Dever de Capitão

Richard Phillips · Capítulo 16 de 24

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Dever de Capitão

Doze: Dia 1, hora 1530

Dia 1, hora 1530

 

Piratas de safiam me ntalidade pré -11 de Se te mbro de Obama.

Wall Street Journal

 

Piratas somalis ge ram crise se m solução fácil para a política e xte rna de Obama.

 

Fox News

 

Tudo começou a acontecer em ritmo acelerado. Jovem se juntou a nós três perto do bote de

resgate. Vi Shane e Mike olhando para baixo, lá da asa do passadiço, três conveses acima de nós. A tripulação ainda mantinha o Líder nas entranhas do navio — e havia muitas anteparas

de aço separando Shane e Mike dos piratas, por isso meus homens não temiam ser capturados. Mas os somalis eram imprevisíveis. Talvez subissem as escadas às pressas atirando em tudo

pela frente. Shane e Mike começaram a dar ordens pelo rádio para a tripulação, que emergia da porta estanque à ré, onde ficava o gerador de emergência.

Acima de tudo, eu não queria que os dois fossem capturados. Eram inteligentes e corajosos e fundamentais para que o Maersk Alabama voltasse a ter energia e começasse a navegar. A tripulação precisava deles para escapar.

— Ei, capitão, você está bem? — gritou Shane. Vi medo em seu rosto, não por ele mesmo, mas por mim.

Mostrei o polegar para cima.

— Tudo bem — respondi. Era verdade. Eu sentia que aquele tormento estava chegando ao fim. A adrenalina que corria pelas minhas veias aos litros agora começava a se diluir.

No entanto, o bote havia subido apenas um metro de seu berço. Eu precisava que ele se mexesse mais rápido e, para isso, tinha que ter energia elétrica. Liguei o rádio.

— Chefe, preciso de eletricidade nesse turco ou ficaremos presos aqui até o amanhecer.

— Entendido.

Acima e abaixo de mim, o navio começava a acordar. Tripulantes saíam de seus esconderijos e corriam para ligar todos os sistemas: o hidráulico, a energia elétrica, a energia de emergência, o ar-condicionado. Os piratas estavam a poucos metros de mim, observando o bote de resgate subir, e se viravam para examinar o horizonte.

— Ok, logo o bote estará na água — informei. Queria que eles mantivessem a calma.

Pelo rádio, eu ouvia Mike dando ordens a vários tripulantes e atualizando as informações.

— Quem é? — gritou Jovem.

Dei uma olhada. Vislumbrei uma sombra no convés à ré, mas ela logo desapareceu.

— Não tenho a mínima ideia — respondi.

Botei meu rádio em modo de transmissão.

— Chefe — chamei em voz baixa. — Diga a todos para ficarem bem próximos à antepara, senão os piratas vão vê-los.

Ele transmitiu o alerta à tripulação.

Shane me chamou pelo rádio. Ele viu que eu estava com problemas para fazer o turco funcionar. Tive que içar o bote usando somente os músculos, uma vez que a eletricidade de emergência ainda não estava funcionando.

— Quer que eu mande o contramestre aí para ajudar a lançar o bote ao mar?

— Não, não quero — respondi. — Não vou entregar mais um refém a eles. Consigo lançar o bote sozinho. Vocês ficam escondidos, vigiando esses piratas. Não posso ficar de olho neles o tempo inteiro e não quero ver mais um tripulante nas mãos deles.

— Afirmativo — disse Shane.

— Por que a energia elétrica está demorando tanto? — perguntei pelo rádio. — Diga ao chefe de máquinas que alguns interruptores podem ter sido desligados no painel do gerador de emergência. Os somalis andaram mexendo neles.

Ouvi a informação sendo repassada pelo rádio.

Comecei então a dar ordens aos piratas. Quando se é comandante, é difícil abrir mão de velhos hábitos. Também queria mantê-los ocupados para que não notassem a movimentação da tripulação.

— Ei, você — gritei para Musso. — Venha aqui. Faça girar a armação do motor. Cuidado para não danificar a hélice quando passarmos por cima da amurada. E você — apontei para Jovem — entre no bote. Você é o contrapeso. Mantenha a hélice apontada para cima, para que não se incline e enrosque em algo. Você — me virei para Comprido — pode fazer algo por lá.

Comprido falava no rádio com o chefe de máquinas. Agora os dois tinham virado amigos.

— Chefe, qual é o problema com o navio?

— Está fora de ação, pirata — respondeu Mike.

— Chefe, por que você é um problema tão grande? — E os piratas começaram a rir.

— Alô, meu chapa — gritei. — Deixe de ficar à toa e comece a trabalhar, ou nunca sairemos daqui.

Shane deve ter ouvido minhas palavras.

— Esse é meu capitão — disse ele, rindo e falando alto o bastante para que eu o ouvisse. — Agora ele está dando ordens aos piratas.

Era surreal. O clima estava alegre. De repente, éramos apenas alguns caras tentando realizar um trabalho e se divertindo ao mesmo tempo. Por alguns minutos, piratas e tripulação não eram mais adversários. Isso não duraria muito tempo.

Após quarenta minutos, conseguimos restabelecer a energia elétrica no turco. Girei o bote acima do costado do navio.

— Muito bem, vamos todos subir a bordo — ordenei. — Pulem para dentro do bote e eu vou depois.

Naquele momento, me ocorreu uma ideia. O desengate de emergência. O bote de resgate tinha um mecanismo de desengate, a meia-nau, na altura do ombro. Ele consistia em um pino de engate e uma alavanca. Ao se puxar o pino e abaixar a alavanca, o bote seria liberado do turco e despencaria na água, trinta e poucos metros mais abaixo. O mecanismo podia ser útil se fosse necessário deixar um navio correndo, se um incêndio varresse o convés ou se o navio estivesse prestes a emborcar e levar todos para as profundezas do oceano.

