Dever de Capitão

Richard Phillips · Capítulo 7 de 24

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Dever de Capitão

Três: -7 dias

– 7 dias

 

O se tor e stá firme me nte conve ncido de que não cabe às e mpre sas tre inar as tripulaçõe s no uso de armas de fogo e e m se guida e quipá-las (...) Se abrirmos fogo, há a possibilidade de re taliação. Tripulante s pode riam se r fe ridos ou mortos, se m me ncionar possíve is danos aos navios.

Giles Noakes, assessor de segurança marítima do

Conselho Marítimo Internacional do Báltico (Bimco, na sigla

em inglês), associação internacional de armadores

 

Christian Scie nce Monitor, 8 de abril

 

O primeiro dia depois da partida de Salalah correu sem maiores problemas. Estávamos

avançando num bom ritmo pela costa leste da península Arábica a caminho do golfo de Áden. Até aquele ponto, tinha sido uma viagem normal. Eu esperava que continuasse assim.

Nas ordens daquela noite, redigi o procedimento padrão para o caso de ataque por piratas, o qual foi lido e colocado em prática pelos oficiais. Mas eram apenas ordens num papel. Eu precisava ver como o pessoal reagiria no caso de ameaça real. O trecho entre Salalah e Djibuti corresponde a uma viagem de três ou quatro dias, mas naquele primeiro todos estavam exaustos. Um navio é como um útero: há água por toda a volta, movendo-se em um murmúrio, há o ritmo dos motores, a vibração de cada parafuso do navio. É por isso que os marinheiros adoram o primeiro dia no mar. Deixamos todos os problemas para trás e entramos nesse mundo reconfortante que conhecemos tão bem. Contudo, o lado ruim é que nos deixamos embalar por essa sensação de segurança. Eu não queria tratar disso até que estivéssemos em alto-mar. Estávamos nos dirigindo às águas mais perigosas do mundo e precisávamos estar preparados.

Na manhã de 2 de abril, fui ao passadiço e peguei minha xícara de café. O radar não tinha contatos. Voltei-me para Shane, o imediato, que estava de pé desde as quatro da manhã. Conversamos sobre nossos planos para o dia, as horas extras que seriam necessárias, os projetos em que ele vinha trabalhando. Rapidamente a conversa se descontraiu, passando para generalidades, esportes e as últimas notícias. Eu avisara a ele antes de partirmos:

— Vou começar a ficar em segundo plano a partir desta viagem. Você será promovido e estará à frente da programação das horas extras, da manutenção, da segurança e dos equipamentos de emergência. Já provou que é capaz.

Ele ia se tornar um capitão, e eu sabia que chegara a hora de ele assumir mais responsabilidades.

Depois de alguns minutos, eu disse:

— Vamos promover um treinamento-surpresa de segurança hoje.

Um imediato é, de longe, o sujeito que mais trabalha num navio. São catorze horas todos os dias, sete dias por semana. Um treinamento de segurança só deixa sua vida ainda mais complicada.

A maioria dos imediatos diria: “Que diabo, capitão. Temos mesmo de fazer isso?” Mas Shane era diferente.

— Ótimo. Adoro treinamentos-surpresa!

Aquilo era como música para os meus ouvidos.

— Tome seu café e começaremos às nove da manhã — completei. — Você não vai conseguir terminar nenhum trabalho hoje, mas precisamos fazer isso.

— Estamos prontos — afirmou ele. — Só não me conte o que vai fazer. Vamos ver como nos sairemos.

Quando faltavam dois minutos para as nove horas, subi para o passadiço. Meu segundo oficial de náutica, Colin, estava lá com um marinheiro de convés. Caminhei até ele e disse:

— Tem um barco se aproximando a boreste. Quatro homens, com armas, atitude hostil.

Era o início do treinamento de segurança.

Ele olhou para mim.

— Tudo bem — respondeu.

Esperei. Ele continuou me encarando.

— Bem, você tem de fazer alguma coisa — falei, afinal.

— Ah! Certo!

E então ele fez soar o alarme geral, que era ouvido em todo o navio.

— Não. Não queremos acionar o alarme geral primeiro — expliquei —, e sim o apito.

