Doce Triunfo

Judith McNaught · Capítulo 3 de 21

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Doce Triunfo

Capítulo 3

O RUIDO ESTRIDENTE do despertador, às 8.00 da manhã seguinte, fez com que Katie acordasse, ainda exausta, de um sono profundo. Sem saber por que havia ligado o alarme do relógio num sábado, ela estendeu a mão e apertou o botão, silenciando o barulho insistente.

Quando tornou a abrir os olhos eram nove horas, e Katie piscou sob a luz que inundava seu quarto. Ah, não! Ramon estaria chegando dali a uma hora...

Pulou para fora da cama, correu para o banheiro e abriu o chuveiro. Seu pulso acelerava-se a cada minuto que passava, enquanto tudo o mais parecia mover-se em câmara lenta. O secador levou uma eternidade para secar os cabelos espessos; ela derrubava tudo o que tocava e ansiava por uma boa xícara de café.

Movendo-se rapidamente, abriu as gavetas e vestiu calça comprida azul-marinho e uma blusa branca. Puxou os cabelos para trás e amarrou-os com um lenço de seda estampado de azul, vermelho e branco, depois atirou um punhado de roupas que escolheu ao acaso na maleta de viagem.

As 9.35, Katie fechou a porta do apartamento atrás de si e saiu para o azul repousante da manhã de maio. O grande complexo de apartamentos estava tranquilo e silencioso: a tı́pica calmaria de um condomı́nio onde predominavam moradores solteiros, em consequência das festas, encontros e bebedeiras da noite de sexta-feira.

Katie correu na direção de seu carro, mudando a valise de lona para a mão esquerda, enquanto procurava as chaves nas profundezas de sua bolsa.

— Droga! — resmungou baixinho, deixando a valise no chão ao lado do carro, enquanto remexia freneticamente dentro da bolsa.

Lançou um olhar nervoso e apreensivo para o movimentado tráfego da avenida, quase esperando ver um caminhão passando com grande barulho pela entrada do condomínio.

— Onde será que deixei as chaves? — murmurou em desespero.

Seus nervos, já tensionados ao máximo, explodiram num gritinho sufocado quando sentiu alguém segurá-la pelo braço.

— Elas estão comigo — uma voz profunda falou próximo ao seu ouvido.

Katie fez um giro rápido, tomada pela fúria e pelo medo.

— Como se atreve a ficar me espionando?! — gritou.

— Eu estava esperando você — Ramon enfatizou.

— Mentiroso! — ela sibilou, cerrando os punhos com força. — Ainda falta quase meia hora para o horário que marcamos. Ou será que você nem mesmo sabe ver as horas?

— Aqui estão suas chaves. Eu guardei-as no bolso por engano, ontem à noite.

Ele estendeu a mão e entregou-lhe as chaves, juntamente com um botão de rosa de caule longo.

Ao pegar as chaves da mão dele, Katie evitou tocar a indesejada rosa vermelha.

— Pegue a flor — ele disse, mantendo o braço estendido.

— É para você.

— Que droga! — ela explodiu, em desespero. — Deixe-me em paz! Aqui não é Porto Rico e eu não quero sua flor!

— Ignorando-a, ele continuou parado, com toda paciência.

— Eu já disse que não quero!

Katie abaixou-se com um movimento brusco, para pegar a valise no chão. No processo, sem querer esbarrou na mão dele e derrubou a rosa.

A visão do lindo botão caído no chão de concreto provocou-lhe uma pontada de culpa capaz de estilhaçar toda sua raiva, e deixou-a sentindo-se extremamente envergonhada. Ela olhou para Ramon; seu rosto orgulhoso permanecia irme, sem re letir nenhuma irritação nem condenação, apenas uma profunda e inexplicável tristeza.

Incapaz de encontrar-lhe os olhos, Katie baixou os seus, e a culpa aguçou-se ainda mais ao ver que comprar uma rosa não fora a única coisa que ele izera para agradá-la: Ramon vestira-se com todo cuidado para aquele encontro, também. A velha e gasta calça jeans tinha sido substituı́da por uma calça preta impecável e uma camiseta preta de mangas curtas; o rosto estava recém-barbeado e exalava um suave perfume de colônia.

Ele pretendera apenas agradá-la e impressioná-la, Katie pensou, e não merecia tal tratamento, sobretudo depois que a defendera com tanto empenho na noite anterior. Katie olhou para a rosa vermelha caı́da aos seus pés e sentiu-se tão envergonhada que lágrimas arderam em seus olhos.

— Ramon, me desculpe, por favor — ela disse, contrita, enquanto se abaixava para pegar a lor. Pegando-a pelo caule, ergueu os olhos e itou o rosto sério. — Obrigada por esta linda rosa. E se... se ainda quiser minha companhia, vou com você ao Zoológico, como prometi. — Fazendo uma pausa para respirar fundo, ela continuou: — Mas quero que você entenda que não tenho intenção de... Bem, não quero ter nada sério com você, portanto não comece a... Deixou a frase no ar, encarando-o com surpresa quando os olhos dele reluziram de riso contido.

