Dever de Capitão

Richard Phillips · Capítulo 6 de 24

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Dever de Capitão

Dois: -8 dias

– 8 dias

 

GOLFO DE ÁDEN: Grane le iro (TITAN) se que strado e m 19 de março de 2009 às 1430 UTC e nquanto nave gava na posição 12 o o 35’N-04721’E. Se is home ns e m uma lancha, armados com fuzis AK-47 e pistolas, subiram a bordo e se que straram a e mbarcação. Os piratas e stão no controle do barco e nave gam e m dire ção às águas litorâne as da Somália.

 

GOLFO DE ÁDEN: Cargue iro (DIAMOND FALCON) foi alvo de tiros e m 14 de março de 2009 às 0629 UTC e nquanto nave gava na posição 13o o 42’N-04919’E, ce rca de 50MN a sude ste de Al Mullikan, no Iê me n. Home ns a bordo de duas lanchas rápidas, armados com automáticas e lança-granadas, atiraram na e mbarcação. O comandante re alizou manobras e vasivas e me didas antipirataria e nquanto um navio de gue rra turco nas proximidade s de spachava dois he licópte ros para pre star assistê ncia com um navio de gue rra dinamarquê s. Os home ns nas lanchas fugiram de pois da che gada dos navios de gue rra.

 

Boletim da África Oriental, relatório sobre ameaças globais à navegação, Agência de Inteligência Naval, abril de 2009

 

Estávamos programados para deixar Salalah no dia 1º de abril. Acordei às cinco da manhã, chequei a previsão meteorológica e comecei minha rotina matinal. Ando pelo navio inteiro

todos os dias para verificar a possível existência de mossas, vazamentos, qualquer coisa fora do comum. Os guindastes portuários haviam içado o último contêiner a bordo e já havíamos

pagado a tripulação anterior, registrado os novos membros, carregado os suprimentos — comida, vídeos novos e combustível — e estávamos prontos para zarpar. Às 6h30, eu estava

no passadiço, tomando minha primeira xícara de café e fitando o sol que já queimava a superfície da água. O navio era um frenesi de guindastes, homens e contêineres balouçantes em

movimento contínuo e agitado. No entanto o mar estava calmo, com o sol enorme e esplêndido pendurado logo acima do horizonte e uma névoa que começava a se dissipar.

Quando se é marinheiro, volta-se a um ritmo ancestral. O sol informa quando acordar e quando ir para a cama. Os dias começam e terminam com nascentes e poentes incríveis. Eu mal podia esperar para estar em mar aberto. É por isso que se vai para o mar, pensei, olhando para além da amurada. Eu sabia que todo dia na água seria diferente. Sempre é. O mar nunca parece o mesmo, sua cor muda de preto-granito para um azul vívido e depois para um verde quase transparente. Vai-se para o mar por muitas razões — pela chance de trabalhar ao ar livre, por amor aos oceanos, porque seu pai e seu avô fizeram isso, ou porque se pensa que é um meio fácil de ganhar dinheiro (não é). Mas, se você não gosta de manhãs assim, quando tem a viagem inteira pela frente, é melhor ficar em terra e trabalhar numa fábrica montando torradeiras. Quando se é marinheiro, sair do porto sempre o faz lembrar-se da razão por que, apesar do perigo, do tédio e da solidão, você desde sempre quis ser um homem do mar.

Enquanto nos preparávamos para partir, fiquei no passadiço conversando com o prático que nos guiaria para fora do porto de Salalah. Ele gritou “Máquinas adiante, devagar”, e o segundo oficial de náutica respondeu quando eu olhava as rotações do motor, querendo mantê-las bem abaixo do nível máximo. Em meia hora já havíamos deixado a zona portuária e desembarcado o prático, e deslizávamos de Salalah para o oceano Índico.

 

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Toda vez que eu saía de um porto, pensava sobre como eu acabara entrando nessa profissão, como era estranho que tivesse me tornado o capitão de um navio. Se não fosse por um

marinheiro que queria encontrar algumas garotas e cair na farra, é possível que eu nunca tivesse ouvido falar da marinha mercante. Na verdade, quando eu era pequeno em Winchester,

Massachusetts, nos arredores de Boston, muitas pessoas duvidavam que eu fosse além do bar da esquina.

