Dever de Capitão

Richard Phillips · Capítulo 20 de 24

Páginas do PDF

Dever de Capitão

Dezesseis: Dia 3, hora 1900

Dia 3, hora 1900

 

Os piratas na e mbarcação de salvame nto pare ciam de se spe rados. “Estamos ce rcados por navios de gue rra e não há te mpo para falar”, um de le s anunciou. “Por favor, re ze m por nós.”

Reuters, 9 de abril

 

A situação vai acabar logo. Ou os norte -ame ricanos re sgatam o capitão e afundam o barco com os me us companhe iros, ou vamos pe gar o capitão e me us companhe iros nas próximas horas. Mas, se os norte -ame ricanos de cidire m por uma ope ração militar, te nho ce rte za de que ningué m vai sobre vive r.

 

Da’ud, pirata somali,

Bloomberg.com, 11 de abril

 

Durante toda a sexta-feira, eles me amarraram repetidas vezes com aquela série de nós complexos. Musso me explicou como eram feitos. A corda branca só podia ser tocada com a

mão direita, mas a vermelha podia ser tocada com qualquer mão. As cordas brancas são halal. Você as amarra uma na outra. Então precisa amarrar esse nó e depois aquele e conecta tudo.

As cordas nunca podiam tocar o convés. Se eu fosse botar uma corda halal na boca, teria que limpá-la antes. Era muito importante para eles que eu mantivesse aqueles nós especiais limpos

e que não tocasse neles com nada além da minha mão direita. O objetivo de toda essa amarração de nós era demonstrar a superioridade dos somalis como marinheiros e também me

perturbar.

Musso me incentivava a fazer uns nós. Tentei por algum tempo. Acabei desistindo. Levaria meses para ficarem tão bons quanto os que ele fazia, e eu não planejava ficar por ali tanto tempo. Parei de fazer nós.

— Você é um frouxo, Phillips. Americano preguiçoso.

Pensei em como a situação estava diferente da que passamos no navio. Lá havia sido uma batalha de nervos e inteligência. Como um jogo de xadrez. Eu e a tripulação vencemos porque nos preparamos para isso, nos antecipamos ao inimaginável. E porque conhecíamos o navio e seus sistemas. Fomos mais espertos do que aqueles bandidos.

Contudo, essa estratégia não funcionaria na embarcação de salvamento. Estávamos operando em um plano mais fundamental. Era uma questão de força de vontade. Os somalis tentavam me cansar, confundir, humilhar, me transformar em uma criança em vez de me tratar como um homem. Eu tentava persistir. Vencer.

Essa situação fazia tudo que acontecera no Maersk Alabama parecer uma brincadeira.

O sol descia no horizonte. Chegara a noite de sexta-feira. Peguei no sono e devo ter passado umas duas horas apagado até acordar subitamente. O bote estava escuro. Já era sábado de madrugada àquela altura. O luar revelava que os quatro somalis estavam a bordo. Todas as escotilhas estavam fechadas. Então, ouvi vozes lá fora. Na altura da cabine, o Líder falava com alguém. Havia duas pessoas falando somali do lado de fora da janela da cabine. Não pelo rádio. As vozes não vinham de dentro do bote. Vi a silhueta de duas cabeças pela janela da cabine. Os piratas estavam debatendo com aqueles estranhos no convés.

Que merda é essa?, pensei. O Líder e os estranhos discutiam algo em somali. Ouvi as palavras “Sanaa”, “palestino” e “Fatah” várias vezes. Senti um calafrio. Sanaa é a capital do Iêmen, um bastião da al-Qaeda. Turistas e representantes de entidades humanitárias estavam sendo sequestrados aos montes. Alguns foram assassinados.

Iêmen era o meu pior pesadelo.

Inclinei-me para a frente e me esforcei para ouvir o que diziam. Todos falavam ao mesmo tempo, e cada um parecia dar sua opinião, como se estivessem decidindo o que deveria acontecer dali em diante. Quanto mais ouvia, mais percebia que não diziam “Fatah” — o grupo palestino —, mas fatwa, um parecer legal, dado por um especialista quando a lei islâmica não é muito clara. Eles discutiam empolgados, como se estivessem negociando e, de vez em quando, um dos piratas dizia “ah, merda!”, como se não estivesse satisfeito com o que ouvira.

