Dever de Capitão

Richard Phillips · Capítulo 4 de 24

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Dever de Capitão

Epígrafe

Se o medo for cultivado, ele se tornará mais forte. Se a fé for cultivada, ela acabará prevalecendo.

John Paul Jones, integrante da marinha mercante e

herói da Guerra de Independência dos Estados Unidos

Introdução

 

O calor a bordo da embarcação de salvamento se tornara absolutamente insuportável. As últimas gotas de água fria do mar que restaram da minha tentativa de fuga haviam evaporado

da minha pele algumas horas antes. Mesmo às duas da manhã, o calor opressivo continuava a irradiar do costado da embarcação. A sensação era a de estar sentado sobre a linha do

equador. Usava apenas bermuda e meias, mas não podia sequer encostar meus pés no piso porque estava fervendo. Minhas costelas e meus braços doíam pela surra dos piratas,

absolutamente furiosos por seu refém americano de um milhão de dólares quase ter conseguido escapar.

Dava para ver as luzes do navio da marinha através da escotilha da popa, oscilando para cima e para baixo ao sabor das ondas, a cerca de meia milha. Eu quase consegui. Se o luar não estivesse tão forte, os piratas nunca teriam me visto. Àquela hora eu estaria bebendo uma cerveja gelada nos aposentos do comandante, contando minha aventura para metade da tripulação e esperando que a ligação para a minha casa fosse completada.

Ao longe, o navio parecia gigantesco. Era como um pedaço do meu lar, flutuando ali, tão perto e quase irreal. Parecia um contratorpedeiro, com poder de fogo suficiente para explodir mil navios piratas e mandá-los de volta para Mogadíscio. Por que não tinham feito nada?

A superfície dura de plástico daqueles bancos fazia minhas costas doerem e provocava cãibra nas minhas pernas. Joguei a cabeça para trás, tentando aliviar a tensão no pescoço. Estava amarrado como um animal no meio daquela embarcação. Os somalis tinham atado minhas mãos a uma barra vertical presa à cobertura e amarrado meus pés. Eu nem sentia os dedos. O pirata magricela, aquele que eu chamava de Musso, apertara tanto as cordas que em menos de um minuto eu perdera toda a sensibilidade. Minhas mãos começavam a inchar e pareciam luvas de palhaço.

Eu já estivera em situações melhores.

Fiquei lá, sentindo o coração palpitar e contando os minutos que passavam. Podia ouvir o ranger do bote e o choque das ondas contra o costado de fibra de vidro.

Então, de repente, o ambiente no interior da embarcação se transformou. Ninguém dizia uma palavra. Ninguém se mexia. De qualquer forma, eu não conseguia enxergar muita coisa, apenas os olhos e dentes dos somalis quando eles sorriam ou falavam. Um pálido luar entrava pelas escotilhas, na proa e na popa, mas senti que o clima mudara numa fração de segundo. Era como se um interruptor tivesse sido acionado. Quando alguém está com um AK-47 carregado e apontado para a nossa cara, não há como não sabermos exatamente o estado de espírito do sujeito. Se ele está feliz ou chateado, se o nariz está coçando, se ele está pensando em romper com a namorada. Seja lá o que for, a gente sabe. E minha pele sentiu uma mudança no ar — como se algo perigoso tivesse se esgueirado ali para dentro e se sentado bem ao meu lado.

Consegui vislumbrar o que acontecia, porém eu ouvia mais do que via. A primeira coisa foi um clique. O som vinha do ponto de onde a embarcação era governada, o lugar onde o Líder estava sentado. Clique. Silêncio. Clique, clique. Ele puxava o gatilho de sua pistola 9mm, disparando sem munição. Na escuridão, não vi se a arma estava apontada para mim, mas senti um arrepio gelado atravessar o peito. O filho da mãe não tinha carregado a arma, senão minha cabeça teria explodido num grande jato vermelho contra o costado. Também não havia nenhum cartucho na câmara. Por enquanto.