Num tom bem-humorado, ele falou:

— Eu lhe ofereci apenas uma flor e um passeio ao Zoológico. Não a pedi em casamento.

De repente Katie descobriu-se sorrindo de volta para ele.

— Tem toda razão.

— Então, podemos ir? — ele sugeriu.

— Sim, mas primeiro deixe-me levar a valise de volta para o meu apartamento. — Ela abaixou-se para pegá-la, mas Ramon foi mais rápido.

— Eu carrego — ele disse.

Quando entraram no apartamento, Katie tirou a valise da mão dele e encaminhou-se para seu quarto. A pergunta que ele fez obrigou-a a parar.

— Era de mim que você estava fugindo? Katie virou-se na soleira da porta.

— Não exatamente. Depois da noite de ontem, senti necessidade de fugir de tudo e de todos por algum tempo.

— O que pretendia fazer?

Os lábios de Katie curvaram-se num sorriso desolado, que provocou um brilho em seus olhos.

— Eu ia fazer o que quase todas as mulheres autossu icientes, independentes e adultas fazem quando não conseguem lidar com uma situação: correr para a casa dos pais.

Minutos depois, saı́ram do apartamento. Enquanto cruzavam o estacionamento, Katie mostrou a máquina fotográfica que estava levando na mão esquerda.

— Isto aqui é uma câmera — disse a ele.

— Sim, eu sei — Ramon concordou com uma seriedade zombeteira. — Elas já existem até em Porto Rico.

Katie caiu na risada e balançou a cabeça em autocensura.

— Desculpe, acho que nunca me dei conta de que norte-americana horrível eu sou.

Parando ao lado de um carro da marca Buick, Ramon abriu a porta para que ela entrasse.

— Você é uma linda norte-americana — contradisse em voz baixa. — Agora, entre.

Com uma pontinha de vergonha, Katie percebeu que estava aliviada por ele ter vindo de carro. Sacudir pelas vias expressas num caminhão de entregas não era exatamente o seu estilo.

— Seu caminhão quebrou outra vez? — perguntou, enquanto saı́am do estacionamento, entrando no tráfego tranquilo de sábado de manhã.

— Achei que você iria preferir um carro a um caminhão. Um amigo me emprestou.

— Poderíamos ter ido com o meu — ela disse.

O breve olhar que ele lhe enviou deixou bem claro que, se Ramon convidasse alguém para um passeio, se encarregaria de providenciar o transporte. Embaraçada, Katie ligou o rádio e espiou-o com o canto dos olhos. Com seu fı́sico esplêndido e a pele bronzeada, ele a fazia lembrar de um jogador de tênis profissional.

Katie divertiu-se muito com Ramon no Zoológico, embora o local estivesse lotado de visitantes devido ao feriado do Memorial Day. Lado a lado, caminharam pelas trilhas pavimentadas. Ramon comprou um saquinho de amendoins para que ela jogasse aos ursos, e caiu na gargalhada quando, no aviário, um tucano de bico enorme voou para perto da grade, fazendo com que Katie desse um gritinho de susto e cobrisse a cabeça.

Ela acompanhou-o à Casa dos Répteis, tentando manter sob controle sua aversão fóbica às cobras pelo artifı́cio de não olhar para nenhuma delas. Sentindo um arrepio na espinha, moveu-se por todo o salão sem focalizar qualquer um dos répteis que ali estavam expostos.

— Olhe aqui — Ramon falou em seu ouvido, indicando uma vitrine bem ao lado dela. Katie engoliu em seco.

— Não preciso olhar — murmurou com os lábios secos.

— Já sei que há uma árvore lá dentro, o que signi ica que tem uma cobra pendurada nela. — As palmas de suas mãos começaram a transpirar e ela quase sentia o deslizar sinuoso da serpente em sua própria pele.

— O que há de errado? — ele perguntou, reparando que ela empalidecia. — Você não gosta de cobras?

— Não... muito — ela respondeu, a voz rouca.

Balançando a cabeça, Ramon pegou-a pelo braço e levou-a para fora, onde Katie respirou fundo e deixou-se cair num banco de madeira.

— Tenho certeza de que colocaram estes bancos bem em frente da Casa dos Répteis para pessoas como eu. Do contrário, haveria gente desmaiando em todos os cantos, lá dentro.

A leve covinha no queixo de Ramon aprofundou-se quando ele sorriu.

— As cobras são muito benéficas para a humanidade. Elas comem roedores, insetos...

— Por favor! — Katie estremeceu, erguendo a mão em protesto. — Não precisa me descrever todo o cardápio.

Fitando-a com uma expressão divertida, Ramon persistiu:

— Mas é um fato indubitável que elas são muito úteis e necessárias ao equilı́brio da natureza.