Meu maior problema era ser um pouco descontrolado. Meu apelido no ensino médio era Selva, e tenho que admitir: fiz por merecê-lo. Meus amigos e eu às vezes íamos parar em bares nas partes mais perigosas de Boston ou de Cambridge e, em algumas ocasiões, tínhamos que brigar para sair. Uma vez, no começo dos anos 1970, bebemos umas cervejas e saímos perambulando por Boston até encontrarmos uma multidão. “Um festival”, pensamos em nosso estupor. Abrimos caminho pela multidão até chegarmos à frente e percebermos que estávamos no meio de uma passeata dos De Mau Mau (um grupo radical de soldados afro-americanos que lutava contra a discriminação racial nos Estados Unidos), na qual um militante pirado pregava a revolução. Quando o orador nos viu, ficou paralisado. Tivemos sorte de escapar com vida — apenas uma noite como outra qualquer para os garotos de Winchester.

Você tinha que ser bem durão para sobreviver em Boston nos anos 1960 e 1970. Cresci em um bairro com muitos tímidos e nerds estudiosos. Mas também era cheio de caras retrógrados que não achavam nada de mais dar um soco na sua cara para ver que tipo de pessoa você era. E eu não recuava. Era conhecido por não fugir de uma briga. Se você era fraco, era melhor ficar em seu quarto até a hora de sair da casa dos pais.

Tenho certeza de que herdei parte da minha determinação de meus avós paternos. Eles moravam no conjunto habitacional Fidelis Ways em Brighton, uma área em que era difícil viver na época — e ainda é. Eles vieram do condado de Cork, na Irlanda, e chegaram aos Estados Unidos no final dos anos 1920, logo antes da Depressão. Aquela época tenebrosa os afetou bastante. Meus avós provavelmente não tiveram muito durante a juventude, mas o que me impressionava era que eles faziam tudo o que usavam e não desperdiçavam nada. Fabricavam o próprio sabão, o pão e as cortinas, e provavelmente tentaram fazer as próprias roupas em algum momento. Eu era um entre oito filhos (quatro meninos e quatro meninas), e todos nós odiávamos ir à casa de vovô e vovó Phillips. Ninguém podia repetir no jantar, então era melhor limpar o prato, porque não haveria nada mais. Raramente vi minha avó sorrir.

Curioso. Não pensei nisso na época, mas ver o tanto que meus avós tiveram que trabalhar só para sobreviver me marcou muito. Eles criaram uma vida com os restos que o mundo lhes deu. Uma coisa que nunca faltou na minha família foi vontade de trabalhar, e eu via neles a origem disso.

Minha mãe era de West Roxbury, na época um bairro muito abastado de Boston. Seus pais eram professores, e ela trouxe à família a crença de que você devia obter uma educação formal a qualquer custo. Nunca fui um grande aluno, mas ela, pelo menos, fez de mim um leitor, alguém constantemente interessado em se aperfeiçoar. Além de enfiar meu nariz em um livro sempre que possível, minha mãe era a proverbial cola que mantinha a família unida. Era uma pessoa amorosa e solidária, com uma curiosidade insaciável — se eu tivesse algum problema, contava para ela. Andrea diz que meu pai era o vento que soprava nas velas, e minha mãe, a quilha do barco. Com ela, éramos uma família equilibrada. Sem ela, definitivamente teríamos sido jogados aos tubarões.

Meu pai era um típico norte-americano de ascendência irlandesa daquela época: ele fazia coisas para você, mas não o sufocava com afeto. Era duro na queda: tinha 1,88 metro de altura, um peito forte, as pernas curtas e o tronco alongado típico dos Phillips. Gostava de esportes — jogou futebol americano e basquete quando estudava na Universidade Northeastern, onde conheceu minha mãe. Ele dava provas de seu amor saindo e trabalhando como um burro de carga. Você quer isso e um abraço todas as noites também? Vá falar com sua mãe.

