Dicionário Histórico-Social do Oeste Catarinense

José Carlos Radin · Capítulo 3 de 35

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Dicionário Histórico-Social do Oeste Catarinense

Agroindústria familiar

A agroindústria familiar é definida como um empreendimento rural, de pequeno porte, que utiliza métodos artesanais de produção, usa sua própria matéria-prima e emprega mão de obra familiar, para produzir, processar ou transformar parte de sua produção, com objetivo de agregar valor e vender seus produtos para o mercado. Uma parte de sua produção, contudo, destina-se ao próprio consumo da família. Na sua origem, a agroindústria familiar pode ser entendida como uma diversificação produtiva dentro da agricultura familiar. Embora esse tipo de atividade tenha recebido várias denominações, como agroindústria rural, agroindústria de pequeno porte, agroindústria artesanal ou agroindústria colonial, a denominação mais consagrada foi a de agroindústria familiar. Em geral, essas organizações são de caráter individual ou familiar, mas há também agroindústrias societárias, geralmente com pequeno número de sócios.

Essas atividades se alimentam de saberes e práticas cotidianas tradicionais da agricultura familiar. Parece claro que os colonos sempre souberam processar alimentos para seu autoconsumo, pois foi a partir desse ofício que se desenvolveram as novas agroindústrias familiares na região. As atividades da agroindústria familiar alimentam-se de saberes e práticas cotidianas tradicionais da agricultura familiar. Trata-se de um saber fazer, de um capital cultural transmitido de geração para geração. Foi justamente este capital cultural que deu o suporte para o desenvolvimento das novas agroindústrias familiares na região. Mas não se trata de simples repetição das mesmas atividades de processar alimentos, prática que os agricultores sempre fizeram, pois agora, no âmbito da agroindústria familiar, o processamento de alimentos ganha um conteúdo comercial. Há uma mudança na própria natureza da produção de alimentos, quando seu novo objetivo passa a ser a agregação de valor aos mesmos produtos. Muda-se o objetivo, que era produzir valores de uso para o consumo, para a produção de valores de troca para o mercado.

Nesse sentido, a formação das agroindústrias familiares não é a repetição das atividades tradicionais de agricultores. Trata-se de uma reconversão da agricultura familiar e não simplesmente de uma volta ao passado; um verdadeiro passo à frente. Transformar um produto caseiro de consumo familiar em produto comercial – valor de uso em valor de troca – significa uma forma de reinventar atividades antigas e tradicionais, uma nova forma de reinserção econômica e social dos pequenos agricultores familiares.

As iniciativas para formar novas agroindústrias familiares, no entanto, não surgem do acaso, mas resultam de uma longa tradição cultivada pelos agricultores, desde os tempos da colonização, que tem por base, além das relações de parentesco e de boa vizinhança, uma cultura de sociabilidade, solidariedade, religiosidade e confiança mútua entre as famílias de agricultores, pois sempre foram muito comuns, no meio rural, a troca de dias de serviço, o mutirão, os trabalhos coletivos nas lavouras e, dentre outras ações coletivas, a ajuda mútua na construção de equipamentos coletivos, como igrejas, escolas e salões comunitários.

O tema da agroindústria familiar rural e do processamento dos produtos agrícolas pelos próprios agricultores ficou longo tempo fora do debate e só foi retomado ao longo da década de 1980. Essa retomada das discussões sobre a agroindustrialização familiar passou a ganhar força principalmente com as dificuldades pelas quais passaram as atividades exclusivamente agrícolas enquanto fonte de renda das famílias rurais e as reconfigurações dos mercados agroalimentares. Ao mesmo tempo, essas atividades foram reconhecidas como importantes e passaram a merecer a atenção de um crescente número de programas governamentais de incentivo ao desenvolvimento das agroindústrias familiares.

De modo geral, o contexto mais amplo em que surgiram as novas agroindústrias familiares foi o processo de modernização pelo qual passou todo o sistema agroalimentar brasileiro, que afetou profundamente os pequenos agricultores familiares. No Oeste catarinense, também, a reestruturação do complexo agroindustrial tradicional, a partir dos anos 1980, implicou a exclusão de dezenas de milhares de pequenos agricultores integrados à indústria frigorífica de suínos e aves, gerando uma crise não apenas na agricultura, mas em toda a economia regional, dada a importância que tem a agricultura familiar na economia da região, especialmente em relação ao emprego da mão de obra agrícola.

