Dicionário Histórico-Social do Oeste Catarinense
Povos indígenas
Ao longo de sua história, o território do Oeste catarinense sempre esteve marcado por múltiplas dimensões culturais, que resultaram dos conflitos e da convivência de grupos sociais, como os povos indígenas, caboclos, colonos e quilombolas, que ali conviveram e ainda hoje disputam a terra como meio básico de sobrevivência. Muitos desses conflitos continuam vivos, especialmente o relacionado com a demarcação das terras indígenas (D’ANGELIS, 2006).
Os povos indígenas, que há muitos séculos habitaram o território do Oeste catarinense, pertenciam a dois grupos linguísticos, o grupo Jê e o grupo Tupi. Ao primeiro grupo pertenciam os índios Kaingang e os Xokleng, preponderantes na região. Já os índios Guarani pertenciam ao grupo linguístico Tupi.
De acordo com pesquisas arqueológicas recentes, o processo de povoamento indígena do território do Oeste catarinense pode ser dividido em três fases. Numa primeira fase, ocorrida há cerca de 12 mil anos, teriam aportado à região povos caçadores e coletores nômades. Depois, por volta de 2.500 anos, teriam chegado os povos de língua Jê, provavelmente vindos de regiões centrais do Brasil. Finalmente, a última fase migratória, formada pelos povos tupi-guaranis, oriundos da Bacia Amazônica, teria chegado por volta de 2 mil anos atrás. Essas informações desmentem o argumento propalado pelos colonizadores antigos e modernos de que encontraram um território “vazio” ou um “deserto”, pois este território já estava fortemente ocupado de longa data. A historiografia tradicional, de modo geral, colocou as populações indígenas na condição de invisíveis, por não contemplá-los em seus estudos ou por fazê-lo de forma marginal, em geral vendo-os como parte da natureza a ser dominada e conquistada. Na região, assim como na América, a conquista do território já ocupado pelos povos indígenas significou um verdadeiro genocídio, uma vez que eles foram praticamente dizimados pelas guerras, epidemias trazidas pelos colonizadores, como a gripe e varíola, e mesmo pela escravização.
As primeiras expedições de reconhecimento e conquista dos territórios indígenas do Oeste catarinense começam a chegar ainda no século XVI. A primeira delas teria sido chefiada pelo conquistador espanhol D. Álvar Nuñes Cabeza de Vaca, governador geral do vice-reinado espanhol da região do Prata, que partiu da Ilha de Santa Catarina, entre 1541 e 1542, atravessou o território até chegar a Assunção. Poucos anos depois, entre 1552 e 1553, foi o militar alemão Ulrich Schmidel, que teria atravessado o Peperi-Guaçu e chegado à margem direita do Rio Uruguai, aproximadamente na região atual de Palmitos. Nos séculos XVII e XVIII, chegaram os jesuítas vindo do Paraguai e, em seguida, os bandeirantes vindos de São Paulo. Eles atacaram as reduções jesuíticas e levaram mais de 60 mil indígenas escravizados para São Paulo. No início do século XIX vieram os fazendeiros para ocupar os campos de Guarapuava e de Palmas, visando à criação de gado. A ocupação desses campos, que na sua maior parte representa o atual território do Oeste catarinense, era tida como vital para a geopolítica do Império, em face às disputas territoriais com a Argentina.
Os povos indígenas que habitavam a região eram preponderantemente os Kaigangs e Xoklengs, pertencentes ao grupo Jê. A relação dos invasores com os diversos povos indígenas era uma relação entre colonizador e colonizado e implicava uma situação de exploração contínua, nem sempre facilmente perceptível, desde o passado até o presente, mas que implicou a expropriação de suas terras, de suas vidas e de sua cultura. As reações dos povos indígenas aos invasores foram diferenciadas, envolvendo desde certa convivência, como a dos Guaranis e relações ambíguas de aceitação e beligerância como foi o caso dos Kaingangs, liderados pelo cacique Condá e Xoklengs (MALAGE, 2010). Na realidade, não restavam muitas alternativas aos povos indígenas frente aos invasores de suas terras, pois representavam a parte mais fraca e vulnerável nessa relação. Podiam aceitar a ocupação e integrar-se à forma de vida dos colonizadores, aldeando-se em vilas, o que lhes garantia alguma condição de sobrevivência, fugir de suas terras, abandonando tudo o que possuíam, ou resistir e serem escravizados ou simplesmente eliminados, como acabou acontecendo com a maior parte da população indígena.
Por sua vez, as políticas oficiais em relação aos povos indígenas evoluíram desde a defesa da integração na sociedade brasileira, do que sobrou desses povos, após a ocupação de suas terras, até uma política de aldeamento e demarcação de terras indígenas, o que em princípio daria mais condições de sobrevivência e preservação de sua cultura e do seu modo de vida.
No entanto, o contato com os homens brancos, seu modo de vida e seus valores, resultou em um processo de desintegração econômica, social e cultural dos povos indígenas, desarticulando o seu sistema de vida tribal e comunitário, contaminando o grupo com doenças até então desconhecidas, sem que os indígenas oferecessem qualquer resistência biológica.
Atualmente existem diversas reservas indígenas no Oeste catarinense, destacando-se a Condá, em Chapecó, o Toldo Imbu, em Abelardo Luz, o Toldo Chimbangue, em Chapecó, o Xapeco, em Ipuaçu e Entre Rios e Toldo Pinhal, em Seara. Essas reservas são essencialmente de indígenas da tribo Kaingang. Já os indígenas da tribo Guaraní ocupam outras reservas semelhantes na região.
Referências
BRIGHENTI, Clovis Antonio. Povos indígenas em Santa Catarina.
Disponível em: <https://leiaufsc.files.wordpress.com/2013/08/povos-
indc3adgenas-em-santa-catarina.pdf>. Acesso em: 3 abr. 2017.
D’ANGELIS, Wilmar da Rocha. Para uma história dos índios do oeste catarinense. Chapecó, Cadernos do CEOM, Ano 19, n. 23, 2006 – CEOM: 20 anos de memórias e histórias no Oeste de Santa Catarina.
MALAGE, Kátia Graciela J. M. Condá e Viri: chefias indígenas em Palmas-PR, década de 1840. (Dissertação de Mestrado). Curitiba: UFPR, 2010.