Mas quem eram aqueles somalis conversando com meus sequestradores?

Meu primeiro pensamento foi: Os somalis mandaram reforços. Era uma tática comum entre piratas. Eles solicitavam reforços e barcos, que apareciam para render os bandidos originais. Mas como um pequeno barco tinha conseguido furar o bloqueio da marinha e chegar perto da embarcação? Eu não podia acreditar naquilo. O USS Bainbridge interceptaria qualquer um que tentasse chegar perto do navio, disso eu tinha certeza.

Então, só podia ser um intérprete da marinha. Mas por que falavam sobre fatwas e Iêmen? Pensei no que o Líder dissera sobre conhecer gente da marinha, e de fato parecia que ele já conhecia aqueles dois. O tom de suas vozes era íntimo, como se eles se conhecessem havia anos. Os caras do lado de fora do bote apelavam aos somalis, tentando convencê-los. No entanto, os piratas não estavam dispostos a reconhecer a gravidade de sua situação.

O debate prosseguiu acalorado. Notei, com base em suas posturas e entonações, que Musso e Comprido estavam dispostos a resistir. Senti que não queriam admitir a derrota de jeito nenhum, que lutariam até a morte. Jovem só concordava com a cabeça, com uma atitude que parecia dizer: O que quer que vocês decidam, eu apoio. Parecia não ter opinião própria.

O Líder estava dividido. De todos, acho que ele tinha a melhor noção do perigo em que se encontravam.

Vi que estavam desesperados. Falavam sobre morrer; diziam em inglês “morte”. E depois “família”. E “fatwa” de novo. E depois “ah, merda!”.

Fiquei quieto. Parecia que os intérpretes tentavam negociar minha libertação. Quando partiram, pude ouvi-los caminhar pelo convés e passar para outro barco. Escutei o barulho do motor, primeiro sendo ligado e depois seu ronco diminuindo à medida que se afastava.

Eu sabia que não havia acordo. O debate tinha sido tenso e, quando os negociadores foram embora, o clima na embarcação de salvamento ficou ainda mais pesado, mais prenhe de expectativa. Algo está acontecendo, pensei.

Mais tarde, o comando da marinha norte-americana negou que alguém de seu pessoal estivera naquele bote. Mas eu não sonhei tudo aquilo. Houve uma tentativa de convencer os piratas, só que ela falhou.

 

___

 

O sol nasceu. Minha estada no bote já durava dois dias e três noites. O calor começou a

aumentar. Os piratas andavam só de cueca.

Naquela manhã, eles começaram a discutir — grande parte do tempo em inglês, acredito que de propósito, para que eu entendesse — quando deveriam me matar. Foram chamar o Líder, que dormia na popa. Eu podia ver suas pernas finas estendidas no chão. Porém não conseguiram acordá-lo. Quanto mais o cutucavam, mais alto o Líder roncava. Acabaram desistindo e disseram: “Ah, tudo bem, matamos ele mais tarde.”

Cara, pensei, eles não conseguem acordar o sujeito nem para me executar.

O tempo passou devagar. Eu estava tenso, esperando o próximo ritual de execução. O episódio com os negociadores — pelo menos achei que eram negociadores — permanecia em minha cabeça.

Ouvi helicópteros se aproximando com aquele uap, uap, uap das hélices. Senti que pairavam sobre nossas cabeças, pois o vento que ele gerava balançava a embarcação de salvamento. Entrava água pelas janelas. Uau, eles devem estar bem perto para levantar tanta água assim. Mas descobri depois que eram mangueiras do USS Bainbridge — emparelhado com o nosso bote, nos dava uma ducha na tentativa de impedir que tomássemos o rumo do litoral da Somália. Eu não estava nem aí para o real motivo. Era refrescante como tomar banho de mangueira no jardim no dia mais quente do ano. Fique aí. Está maravilhoso.

O Líder se levantou. Estava muito nervoso.

— Não ataca, não ataca! — gritava ele pelo rádio. — Sem ataque militar, sem ataque militar!

Olhei pela janela de popa do bote e vi o trem de pouso de um helicóptero pairando sobre nós. Foi surreal. Ele estava a talvez três metros de distância e, se eu pudesse dar um salto e me agarrar nele, estaria livre.