O alarme geral só é ouvido no interior da embarcação enquanto o som do apito espalha-se por um raio de cinco milhas. Queremos que os piratas saibam que já os vimos e que estamos nos preparando para nos defender.

Colin fez soar o apito. Observei a tripulação entrar em ação. Cada homem tinha uma posição predeterminada, para onde deveria se dirigir. Mais ou menos metade deles ia na direção errada. Aquilo não era nada bom.

— Acionar as bombas contra incêndio — ordenei.

— Certo — respondeu Colin.

Num navio como o Maersk Alabama, dispomos de aproximadamente 35 pontos de combate a incêndios, com mangueiras e esguichos. Por sua vez, as mangueiras antipiratas estão em posições específicas para repelir um ataque. São cinco — três na parte lateral, à ré, e outras duas na popa —, instaladas em posições seguras e sempre com o fluxo de água aberto, mas em espera, de modo que, acionando um interruptor no passadiço — boom —, disparamos um jato d’água. Durante um ataque de piratas é importante controlar, a partir do passadiço, as mangueiras de incêndio. Não apenas é impossível para os piratas subirem por uma escada sob um jato d’água em plena potência, como o fato de as mangueiras estarem ligadas com força total revela aos intrusos que estamos prontos para enfrentá-los, mesmo que eles se encontrem ainda a milhas de distância.

No entanto, quando Colin apertou o botão, nada aconteceu. Descobriu-se que uma válvula da bomba de incêndio tinha ficado aberta, o que significava que não havia água fluindo pelas mangueiras.

Um marinheiro de convés com ar distraído estava no passadiço, ali, parado, como se tivesse perdido um cachorro. Ele também precisava conhecer os procedimentos corretos a adotar, de modo que comecei a repassar as coisas com ele.

— Estamos sob ataque de piratas — falei. — O que você deve fazer?

Ele olhou para mim.

— Tenho... que... — respondeu ele, lentamente.

— Primeiro você tem que dar o sinal de segurança!

Fazer o sinal soar adequadamente exige um toque preciso, caso contrário o sinal pode ser interpretado como “abandonar o navio” ou qualquer outra coisa. E aquele sujeito nunca fazia do jeito certo. O sinal sempre parecia o hino dos Estados Unidos. Outro fiasco. Mandei que ele ligasse a bomba das mangueiras de incêndio — um botão vermelho para o off e um botão verde para o on. É claro que ele apertou o vermelho e foi embora.

— Não! Você tem que apertar o botão verde e depois se certificar de que está saindo água das mangueiras.

— Entendi.

Não, não entendeu, tive vontade de responder.

Depois mandei o marinheiro trancar as três portas que davam para o passadiço. Se os piratas embarcassem, todos os pontos-chave — como a praça de máquinas e o passadiço — deveriam estar bloqueados. Queremos evitar que os piratas assumam o controle do navio. Porque, uma vez que consigam, podem alterar o rumo para a costa da Somália, onde não existe polícia, e nos enfiar num esconderijo onde nem Jack Bauer seria capaz de nos encontrar. E depois poderiam nos vender a quem desse o lance mais alto, como a al-Qaeda.

Esse era o meu maior medo, e eu sabia que essa possibilidade aterrorizava minha tripulação inteira. Acabar em algum buraco fétido com uma venda nos olhos, amarrado a uma estaca como um animal, nas mãos de militantes fundamentalistas, é o pior destino imaginável. Todos temiam ser a próxima vítima.

O marinheiro deixou o passadiço. Colin estava fazendo tudo certo. Tinha passado o rádio do navio para VHF, acendido as luzes, ligado as bombas das mangueiras de incêndio e começado a simular algumas manobras evasivas.

— Qual é a senha para o caso de você não ter sido rendido? — perguntei.

Com aquela senha, quem estivesse trancado em um compartimento poderia saber se o companheiro do outro lado da porta estava sob a mira de uma arma.

— Sr. Jones — respondeu ele.

