Dicionário Histórico-Social do Oeste Catarinense

José Carlos Radin · Capítulo 31 de 35

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Dicionário Histórico-Social do Oeste Catarinense

Oeste catarinense

Uma região não é algo natural, mas uma construção humana, um espaço permeado de relações sociais. Nessa perspectiva, uma região define-se e diferencia-se de outras, por uma série de fatores característicos que envolvem sua configuração histórico-geográfica, territorial, demográfica, cultural, socioeconômica e político-administrativa. É por partilhar de forma diferenciada e específica algumas dessas características que o Oeste catarinense se define como uma região.

A formação histórica da Região Oeste de Santa Catarina reporta-se aos povos indígenas, que há muitos séculos habitavam a região. Seus representantes mais recentes são as tribos Xokleng e principalmente a Kaingang. Esses povos dominaram a região até meados do século XIX, quando passou a ser disputada também por outras populações, notadamente tropeiros e caboclos. Os primeiros conquistadores foram os paulistas que, percorrendo o “Caminho das Tropas”, tropeavam o gado dos campos do Sul para o centro comercial de Sorocaba. Posteriormente foram abertos novos caminhos para o Sul, ao longo dos quais se formaram pousos, currais, vilas e fazendas de gado, nos campos do Oeste. No início do Século XX, a Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande do Sul (EFSP-RG), passando pelas terras contestadas, à margem dos rios do Peixe, Uruguai e Passo Fundo, estabeleceu um novo marco na ocupação da região.

Do ponto de vista territorial, a construção da região Oeste catarinense passou por diversas disputas de fronteiras e configurações espaciais (RENÊ, 2004). Inicialmente, entre Portugal e Espanha, depois entre Brasil e Argentina, a Questão de Palmas e, finalmente, a disputa entre Paraná e Santa Catarina, um dos motivos da Guerra do Contestado (1912-1916), quando se definiu que o referido território pertencia ao estado de Santa Catarina. No entanto, para manter o território conquistado do Paraná era preciso “povoá-lo”, para tanto, investiu-se num intenso processo de colonização (PAIM, 2006).

Em termos geográficos, esta região corresponde a Mesorregião do Oeste Catarinense, uma das seis que compõem o Estado de Santa Catarina. É formada por cinco microrregiões: Chapecó, Concórdia, Joaçaba, São Miguel do Oeste e Xanxerê. Ao todo abrange 118 municípios, que fazem fronteira com as Mesorregiões Norte e Serrana de SC, com os estados do Paraná e Rio Grande do Sul e com a República Argentina. No entanto, além dos aspectos geográficos e territoriais, esta Região se define e se diferencia de outras por suas peculiaridades históricas, socioeconômicas e político-administrativas.

A formação econômica da Região Oeste compreende diversas fases e ciclos, que incluem a ocupação dos campos, com as grandes fazendas de criação pecuária, a ocupação das matas para a extração da erva-mate, a atividade madeireira, o processo de colonização e a agricultura familiar e, finalmente, a formação e o desenvolvimento dos complexos frigoríficos e agroindustriais. Os ciclos da pecuária, da erva-mate e o da madeira tiveram uma importância econômica reduzida, pouco contribuindo para a formação do capital e o desenvolvimento econômico regional. Este só veio a receber um impulso decisivo com o processo de colonização da região, pois foi a partir da agricultura familiar de subsistência, especialmente através da criação de suínos que veio dar início a acumulação de capital. A criação de suínos, por sua vez, deu origem à poderosa agroindústria frigorífica da região. A característica principal da formação agroindustrial consiste na peculiar articulação que se estabeleceu entre as indústrias frigoríficas e a agricultura familiar, tornando-se a base econômica regional desde o período da colonização, nas décadas de 1920 a 1940.

A formação social desta região caracteriza-se pela constituição das sociedades que ali se estruturaram, a partir tanto das relações de propriedade e de trabalho, como das relações étnico-culturais entre os povos que habitaram a região. Via de regra, mas não exclusivamente, a formação social de uma região costuma acompanhar sua formação econômica, que lhe serve de base, embora não possa ser explicada unicamente pelos fatores de ordem econômica, pois sofre influência decisiva de outros fatores de ordem cultural, religiosa, política e mesmo simbólica. No caso da Região Oeste Catarinense, sua formação social constituiu-se pela evolução de quatro fases sucessivas e superpostas ao mesmo tempo: a formação social nativa, formada pelas sociedades indígenas, a formação social cabocla, a formação social colonial e a formação social capitalista.

Num segundo momento, temos a mescla da sociedade primitiva e cabocla, num período que vai desde as primeiras ocupações do território oestino até aproximadamente 1930, quando se intensifica o processo de colonização propriamente dito, com colonos de origem europeia, italianos, alemães e poloneses, procedentes do Rio Grande do Sul. O processo de colonização trouxe grandes transformações para a Região Oeste catarinense, não apenas em relação à ocupação e ao povoamento do território, mas também no tocante às relações sociais que se desenvolveram nas novas colônias, alterando modo de vida, lazer, trabalho, uso da terra e o cotidiano cultural dos colonos. Foi a partir do longo processo de colonização que se constituiu a terceira fase desta formação social regional, a “formação social colonial”, a qual mescla traços da formação social anterior com traços de uma sociedade familiar capitalista. Uma quarta e última fase pode ser denominada “formação social capitalista”, a qual se constitui ao mesmo tempo em que se forma e desenvolve o complexo frigorífico e agroindustrial.

A atual identidade regional do Oeste catarinense começa a definir-se com mais força a partir das importantes medidas de caráter político-administrativas tomadas nas primeiras décadas do século XX, através das quais o território regional foi dividido em duas grandes áreas administrativas, ambas emancipadas em 25 de agosto de 1917, o município de Cruzeiro, atual Joaçaba, no Meio Oeste, e o de Chapecó, que abrangia uma extensa área de aproximadamente 14 mil km2 e se estendia até a fronteira argentina. Tais medidas foram fundamentais para o fortalecimento da atual identidade regional e sua integração com o restante do território estadual, bem como para iniciar um processo de desenvolvimento socioeconômico regional.

Referências

CEOM - Centro de Memória do Oeste Catarinense (Org.). Para uma história do Oeste Catarinense: 10 anos de CEOM. Chapecó: UNOESC, 1995.

OLIVEIRA, Antônio Marcos P. A dinâmica do desenvolvimento regional. (Dissertação de Mestrado). Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 2010.

PAIM, Elison Antonio. Aspectos da constituição histórica da Região Oeste de Santa Catarina. Saeculum. Revista de História. [14]; João Pessoa: jan./ jun. 2006.

RENK, Arlene. A Colonização do oeste catarinense: as representações dos brasileiros. CEOM – Centro de Memória do Oeste Catarinense (Org.). Para uma história do Oeste Catarinense: 10 anos de CEOM. Chapecó: UNOESC, 1995.

______. Identidade comunitária. Chapecó: Argos, 2004.