripulantes como ajustar as cintas de segurança. Cada homem tem um lugar predeterminado nos botes salva-vidas, de modo que também treinamos nosso posicionamento no seu interior. Shane conduzia o exercício, perguntando a cada um o que deveria fazer em determinada situação e então corrigindo as respostas. Era um dia terrivelmente quente, e o mar jogava um pouco nos primeiros ventos da monção. Aquele passadiço estava um forno, com um calor de 35°C e visibilidade de cerca de sete milhas.
Eu estava sozinho no passadiço, examinando o horizonte e de olho no radar. Por volta de 13h40, três sinais piscaram na tela a sete milhas atrás do navio, pela popa. Deslocavam-se rapidamente, a uma velocidade de pelo menos 21 nós. Ergui os olhos e percebi uma ondulação no mar provocada por uma embarcação. A uma distância de sete milhas é impossível distinguir o barco, apenas a esteira de espuma que ele produz ao cortar as águas.
Conforme fui treinado, firmei meu binóculo na direção da minúscula mancha branca. Girei o ajuste do foco e vi a esteira de espuma na água novamente. Outra olhada no radar. Agora havia duas outras embarcações velozes, além de uma mancha maior, entre oito e nove milhas na nossa popa, longe no horizonte e fora do alcance visual, porém visível na tela. O navio-mãe. Chequei os vetores; ele estava no nosso encalço. A cada movimento nosso, ele também corrigia o rumo.
Numa ocasião anterior na minha carreira julguei ter avistado um navio-mãe, mas essa agora era uma expedição pirata completa e pronta para o ataque. Meu coração bateu mais forte.
Falei pelo rádio com Shane:
— Possíveis barcos piratas se aproximando, a sete milhas, pela popa.
— Quer que interrompamos o exercício? — perguntou ele.
Refleti um pouco.
— Não, ainda não. Talvez precisemos interromper, mas por enquanto estou apenas mantendo você a par.
Eu ainda não estava convencido de que eram piratas. Eles costumavam atacar ao amanhecer (às cinco da manhã) ou pouco antes do pôr do sol (às 19h45). Nesses momentos, havia uma névoa no golfo de Áden, fazendo com que a visibilidade caísse quase pela metade. À uma da tarde, tínhamos visibilidade máxima. Era uma hora incomum para os somalis empreenderem um ataque contra um navio.
Mas eles se aproximavam depressa. Entrei em contato com Shane e pedi que ele me mandasse um marinheiro de convés chamado Andy. Era um marinheiro experiente que dispunha dos melhores olhos a bordo. Em outra ocasião, quando estava comigo no passadiço, ele avisara: “Tem um navio vindo a bombordo.” Examinei o horizonte e não vi nada, e então olhei de novo com o binóculo e não havia dúvida: lá estava um navio a uma distância de quinze milhas. Não dava para acreditar que ele tinha enxergado tão longe. Agora eu queria seus olhos auxiliando na vigilância.
Acionei o telégrafo da máquina para enviar a nova velocidade para a praça de máquinas. As rotações do eixo começaram a aumentar e o navio avançou com maior velocidade. Eu estava forçando a potência até 122 RPM.
Enquanto o indicador de velocidade subia, entrei em contato com o chefe de máquinas.
— Preciso de você na praça de máquinas agora; estou aumentando a velocidade.
Na verdade, eu estava acelerando o navio como nunca fizera antes. Queria Mike lá embaixo, de olho no computador do motor, para me informar se algum dos indicadores — carga do motor, temperatura de exaustão, temperatura dos cilindros — estava entrando no vermelho. Quando pessoas mal intencionadas estão na sua cola, a última coisa que se quer é uma pane na praça de máquinas. Se algo estivesse ameaçando explodir, o chefe me diria.
Peguei o telefone por satélite e liguei para a Operação de Comércio Marítimo do Reino Unido, a UKMTO. Uma voz com sotaque britânico atendeu.