Errado. Na verdade, “Sr. Jones” era o código para SSAS (sigla em inglês para o Sistema de Alerta de Segurança do navio), que vem a ser o botão que o comandante aciona em caso de emergência, entrando em contato via satélite automaticamente com um centro de salvamento 24 horas. O operador de lá faz a pergunta: “O Sr. Jones está aí?” A resposta “Não” significa que o interlocutor não se encontra sob ameaça direta, e o agente então fará perguntas para avaliar a situação. Se você responder “Sim”, ele vai saber que o cano de um AK-47 está nas suas costas; o contato será interrompido, já que você não está em condições de responder livremente.

É como o código nuclear do presidente. O segundo oficial de náutica não deveria sequer conhecer a senha.

— Passou longe — respondi. — É “hora do jantar”.

Colin estremeceu. Estava claro que tínhamos muito trabalho pela frente.

Enquanto isso, o marinheiro de convés voltara ao passadiço. Sua tarefa era fechar as três portas de acesso àquele espaço, o que deveria ter levado uns vinte segundos. Ele tinha saído havia cinco minutos.

— Onde você esteve?

Eu já sabia a resposta.

— Fui fechar as portas.

— Quais?

— Todas, em todos os níveis.

— Elas têm trancas?

— Ahn... Não.

O único propósito de trancar as portas é isolar os conveses da superestrutura, evitando a invasão e criando áreas seguras onde a tripulação possa se refugiar. Portas destrancadas não são de grande ajuda para quem quer criar uma zona de segurança.

— Então você esteve fechando as portas; não trancando, não é?

— É — admitiu ele. — Só estava fechando as portas.

— O que não ajuda muito, certo?

— Não. Acho que não.

Colin balançou a cabeça.

— Repassei isso com ele umas seis, sete vezes — disse ele.

Assenti com a cabeça.

— Estamos em busca de excelência — falei. — Mas teremos que aceitar muito menos do que isso.

Alguns dos caras riram. Eles sabiam que essa era uma de minhas frases típicas.

O treinamento terminara. Reuni toda a tripulação, exceto o segundo oficial de náutica, no escritório do navio e passei em revista o que funcionara e o que saíra errado. O resultado estava longe de ser perfeito. Não quero passar a ideia de que aquela era a nau dos insensatos. A maior parte da tripulação era composta de bons marinheiros, mas cada comandante tem sua própria maneira de agir, e é preciso ensinar aos oficiais seu jeito de encarar as coisas. O primeiro treinamento foi um exercício para acordar o pessoal. Eu sabia que a tripulação reagiria e as coisas acabariam por melhorar drasticamente.

Durante os meus comentários, Mike, o chefe de máquinas, sugeriu:

— Que tal um segundo local seguro no compartimento da máquina do leme?

Se os piratas atacassem, o chefe de máquinas iria imediatamente para a praça de máquinas. O primeiro e terceiro oficiais de máquina seguiriam para o compartimento do leme e o restante da tripulação correria para o escritório do navio. Porém, se os piratas passassem por aquela porta, a tripulação precisaria de um segundo local seguro, e o compartimento da máquina do leme era perfeito. Ficava no final de um corredor estreito e encontrá-lo seria quase impossível para os piratas.

— Ótima ideia — disse. — Vamos cuidar disso, então.

— E se eles estiverem ouvindo o rádio? — perguntou um marinheiro.

— Pouco provável — respondi —, mas foi bem lembrado. Então não vamos mencionar locais. Se eu ouvir a voz do imediato, vou partir do princípio de que ele está no convés. Se ouvir o primeiro oficial de náutica, vou supor que ele esteja em sua posição. Os oficiais de máquinas, na praça de máquinas. Quem não tiver uma posição predeterminada deve seguir para o local seguro. Todos entenderam?

Os homens assentiram.

— Com o que mais podemos contar em caso de ataque de piratas? — perguntei.

— Temos as travas dos contêineres e os foguetes luminosos — respondeu alguém.

Essas travas são pesadas trancas de metal usadas para manter os contêineres presos ao convés. Eram ótimas para rachar a cabeça dos piratas, mas não ofereciam nenhuma precisão. Tínhamos dez delas no passadiço, prontas para serem usadas.

— Ok, todo mundo sabe o que é necessário para usá-las?

Mais acenos de cabeça.