Foi neste contexto de crise da pequena produção agrícola do Oeste catarinense que começaram a estruturar-se as novas agroindústrias familiares, como uma reação à própria situação de crise da agricultura familiar. Das quase duas mil agroindústrias familiares de Santa Catarina, cerca de 500 estão localizadas no Oeste e Extremo Oeste catarinense, o que evidencia a significativa concentração dessas atividades na região. Outro fator que serviu de estímulo ao ressurgimento das agroindústrias familiares foi a intensificação do processo de industrialização e globalização da produção de alimentos, que aumentou a desconfiança e a incerteza dos consumidores sobre a origem e a qualidade dos alimentos que consumiam. Passou-se a demandar alimentos mais saudáveis, com origem conhecida, com menores riscos à saúde e ao meio ambiente e, assim, começaram a ser valorizados produtos orgânicos, com denominação de origem e da agricultura familiar, associados à tradição, à natureza, ao fazer artesanal e aos mercados locais.

As agroindústrias familiares são estimuladas pela proximidade entre os produtores e os consumidores, o que, além de implicar a redução de custos, confere aos consumidores uma maior confiança sobre os produtos, por conhecerem sua procedência. Muitas vezes, entretanto, se desconhecem as condições sanitárias em que são produzidos, em razão da inexistência de fiscalização. Por outro lado, tem sido crescente a presença das feiras no meio urbano com uma expressiva participação das agroindústrias nesses espaços. Processa-se, assim, uma espécie de redescoberta do mercado local pelos agricultores familiares.

As novas agroindústrias familiares do Oeste catarinense apresentam duas características básicas: primeira, não são atividades monocultoras, pois abrangem o cultivo e processamento de vários produtos; segunda, um elevado percentual delas é dirigido por mulheres, cujo papel se destaca também na comercialização dos produtos, feita no mercado local, num comércio caracterizado por relações diretas, tanto com os consumidores, quanto com os pequenos varejistas.

Trata-se de agroindústrias que se dedicam ao cultivo e processamento de vários produtos, cuja comercialização é feita no mercado local, num comércio caracterizado por relações diretas, tanto com os consumidores, quanto com os pequenos varejistas. É significativo, também, o número de agroindústrias familiares que vendem para o mercado institucional, como a alimentação escolar e o Programa de Aquisição de Alimentos. No entanto, preponderam as vendas diretas ao consumidor, pois, na maior parte dos casos, o consumidor compra diretamente no próprio empreendimento ou o empreendedor faz a entrega do produto no domicílio do cliente consumidor. Esses empreendimentos familiares carecem de assistência técnica e assessoramento em relação a vários pontos, como as relações de mercado com seus clientes, as formas de controle geral e, sobretudo, o controle de qualidade dos produtos, o planejamento financeiro e a gestão das atividades como um todo. A maioria dessas organizações já ultrapassou o período crítico de sobrevivência, que, de modo geral, afeta as pequenas empresas de outros setores de atividades. Observa-se, ainda, um elevado grau de informalidade de muitas dessas organizações ainda não cadastradas como pessoas jurídicas e um deficiente controle sanitário sobre muitos de seus produtos, sobretudo os de origem animal. A correção desses problemas parece fundamental para a sobrevivência e para o bom desempenho dessas organizações familiares.

Uma avaliação preliminar indica que os resultados dessas novas atividades, em geral, são positivos, especialmente em termos de geração de renda complementar e de emprego agrícola. No entanto, parece prematuro e exagerado esperar que tais atividades possam constituir o embrião de mudanças qualitativas no modelo de desenvolvimento agrícola da região. Sem negar sua importância real para o conjunto de agricultores nelas envolvidos, o que parece estar em questão não é tanto a agricultura familiar e o desenvolvimento regional, mas a reprodução social de um importante contingente de agricultores familiares. Trata-se, sobretudo, de uma questão de emprego, sobrevivência e reprodução dessas famílias mais do que da estruturação de um novo modelo de desenvolvimento regional do Oeste catarinense. Sua natureza, seu alcance e seus limites definem-se no contexto maior de uma economia capitalista nacional e regional concentrada em grandes empresas agroindustriais que atuam em mercados fortemente globalizados.

 

Referências

MIOR, Luiz Carlos. Agricultores familiares, agroindústrias e redes de desenvolvimento rural. Chapecó: Argos, 2005.

MELLO, Márcio Antônio de; SCHNEIDER, Sérgio. A Produção de “novidades” como alternativa à crise pelos agricultores do Oeste de Santa Catarina. Desafio Online: Campo Grande, v. 1, n. 3, set./dez. 2013.

RENK, Arlene. Sociodiceia às avessas. Chapecó: Grifos, 2006.