— Aqui é o Maersk Alabama — falei, acrescentando minhas coordenadas: posição, curso, velocidade. — Temos três embarcações se aproximando a cinco ou seis milhas, com um possível navio-mãe logo atrás a uma milha de distância. Possível situação de pirataria.
A voz do outro lado não pareceu impressionada. Com certeza, todos os navios na costa da Somália ligavam para eles se vissem um barco pesqueiro ou um barril boiando.
— Temos um bocado de comandantes nervosos aqui — respondeu ele.
Tive vontade de responder: Não sou do tipo nervoso.
— Provavelmente são apenas pescadores — prosseguiu ele. — Mas você deveria reunir sua tripulação, preparar as mangueiras e talvez trancar o navio.
Não dava para acreditar no que eu estava ouvindo. Primeiro, ele disse que devia ser apenas um punhado de habitantes locais correndo atrás de algumas cavalinhas, e agora me dizia para ficar em alerta máximo.
— Se a situação já tivesse chegado a esse ponto, eu não estaria aqui agora falando com você — respondi, um pouco irritado. — Só estou informando a situação.
— Fique em contato — disse ele.
— Vou ficar.
O telefone já tinha sido desligado antes que ele pudesse responder.
Existe uma linha telefônica de emergência mantida pelos Estados Unidos para casos de pirataria, e esse foi o número que disquei em seguida. Se você vai ser sequestrado, é melhor avisar ao governo do seu país. No radar, eu via as manchas chegando cada vez mais perto. O telefone estava chamando.
Depois de dez toques, bati o telefone no gancho. Ninguém para atender. Inacreditável. Os britânicos podiam não levar você muito a sério, mas pelo menos atendiam a droga do telefone.
Os barcos continuavam a se aproximar. Eu os via pelo binóculo. A tripulação deveria estar ocupada com os exercícios, mas todo mundo mantinha os olhos fixamente voltados para a popa. Eles tinham visto as esteiras de espuma, e qualquer pensamento sobre incêndios a bordo havia se evaporado de suas cabeças. Senti que estavam ficando nervosos.
Cinco milhas de distância. Depois quatro. Eu agora via o barco que liderava o grupo, não apenas a espuma. Era uma típica lancha pirata somali: branca, afilada na proa e veloz.
O mar começou a ficar agitado. À medida que nos afastávamos, deixando para trás a entrada do golfo, as ondas cresciam, aumentando para meio metro, depois um metro, e então um metro e meio. Dava para ver que aquelas lanchas velozes estavam enfrentando dificuldades. Iam para baixo por um momento, depois subiam depressa e batiam de lado contra uma onda, reduzindo a velocidade. Toda hora precisavam parar e acelerar o motor para retomar o impulso. O oceano estava nos ajudando. Se pudéssemos entrar num mar realmente agitado, conseguiríamos deixá-los para trás.
Os minutos passavam. Eles ganhavam e perdiam terreno; avançavam e recuavam.
Por volta das três da tarde, o exercício contra incêndio tinha terminado. Surpreso, percebi que vínhamos tentando escapar deles já havia uma hora. Agora as embarcações se encontravam a três milhas e ganhavam terreno de novo. Distingui quatro homens no barco à frente, cada um empunhando objetos negros e compridos — com certeza metralhadoras.
Olhei à minha volta e constatei que havia cinco ou seis tripulantes no passadiço. Eles tinham se materializado ali de repente, sem que eu percebesse, e estavam olhando na direção dos barcos em completo silêncio. Normalmente eu os teria mandado embora, porém, numa situação como aquela, quanto mais olhos melhor. Ainda não estavam em pânico, mas o clima no passadiço parecia tenso.
Uma ideia me ocorreu.
— Ei! — gritei para o primeiro oficial de náutica. — Fale no rádio comigo. Vamos fingir que somos um navio da marinha dos Estados Unidos.
Se os piratas estivessem monitorando nossas frequências, o que acontecia muito, eu queria que eles pensassem que estávamos em contato com um contratorpedeiro.
— Como assim, capitão?
Eu não tinha tempo para explicar.
