Dicionário Histórico-Social do Oeste Catarinense
Erva-mate
A erva-mate era uma planta nativa de várias regiões do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, ao longo da Fronteira Sul. Estava disseminada nas matas do Oeste, mas seu maior produtor era o Planalto catarinense. Sua coleta era uma atividade nômade e sazonal, pois o intervalo entre uma poda e outra demorava em torno de três anos, exigindo o deslocamento daqueles que a extraíam. Por isso, não havia necessidade de as pessoas se fixarem em locais próximos aos ervais. A extração da erva-mate foi uma importante atividade econômica da região, fornecedora do produto para outros mercados consumidores, pois o mercado local era pequeno e incapaz de absorver toda produção, dado que os moradores locais, em geral, produziam a erva para seu próprio consumo. Sua importância econômica era tão grande que sua atividade foi denominada de ciclo da erva-mate, um ciclo bastante longo na história da região (RENK, 1997), estendendo-se da segunda metade do século XIX até o final das primeiras décadas do século XX.
O ciclo da erva-mate representou, antes de tudo, a ocupação das matas. De modo geral sua exploração era feita no interior das matas pelos caboclos, que viviam na região e, de modo geral, trabalhavam como peões a serviço de outros exploradores. A extração da erva-mate só se tornou atrativa e rentável a partir de 1850, com a chegada de exploradores argentinos e paranaenses, que se dedicaram mais fortemente ao seu beneficiamento e industrialização. Seu maior desenvolvimento, porém, só veio a ocorrer mesmo no final de século XIX, quando sua produção começou a ser exportada para os mercados externos da região, tendo em vista que o consumo local era pequeno.
O trabalho de poda e coleta da erva-mate era feito principalmente pelos caboclos que habitavam a região. Eles levavam vida simples e rudimentar, habitavam pequenos ranchos, agrupados em pequenas comunidades isoladas no interior das matas, distante de tudo, viam seus familiares nascer, crescer e morrer, abandonados à própria sorte. Produziam alimentos, criavam pequenos animais, como o porco, a galinha e o gado e mudavam constantemente de residência. Eles se deslocavam, com seus poucos haveres, instalando-se ora aqui, ora acolá, vivendo da caça, das pequenas “roças caboclas” de subsistência, em clareiras no interior das matas, geralmente cuidadas pelas mulheres, e da extração da erva, que era vendida aos ervateiros ou aos intermediários. Enquanto o preço da erva era rentável, essa população manteve condições de vida regular. Porém, com a decadência do ciclo da erva-mate, habitar aquelas áreas ficou insuportável. Não existia mais comércio e faltava dinheiro para comprar até mesmo os produtos básicos (POLI, 1989; RENK, 1997).
A economia ervateira, explorada por paranaenses, argentinos e catarinenses, apesar de não oferecer um produto de boa qualidade e, por isso mesmo, pouco competitivo, sempre esteve atrelada ao mercado externo, o principal consumidor de erva-mate para o chimarrão. Os principais mercados consumidores estavam no Paraná e no Rio Grande do Sul, mas principalmente na Argentina. A comercialização para esses mercados era feita quase livremente, sem cobrança de impostos, pois havia pouca presença e controle do governo nessa região, no final do século XIX e início do século XX. O transporte da erva para o mercado argentino, de modo geral, era feito em lombo de mulas, em bruacas, tornando o produto vulnerável à chuva e ocasionando perda de qualidade, até Baracón, cidade argentina fronteiriça, onde a população do Extremo Oeste catarinense se abastecia de produtos, como sal, banha e munição, indispensável para a vida nos campos, bem como para aqueles que se embrenhavam nas matas à procura de plantas nativas da erva. A abertura de estradas, o beneficiamento em monjolos e pilões mecânicos dinamizou ainda mais a produção ervateira no Oeste catarinense, antes de ser exportada para outras regiões do Brasil e do exterior. Em Chapecó, Palma Sola e Campo Erê chegaram a desenvolver-se alguns sistemas de beneficiamento, mas essas pequenas indústrias pouco prosperaram dadas as condições adversas da época na região, entre outras causas, também devido à distância entre a produção local e os mercados consumidores. Porém, a industrialização incipiente da erva-mate não resistiu à crise que atingiu sua produção na região, nas primeiras décadas do século XX.
O auge do ciclo da erva-mate na região Oeste catarinense foi em 1930, quando sua produção chegou a 280 mil toneladas. A crise da economia ervateira, contudo, já começa a manifestar-se por volta de 1910, quando a Argentina iniciou o plantio de ervais na Província de Misiones, diminuindo, então, a demanda do produto brasileiro, que começa a entrar em declínio. A partir de meados da década de 1930, com o desenvolvimento da agricultura colonial, a exploração da erva-mate deixou de ser a principal atividade econômica da região, mas não desapareceu. Ela continuou a ser cultivada e beneficiada para atender à demanda de consumo da própria região e não mais como relevante produto de exportação, como acontecia em décadas anteriores, no auge do seu ciclo de produção.
Referências
BAVARESCO, Paulo Ricardo. Os Ciclos Econômicos do Extremo Oeste Catarinense: modernização, progresso e empobrecimento. (Dissertação de Mestrado). Blumenau: 2003.
LINHARES, Temístocles. História econômica do mate. Rio de Janeiro: José Olímpio. 1969.
POLI, Jaci. Caboclo: pioneirismo e marginalização. Cadernos do CEOM. Chapecó: v. 4, n. 7, 1989.
RENK, Arlene. A luta da erva: um ofício étnico no oeste catarinense. Chapecó: Grifos. 1997.