Dicionário Histórico-Social do Oeste Catarinense
Viagem de 1929
“A Viagem de 1929” foi realizada no período de 17 de abril e 18 de maio de 1929 pelo Presidente do Estado de Santa Catarina, Adolfo Konder, e uma comitiva de 20 pessoas, com o objetivo de efetivar o reconhecimento e a ocupação política da Região Oeste catarinense. Essa viagem durou 31 dias e percorreu cerca de três mil Km, partindo de Florianópolis, no litoral, até Dionísio Cerqueira, junto à divisa com a República Argentina. A comitiva era grande e diversificada, pois incluía, além da figura do Presidente do Estado, secretários de Estado, chefe de polícia, agrimensores, consultor jurídico e deputados. Entre eles figuravam Othon Gama D’Eça, Artur Ferreira da Costa e José Arthur Boiteux, que registraram suas impressões em importantes relatos. Na viagem, foram usados todos os meios de transporte disponíveis, como automóvel, lanchas, trem e até mula de carga.
Várias circunstâncias históricas justificavam aquela expedição, como a definição das fronteiras externas das terras brasileiras com a Argentina, ocorrida em 1895, a resolução dos conflitos sobre as fronteiras internas, entre os estados de Santa Catarina e do Paraná, bem como a pacificação da região, após o término da Guerra do Contestado, em 1916. Faltava, ainda, a ocupação política de parte do território, a ser feita pelo governo do Estado, ocupação a qual foi realizada de forma pouco usual, através de uma viagem de reconhecimento, que ficou conhecida como “A Viagem de 1929”. Essa viagem pretendia ser uma “Marcha para o Oeste”, uma tomada de posse de um espaço ainda desconhecido do poder público, que, pelo seu significado, deixou marcas profundas nos sentimentos e na imaginação popular da região. Associados ao objetivo maior da viagem, que foi a ocupação política da região por parte do governo estadual, somavam-se outros objetivos, como criar condições para o reconhecimento e a integração do território, abertura de estradas, escolas, agência postal, e implantação do telégrafo, além de impor a ordem e disciplina no Oeste, transformando uma “terra da barbárie” em uma “terra do trabalho”, como foi definido por integrantes da mesma. A viagem deveria, ainda, procurar exercer a soberania sobre as terras do Oeste, incentivar a construção da brasilidade, preencher o vazio demográfico e apagar os últimos vestígios dos velhos rancores originados dos muitos conflitos, que dominaram a região. Tratava-se, enfim, de levar o processo civilizador para o interior do Estado.
Nas palavras de D’Eça (1992), membro da comitiva, a região era “inculta e desconhecida”, mas, como uma “nova Canaã, convida, assegurando remuneradores resultados, a cooperação da inteligência e do braço do homem disposto a trabalhar”. Outro membro da comitiva oficial (Costa, 1929) afirma que a Viagem visava a “implantação da ordem, o respeito às leis, ao fomento econômico, à civilização, enfim, de uma região assolada pelos movimentos revolucionários e pelo banditismo”. Basta lembrar que, dois anos antes, em 1927, a Coluna Prestes havia passado pela região e o banditismo reinante no sertão, como o representado pelo conhecido “Bando de Leonel Rocha”, que exterminava famílias inteiras, deixando a população muito insegura e, por isso, exigia uma ação enérgica das autoridades no combate a esse tipo de banditismo.
Por esse motivo, a viagem propiciou, também, um encontro entre Vargas e Konder, em Iraí, ocasião em que foi procedida a ratificação do “acordo policial”, entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que permitia à polícia de cada Estado perseguir os ditos “bandidos”, que se refugiavam no território do Estado vizinho.
A chegada da comitiva nas povoações era bem preparada e sempre recebida com festas pela população. No entanto, ao chegar à fronteira com a Argentina, na cidade de Dionísio Cerqueira, a comitiva constata que a cidade estava se desnacionalizando, pois tudo ali era argentino, os produtos consumidos eram argentinos, as crianças falavam espanhol e frequentavam escolas argentinas e, quando perguntadas pelos heróis nacionais, respondiam apontando figuras da história argentina e não heróis nacionais brasileiros. Mas, como relatam participantes da Viagem (D’EÇA, 1992; COSTA, 1929; BOITEUX, 1931), o avanço da Bandeira por esses territórios do Oeste ia deixando por onde passava as marcas da civilização, da organização administrativa e da ordem pública através de escolas, órgãos públicos, praças, meios de comunicação e planos de construção de rodovias.
Para muitos analistas, no entanto, a Viagem de 1929 (CEOM, 2005) teve um sentido mais simbólico do que real. Como uma nova bandeira desbravadora, representou um verdadeiro rito de conquista do território e de reconhecimento da soberania pública sobre uma região desconhecida, uma espécie de ato inaugural de sua incorporação simbólica. Uma viagem patriótica dos novos bandeirantes da brasilidade.
Referências
BOITEUX, José Arthur. Oeste Catharinense. (De Florianópolis a Dionísio Cerqueira). Florianópolis: Livraria Central, 1931.
CEOM - Centro de Memória do Oeste Catarinense (Org.). A Viagem de 1929: oeste de Santa Catarina: documentos e leituras. Chapecó: Argos, 2005.
______. Para uma história do Oeste Catarinense: 10 anos de CEOM. Chapecó: UNOESC, 1995.
COSTA, A. Ferreira da. O Oeste Catharinense: visões e sugestões de um excursionista. Rio de Janeiro: Villas Boas e Cia, 1929.
D’EÇA, Othon Gama. Aos Espanhóis Confinantes. Florianópolis: UFSC, 1992.
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José Carlos Radin
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