O único problema era que eu precisaria estar a bordo do bote para puxar o pino. Não era possível fazê-lo do convés do Maersk Alabama. Então eu teria que puxar o pino, abaixar a alavanca e, ao mesmo tempo, me agarrar à coluna metálica, deixando o bote cair na água. Boom, boom, boom. Eu ficaria dependurado no costado do navio, e os somalis mergulhariam em direção ao oceano. Provavelmente quebrariam a espinha, para dizer o mínimo. A água não pode ser comprimida e fica resistente como o concreto quando alguém cai nela de determinada altura.

Após a queda do bote, eu saltaria de volta para o convés, no melhor estilo Indiana Jones.

Porém, se eu não conseguisse me agarrar à coluna, estaria morto. Se meu pé ficasse preso a um cabo quando o bote de resgate caísse, eu estaria morto. Ou, se um dos piratas sobrevivesse e atirasse no filho da mãe que quase o matara, eu estaria morto.

Eu estava finalizando os preparativos para baixar o bote. Os piratas escolhiam seus assentos e se espreguiçavam nos bancos. Eu tinha, talvez, trinta segundos para decidir.

Consigo mesmo me agarrar àquela coluna a tempo? Não dava para ter certeza. Minhas mãos treinaram a manobra no ar. Puxar, soltar, agarrar. Puxar, soltar, agarrar . Tudo em meio segundo. Tentei imaginar a cena. Concentrei-me naquele último passo. Será que as minhas mãos vão escorregar no metal? Já terei caído tanto que não vou conseguir me agarrar?

Acabei abandonando a ideia. Bastava jogar aqueles caras na água. Os piratas haviam perdido sua escada ao nos abordarem, por isso não tinham mais como subir. Isso bastava para mim.

Esse foi meu segundo erro. Durante os quatro dias seguintes, fiquei remoendo aquele momento sem parar: Devia ter feito aqueles caras despencarem. Se algum dia tiver outra oportunidade como aquela, vou derrubá-los sem pensar duas vezes.

 

___

Lá em casa, em Vermont, ninguém sabia sobre o sequestro. Andrea passara mal a terça-feira

inteira, com uma gripe que a deixara prostrada em casa. Sua mãe insistira para que Lea, minha cunhada, fosse lá para cuidar dela. Então naquela quarta-feira de manhã, após a visita, Lea se

aprontava para ir trabalhar. O dia estava ensolarado, mas fazia frio, uma típica manhã de março em Vermont.

Por volta das 7h30, Lea andava em direção à picape quando o telefone tocou. Eram 15h30 na Somália, oito horas adiante da Costa Leste dos Estados Unidos. Do outro lado da linha estava nosso vizinho, Mike Willard, que mora no fim da rua e trabalha como oficial de máquinas na marinha mercante.

Andrea se lembra de sentir a voz de Mike um pouco embargada.

— Qual é mesmo o nome do navio de Rich? — perguntou ele.

— Por quê? O que aconteceu?

— Andrea, qual é o nome do navio?

— O Maersk Alabama.

— Eu acho… acho que eles acabam de ser sequestrados. Estou indo para aí.

Andrea não conseguia acreditar. Ela não entrou em pânico de imediato, pois sabia que sequestros de marinheiros são comuns e que eles são sempre devolvidos em boas condições após o pagamento de um resgate. Saiu correndo para alcançar a irmã antes que ela fosse embora:

— Lea, Lea, Rich foi sequestrado. Espera, espera.

Elas voltaram para casa e ligaram a televisão na CNN.

Mike começou a telefonar para meus patrões, já que ele trabalha para a mesma empresa que eu. Desesperados, eles tentavam verificar se as primeiras notícias que haviam sido divulgadas eram mesmo verídicas. Enquanto isso, Andrea correu até o computador e me enviou um e-mail às 11h29.

 

Richard,

Sei o que está acontecendo. Estou com você para o que der e vier. Tenho fé... Amo você de todo o coração. Amor,

ANDREA.

 

Só recebi a mensagem após o fim da tormenta.

Andrea voltou para a frente da televisão, sua única fonte de informações àquela altura. Numa coincidência do destino, uma equipe da Fox News estava na Academia Marítima de Massachusetts fazendo uma reportagem sobre um tema completamente diferente. Por acaso, Joseph, o pai de Shane Murphy, era um dos instrutores da academia e, quando a notícia dos piratas chegou, todos foram correndo falar com ele. Shane ligara para o pai do Maersk Alabama. Joseph descrevia o sequestro dizendo “Meu filho, o capitão...”.

Andrea assustou-se:

— O que aconteceu com Rich? — Era angustiante para ela ouvir tanta coisa sobre o sequestro, mas nenhuma notícia minha.

Mais tarde, Andrea ligou para nossos filhos, Dan e Mariah, no dormitório das faculdades. Ela queria que soubessem do ocorrido pela mãe, e não por um jornalista ou qualquer outra pessoa. Deixou uma mensagem para Mariah: “Preciso que me ligue. Tem a ver com seu pai. Que eu saiba, ele está bem, mas quero que você ouça a notícia da minha boca.”

Andrea correu de volta à TV. Shane Murphy ainda estava sendo chamado de “capitão do Maersk Alabama”, e ela não ouvia qualquer menção ao meu nome. Para minha mulher, era como se eu tivesse desaparecido da face da Terra.