Dicionário Histórico-Social do Oeste Catarinense
Monges
Os monges foram personagens que peregrinaram por diversas cidades do Sul do Brasil, sobretudo pelas terras do Oeste catarinense, na segunda metade do século XIX e início do século XX, pregando, fazendo profecias e “curas milagrosas”. Eles reuniam grande número de fiéis seguidores. Há controvérsias sobre o número, o nome e o papel desempenhado por eles.
Para Machado (2001), houve, pelo menos, três monges diferentes, que percorreram a região da Fronteira Sul naquele período. O primeiro foi João Maria de Agostinho, um monge peregrino de origem italiana, que esteve em Sorocaba, em dezembro de 1844, percorreu o sul do Brasil, incluindo Candelária e Campestre no Rio Grande do Sul, durante anos, e teria desaparecido misteriosamente. Welter (2007) refere-se a este monge como sendo José Maria d´Agostinho.
Em estudo recente, Karsburg (2012) reconstituiu a longa e incrível trajetória do monge eremita. Evidencia sua passagem em vários estados do Brasil, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. Também mostra que ele foi o “peregrino das Américas”, passando pela Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru, México, Cuba, Canadá e Estados Unidos. No Botucaraí, próximo a Santa Maria da Boca do Monte, em 1948, foi detido e levado a Porto Alegre para prestar esclarecimentos sobre sua participação no evento das “Águas Santas”. A ele se atribuiu a descoberta da fonte de água milagrosa. No ano seguinte teria autoexilado-se na ilha de Arvoredo, ao norte de Desterro. Não apenas o povo, mas autoridades e padres o reconheciam pelo seu conhecimento das escrituras e das línguas latina e francesa. Teria sido recebido por D. Pedro II e inocentado pelo ministro da Justiça, Euzébio de Queiroz, “das suspeitas de charlatanismo, exercício ilegal da medicina, falsas promessas de cura e impostura religiosa”. No Rio de Janeiro viveu na Pedra da Gávea, onde recebia visitas de escravos que iam levar-lhe mantimentos a mando dos seus senhores e de lá retornavam com rosários e crucifixos fabricados pelo eremita. “Após realizar nova travessia pelos sertões meridionais brasileiros, apresentou-se à Secretaria de Polícia de Porto Alegre, em 10 de fevereiro de 1852, requerendo passaporte para o Paraguai”. Foi para a província de Misiones, onde se estabeleceu no Cerro del Monje, seguindo sua peregrinação pela América. Em 1853, esteve novamente em Buenos Aires e entre 1855 a 1858 permaneceu no Chile. Passou após pela Bolívia (1858), pelo Peru (1859), pelo México e por Cuba (1861), até atingir o Canadá, em 1862, ano que também marcou sua entrada nos Estados Unidos, onde fez longa caminhada de quase mil quilômetros, até estabelecer-se no Novo México. Alertado pelos moradores que seria perigoso viver sozinho em função da presença de índios, teria dito: “toda a sexta-feira acenderei uma fogueira para avisar que continuo vivo e orando por vocês”. Em abril de 1869, como a fogueira no alto do cerro não mais se acendeu, os moradores subiram até a caverna e “encontraram-no estendido, de bruços e segurando firmemente seu rosário. Havia sido assassinado, crime jamais solucionado”.
Sobre o segundo monge, há consenso que seria João Maria de Jesus, de origem síria, cujo nome original era Anastas Marcaf. Com características e trajetória semelhantes ao primeiro, também percorreu a região e exerceu grande influência no imaginário da população cabocla, que passou a atribuir-lhe poderes e práticas milagrosas e a ser chamado de São João Maria e também teria desaparecido misteriosamente, entre 1908 e 1910 (MACHADO, 2001). Muitos seguidores acreditam, entretanto, que teria passado a viver de forma “encantada” até hoje no morro do Taió, pequena localidade próxima de Rio do Sul. Um terceiro monge, José Maria, apareceu na região contestada, em 1912, “uma figura de passado nebuloso”, cuja personalidade e papel dividiu os próprios caboclos (MACHADO, 2001), envolvidos em diversos episódios que precipitaram a guerra sertaneja. Para alguns, o monge José Maria era um falso profeta que explorava a boa fé do povo, cuja vinda já fora prevista pelo monge anterior, São João Maria, de quem ele se dizia irmão; para outros, porém, se tratava de um homem penitente dedicado a ações de cura e de caridade. Para seus adversários, principalmente padres e autoridades, tratava-se de um charlatão curandeiro. Os que conviviam com ele negam tais acusações, pois suas práticas de curandeirismo com ervas medicinais eram muito comuns e aceitas como práticas normais na região. Como seus antecessores, José Maria perambulou por muitos municípios do território contestado, pregando, fazendo profecias e praticando curas milagrosas, até que, por razões fortuitas, juntou-se aos caboclos, acampados, primeiro em Taquaruçu e depois no Irani, quando foi atacado e morto pelas forças militares do Estado do Paraná, em 22 de outubro de 1912, no episódio que marcou o início da Guerra do Contestado.