— Ok, vamos matar o refém agora.

Olhei para o Líder, que falava ao rádio. Seu rosto estava tenso.

Os helicópteros se afastaram. Ouvia o som dos rotores diminuir aos poucos. Não esperava que os Seals da marinha realmente descessem por cordas e tomassem o controle do navio. Isso seria suicídio — para eles e para mim. Eu e os piratas sentimos falta daquele jato d’água. Ele fora cortado quando os helicópteros partiram.

Recomeçaram com aquela velha lenga-lenga.

— Não existem piratas na Somália — afirmou Comprido. — Isso é invenção da mídia. Fomos contratados pela marinha norte-americana. O responsável pela segurança da sua empresa, seu imediato e o chefe de máquinas sabem disso.

Comprido até me disse que os piratas estavam fazendo uma proposta para prestar serviços para a Raycon — operando o que seria, basicamente, um farol eletrônico ao largo da Somália. Ele sugeriu que eu participasse do projeto.

— Pode apostar — brinquei. — Vou trabalhar com vocês por seis meses no golfo de Áden.

Por mais que eu soubesse que aquilo não era verdade, havia uma pequena parte de mim que queria acreditar. Pensei: Talvez o calor esteja me fazendo alucinar. Talvez tudo isso seja um exercício de treinamento.

— Me explica uma coisa — pedi. — Na noite em que você apareceu, alguém chamou nosso rádio para dizer “pirata somali, pirata somali”. Foi você?

O Líder assentiu com a cabeça.

— É. Fui eu.

E continuou:

— Pirata somali, pirata somali, vamos pegar vocês. — Era a voz do rádio. Ele riu e os outros piratas fizeram o mesmo.

— Imaginei.

— É divertido ver navios acelerarem para fugir. Vocês se assustam com muita facilidade.

— Então vocês fazem isso o tempo todo?

— Fazemos, o tempo todo. O navio faz as manobras, as mangueiras são ligadas, as luzes se acendem. Assistimos a tudo e rimos disso.

Os outros piratas acharam aquilo hilário.

— Qual é o valor do resgate que estão pedindo? — perguntei.

— Quanto você acha que é?

— Não tenho a menor ideia. Mas os americanos não vão pagar nada por mim. Nem um centavo. Vocês deviam saber isso. Vocês vão morrer neste bote comigo. A não ser que me soltem.

O Líder me encarou pelo que deve ter sido um minuto inteiro.

— Não é verdade. Norte-americanos pagam mais.

Discordei:

— Eles não vão pagar, mas vão deixar vocês irem embora. Americanos são burros. Cumprimos nossa palavra, ao contrário de vocês. Vamos deixar vocês irem embora. Se me soltarem, até deixamos vocês ficarem com o barco.

O Líder riu de mim.

— Quanto você vale, Phillips? Dois milhões? — cuspiu ele. — Eu mataria você se recebesse só dois milhões. Isso nem vale o tempo que gastei.

— Isso não é nada? Você roubou os sapatos da minha tripulação!

Ele meneou a cabeça.

— Eu sequestrei um navio grego. Matei o comandante porque me ofereceram só dois milhões.

O Líder começou a contar a história de sua vida de pirata.

— Sequestrei um navio da Lauritzen. — A Lauritzen é uma empresa de navegação francesa especializada em cargas congeladas. O Líder jurou que sequestrara um dos navios deles havia pouco tempo. — Ganhei seis milhões naquela operação.

— Seis milhões? — perguntei. — Então o que vocês ainda estão fazendo aqui?

Ri dele. Mas ele voltou com toda aquela conversa de como ele fora um marinheiro de convés em um navio grego. Eu sabia que ele estava tentando me confundir: se acreditasse naquela conversa, na próxima vez que surgisse uma oportunidade eu hesitaria em fugir.

Olhei por uma das escotilhas e avistei um bote inflável passando por perto. Parecia ser um Zodiac, com vários homens a bordo. Pensei: Devemos estar perto da terra.

— Eu vi — afirmou Comprido. — Quem é esse cara?

— Vou atrair o homem para bordo — propôs o Líder. — Depois nós o matamos.

— É, isso seria bom — concordou Musso. — Atrair bastante gente para cá e matar todos eles.