Papai não era bom em se comunicar. Eu o amava, mas ele era difícil de agradar. “Faça certo e faça de uma só vez, ou não faça nada” era o lema dele, seguido rapidamente por “babaca”. Parecia que, o que quer que eu fizesse, a resposta dele era: “Você sempre pode fazer melhor.” Isso às vezes me enfurecia. Sim, mas que tal um pouco de reconhecimento pelo que eu fazia certo? Aprendi como fazer as coisas do jeito certo com meu pai. Queria mostrar para ele que era capaz, mas queria fazer isso do meu jeito.

Meu pai acreditava que, quando se tratava de nós, seus filhos, a melhor defesa era um bom ataque. De manhã, ele gritava para que saíssemos do único banheiro da casa.

— Vocês vão se atrasar para a escola! — berrava com sua voz grave e retumbante. Ficávamos tão apavorados que reduzíamos nosso tempo no banheiro ao mínimo possível. Em seguida, pegávamos os livros, corríamos para a rua e encontrávamos nossos amigos para começar a longa caminhada até o colégio. Dois minutos depois, víamos meu pai passar de carro por nós. Ele trabalhava na nossa escola, mas nem sequer virava a cabeça ao passar.

Meus amigos diziam: “Ei, aquele não é o seu pai? Por que ele não dá uma carona para a gente?”

E minha resposta: “Nem queiram saber.”

Era como crescer com um técnico de futebol mal-humorado.

Meus valores sempre foram uma mistura da força de meu pai e do carinho de minha mãe. Ela aparava as arestas, mas em vários aspectos sou tão determinado quanto ele. Você sempre pode fazer melhor. Detesto admitir, mas meu velho deixou marcas em mim. Com algumas exceções. Meu pai nunca me disse que me amava ou que tinha orgulho de mim (embora eu soubesse que ele sentia isso). O tempo todo digo aos meus filhos que os amo. Você aprende o que deve herdar e o que deve descartar.

 

___

 

Eu era um garoto metido a esperto. Tive professores que, no primeiro dia, apertaram minha

mão e disseram: “Você tem muito potencial!” Vocês nem me conhecem , eu pensava. E, embora todos soubessem que meus pais eram professores, eu não me dedicava muito aos

estudos. Meu pai dava aulas de administração e matemática e era o técnico-assistente de futebol americano e o técnico principal de basquete na escola perto de nossa casa. Minha mãe

lecionava para alunos de quarto e sexto ano em Massachusetts e New Hampshire. Mesmo assim, minhas notas ficavam entre as mais baixas em todas as matérias. Eu fazia apenas o

suficiente para passar de ano. Para mim, a escola era um lugar para olhar garotas, jogar futebol e ver os amigos. Tipo uma igreja, só que com esportes.

Rebeldia era uma segunda natureza para mim. Eu não conseguia fingir me importar com o que não me interessava. Além disso, sabia que tinha outras habilidades: era durão, trabalhava com afinco e aprendia com facilidade.

Mas sempre achei que era um cara sortudo e que a vida me levaria a lugares interessantes. Até mesmo meus professores acreditavam nisso. Um dia, o professor de francês, Doc Copeland, andando pela sala, disse:

— Joey, você será um ótimo pedreiro. Mary, você vai ser dona de casa. Joanie, talvez uma arquiteta. — Quando chegou a minha vez, ele parou e anunciou: — Você vai viajar muito.

Fiquei feliz com aquilo.

Praticar esportes sempre foi a coisa mais importante da minha vida. Eu tinha três irmãos e queria vencê-los em campo tanto quanto eles queriam me vencer. Competia com os amigos em Bogues Court, a quadra de basquete do bairro. Enfrentávamos os representantes da rua vizinha em jogos onde só se considerava a falta quando saía sangue. E o que mais importava era quem vencia o grande jogo de futebol americano contra a escola rival.

Essa atmosfera gerava um tipo de resistência mental. Aprendi sobre a vida, sobre líderes e seguidores, praticando esportes. Diabos, aprendi tudo praticando esportes. Um dos meus atletas favoritos era Larry Bird, que nasceu sem quaisquer qualidades excepcionais e se tornou um superastro dos esportes simplesmente por causa de sua força mental. Isso era algo que eu respeitava.