— Esqueça — respondi. — Pode deixar comigo.
Fui até o rádio e peguei o comunicador.
— Contratorpedeiro 237, Contratorpedeiro da Coalizão 237, 237, aqui é Maersk Alabama.
Fiz uma voz mais grave e me esforcei para mudar o sotaque:
— Maersk Alabama, fale, aqui é o Contratorpedeiro da Coalizão 237.
Eu estava fingindo ser um navio de guerra ao alcance das ondas de rádio.
Voltei a adotar minha voz normal.
— Aqui é o Maersk Alabama. Estamos sob ataque de piratas. Nossa posição é 2º20’N e 049º19’L. Rumo 180 com velocidade a dezoito nós. Solicitando ajuda imediata.
— Entendido, Maersk Alabama. Quantos tripulantes a bordo?
— Vinte a bordo. Ninguém ferido até o momento.
— Entendido. Estamos com um helicóptero no ar. Repito, temos um helicóptero a caminho, e ele estará acima de você aproximadamente às quinze horas. Repito, tempo estimado de chegada do helicóptero à sua posição é de cinco minutos.
Eu estava quase rindo. Provavelmente estávamos fazendo algo ilegal, e o pessoal da marinha de guerra teria ficado de cabelo em pé. Eles tinham seus próprios códigos, mas qualquer pirata somali ficaria impressionado ao saber que um helicóptero armado estava a caminho para fazê-lo em pedacinhos.
Então percebi que o navio-mãe saíra da área de alcance do nosso radar. O que estava acontecendo? Tinham desistido do ataque?
Uma das lanchas velozes mudara de rumo e agora se afastava de nós. Senti uma pontada de adrenalina. Estava dando certo. Então outra ficou para trás. As ondas estavam grandes demais para elas, estavam sendo sacudidas como sapatos numa máquina de lavar. Agora restava apenas uma lancha pirata. Mas vinha com tudo.
Li os dados no canto da tela do radar. Estava a 0,9 milha. Merda, ela é rápida. O filho da mãe não ia mesmo desistir. E eu sabia que bastava uma lancha daquelas para tomar um navio.
Vi a embarcação se chocar contra uma grande onda, fazendo espirrar um jato de espuma. Aquilo a obrigou a parar. As ondas ficavam cada vez maiores, chegando a dois metros de altura. E até o Maersk Alabama estava caturrando entre as ondas. Eu sentia um ligeiro baque sob os pés quando caíamos de volta na água, mas, depois de trinta anos no mar, para mim aquilo era quase imperceptível.
A última lancha religou o motor e firmou seu rumo na direção da nossa popa.
Finalmente, quando estava a 0,9 milha, ele desviou. Então ficou a 1,1 milha, depois a 1,5, a 1,7. Era como ser perseguido por um carro cheio de bandidos que, de repente, ficava sem gasolina.
Os que estavam reunidos no convés soltaram um suspiro coletivo de alívio. “É isso aí, cara!”, alguém gritou, e as risadas explodiram das janelas do passadiço. Também sorri. Nosso procedimento de detecção havia funcionado. Tínhamos evitado o perigo. Mas os piratas continuavam lá fora.
Diminuí a potência para 120 RPM. O chefe de máquinas me chamou para dizer que não havia problema algum em forçar o navio àquela velocidade. Agora eu sabia que podíamos chegar a 124 sem explodir o motor. E o chefe e eu concordamos que, uma vez que passássemos de 122, ele deveria descer até a praça de máquinas. Estabelecemos um procedimento a respeito da velocidade em caso de mais ataques de piratas.
Os piratas haviam cometido um erro clássico. O navio-mãe tinha lançado as lanchas menores na água num ponto distante demais, e as pequenas e frágeis embarcações não suportaram as condições do mar. Eu nem queria pensar no que teria acontecido se as águas estivessem calmas.
Por mais que tivéssemos nos saído bem, a sorte jogara a nosso favor. Não existia outra maneira de avaliar o que havia acontecido.