Ouvi o som de mais motores de popa se aproximando de nós por ambos os bordos. Musso correu até uma das janelas com o vidro quebrado.

— Ei, marujo! — gritou. — Marinheiro americano, você quer uma cerveja? Vem aqui, temos cerveja para você.

Os quatro gargalharam. Estavam convencidos de que os marinheiros americanos eram incapazes de resistir a uma cerveja. Pensando bem, eles não estavam de todo equivocados.

A embarcação balançava sem parar, para cima e para baixo, com as ondas. Era difícil concentrar a atenção em qualquer ponto externo. Mas, de repente, o USS Bainbridge surgiu na escotilha traseira. Vi de relance um marinheiro sentado atrás do canhão de proa, uma monstruosidade de calibre 50. A seu lado estava um fotógrafo com a lente da câmera apontada em minha direção, tirando fotos.

— Muito obrigado, galera! — falei, acenando para eles. — Por que vocês não usam aquela arma em vez da máquina fotográfica?

Mais tarde, enquanto um dos Zodiac cheio de marinheiros passava por nós durante uma de suas inspeções de rotina, gritei:

— Matem esses filhos da mãe!

Estávamos à deriva, com o motor desligado.

 

___

 

Minha cabeça doía. O que começara tão simples — um sequestro por dinheiro — tornara-se

muito complicado. Iêmen, ataques suicidas, fatwas, Fatah, almas trocando de lugar. Era difícil manter a sanidade.

No entanto o verdadeiro obstáculo para mim não eram os somalis — era o medo. Todas as vezes que eu o superava, descobria que ele podia perseverar. Isso não termina até eu dizer que acabou, pensei. Não vou desistir. Vou sobreviver a todos eles.

Espiei pela escotilha e vi que o USS Bainbridge era agora acompanhado por mais dois navios de guerra, o USS Boxer e o USS Halyburton. Estavam vindo em nossa direção, perpendicularmente ao nosso curso. Pareciam em fila, uma manobra que os navios fazem apenas quando estão prestes a baixar âncoras. Algo que só costuma ser feito dentro de um porto. Onde estou? Estamos perto de terra firme? Talvez tentassem esconder algo que acontecia atrás deles. Uma força de ataque.

Nada era o que parecia ser. Mas, pelo menos, eu conseguia ver os navios. Essas coisas são reais. Esses navios existem. São meus compatriotas. Isso é verdade.

Os jogos mentais recomeçaram.

— Não existem piratas — disse o Líder. — É tudo fantasia. Eu fui no seu navio. Já nos encontramos uma vez em Mombaça!

Eu ri.

— Acho que me lembraria de você.

— Nem sou da Somália — continuou ele. — Moro em Mombaça, no Quênia.

— É, estou sabendo — respondi.

— Nós três moramos em Mombaça — insistiu ele. O Líder apontou para Comprido. — E aquele ali mora em Nova York.

— Sério? Que bairro?

— Perto da Times Square — o Líder acrescentou antes que Comprido pudesse emitir uma palavra.

— Deve ser rico. Morar lá é muito caro.

Eu brincava com eles do mesmo jeito que faziam comigo.

— É, trabalhamos com segurança. Muito dinheiro.

— Mas você quase me acertou durante o sequestro do meu navio! Um dos tiros atingiu uma antepara quinze centímetros acima da minha cabeça. E, quando tentei fugir da embarcação de salvamento, vocês tentaram atirar em mim.

O Líder deu de ombros, como se dissesse: Estávamos apenas cumprindo nosso dever, meu chapa.

Eles então tentaram a técnica de intimidação com a marinha.

— Precisamos de um saco para coleta de cadáveres! — gritou o Líder pelo rádio. — Saco de cadáver agora!

— Por que precisam disso? Câmbio. — Era a marinha.

— Tivemos que matar uma mulher aqui. Ela não era halal. Não seguia nossa religião.

Pausa.

— Ok, vamos jogar um saco.

Achei que tinha voltado a alucinar.

— Ponha o corpo no saco de coleta e nós o içaremos. Câmbio.

Eu não aguentava mais.

— Aqui é Richard Phillips do Maersk Alabama! — gritei.

O Líder abaixou o rádio.