Joguei futebol americano, basquete e lacrosse no ensino médio e era medíocre em todos. No meu ano de calouro, Manny Marshall, o técnico de futebol americano, se interessou por mim. Ele me via nos corredores do colégio e me tratava como se eu estivesse prestes a levar o time ao campeonato estadual.

— Ei, como você se sente hoje? Tome bastante milkshakes, você tem que ganhar mais peso. Ei, não precisa fazer ginástica, não se preocupe com isso. Como está se sentindo? Forte?

No meu penúltimo ano, peguei mononucleose e fiquei em casa. Depois de anos obcecado por esportes, percebi que havia outras maneiras de me divertir — mais especificamente, caindo na farra. Mas o técnico Marshall ainda concentrava sua atenção em mim sempre que me via.

— Não diga a ninguém — falava ele —, mas você talvez seja capitão do time ano que vem.

Eu não jogava bem o suficiente para ser capitão. Não jogara o ano inteiro. Não merecia a posição.

O técnico esperava que eu me encaixasse em seu esquema, o qual exigia que os jogadores considerassem que o mais importante era o placar. Ele não entendia que eu me divertia ganhando ou perdendo.

— Por que está sorrindo? — perguntava ele.

— Porque estou me divertindo.

Para ele, o futebol americano era uma religião, e, se eu estava rindo com os meus amigos enquanto o time perdia, devia ser o Anticristo. De jogador com potencial para craque, passei ao banco de reservas. Cheguei a desistir do time antes do último jogo da temporada, contra nossos arquirrivais de Woburn, só porque o jogo deixara de ser divertido. Assisti à partida na condição de integrante da banda, na qual eu tocava saxofone. Deixei o líder da banda extremamente feliz:

— Essa foi a primeira vez que alguém disse ao técnico de futebol americano “Desculpe, mas não posso jogar porque preciso fazer parte da banda”.

O técnico Marshall passou a me odiar depois daquilo.

Acho que eu tinha algo a aprender sobre como fazer parte de uma equipe.

Amava os esportes, mas me rebelava contra as restrições. Depois de uma sessão de treino no começo da temporada, o técnico da equipe reserva chamou a mim e a um cara chamado Gunk Johnson:

— Phillips, não vou botar você em campo porque seu pai não me colocava para jogar quando eu era aluno. E Gunk, não vou botar você em campo porque não gosto de você.

Pensamos que ele nos enxotaria de lá. Quando o técnico nos perguntou o que íamos fazer, eu e Gunk olhamos um para o outro e dissemos: “Técnico, nós vamos ficar.”

Esse era o meu lema: vou ficar. Principalmente se você tentar me intimidar.

Acho que naquele momento qualquer um veria que fui talhado para a marinha mercante. Todos os caras que conheci na marinha mercante tinham histórias parecidas com a minha. Não éramos os primeiros da turma. Éramos aqueles que chegavam ao colégio em motocicletas caindo aos pedaços, jogavam na linha ofensiva e bebiam no Fells, o bosque das proximidades, onde a garotada se reunia. Fazíamos o que queríamos. Éramos os rebeldes que se recusavam a seguir as ordens dos outros.

Em 1975, eu estava perto de realizar a previsão de meus detratores de que eu não iria muito longe na vida. Tivera alguns empregos, como segurança em uma empresa de tecnologia aeroespacial, transportador de cheques de bancos locais para o Federal Reserve, motorista de táxi. Fui taxista em Arlington, uma cidadezinha ao norte de Boston. Não havia um grande futuro naquilo, mas era animado. Uma vez, um sujeito que eu nunca vira antes entrou no táxi, deu um endereço e disse que estava indo pegar o dinheiro. Estacionei no endereço temendo que ele tentasse me dar um golpe, mas um minuto depois uma mulher saiu da casa gritando, seguida por aquele maníaco, e entrou em um carro. Ele entrou no táxi e gritou: “Dou vinte pratas se você conseguir alcançá-la.”