Quando reunimos um punhado de marinheiros para treinamento contra ataques de piratas, em geral há um sujeito que viu filmes demais e quer enfrentar os filhos da mãe de igual para igual. Normalmente ele tem uns 65 anos, pesa 130 quilos e fica sem fôlego ao correr para chegar primeiro à fila do jantar. É claro que, quando já estávamos encerrando os trabalhos, aquele marinheiro já bastante curtido se manifestou:

— Capitão, precisamos de armas. Quero lutar.

Afinal, o lema da Academia da Marinha Mercante dos Estados Unidos era Acta non verba, ou “Atos, não palavras”.

Mas aquilo não ia acontecer. Aquele sujeito mal conseguia subir uma escada e agora queria enfrentar um bando de piratas jovens e atléticos, que num piscar de olhos podiam estripá-lo e jogá-lo por cima da amurada.

— Escutem, precisamos estar preparados. Lutar é uma opção, mas teremos que ver isso na hora. Primeiro assumimos nossas posições. Depois, preparamos as mangueiras e as luzes. Em seguida procuramos ficar em segurança. Todo mundo entendeu?

Por todos os lados vi acenos de cabeça.

— Então, se descobrirmos que eles só têm facas e porretes, podemos usar nossas machadinhas, machados e canos de chumbo. Podemos usar as travas dos contêineres como lanças.

A ideia de enfrentar os piratas como cavaleiros medievais pode parecer ridícula, porém já houve casos em que os tripulantes saíram do local seguro brandindo estacas e machados e os piratas entraram em pânico e pularam pela amurada do navio. Era uma atitude perigosa, mas a perspectiva de passar quatro meses como prisioneiros à espera do pagamento de um resgate era desesperadora para os marinheiros.

Também decidimos que, caso os piratas subissem a bordo, ninguém andaria com as chaves. Se eles capturassem um sujeito que estivesse com elas no cinto, poderiam ter acesso ao navio inteiro. Também ordenei que todo marinheiro trancasse quaisquer portas pelas quais passasse. Numa viagem anterior que fizera com Mike, eu tinha reclamado das barras das jaulas de pirata na praça de máquinas. A tripulação gostava delas porque permitiam a entrada de ar naquele interior abafado. Porém, isso significava que a pesada porta à prova d’água era deixada aberta, e eu queria que ela permanecesse fechada em todas as ocasiões, já que a praça de máquinas conduzia diretamente à superestrutura, e os invasores poderiam subir dali até o passadiço. Mike tinha concordado em tirar as barras e manter a grande porta de aço fechada o tempo todo. E já havíamos acertado que as linguetas das maçanetas deveriam ser instaladas pelo lado de dentro das portas à prova d’água, para evitar que os piratas estourassem os trincos a tiros. Já havíamos feito isso na superestrutura, mas algumas outras portas ainda precisavam de linguetas. Mike deu ordens ao seu pessoal para providenciá-las.

— Ótimo — disse. — Sei que essas precauções são uma chateação, mas elas podem salvar nossas vidas. Precisamos fazer melhor na próxima vez.

Com isso, deixei que todos voltassem aos seus afazeres. O exercício tinha demorado quinze minutos; a crítica aos procedimentos, trinta.

Outro capitão poderia ter escolhido aquele momento para chamar alguns caras de lado e distribuir broncas. Porém, ao longo dos anos, eu tinha aprendido uma maneira diferente de comandar. Não queria ser do tipo que berra, como fora o meu pai e como eram alguns comandantes com quem eu havia navegado. Eu sabia até que ponto aquilo tinha me impedido de compreender o que meu pai tentara me ensinar. Não queria visar à perfeição quando alguns sujeitos eram incapazes de alcançá-la. Tínhamos de engatinhar antes de começar a andar. E aí então poderíamos pensar em correr.

Esse instinto também remontava ao período da minha iniciação na marinha mercante — minha primeira viagem a serviço.