— Bando de marinheiros malucos — disse ele. — Trabalho com eles há anos.

Eu o ignorei.

— Esse cara é um idiota. Esse capitão de corveta. Vou matá-lo. Ele é um idiota.

— Essa parece ser sua solução para tudo — provoquei.

Ele assentiu com a cabeça.

— O Líder adoraria matar uma mulher — revelou Comprido.

Será que tentavam impressionar o americano sensível mostrando como eram sanguinários? Pois tudo o que faziam era aumentar minha aversão.

— Não posso ajudá-lo com isso — falei.

 

___

 

Ao entardecer, os piratas voltaram a fazer seu ritual de morte. O Líder recomeçou sua

ladainha em tom monótono, os outros respondiam e Musso se aproximava de mim para completar os nós das cordas. Eles pararam de me oferecer comida ou água, como da última

vez que me amarraram. Todas as vezes que se preparavam para me maltratar, cortavam minhas provisões.

Minhas tripas se contorciam.

Começaram com aquelas besteiras de halal (o que eu podia ou não fazer): Você não pode tocar nessa corda, não ponha na boca, tem que ficar em pé, tem que pisar no macacão laranja. Eu ficava saltitando, tentando não pisar no macacão, e Musso, como de costume, parecia estar com raiva de mim.

— Fica no laranja! — berrou. — Você é doido.

Ele puxou minhas mãos, tentando esticar meus braços.

— Seja homem! — gritou. — Posição de sentido! Posição de sentido! Fica reto!

Eu estava sentado na beirada do assento interno. Eles acenderam uma lanterna atrás de mim, de modo que eu conseguia ver a silhueta de minha cabeça no anteparo mais distante. Comprido chutou minhas pernas, tentando colocar meus pés sobre o macacão laranja. E, todas as vezes que a embarcação jogava à boreste, eu ouvia o clique da arma, em sincronia com o balanço.

Eu estava apavorado. Escondia bastante bem meus sentimentos, mas tudo que precisa acontecer para uma pessoa morrer é aquele clique virar um bum. Senti um fluxo de adrenalina e depois uma enorme sensação de força, um desejo atávico de viver. Nada mais — nem comida, nem amigos, nada. Somente mais dez minutos de vida.

 

___

 

Sábado também foi o dia mais difícil para Andrea. Segundo informações do Departamento de

Estado, ela receberia notícias importantes na sexta-feira. E se preparou para aquele telefonema. No entanto, ele jamais aconteceu. Isso a afetou profundamente, conforme ela me

contaria mais tarde. Andrea não conseguia nem comer. Quando Paige e Amber tentaram preparar um mingau para ela, minha mulher brincou dizendo que estava seguindo a “dieta do

refém”. Nunca houvera tanta comida em nossa casa antes, mas ela não conseguia engolir nada.

Nosso filho, Dan, voltou para casa no sábado, e Andrea queria que ele e Mariah mantivessem suas vidas tão normais quanto possível. Ela ficou surpresa com a resiliência dos dois. Cercados de amigos, mantiveram uma aparente tranquilidade, sem choro ou histeria. Ela me contou uma história sobre Dan que me fez sorrir. Andrea estava sentada no sofá certa noite quando meu filho, com seu jeito de irlandês, se aproximou e encostou a cabeça no ombro dela. É algo que ele costuma fazer, sua marca registrada.

— Mãe?

— Hum?

— Você acha que papai vai ficar bem?

— Claro, Dan, vai sim.

Ele se levantou de súbito.

— Ótimo, vou para a casa do Luke. — Luke é um amigo que mora na mesma rua que nós.

Andrea só riu.

— Claro, Dan. Pode ir.

E ele foi.

Mas esse foi o único momento de alívio que ela teve todo o dia. Andrea recebeu informes durante o sábado inteiro: “Além do dinheiro, os piratas querem ir para terra firme.” Essas eram as duas exigências deles. E ela dizia: “Vocês não podem simplesmente dar o que eles pedem e trazer meu marido de volta para casa?” As autoridades governamentais respondiam: “Bem, estamos tentando resolver isso. Nosso medo é que, se o levarem para terra firme, corremos o risco de nunca mais recuperá-lo.”