Era óbvio que o homem e a mulher estavam envolvidos em algum tipo de drama doméstico — o qual nunca entendi muito bem —, e caí de paraquedas bem no meio. Meti o pé no acelerador e voamos pelas ruas de Arlington como na cena de perseguição do filme Bullitt. Enfim alcancei a mulher e vi pela janela do carro o rosto amedrontado dela. Foi aí que meu cliente gritou:

— Dá uma fechada nela!

Aparentemente, ele achava que eu era um assassino profissional, não um taxista. Parei, botei no bolso os vinte dólares por tê-la alcançado e depois arranquei o sujeito do táxi.

Aprendi muito. É um trabalho difícil, e você não pode seguir as regras; precisa usar a imaginação. Mas eu não tinha um rumo ou plano para a minha vida. Estudara no campus de Amherst da Universidade de Massachusetts, principalmente porque meus pais eram professores e queriam que eu tentasse fazer faculdade. Fiz zoologia, porque queria ser veterinário. Mas uma matéria em que era preciso usar régua de cálculo mostrou-me que eu não era talhado para o ensino superior. Larguei a faculdade depois de um semestre — eram festas demais, garotas demais e estudos de menos. Se havia alguma loucura acontecendo naquele campus no outono de 1974, eu provavelmente estava metido nela.

Então, virei taxista. Um dia, eu saía pelos fundos do aeroporto Logan quando peguei um sujeito elegante, com jeans apertados e uma jaqueta de couro que parecia custar mil pratas. Fiquei impressionado.

— Para onde quer ir? — perguntei ao cara.

— Quero uma noitada de arromba — respondeu.

Não era um pedido incomum na Boston dos anos 1970.

— Que tipo de noitada você está procurando?

— Quero birita e umas gatas.

— Ok, sei onde encontrar isso.

Liguei o taxímetro e saímos em direção à zona de combate, que naquela época era uma única rua, cheia de espetáculos com garotas universitárias e letreiros de neon que brilhavam até mesmo durante o dia. Era possível conseguir de tudo naquele lugar — tudo mesmo. Quer uma garota romena toda atlética que toca Beethoven e é craque em hóquei no gelo? É pra já. Prefere um lança-granadas e um uísque? Você manda. Quero dizer, o lugar nunca decepcionava. Era uma Disney para adultos.

Quando chegamos à zona, vi os olhos do sujeito se esbugalharem no retrovisor.

— Isso serve? — perguntei.

Ele assentiu:

— Está ótimo.

A corrida ficara em cinco dólares, e ele me deu mais cinco de gorjeta. Eu já subira dez lances de escada com vinte malas para uma velhinha e recebera uma gorjeta de 25 centavos, então cinco dólares me chamaram a atenção. Enquanto o sujeito saía do táxi, perguntei o que ele fazia. Essa era minha forma de conseguir aconselhamento profissional. Se um cara entrava no meu táxi distribuindo dinheiro feito confete, eu perguntava qual era o emprego dele.

— Sou da marinha mercante — respondeu.

— O que é isso?

— Bem, a gente transporta carga em navios.

— Parece emocionante.

Mentira. O que parecia emocionante era chegar a um porto às dez e meia da manhã e ir a um lugar como a zona de combate com o bolso cheio de dinheiro, a jaqueta de couro mais bonita de Boston e querendo farrear sozinho.

Enquanto ele entrava em uma boate de striptease, gritei para ele:

— Ei, como faço para conseguir um emprego desses?

O cara provavelmente estivera em alto-mar por três meses e não queria passar mais tempo falando com alguém que largara a faculdade.

— Toma.

Ele me entregou um cartão com o endereço de uma escola de formação de marinheiros em Baltimore. Depois, desapareceu.

Escrevi uma carta para a escola, mas não recebi resposta. Esqueci-me daquilo até que o meu irmão Michael voltou para Boston e apareceu com um barril de cerveja em uma festa em meu apartamento. Ele estava na Academia Marítima de Massachusetts (MMA, na sigla em inglês), em Buzzard’s Bay, e elogiou muito a escola.

