Dicionário Histórico-Social do Oeste Catarinense

José Carlos Radin · Capítulo 10 de 35

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Dicionário Histórico-Social do Oeste Catarinense

Cultura

A cultura é constituída por um conjunto de símbolos e significados produzidos pelo homem e estabelecidos socialmente, que orientam condutas e comportamentos humanos em sociedade. O ser humano tanto produz cultura como é por ela produzido. Assim, a cultura não deve ser vista como algo já constituído e permanente, mas como algo vivo e dinâmico, que é constantemente reinventado e enriquecido com novos significados (GEERTZ, 1989).

A cultura do Oeste catarinense é resultante da herança cultural indígena e cabocla, superposta pela forte herança cultural colonial e a progressiva imposição de valores culturais associados à modernização capitalista. Esse amálgama de culturas se constitui na base a partir da qual se definirão os traços culturais da região Oeste catarinense. Assim, pode-se dizer que a história cultural do Oeste catarinense está marcada pela sucessão e mistura de diversas culturas típicas dos povos que ali viveram e ainda vivem nos dias atuais, tais como a cultura indígena, a cultura cabocla, a cultura dos colonos e a cultura que resultou deste amálgama cultural e de sua evolução histórica. Assim, a cultura se reelabora nos diferentes processos. Por mais fortes e enraizadas que sejam, as culturas não permanecem sempre iguais e as mudanças mais acentuadas ocorrem quando não há apenas sucessão de culturas, mas uma verdadeira política de destruição de culturas, como ocorreu nesta região com as culturas indígena e cabocla. No entanto, no caso presente, não houve necessariamente uma destruição plena dessas culturas, pois elas ainda persistem nas comunidades originais e foram assimiladas pelos colonos.

As culturas indígenas do Oeste catarinense constituem um diversificado e rico mosaico de tradições, línguas, rituais, mitos, hábitos, visões de mundo e formas de organização social e política que, por trás de sua aparente simplicidade, representam culturas complexas e sofisticadas. Elas se pautam pelo respeito à natureza e por um modo de vida sustentável, na floresta, numa economia de subsistência alimentada pela caça, pesca e coleta de frutos silvestres. Essas culturas de tradição indígena estão permeadas pelos valores da religiosidade própria e também por valores herdados de um certo catolicismo popular, das crenças e dos costumes, o culto aos mortos, a culinária típica, o gosto pela música e as variadas formas de expressão artística, suas pinturas, o artesanato, a cestaria e a cerâmica.

A cultura cabocla incorporou muitos dos valores religiosos e culturais dos povos indígenas. Ela também é formada por hábitos, costumes, rituais, crenças, lendas, rezas e benzeduras, saberes e práticas disseminadas no modo de vida caboclo. Também, no processo, ocorreu a reinvenção de muitos desses elementos presentes nas tradicionais festas caboclas, ou em decorrência do contato com outros grupos.

Essa cultura foi atacada, primeiro pela colonização e, depois, pelo avanço das forças da modernização capitalista, que, por sua vez, também afetaram os valores e o modo de vida dos colonos. Mas a cultura cabocla tenta preservar-se, resistindo a esses ataques e mesmo revitalizando-se ao longo do tempo. Não só a manutenção, mas também a transmissão desses elementos culturais é fundamental para a sobrevivência biológica e cultural dos caboclos enquanto grupo étnico-social. Todos esses traços e características específicas estavam muito presentes quando do início do processo de colonização, que provocou um choque entre esses dois grupos étnicos distintos, com culturas bastante diferenciadas, convivendo e disputando o mesmo espaço, em meio a relações marcadas por conflitos e preconceitos mútuos (POLI, 2001). A colonização praticamente destruiu “as condições de sobrevivência e reprodução da cultura e do habitus dos caboclos”, da forma como foram construídas na região antes da chegada dos migrantes.