Andrea queria saber se a empresa estava disposta a pagar. Uma vez disponível o dinheiro do resgate, por que não entregá-lo o mais depressa possível? Mas ela não recebia respostas — tudo estava caótico demais.

Minha mulher não se importava com o poder de fogo, o dinheiro ou a mensagem política que deixávamos transparecer ao negociar com os piratas. Ela só queria que eu voltasse para casa, mas não parecia que isso aconteceria. Algumas pessoas mandavam e-mails sobre casos mais antigos que acabaram com reféns mortos. Esses eram os assuntos que apareciam no cabeçalho das mensagens: “Seis reféns mortos em tiroteio sangrento” ou “Fim terrível para reféns após sequestradores abrirem fogo”. E Andrea pensava: “Vocês não percebem o que estão mandando para mim?” Finalmente, ela enviou um e-mail de resposta: “Apenas pensamentos positivos, por favor.”

Andrea pediu que o Departamento de Estado transmitisse uma mensagem para mim. Eles disseram que tentariam, e ela rabiscou algo bem rápido. O governo dos Estados Unidos deve achar que minha mulher é uma louca desvairada, porque ela escreveu: “Richard, sua família o ama, reza por você e ainda está guardando o seu ovo de Páscoa, a menos que seu filho o coma primeiro.” Sei por que ela escreveu aquilo. Dan comeria meu ovo de Páscoa ou qualquer outra coisa de chocolate, e Andrea tinha certeza de que, se injetasse um pouco de humor na mensagem, eu saberia que ela estava bem.

Ela me disse que uma pergunta martelou sua mente durante aquele dia: Aonde esses piratas acham que vão? Isso a preocupou muito. Os piratas estavam cercados por três navios de guerra e insistiam em não ceder, o que, para ela, mostrava seu grau de desespero. Portanto, ou eles se entregariam ou haveria um homicídio seguido por suicídios. Para ela, essas eram as duas opções. E, quanto mais a situação se prolongasse, mais provável se tornava o segundo resultado.

— Esses sentimentos pareciam vir em ciclos — contou ela. — Por um tempo, eu acreditava que voltaria a vê-lo. E, logo depois, pensamentos mais negativos surgiam. Uma voz na minha cabeça parecia dizer: “Ele pode acabar morrendo, essas coisas geralmente não terminam bem.” Eu procurava afastar esses pensamentos, mas eles sempre retornavam.

Na noite de sábado, a pressão e a frustração abalaram Andrea. Por mais que ela amasse minhas irmãs, as músicas e o humor começaram a cansá-la. No fim, ela não aguentava mais as piadinhas. Não conseguia rir delas. Não tinham mais graça. Uma de minhas irmãs disse:

— Ah, você vai ganhar tanto dinheiro por causa disso que vai poder se aposentar.

Andrea respondeu com aspereza.

— Você... realmente... acha... que Richard entrou naquela embarcação para que pudéssemos ficar milionários?

O sábado foi muito decepcionante para Andrea e para o resto da minha família porque nada aconteceu. Domingo parecia ser a última chance.

 

___

 

De repente, ouvi um barulho elétrico semelhante a um zumbido. Parecia um veículo aéreo não

tripulado ou um motor. A tensão aumentou na hora. Os piratas se espalharam pela embarcação e se agacharam. Olhei para Jovem e vi apenas terror abjeto nos olhos dele.

Os piratas correram para perto de mim e fecharam a escotilha bruscamente.

Estão chegando, pensei. Devem ter visto barcos na água vindo na nossa direção. Talvez seja isso o que os navios da marinha estavam escondendo ao se perfilarem...

O Líder gritou algo em somali para Jovem, que chegou perto de mim e sentou-se do outro lado do corredor. Isso pareceu aliviar o temor em seus olhos. Começou a apertar o gatilho do AK-47 e sorrir com aqueles olhos de cachorro louco. Comprido passou a abrir as latas de combustível e a amarrar as presilhas das escotilhas com pedaços de cordas. Musso correu para perto de mim com um trapo e me vendou. Inclinei a cabeça, esfregando-a no ombro, e consegui abaixar a venda.

Os somalis espiavam pelas escotilhas. Eu ouvia sons vindos de fora — o barulho do motor elétrico e sons de máquinas. Os piratas prepararam as armas, tirando os pentes, verificando-os e enfiando-os de novo nos fuzis. Desativaram as travas de segurança. O medo era uma presença física ali.

