Doce Triunfo
Capítulo 1
PARADO EM MEDITATIVO silêncio junto às janelas do elegante apartamento de cobertura, o homem alto e moreno olhava para a paisagem de luzes tremeluzindo e espalhando-se ao longo do obscurecido horizonte de St. Louis. A amargura e a resignação eram evidentes nos movimentos abruptos de Ramon Galverra quando afrouxou o nó da gravata e depois levou o copo de uísque aos lábios, bebendo um longo gole.
Atrás dele, um homem loiro cruzou rapidamente a sala de estar pouco iluminada.
— Então, Ramon? — perguntou, ansioso. — O que eles decidiram?
— Decidiram o que os banqueiros sempre decidem Ramon respondeu num tom ríspido, sem se virar. — Decidiram que vão cuidar de si mesmos.
— Aqueles bastardos! — Roger explodiu. Passou as mãos pelos cabelos claros num gesto de irritada frustração, depois encaminhou-se, determinado, para a ileira de garrafas de cristal no bar. — Eles bem que icaram do seu lado, quando o dinheiro estava entrando — falou por entre os dentes cerrados, enquanto servia-se de bourbon.
— Eles não mudaram — Ramon comentou, irônico. Se o dinheiro ainda estivesse entrando, eles continuariam comigo.
Roger acendeu um abajur e olhou com desprezo os magníficos móveis estilo Luís XIV, como se a presença deles em sua espaçosa sala de estar o ofendesse.
— Eu tinha certeza, certeza absoluta de que quando você lhes explicasse sobre o estado de saúde mental em que seu pai se encontrava antes de morrer, os banqueiros o apoiariam. Como podem culpá-lo pelos erros e pela incompetência dele?
Virando-se da janela, Ramon recostou-se no batente. Por um instante, icou olhando para o que restava de uísque em seu copo, depois bebeu todo o conteúdo num só gole.
— Eles me culpam por não tê-lo impedido de cometer os erros fatais, e por não reconhecer a tempo o seu estado de incompetência.
— Não reconhecer a tempo... — Roger repetiu, furioso.
— E como você poderia reconhecer qualquer coisa num homem que sempre agiu como se fosse Deus Todo-Poderoso, até que um dia começou a acreditar que realmente era? E, mesmo se você soubesse, o que poderia ter feito? As ações estavam no nome dele, não no seu. Até o dia em que ele morreu, manteve o controle total de toda a corporação. Suas mãos estavam atadas.
— E agora estão vazias — Ramon retrucou, encolhendo os ombros largos e musculosos.
— Escute — Roger falou, em desespero. — Eu não ofereci antes porque sabia que você icaria ferido em seu orgulho, mas não sou exatamente um pobretão, sabe disso. De quanto precisa? Se eu não tiver toda a quantia, talvez possa ajudá-lo a levantar um empréstimo.
Pela primeira vez um lampejo de humor surgiu nos lábios bem esculpidos de Ramon e em seus arrogantes olhos escuros. A transformação foi admirável, suavizando os traços de um rosto que ultimamente parecia ter sido talhado por um artista cuja intenção era retratar a frieza, a determinação implacável e a antiga nobreza hispânica.
— Cinquenta milhões ajudariam — ele respondeu. Setenta e cinco milhões seriam ainda melhores.
— Cinquenta milhões? — Roger ecoou, encarando o homem que conhecia desde a época em que ambos estudavam na Universidade de Harvard. — Cinquenta milhões de dólares apenas ajudariam?
— Exatamente. Apenas ajudariam.
Deixando o copo vazio na mesa de mármore ao seu lado, Ramon virou-se e seguiu em direção ao quarto de hóspedes que estivera ocupando desde sua chegada a St. Louis, na semana anterior.
— Ramon — Roger falou com urgência —, você precisa encontrar-se com Sid Green enquanto estiver aqui. Ele pode levantar toda essa quantia, se quiser, e está lhe devendo dinheiro.
Ramon virou a cabeça rapidamente. Seus traços aristocráticos endureceram de desprezo.
— Se Sid quisesse ajudar, ele teria entrado em contato comigo. Sabe que estou aqui, e sabe que estou em dificuldades.
— Talvez ele não saiba. Até agora, você conseguiu abafar o escândalo e o fato de que a companhia está afundando. Talvez ele não saiba.
— Ele sabe. Sid faz parte da diretoria do banco que está recusando-se a prolongar o prazo do empréstimo.
— Mas...
— Não! Se Sid estivesse disposto a ajudar, ele teria me procurado. O silêncio dele diz tudo, e eu não vou implorar. Já marquei uma reunião com os auditores e advogados da companhia em Porto Rico, para daqui a dez dias. Nessa reunião irei instruı́-los a entrar com o pedido de falência.