As diferentes características socioculturais de caboclos e colonos têm por base a família, como seu núcleo social central, embora o conceito da família cabocla seja mais amplo que o da colonial. A afirmação da cultura dos colonos se dá através da negação da cultura cabocla, com tudo o que ela significa em termos de valores, hábitos e modo de vida, tanto nos aspectos da produção material, quanto das manifestações culturais. Ao negar os principais elementos da cultura cabocla, a cultura dos colonos foi, aos poucos, incorporando a ideologia e o preconceito das elites dominantes contra a população cabocla. Tal perspectiva se construiu no contexto da colonização, especialmente na primeira metade do século XX, quando era corrente entre a intelectualidade a cisão da humanidade em grupos. A eles se relacionava um conjunto de valores positivos ou negativos, principalmente quando se reportava às populações autóctones, caboclas ou mestiças.

A progressiva e cada vez mais intensa integração da agricultura familiar, forma dominante da organização econômica e social dos colonos com o mercado através das relações de troca e do predomínio da forma capitalista de produzir, fez com que o modo de vida e os costumes dos colonos fossem afetados pelos valores de mercado, sem que esse processo implicasse na negação de suas características socioculturais. “Trata-se de um patrimônio cultural original tão enraizado nos valores do trabalho, da parcimônia, da solidariedade e da religiosidade, que consegue se imunizar contra as forças corrosivas do mercado” (POLI, 2001).

A inserção dos colonos no modo de produção capitalista é sempre uma inserção subordinada, mesmo que de um lado signifique a negação da cultura cabocla e de outro a aceitação dos valores econômicos, socioculturais e ideológicos que acompanham o processo de modernização capitalista. Aquela sociedade colonial estava organizada e era regida por um conjunto de valores morais e culturais básicos, que demarcavam os contornos de sua identidade. Entre tais valores, Poli (2001) aponta o “valor do trabalho e do sofrimento, o respeito à propriedade, o caráter sagrado e indissolúvel da família, a regulamentação da sexualidade e da procriação, o princípio hierárquico de autoridade, a importância da vida comunitária, noções de direito e de justiça, retidão e sobriedade na conduta”.

Em síntese, os traços culturais das populações que formam a sociedade do Oeste catarinense, resultam de uma combinação de culturas dos diversos povos que habitaram e dos que ainda habitam a região, como os povos indígenas, a população cabocla, com elementos das culturas africana e portuguesa, e a cultura dos colonos migrantes. Por sua vez, os traços culturais que acompanham o processo de colonização, embora tenham se constituído a base do modo de vida dominante, por um longo período de tempo, não eliminam a permanente tensão que enfrentam entre a negação da cultura cabocla e a pressão dos novos valores culturais tipicamente capitalistas, que tendem a afirmar-se com muita força nos tempos atuais.

Por fim, destaca-se a “invenção de tradições” por parte dos diferentes grupos que forjaram a cultura regional. Tornaram-se comuns festas “caboclas”, “italianas”, “alemãs”…, que, se por um lado inventam elementos de uma suposta tradição étnica, até mesmo para preencher lacunas de perdas sofridas, por outro, revitalizaram o etnicismo em vários sentidos.

 

Referências

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.

MARQUETTI, Délcio; LOPES DA SILVA, Juraci B. Religiosidade e religião no oeste de Santa Catarina: a crença no monge João Maria e a instituição do Catolicismo. Revista de Humanidades, 11(29), 2011 – jan./jul. Natal: UFRN. Disponível em:

<http://www.periodicos.ufrn.br/ojs/index.php/mneme>. Acesso em: 10 fev. 2017.

POLI, Odilon L. Camponeses no Oeste Catarinense. In: Cadernos do CEOM. Ano 15 nº 14 Chapecó: dezembro/2001.

______. A luta da erva: um ofício étnico no oeste catarinense. Chapecó: Grifos, 1997.

______. Identidade Comunitária. III Seminário Temático. Unochapecó, 21/10/2004.

______. Sociodiceia às avessas. Chapecó: Grifos, 2006. SAVOLDI, Adiles. Cultura Kaingang: a educação indígena demarcando as fronteiras da diferença. XI Congresso Luso Afro-Brasileiro de ciências sociais. Salvador: UFBA – 2011.