Então, em meio à escuridão, ouvi aquela cantoria. O Líder entoou algo com aquela voz arrastada e os outros três — Comprido, Musso e Jovem, com os olhos arregalados — responderam. Inclinei-me para a frente, procurando entender o que diziam. Tratava-se, obviamente, de alguma cerimônia religiosa, fazia-me lembrar uma missa católica em latim que eu vira quando era criança em Massachusetts. Havia algumas horas aqueles sujeitos riam, contavam piadas e se gabavam de como eram “marinheiros somalis de verdade, 24 horas por dia, sete dias por semana”. Quase dava para esquecer que eles eram piratas, e eu, seu refém. Agora tudo mudara. Era como se tivéssemos retrocedido dez séculos e eles pedissem a bênção de Alá pelo que estavam prestes a fazer.

Eu sabia o que estava acontecendo. Mas não precisava ficar sentado lá e simplesmente aceitar aquilo.

— O que vão fazer agora? Me matar? — gritei na direção do Líder.

Na escuridão ouvi-o rir — vi o brilho dos seus dentes —, depois ele tossiu e cuspiu. Então os quatro voltaram a entoar sua ladainha. Tentei mexer as mãos para afrouxar a corda, mas tive de me render à competência de Musso. Ele sabia dar nós como ninguém.

A cantoria chegou ao fim de repente. Tudo estava silencioso, e voltei a ouvir as ondas baterem contra o costado. Encarei a escuridão, tentando ver o cano do AK-47 erguido contra mim. Nada.

— Você tem família?

A voz era debochada, segura de si. Era o Líder, não havia sombra de dúvida.

— Sim. Tenho família — respondi. Com uma sensação de pânico, percebi que não tinha me despedido deles. Mordi o lábio.

— Filha? Filho?

— Tenho um garoto, uma menina e uma esposa.

Silêncio. Ouvi alguns sussurros vindos da cabine de manobra. Então o Líder falou novamente.

— Isso é ruim — falou. Ele tentava me assustar. Na verdade, estava conseguindo.

— É. Isso é mesmo ruim — retruquei. Não importava o que fizessem ou dissessem, eu não podia deixá-los saber que tinham conseguido me abalar.

Musso avançou na minha direção entre as fileiras dos bancos da embarcação de salvamento. Agarrou um pedaço de pano que rasgara de uma camisa e envolveu com ele as cordas em torno dos meus pulsos. Não as apertou, apenas enfiou o pano entre elas. Então pegou dois cordões, parecidos com os usados em paraquedas, um vermelho e outro branco, e começou a cruzá-los pelas cordas. Lentamente. Seu rosto talvez estivesse a uns trinta centímetros do meu; vi que ele estava totalmente concentrado no que fazia. Os cordões branco e vermelho entrelaçavam-se num padrão intrincado, que tinha de ser executado com precisão.

Era uma sensação estranha assistir a si mesmo ser preparado para morrer. Eu tinha a impressão de que eles esperavam que eu colaborasse com meu próprio assassinato, que fosse uma boa vítima e não dissesse nada. Fui tomado por um acesso de raiva. Esses caras não iam me separar da minha família, de tudo e de todos que eu amava. Nem pensar.

Ao concluir sua tarefa, Musso retornou para a cabine de manobra. Os somalis voltaram a falar — dessa vez uma conversa normal — e pareciam ter chegado a algum acordo. Vi o Líder passar a pistola a Comprido, que veio andando entre os bancos na minha direção. Então fora ele o escolhido para fazer o serviço.