— Girando nos calcanhares, Ramon saiu da sala, os passos largos demonstrando toda sua raiva e inquietação.
Quando retornou, os cabelos escuros e espessos estavam úmidos do banho, e usava calça jeans. Roger encarou-o em silêncio, enquanto Ramon dobrava as mangas da camisa na altura dos cotovelos.
— Ramon — ele disse, com insistente determinação. Fique mais uma semana aqui em St. Louis. Talvez Sid entre em contato com você, se lhe der mais tempo. Vou lhe dizer uma coisa, acho que ele nem sabe que você está aqui. Nem mesmo sei se ele está na cidade.
— Ele está na cidade, e eu vou partir para Porto Rico daqui a dois dias, exatamente como planejei.
Roger exalou um longo suspiro de resignação.
— Que diabo você vai fazer em Porto Rico?
— Primeiro, pretendo tratar da falência da corporação, e depois farei o que meu avô e meu tataravô sempre fizeram
— Ramon respondeu. — Vou cuidar da fazenda.
— Você está completamente louco! — Roger exclamou.
— Está pensando em cuidar daquele pequeno pedaço de terra, com aquela cabana para onde nós levamos as duas garotas de...?
— Aquele pequeno pedaço de terra — Ramon interrompeu-o com dignidade — é tudo o que me restou. Juntamente com a casa onde nasci.
— E quanto à casa perto de San Juan, ou a vila na Espanha, a ilha no Mediterrâneo? Venda uma de suas casas na ilha, só isso já seria o suficiente para sustentá-lo com todo o luxo pelo resto da vida.
— Tudo isso se foi. Todos os meus imóveis foram entregues como garantia do empréstimo para a empresa, que eu não posso quitar. Os bancos que emprestaram o dinheiro estarão abocanhando tudo como se fossem urubus, antes mesmo do fim do ano.
— Maldição! — Roger falou, impotente. — Se seu pai já não estivesse morto, eu o esganaria com minhas próprias mãos!
— Os acionistas teriam chegado antes de você. — Ramon sorriu, sem humor.
— Como pode ficar parado aí e falar como se nada disso importasse?
— Já aceitei a derrota — Ramon respondeu calmamente.
— Fiz tudo o que poderia ser feito. Não vou incomodar-me de trabalhar na fazenda ao lado das pessoas que trabalham com minha família há séculos.
Virando-se para ocultar a piedade por um homem que Roger sabia que iria rejeitá-la e desprezá-lo por isso, ele disse:
— Ramon, há algo que eu possa fazer?
— Sim.
— Pois então me diga. — Roger virou-se, esperançoso.
— Diga do que precisa, e eu farei.
— Será que pode me emprestar seu carro? Gostaria de dar um passeio, sozinho.
Sorrindo diante de um pedido tão simples, Roger tirou as chaves do bolso e entregou-as ao amigo.
— Há um probleminha com o iltro de combustı́vel, mas a o icina autorizada só poderá fazer o conserto na próxima semana. Com a sua sorte, é bem provável que ique com o Mercedes parado no meio da rua.
Ramon encolheu os ombros, sem demonstrar nenhuma emoção.
— Se o carro parar, eu vou caminhando. O exercı́cio me deixará em forma para o trabalho na fazenda.
— Você não precisa trabalhar na fazenda, e sabe disso! Você é famoso em toda a comunidade financeira internacional.
Um músculo enrijeceu no rosto de Ramon, enquanto ele fazia um esforço evidente para controlar a raiva e a amargura.
— Para a comunidade inanceira internacional, eu participei de um erro imperdoável e inesquecı́vel: o fracasso. Estou prestes a me tornar o exemplo mais notório de fracasso. Você gostaria que eu implorasse aos meus amigos por um cargo? Será que devo apresentar-me na sua fábrica amanhã cedo e candidatar-me a um emprego na linha de montagem?
— Não, é claro que não! Mas poderia pensar em alguma coisa. Eu vi você erguer um império inanceiro num prazo de poucos anos. Se foi capaz de construı́-lo, pode também descobrir um meio de salvar uma parte dele. Mas parece que você não está dando a mı́nima para isso! Eu...
— Não posso fazer milagres — Ramon interrompeu-o, sem se alterar. — E seria necessário um milagre. O jatinho Lear está no hangar do aeroporto aguardando uma peça para o motor. Quando os mecânicos terminarem o conserto e meu piloto retornar da folga do im de semana no domingo à noite, estarei voando para Porto Rico.
Roger abriu a boca para protestar, mas Ramon silenciou-o com um olhar impaciente.
— Existe dignidade no trabalho no campo, Roger. Creio que muito mais dignidade do que no trato com banqueiros. Quando meu pai era vivo, eu nunca tive paz. Desde que ele morreu, não tive paz. Agora, deixe-me encontrá-la do meu próprio jeito.