Ao sair da academia, dispunha de um certificado de segundo oficial de náutica que me permitia trabalhar no nível mais baixo da cadeia de comando de qualquer navio. Mas é preciso esperar pela oportunidade. Fui para casa e comecei a trabalhar como pintor de paredes, à espera da proposta certa de emprego. Tinha recusado rotas na Flórida e nas Bahamas — tediosas demais para o meu gosto. Estava na piscina de uma namorada quando o encarregado de arrumar pessoal para uma empresa de navegação me ligou:

— Tenho um navio e preciso de um segundo oficial de náutica.

— Para onde é?

— Alasca.

Alasca soava como algo diferente, até tentador. Três horas depois eu estava num avião rumo a Seattle.

Depois de passar quase metade de um dia voando, peguei um táxi até o cais. O motorista parou diante do que me pareceu uma pilha de ferro-velho flutuante.

— Lugar errado, meu irmão — falei. — Estou trabalhando num navio. Isso aí é uma barcaça.

Ele me olhou como se eu fosse deficiente mental ou algo assim:

— Você é o terceiro cara que trago aqui hoje. Isso aí é o seu navio.

Quando embarquei, o primeiro oficial de náutica disse:

— Você nunca mais vai subir num navio como este.

Ele tinha razão.

O Aleut Provider faria a rota de Seattle até o Alasca e depois voltaria. Seguiríamos a rota da Passagem Interior, passando por Charlottetown até Kodiak, pelas ilhas Aleutas, subindo então até as ilhas Pribilof, no círculo Ártico, parando num monte de vilarejos de pescadores onde se processavam o salmão e os caranguejos trazidos pelas traineiras. Atendendo a um contrato com o governo americano, também levaríamos suprimentos para as aldeias indígenas, mas tudo o que conseguíssemos trazer de volta era lucro limpo. De modo que o navio foi carregado com todos os produtos imagináveis típicos daquela região: peles de foca amontoadas no compartimento de carga, carne de salmão estocada em reservatórios refrigerados. E, empilhados no convés, bem acima do nível da amurada do navio, havia caminhões, tonéis de cerveja vazios para serem enchidos em Seattle, motocicletas, postes telefônicos, veículos para neve e hidrantes.

Parecia um cruzeiro da Família Buscapé destinado a lugar nenhum.

Eu era um segundo oficial de náutica de primeira viagem. Raramente falava com o capitão, e isso mostra quão baixo eu me encontrava na cadeia de comando. Meus aposentos resumiam-se a um minúsculo camarote com uma porta de madeira, que mais tarde viria a ser arrancada das dobradiças por uma tempestade e substituída por um cobertor de lã — minha única proteção contra os ventos do Ártico. Eu costumava acordar de manhã para encontrar o piso sob os meus pés coberto de água. E pensava na roubada em que havia me enfiado.

Na minha terceira semana no mar, meti-me em encrenca. O comandante havia registrado uma pequena infração supostamente minha e do primeiro oficial de náutica — teríamos deixado de redigir um relatório sobre as marés do porto seguinte. Na verdade, havíamos deixado por escrito o informe, só que o imediato, por engano, achara que os papéis eram rascunhos sem valor e os jogara fora. O imediato procurou o comandante para argumentar em nossa defesa, mas o sujeito se recusou a ouvi-lo. Então o imediato pediu demissão. O primeiro oficial de náutica, em solidariedade, também pediu, seguido por sua mulher, que trabalhava na cozinha do navio. O contramestre se demitiu. O marinheiro de convés também.

Todos se demitiram e abandonaram o navio. De repente, eu, um taxista, fui alçado à condição de imediato num navio rumando para o círculo Ártico. Tínhamos tão pouco pessoal que foi preciso contratar dois adolescentes, um de catorze anos e outro de dezesseis, como marinheiros de convés. O comandante não se incomodou. Ele só se importava com uma coisa: queria ter certeza de que todo mundo a bordo estava sóbrio. O capitão era um ex-alcoólatra que proibia todo tipo de bebida alcóolica no navio. Porém, de madrugada, alguns tripulantes se embebedavam com álcool 70%. É um negócio muito, muito forte, e alguma coisa nele deixava os homens meio malucos. Então o comandante saía do camarote uma vez por dia e gritava para mim: “Aqueles caras estão bebendo, Phillips? Acho que estou sentindo cheiro de álcool no navio!” E eu dizia: “Vou dar uma dura neles, capitão!” E passava várias noites bebendo com o pessoal.