O Líder se afastou da cabine, e todos os piratas se recostaram nos assentos o mais para trás que conseguiram, empurrando as costas contra o costado. Desesperados, tentavam se esconder. Às vezes olhavam pela janela, mas retornavam a seus esconderijos quase imediatamente, como se tivessem medo de serem abatidos.

Musso se ocultou nas sombras e, ao ver que eu não estava vendado, deu-me uma bofetada.

— Você faz isso de novo e vai se arrepender! — gritou.

Minha bochecha ardia, mas fiquei feliz por ter provocado uma reação nele. Sorri.

— O que vai fazer? — perguntei. — Dar um tiro em mim?

Ouvimos os barulhos outra vez. Musso me encarou, mas estava apavorado demais para mexer comigo naquela hora. Abaixou-se e voltou para a segunda fileira de assentos. Agora todos os piratas estavam fora do meu campo de visão, exceto Jovem. Ele não queria me deixar sozinho. Lançava-me um olhar assassino, com a arma apontada para meu peito. De novo ele me vendou, e mais uma vez abaixei a venda. O cano da arma estava a menos de um metro de distância de mim.

Eu estava no terceiro assento de trás para a frente, a bombordo, junto ao corredor. Por causa das cordas, eu não conseguiria sair ileso. Sentia-me como um bife na vitrine do açougue. Meu medo aumentava. Devia haver alguma razão para os somalis estarem tão assustados. É estranho ver pessoas armadas tomadas de puro terror.

De repente, ouvi tiros rápidos. Parecia o som de um AK. Não conseguia ver quem estava atirando, mas estava perto.

Percebi que os piratas tinham aberto a escotilha dianteira e atiravam em um dos navios da marinha. Os tiros pareciam dissipar a tensão. Agora, eles emergiam, pouco a pouco, dos esconderijos. Após alguns minutos, Comprido chegou até a pegar no sono na parte dianteira do bote.

Eu precisava urinar.

— Ei, preciso ir ao banheiro! — anunciei para ninguém em especial. — Preciso da garrafa.

Desde a tentativa de fuga, eles me obrigavam a urinar numa garrafa. Não me deixavam chegar perto da porta.

— Não — disse o Líder.

— O que você falou?

O Líder dispensou-me com a mão.

Gritei que eles iam pagar por aquele gesto e que não passavam de um bando de piratas. Eles odiavam essa palavra.

— Cala a boca! Cala a boca! — berrou o Líder para mim.

— Não vou calar a boca. Vocês não passam de malditos piratas e é assim que vão morrer.

Ele ligou o motor e acelerou. Era óbvio que sabia para onde se dirigia.

O Líder teve um acesso de raiva e me mandou calar a boca aos gritos. Os outros somalis recomeçaram seu cântico, uma versão abreviada dessa vez, enquanto o Líder empurrava a alavanca fazendo a embarcação de salvamento dar um salto para a frente.

— Quando nós matamos você, botamos você em um lugar impuro — ameaçou o Líder. — Estamos levando você para lá agora.

— O que isso quer dizer?

Eles explicaram que conheciam um recife raso, onde a água permanecia estagnada. Essa área não era atingida pelo fluxo da maré que banhava a baía a cada doze horas. Qualquer corpo desovado lá apodreceria, intocável.

— Um lugar muito ruim — respondeu Musso.

Não aguentei mais. Senti um jato molhado descer por uma das pernas das calças. Eles deixaram que eu me urinasse todo, como se eu fosse um maldito animal.

Explodi de raiva. Senti-me humilhado. Gritava com os piratas, xingando-os e dizendo que eles iam morrer.

O Líder gritava de volta:

— Cala a boca! Cala a boca!

Alcançamos nosso destino, e o Líder desligou o motor. Eu conseguia ver o Bainbridge pela escotilha traseira. Parecia que o navio da marinha tentava nos alcançar, mas os piratas eram mais rápidos.

Os somalis começaram a me dar água e comida. E o Líder insistiu que eu comesse Pop-Tarts.

— Tudo bem, vou comer — concordei. Eles voltaram ao seus rituais corriqueiros. Parecia que eu não era mais digno de uma morte limpa.