— Não é nada mau — disse, bebendo uma cerveja estupidamente gelada em um copo de plástico. — Eles não raspam sua cabeça. Não é uma academia militar, não tem uniforme, não há muita disciplina e, quando você termina, pode ficar em casa seis meses por ano.

Eu tinha dois empregos, ganhava 220 dólares por semana e estava pronto para fazer algo novo. Sempre gostara dos livros de Jack Kerouac, e a ideia de viajar mundo afora parecia mais e mais atraente depois de cada turno levando prostitutas e empresários para todos os cantos de Boston. Meus vizinhos, Sra. Paulson e Sr. Muracco, deram duro e desempenharam um papel fundamental para que eu fosse aceito na academia, e o técnico de basquete da equipe principal do colégio escreveu uma carta de recomendação para o técnico de lá. Alguns meses depois, fui aceito. Eu mal podia esperar para partir.

Dirigi-me ao campus na minha Kombi, quase vesgo por causa de uma baita ressaca após uma última festa de arromba com meus amigos. Entrei sentindo-me como um calouro depois de varar a noite em uma choppada. O campus da MMA era minúsculo, com uns seis alojamentos, um navio-escola, alguns prédios com salas de aula, um centro administrativo e uma biblioteca. Quando vi aquilo pela primeira vez, pensei: Não parece tão ruim. O almirante que nos cumprimentou foi muito cortês, sobretudo com os pais dos alunos.

— Hoje vocês perderam seu filho — falou ele, em algum momento. — Quando voltarem a vê-lo, ele será um homem.

Assim que os últimos pais foram embora, os instrutores começaram a gritar conosco. Não éramos mais os jovens espertos que deveriam ser tratados a pão de ló. Éramos os “calouros”, e calouros valiam o mesmo que cuspe no asfalto. Os instrutores gritavam conosco enquanto nos tocavam como gado até a barbearia para que nossas cabeças fossem raspadas; gritavam conosco e nos forçavam a marchar a passo acelerado por todo o campus; e terminavam o dia gritando conosco por motivo algum. Acabou que a MMA era uma academia militar tradicional onde você era desmontado antes de ser remontado como membro da marinha mercante. Eu tinha de tirar o chapéu para meu irmão. Ele me fizera cair como um patinho.

Passamos por um ano de trotes constantes. Havia um almirante chamado Shakey que, teoricamente, era o diretor da academia, mas os alunos veteranos controlavam a escola. Encontrar um veterano no corredor podia significar ter que listar os 25 itens encontrados em todos os botes salva-vidas, em ordem alfabética. Se você não soubesse, ele mandava fazer vinte flexões. No cruzeiro de verão para as Bermudas, nos forçavam a usar quatro camadas de roupas, incluindo um casaco de inverno, luvas, chapéu e óculos de natação, e nos levavam à praça de máquinas do navio-escola, onde a temperatura alcança setenta graus, nos fazendo trabalhar até cairmos de desidratação. E você ainda tinha de chupar um pirulito o tempo inteiro, não me pergunte por quê. Se alguém delatasse um colega, eles cortavam uma mangueira de incêndio, enfiavam a ponta por baixo da porta do camarote da pessoa e a ligavam na potência máxima. Diga adeus ao seu aparelho de som e à sua máquina fotográfica, meu chapa. Se você mexesse com um veterano, os rapazes faziam o que eles chamavam de “festa do cobertor”. Quando você estivesse dormindo, de repente alguém jogava um cobertor em cima de sua cabeça e dez veteranos o espancavam quase até a morte. Ou o emboscavam em um lugar chamado “Quatro Esquinas”. Tínhamos pesadelos com aquele lugar. Você virava a esquina e havia uma gangue de veteranos de tocaia. Eles começavam imediatamente a gritar “Imita um motor a vapor!”. Um cara era o pistão vertical; outro, a hélice, o eixo e o tambor a vapor, o que significava que você tinha que correr em círculos, se agachar e se esticar para cima e para baixo, ou fazer alguma outra coisa ridícula. Por horas.