Consegui convencer todo mundo a voltar para o navio. Mas, depois de algumas semanas, chegamos a Pelican Cove, no Alasca, onde só havia uma fábrica para processamento de pescado, seis ou sete casas e um bar. O comandante ordenou um pouco mais de trabalho, e a tripulação inteira deixou o barco novamente. Todos desceram pela prancha até o cais e foram direto para o Rosie’s Bottomless Bar.

Quando entramos, o barman disse:

— Ei, alguém de vocês viu um urso?

— Não, por quê?

— Bem, dois caras que desembarcaram do último navio que esteve aqui foram comidos por ursos.

Como se não bastasse eu precisar convencer os caras a voltar a bordo, também tive que ficar de olho para ver se não aparecia nenhum urso. Foi só de madrugada que finalmente consegui levar todos os desertores ao Provider.

O comandante estava na asa do passadiço quando retornei.

— Eu os trouxe de volta, capitão.

Ele se limitou a sorrir para nós. Todos foram para a cama, inclusive o comandante. Acordamos no dia seguinte, tomamos o café da manhã e voltamos ao trabalho. Ninguém disse uma palavra. Parecia que o caos criativo era a norma na marinha mercante.

Porém, a viagem também teve alguns momentos gloriosos. Dos conveses externos do navio, enquanto deslizávamos por aquelas águas maravilhosas, tínhamos visto alces, ursos, raposas. Orcas vinham à superfície a uma distância de cerca de vinte metros e nadavam lado a lado conosco durante milhas. Resgatamos dois pescadores, pai e filho, que estavam à deriva num barco a remo no meio do golfo do Alasca. O barco dos dois pegara fogo, e, mesmo com agasalhos especiais, o frio era tão intenso que ambos se encontravam à beira da morte por hipotermia. Estavam debatendo sobre quem atiraria em quem quando os encontramos. Sentiam tanto frio que não conseguiram sequer falar durante horas; permaneceram sentados, tremendo. Eles haviam ficado um dia inteiro vendo navios passarem ao largo, tão perto que dava para ler os nomes nos cascos, rente à água, mas ninguém escutara os gritos de socorro. Algum tempo depois, vi uma ilha coberta de árvores e neve no meio do mar, num ponto onde as cartas náuticas diziam não existir nada. Ao nascer do sol, a parte de baixo da ilha derreteu lentamente e a coisa toda desapareceu. Acabamos por descobrir que se tratava de um fenômeno chamado super-refração, graças ao qual, em altas latitudes, era possível ver para além da curvatura da Terra. Na realidade eu estava olhando para o topo de uma montanha a trezentas milhas de distância, mas a impressão era que passaríamos bem perto.

Aquele era um mundo que poucas pessoas tinham a chance de ver. Personagens estranhos, paisagens de tirar o fôlego, comportamentos escandalosos. Eu tinha ingressado na marinha mercante na esperança de me tornar parte de tudo aquilo.

Já me considerava fisgado.

Com aquela viagem, fui introduzido na arte de comandar homens. (Lição número um: aprenda como falar com os caras.) Também aprendi que, no mar, nada sai como a gente espera. É preciso estar preparado para uma variedade infinita de possibilidades, incluindo motins, ursos famintos e ilusões de óptica em alto-mar. E é preciso improvisar. Comandantes preocupados com uma única coisa — saber se a tripulação bebeu uma ou duas cervejas — logo perdem a confiança de seus homens.

Certamente isso era mais válido ainda nas águas do litoral da Somália. Para sobreviver em território apache, era preciso pensar como um apache.

 

___

 

O dia seguinte nasceu ensolarado e quente. A Agência de Inteligência Naval dos Estados

Unidos, em Maryland, nos enviou um e-mail com seu mais recente boletim sobre Ameaças Mundiais à Navegação. Eu o abri imediatamente. Ataques piratas e outras ameaças estavam

discriminados por região. Para o Atlântico Norte, o Mediterrâneo e todo o oceano Atlântico, não havia um único incidente registrado.