— Come mais — insistiu o Líder, quase enfiando as tortinhas pela minha garganta abaixo.

— Foda-se! — xinguei.

— Você não é halal, você é nojento, um animal! — gritou. Ele enfiou a comida na minha boca, para me sujar. Zombou de mim. Afastou-se e voltou para a cabine. Fazendo um giro dramático, usou a mão direita num gesto de corte, primeiro da garganta, depois dos pulsos e, finalmente, dos testículos.

— Seu filho da puta! — gritei. — Se você me matar, vou perseguir você. Vou voltar do além e assombrar você!

Tentaram me forçar a ficar em pé em cima de um saco azul no chão. Eu estava sentado na beirada externa do braço de um assento, com os pés apoiados no outro lado do corredor contra o braço oposto. Continuava amarrado. Estava escuro demais para identificar quem fazia o quê, mas havia um pirata com um AK e uma lanterna acesa atrás de mim. Tudo que eu conseguia ver era a silhueta de minha cabeça na antepara mais distante. Outro somali estava ao meu lado, outro AK apontado para minha barriga. A embarcação balançava bastante por causa das ondas.

— Você não pode ter uma morte limpa — disse alguém na escuridão.

Senti calor na perna de novo. Estava urinando. Era tão degradante, sentar assim como um animal. Agachei-me, sem energia, enquanto os piratas se divertiam ao meu redor.

É o fim, pensei. Acabou. E uma parte de mim estava feliz por aquilo estar acontecendo. Eu queria que a marinha abrisse fogo com aquele canhão calibre 50 e acabasse com tudo. Não me importava se tivesse que morrer naquele instante, só queria acabar com tudo aquilo. Minha frustração transbordara e eu estava preparado para o fim.

Mas aí pensei na minha família e concluí que era preciso perseverar.

Meus pensamentos fluíam em duas direções diferentes ao mesmo tempo. Eu acreditava que os piratas iam me matar, mas também não acreditava naquilo. Queria que tudo acabasse e queria viver mais cinco minutos. Acho que o que mais me perturbava eram os motivos dos piratas. Por que eles tentavam me intimidar? Não tenho qualquer influência na decisão do pagamento do resgate. Por que tudo isso? Será mesmo um teste?

Ouvi alguém se mexer atrás de mim. Estava tão escuro que eu não podia saber quem era quem. Ele começou a disparar a seco o AK-47 e mandou que eu me levantasse. Cambaleei, tentando me manter ereto. Ele puxava o gatilho ritmicamente, cada vez que a embarcação jogava a boreste. Era uma dança estranha. Isso continuou por três horas.

— Senta! — gritavam eles.

Eu estava preparado para a morte. Endireitei-me e sentei-me com as costas tão retas quanto possível. Escorria suor pelo meu rosto. Meu estômago era um nó, como se eu acabasse de fazer trezentas flexões nos tempos da Academia Marítima de Massachusetts.

— Posição de sentido, muuuuuuito bem! — zombava o Líder.

Isso continuou hora após hora. Eu cambaleava, tentando me preparar para uma morte digna, enquanto o clique, clique, clique soava como um metrônomo.

Por fim, não aguentei mais.

— Manda para cá alguém que saiba disparar essa merda — falei, desmoronando na cadeira, encharcado de suor. — Desisto. Façam o que quiserem.

O Líder olhou para mim lá da cabine.

— Pronto, acabou, vamos parar por hoje, vamos parar. — Os outros somalis relaxaram e a tensão se dissipou.

Mas, durante o resto da noite, eles começaram uma porção de rituais novos. Apontavam a arma para mim e me mandavam passar de um assento para o outro, pegar um objeto — um pano, um machado — e deixá-lo em outro lugar. Eles me batiam quando minha corda halal encostava no convés. E eu não podia arrastar as cordas pelo chão. O tempo todo me chamavam de “animal”, “doido”, “ americano típico”. Era como se eu estivesse sujo e eles tentassem me limpar por meio daquelas cerimônias. Eu pulava de um lado para o outro, ainda amarrado. Em determinado momento, simplesmente tombei no convés quando uma onda bateu contra a embarcação.

Ao amanhecer, pensei: Não vou sobreviver a mais um dia como esse. Alguém tinha que ceder.