Tudo isso seria ilegal hoje em dia. Naquela época, os trotes eram considerados formadores de caráter, mas agora não são politicamente corretos. Com certeza, hoje fazem treinamento de sensibilidade na primeira semana lá e é possível receber uma reprimenda apenas por sugerir que um calouro seria capaz de fazer um nó melhor. Mas, na minha época, alguns dos oficiais que moravam no campus tinham medo de andar pelos dormitórios.

Um veterano do quarto ano resolveu me dedicar atenção especial. Não gostávamos um do outro, sobretudo porque ele era exigente quanto às regras e ao respeito, e eu não respeitava ninguém sem antes ser respeitado também. Era como uma reação química. Odiamos um ao outro de imediato. A missão dele era me forçar a desistir da academia.

Toda vez que me via no campus, ele infernizava minha vida.

— Qual é, você é virgem? — gritava ele. — Qual é seu problema, nunca transou?

Eu não ia aceitar aquilo de um pirralho mais jovem que eu.

— Muito antes de você, seu idiota! — respondi.

E, desde esse dia, ele passou a me detestar.

Uma vez, logo antes das festas natalinas, eu e alguns colegas saímos do refeitório em direção ao dormitório. E, claro, ele estava esperando por mim nas Quatro Esquinas.

— Porra, Phillips, por que você ainda está por aqui? — gritou.

Alguns de seus amigos deram risadinhas. Todos sabiam que aquele franzino maldito não gostava de mim.

— Que tal você simplesmente fazer as malas? Porque nunca vai se formar aqui. Garanto isso agora mesmo.

Se alguma vez tive dúvidas de que me formaria, elas acabaram ali mesmo. Meus ancestrais eram do condado de Cork, conhecido como o Condado Rebelde por sua oposição ao domínio britânico. Tenho genes de lá.

— Juro por Deus — sussurrei baixinho. — Você nunca vai me forçar a sair daqui.

Sorri para ele, um sorriso grande e entusiástico. Ele não gostou.

— Agache-se e pague vinte flexões! — gritou.

Sim, eles realmente falavam esse tipo de coisa.

Fiz que não com a cabeça.

— Senhor, nem vale a pena me agachar por isso — retruquei.

Ele pareceu... Bem, eu diria “chocado”.

— O que você disse, calouro?

— Eu disse “Senhor, nem vale a pena me agachar por isso”. Mande eu pagar quarenta.

Duas horas depois, eu estava encharcado de suor, fazendo flexões e abdominais. Sujo e suado, e meus braços pareciam macarrão molhado. Ele olhava o suor escorrendo pelo meu rosto e se divertia. Todos os meus colegas já haviam voltado para o dormitório.

Finalmente, ele ficou com fome. Anunciou a todos que ia sair para jantar.

— Quero voltar e encontrá-lo aqui, senão são duas semanas de deméritos — ameaçou.

Deméritos eram piores que qualquer coisa — você passava a semana inteira trabalhando para compensá-los.

Quando ele saiu, um de seus colegas veio correndo do refeitório. Era um dos veteranos mais simpáticos do quarto ano.

— Chega, Phillips. Está dispensado.

Olhei para cima. E depois fiz mais vinte flexões.

— Não, obrigado, senhor, estou bem — respondi, meu rosto a poucos centímetros de suas botas bem-lustradas.

Sentia que ia desmaiar, mas estava fulo da vida. Não ia ser eu a desistir.

Ouvi um suspiro enquanto contava até vinte.

— Não seja idiota, Phillips, estou querendo ajudar. Dispensado.

Levantei-me ofegante e encarei-o.

— Preciso ouvir isso dele, senhor.

— Ele é um babaca. Isso não vai acontecer.

Pensei por um minuto, com a respiração arfante. Não queria deixar o maldito vencer. Mas o fato de um veterano admitir que aquele babaca estava fazendo algo errado era suficiente para mim. Além disso, tinha certeza de que mais vinte flexões quase me matariam.

— Muito bem, senhor.

E fui embora. Pensar que, ao voltar, meu algoz encontraria o corredor vazio me fez rir. Em parte, consegui me formar por causa daquele pateta.