Comprido se sentou atrás de mim, em cima do macacão especial laranja do kit de sobrevivência. Por alguma razão, durante o ritual eles precisavam ficar de pé ou sentados sobre algo laranja ou vermelho. Ele pegou o carregador da 9mm, colocou-o de volta e então começou a brincar com a arma. Era como se estivesse brincando comigo. Aquele a quem eu chamava de Jovem, o que ficara me encarando durante os dois dias inteiros, sorrindo como um maníaco, aproximou-se e arrastou meus pés, colocando-os sobre o macacão especial. Ao mesmo tempo, Musso veio e começou a puxar meus braços com força. Imaginei que estavam tentando me deixar na posição certa para que o assassinato fosse mais limpo. O Líder gritou para Musso “Aperte com força!” e então para o outro sujeito “Levante-o!”, e Musso deu uns puxões na corda com que havia amarrado minhas mãos, tentando manter meus braços acima da cabeça. Queriam me esticar. De jeito nenhum, eu disse a mim mesmo. Não vão me sacrificar como se eu fosse um bezerro cevado.

Enquanto Musso me puxava, eu resistia com meus punhos enfiados debaixo do queixo.

— Você não consegue fazer isso — murmurei entredentes. — Não é forte o bastante.

Pensei que, se pudesse atrapalhar a cerimônia deles, talvez conseguisse sobreviver mais um pouco. Musso começou a ficar louco de raiva. Suas narinas tremiam, e ele parecia irritado comigo. O suor pingava do seu rosto, e comecei a gostar da situação — esse pirata somali metido a durão e com uma arma automática não conseguia me fazer cumprir suas ordens. Ficamos cara a cara.

— Você nunca vai conseguir — sussurrei para ele.

Musso enfim largou meus braços e me deu um soco na cara. Sorri.

O Líder também estava ficando nervoso, misturando somali e inglês enquanto gritava com os outros.

— Puxem com força! — berrou.

Musso olhou para mim como se estivesse me examinando e sorriu. Pôs as mãos nos meus braços e deixou-as ali por um tempo, como se dissesse: vamos todos nos acalmar agora, cara. Assenti com a cabeça, mas conservei os punhos fechados debaixo do queixo. Musso agarrou os cordões enrolados nos meus pulsos e puxou com força. Eu estava esperando por isso. Minhas mãos se levantaram um pouco sob a pressão da corda, mas resistiram.

Agora os somalis grunhiam devido ao esforço; vinham para cima de mim com toda a força. Musso tentou puxar minhas mãos; eu as mantinha abaixadas. Um deles puxou meus pés para cima do macacão laranja, mas eu o chutei. Outro estava de pé atrás de mim com uma arma. Eu respirava com dificuldade, aspirava golfadas de ar quente e sufocante, mas continuava a resistir. No meu íntimo, pensei: Por quanto tempo mais vou aguentar isso? Não muito, eu sabia. Melhor se despedir de todos agora.

De repente, houve uma explosão junto ao meu ouvido esquerdo. Vi estrelas, e minha cabeça sofreu um baque para a frente até ficar entre minhas mãos. Meu corpo inteiro relaxou. Senti o sangue jorrar entre os dedos e escorrer pelo rosto.

Merda, ele atirou mesmo, pensei. Ele atirou em mim.

Minha visão estava embaçada, mas consegui distinguir as juntas das chapas verdes da antepara interna da embarcação, com suas duas linhas, uma vertical, outra horizontal. Parecia uma cruz. Só de olhar para ela acalmei meus temores. Ao contemplar a cruz, me ocorreu a ideia mais estranha. Vou ver Frannie , pensei. Minha cadela vira-lata de Vermont, um animal abandonado que adotei e que jamais obedeceu a uma ordem minha. Ela fora atropelada por um carro em frente à nossa fazenda um mês antes de eu partir. Agora eu iria reencontrá-la.

Então ouvi Musso.

— Não faça isso! — gritou. — Não, não!

Levantei os olhos. O sangue da minha cabeça tinha se derramado sobre os nós brancos em meus pulsos. Musso estava enlouquecido.

Respirei fundo. Eu não sabia se tinha me esquivado de um tiro ou se outra coisa acontecera.

Eu devia mesmo ter contado aos piratas: sou teimoso demais para morrer assim tão fácil. Eles vão ter que se esforçar mais.