Pulei para o setor da África Oriental. Havia 39 ataques registrados. Numa única semana. Respirei fundo. Era como ler um relatório de registros policiais para marinheiros, e ele me dizia que a África Oriental era o último lugar do mundo em que eu gostaria de estar naquele momento.

Passei os olhos pela lista:

 

1. Navio registrou aproximação de uma embarcação suspeita em 20 de março à hora

0600 UTC, Bab-el-Mandelb.

2. Cinco homens armados em duas lanchas de alta velocidade se aproximaram de navio

por bombordo, Bab-el-Mandelb.

3. Navio-tanque levando produtos químicos registrou tentativa de abordagem em 29 de

março, golfo de Áden.

4. Navio-tanque alemão (FGS SPESSART) alvo de tiros em 29 de março de 2009. Sete

piratas numa lancha abriram fogo contra um navio de guerra achando que fosse da marinha mercante, golfo de Áden.

5. Navio alvo de disparos, por pequena embarcação com sete homens armados com AK-

47, golfo de Áden.

6. Graneleiro (TITAN) sequestrado em 19 de março. Seis homens em lancha armados com

AK-47 e pistolas abordaram e sequestraram o navio, golfo de Áden.

7. Cargueiro (DIAMOND FALCON) alvo de tiros em 14 de março de 2009. Homens com

armas automáticas e lança-granadas a bordo de duas lanchas rápidas dispararam contra o navio.

8. Navio registrou tentativa de sequestro em 1º de janeiro de 2009 à hora 1730, horário

local, golfo de Áden.

9. Graneleiro alvo de disparos em 30 de março de 2009. Uma lancha se aproximou do

navio enquanto um navio-mãe foi avistado mais além, oceano Índico.

10. Navio porta-contêineres registrou aproximação de embarcação suspeita em 28 de

março de 2009, Tanzânia.

 

Os piratas estavam abordando e atacando qualquer tipo de embarcação que se aproximasse do Chifre da África: petroleiros, escunas de pesca e até luxuosos navios de cruzeiro. Nada estava seguro naquela área. Tantos navios desciam pela costa oriental da África que só nos restava torcer para que não tivéssemos o azar de ver algumas embarcações piratas pipocando no radar. Se os detectássemos, havia poucas maneiras de evitar um ataque: podíamos contar apenas com velocidade, mangueiras de incêndio e a capacidade de enganá-los. Os somalis dispunham de armas automáticas, lanchas, lança-granadas e a reputação de serem impiedosos.

Era como um leão e uma manada de gnus numa planície africana. Tínhamos a esperança de que nossos números nos protegessem, porque, se o leão pegasse alguém, seria muito, muito ruim. E, da mesma forma que o leão busca algum sinal de fraqueza — o mais lento, o manco, o jovem —, os piratas miravam em navios aparentemente indefesos.

No entanto, os americanos pareciam estar fora do alcance dos piratas. Fazia duzentos anos desde a última vez que marinheiros de um navio americano tinham sido capturados por piratas, na época dos corsários berberes, bandidos muçulmanos que atuavam a partir de portos do Norte da África, como Trípoli e Argel, do outro lado do continente. Naquele tempo, a pirataria estava no alto da lista de prioridades do presidente Thomas Jefferson. Em 1801, 20% do orçamento federal dos Estados Unidos foi gasto no pagamento de resgates a bucaneiros africanos. Os tripulantes capturados trabalhavam como escravos nas residências luxuosas dos chefes piratas argelinos. Os Estados Unidos chegaram a travar duas guerras sangrentas com esses estados berberes, inspirando o segundo verso do hino dos fuzileiros navais — “à costa de Trípoli”.

Isso acontecera havia muito tempo. A pirataria se apagara da memória americana. E, se você tivesse problemas, estava por sua própria conta e risco. A marinha dos Estados Unidos não atuava mais no ramo da caça aos piratas havia pelo menos dois séculos. Porém, ao fim do segundo dia, senti que a tripulação estava pronta para enfrentar um ataque. É claro que sempre podíamos fazer algo melhor, mas tivéramos um bom começo. Mal sabia eu que os homens que iriam pôr à prova nossos limites já estavam no mar.