A melhor fonte de motivação no mundo são idiotices impostas por um valentão.

Nem todos estavam tão determinados a aguentar tudo aquilo. Dos 350 caras que se matricularam no começo do primeiro ano, 180 se formaram. Acredite, nenhum era fracote.

Mas eu gostava da academia. Primeiro de tudo, não havia garotas, o que fora um de meus problemas na faculdade. Elas haviam sido uma distração com a qual eu não soubera lidar; na época, por mais estranho que pareça, eu achava que isso era um ponto positivo (mas não por muito tempo). E a academia era cheia de caras que vinham de milhões de lugares diferentes, mas com desejos semelhantes: queriam aventura, liberdade, trabalho braçal e independência. Eles eram, na maioria, caras que tinham um senso de humor aloprado e imaginação demais para trabalhar em um escritório. Eu valorizava aquilo.

A academia me ensinou a ter disciplina, algo que faltava em minha vida. Aprendi a não ficar à toa: quando algo precisa ser feito na marinha mercante, é feito na hora. Não era trabalho inventado; cada tarefa tinha um valor genuíno. Tudo servia para que navegássemos em segurança e chegássemos ao porto seguinte. A bordo de um navio, ninguém fica desocupado; todo mundo tem uma tarefa a cumprir. O que você faz afeta todos os outros a bordo.

Porém a prova decisiva foi o que ocorreu no verão de 1976, durante meu primeiro cruzeiro de treinamento. Os veleiros antigos estavam em Boston para a comemoração do bicentenário da independência dos Estados Unidos e faziam da entrada no porto um espetáculo único. Meus colegas e eu tivemos o privilégio de tripular o veleiro-escola Patriot State. Pintamos, passamos cabos de um lado para o outro, fizemos exercícios, tudo isso ao ar livre durante o verão. Adorei cada momento. Era trabalho braçal e você se atirava no beliche sabendo que realizara algo de valor.

Foi a primeira vez desde o ensino médio que realmente me senti parte de um grupo. Mas, dessa vez, era algo diferente. Não senti tanta necessidade de fazer as coisas do meu jeito. Existiam uma tradição e um estilo de vida na academia. Até mesmo certa liberdade se eu conseguisse aguentar. Eu queria fazer parte daquilo.

Foi na academia que comecei a ouvir histórias sobre a marinha mercante: durante a Guerra da Independência, marinheiros norte-americanos agindo como corsários capturaram ou destruíram três vezes mais navios do que a marinha de guerra; e apenas uma cidadezinha de Massachusetts perdeu mil marinheiros lutando contra os britânicos. Eu soube dos piratas do Norte da África que sequestravam marujos e os vendiam para o “destino terrível da escravidão moura”; dos piratas do Caribe, na época do império espanhol, que capturavam marinheiros, roubavam-nos, prendiam a tripulação no porão de carga, incendiavam o navio e o deixavam à deriva; da prosperidade dos Estados Unidos, construída por marinheiros em navios de madeira que saíram de portos como Salem em direção a cantos longínquos do mundo, de Cádiz à Antártida, levando produtos como melaço, pólvora, ouro em pó, seda chinesa e, claro, escravos africanos. A marinha mercante sempre foi a primeira a chegar — Java, Sumatra, Fiji. Exploramos os oceanos. A marinha de guerra nos seguia. Era isso o que se aprendia na MMA.

Mas nem tudo era história. Os veteranos do último ano viajavam em embarcações comerciais e voltavam com os bolsos cheios de dinheiro, contando histórias sobre as mulheres maravilhosas da Venezuela, ou sobre uma briga em Tóquio que arrasou um bar inteiro. Piratas estavam sempre à espreita nessas histórias, quando comandantes recém-promovidos tagarelavam sobre como o estreito de Malaca piorara, ou sobre a melhor forma de rechaçar os bandidos na Colômbia. Esses sujeitos faziam cada viagem parecer uma grande aventura típica de Robert Louis Stevenson.

Eu estava doido para começar a navegar e ver tudo aquilo com meus próprios olhos.