Segundo consta no Formulário de Apresentação de estrangeiros, lavrado em Sorocaba, em 24 de dezembro de 1844, João Maria d ´Agostinho teria desembarcado no Pará, de onde viajou para o Rio de Janeiro, chegando depois a São Paulo. Declarou ter 43 anos, ser solteiro, como profissão ser solitário eremita e veio ao Brasil exercer seu ministério religioso. Declarou, também, morar nas matas do Termo da Cidade, em Sorocaba, de onde iniciou sua peregrinação pelos estados do Sul, principalmente nas terras do Contestado do Paraná e Santa Catarina, mas percorreu também cidades do Rio Grande do Sul e fez incursões pelo Paraguai. Fachel (1995) refere-se a este monge como sendo João Maria de Agostini e analisa sua presença em diversas cidades do Rio Grande do Sul. Sua popularidade atraía muita gente e a aglomeração de seguidores preocupava as autoridades, que inclusive mandaram prendê-lo. A mesma popularidade também é constatada em várias cidades do Paraná e do Mato Grosso.
O monge João Maria de Jesus, além de certa semelhança física, tinha muitas outras semelhanças com o primeiro monge, João Maria de Agostinho, como o hábito de fixar cruzes pelo caminho, a indicação de fontes de águas sagradas e o constante peregrinar. O segundo era tratado como São João Maria, pelos seus supostos poderes milagrosos e pelas curas que seus devotos lhe atribuíam.
No imaginário popular, João Maria teria voltado depois de sua morte na pessoa de outros monges peregrinos que percorreram a região. Na crença popular, ele sequer teria morrido. Welter (2007) faz referência à hipótese da superposição identitária dos monges conhecidos como João Maria, que percorriam a região. Esses diversos peregrinos reconhecidos como sendo o monge João Maria possuíam traços comuns: são pessoas que não se enquadram na estrutura social vigente e até representam sua negação; receberam, em sonho, a missão de peregrinar pelo mundo penitenciando-se e pregando; têm origem e morte incertas; possuem qualidades de mediadores por excelência do mundo do sagrado; são peregrinos, sem lar, sem família e sem residência; penitentes, pregam o apocalipse como castigo divino e busca de um sentido para um mundo sem sentido; possuem um poder milagroso de cura e o poder da imortalidade, uma vez que alcançaram a perfeição da condição humana aqui na Terra. (MOURÃO, 1975).
Welter (2007) chega a considerar os dois monges João Maria como um único sujeito, tido pela população como monge peregrino, monge santo, mago prodigioso, profeta, homem simples entre os sertanejos, que pregava e praticava o bem, orava, aconselhava, batizava, receitava remédios, predizia fatos terríveis, profetizava o fim do mundo, pregava penitências, fornecia uma esperança aos sertanejos, orientava sobre a vida cotidiana. Dessa forma, João Maria é um nome que não só aglutina os diversos monges, mas expressa a unidade dos sentimentos, expectativas e esperanças de mudança social das populações que participaram dessas guerras, no início do século XX, e daquelas que hoje ainda o têm como referência no seu universo simbólico. Para o povo caboclo, os monges encarnavam o protesto e os anseios do povo simples e explorado dos sertões, não representavam o status quo, nem as instituições oficiais ou os dominantes e, portanto, significavam esperança de transformação. Para Cabral (1960), “no sertão, no planalto, nos vales e nas coxilhas São João Maria foi um só”.
O último monge, José Maria, pregava contra a República e anunciava grandes calamidades numa terra de ninguém, que fora disputada pela Argentina e pelo Brasil e depois pelos Estados de Santa Catarina e Paraná. Para as autoridades, a morte do monge José Maria na batalha do Irani significava também o fim do movimento caboclo na região. Na realidade, porém, a morte de José Maria, combatendo para proteger os sertanejos, transformou-se num “encantamento”, do qual ele deveria voltar. A identificação dos sertanejos com João Maria aumenta, fato que revigora o movimento místico na região. Processa-se a transfiguração de José Maria em santo. Em suas profecias, os monges falavam o que a população queria ouvir. O profeta é visto como um intérprete de seu tempo.
Referências
CABRAL, Oswaldo Rodrigues. João Maria: interpretação da campanha do Contestado. São Paulo: Nacional, 1960.
FACHEL, José F. Monge João Maria: Recusa dos Excluídos. Porto Alegre: UFRGS, 1995.
KARSBURG, Alexandre de Oliveira. O eremita do novo mundo: a odisseia de um monge peregrino na América católica do século XIX. In: VALENTINI, D. J.; ESPIG, M. J.; MACHADO, P. P. (Org.). Nem fanáticos, nem jagunços: reflexões sobre o Contestado (1912-2012). Pelotas: UFPel, p. 85-107.
MACHADO, Paulo P. Um Estudo Sobre as Origens Sociais e a Formação Política das Lideranças Sertanejas do Contestado, 1912-1916. (Tese de doutorado) Campinas: Unicamp/História, 2001.
MARQUETTI, Délcio; LOPES DA SILVA, Juraci B. Religiosidade e religião no oeste de Santa Catarina: a crença no monge João Maria e a instituição do Catolicismo. Revista de Humanidades, 11(29), jan./jul. 2011, Natal, UFRN.
WELTER, Tânia. O Profeta São João Maria continua encantando no meio do povo: um estudo sobre os discursos contemporâneos a respeito de João Maria em Santa Catarina (Tese de Doutorado). Florianópolis: UFSC, 2007.