Katie levantou-se devagar, ainda um tanto zonza, e enviou-lhe um olhar enviesado.

— E mesmo? Pois eu nunca ouvi falar em algo que uma cobra faz que qualquer coisa de aparência menos repulsiva não possa fazer ainda melhor.

O narizinho dela enrugou-se de nojo, e Ramon sorriu pensativo, itando os brilhantes olhos azuis.

— Nem eu — ele admitiu.

Continuaram o passeio pelo parque e Katie não podia lembrar-se de um encontro tão tranquilo e agradável. Ramon mostrava-se sempre impecavelmente gentil, segurando-lhe o braço quando desciam escadas ou rampas, demonstrando um cavalheirismo quase antiquado na maneira como condescendia com seus mínimos desejos.

Quando chegaram à ilhota onde icavam os macacos, pavões e outros animais interessantes, mas não tão raros, Katie usou a maior parte do segundo ilme da máquina. Pegando um punhado de pipocas do saquinho que Ramon segurava para ela, inclinou-se na cerca que isolava a pequena ilha, e foi atirando o milho para os patos. Aquela posição provocante, embora não fosse intencional, fazia com que o tecido da calça comprida se colasse aos contornos graciosos dos quadris e do traseiro, oferecendo uma visão encantadora a Ramon, que desfrutava dela completamente.

Sem saber onde a atenção dele estava focalizada, Katie olhou-o por cima do ombro.

— Quer uma foto disso? — ela perguntou.

— Do quê? — ele indagou, sorrindo.

— Da ilha — Katie falou, intrigada com a expressão divertida no rosto dele. — Este ilme está quase acabando. Vou lhe dar os dois e, depois que você mandar revelar, terá uma boa lembrança de seu passeio ao Zoológico de St. Louis.

Ele fitou-a, surpreso.

— Essas fotos são para mim?

— É claro — ela respondeu, servindo-se de mais um punhado de pipocas.

— Se eu soubesse que eram para mim — ele falou sorrindo —, iria preferir algo mais do que apenas ursos e girafas, para me lembrar deste dia.

Katie arqueou a sobrancelha com um ar de interrogação.

— Está se referindo às cobras, não é? Bem, se quiser, eu lhe mostro como usar a máquina e você vai sozinho à Casa dos Répteis, enquanto espero aqui.

— Não — ele disse, ao se afastarem da cerca. — Eu não estava me referindo às cobras.

A caminho de casa, pararam numa mercearia para que Katie comprasse café. Num impulso, ela decidiu convidar Ramon para um lanche rápido, e acrescentou uma garrafa de vinho tinto e alguns queijos às suas compras.

Ramon acompanhou-a até a porta, mas quando Katie convidou-o para entrar, ele hesitou um pouco, antes de finalmente concordar.

Menos de uma hora depois, ele levantou-se para sair.

— Preciso trabalhar esta noite — explicou. Sorrindo, Katie foi pegar a máquina fotográfica.

— Ainda há uma pose neste ilme. Fique parado aı́, vou tirar uma foto sua e lhe entrego os dois filmes.

— Não. Guarde até amanhã. Quero tirar uma foto sua, quando formos ao piquenique.

Katie considerou a ideia de sair novamente com ele. Pela primeira vez em muito tempo sentira-se à vontade e despreocupada, mas, mesmo assim...

— Não, eu não posso aceitar. Mas obrigada pelo convite. Ramon era alto, viril e sexy, não havia dúvida quanto a isso, mas essa masculinidade tão explı́cita ainda a repelia mais do que atraía. Além disso, na verdade eles não tinham nada em comum.

— Por que você olha para mim e depois desvia os olhos, como se desejasse que não estivesse me vendo? — ele perguntou de repente.

Katie encarou-o.

— Eu... eu não faço isso.

— Faz, sim — ele afirmou, implacável.

Ela pensou em mentir, mas mudou de ideia ao sentir a intensidade daqueles olhos escuros.

— Você me faz lembrar de alguém que já morreu. Ele também era alto, moreno e... bem, tinha essa aparência... máscula, como você.

— A morte dele causou-lhe muito sofrimento?

— A morte dele me trouxe um grande alı́vio — ela falou, enfática. — Antes de ele morrer, houve vezes em que desejei ter coragem de matá-lo com minhas próprias mãos!

Ramon deu uma risadinha.

— Que vida tão sombria e sinistra você teve, para alguém tão jovem e bonita.

Katie, que era conhecida e amada por sua personalidade alegre, apesar das lembranças dolorosas que guardava dentro de si, enviou-lhe um sorriso luminoso.

— Suponho que seja melhor ter uma vida sombria e sinistra do que uma vida tediosa — disse.

— Mas você é entediada — ele falou. — Percebi isso desde o primeiro momento em que a vi, naquele bar. Com a mão na maçaneta da porta, ele virou-se e olhou-a.

— Amanhã venho buscá-la ao meio-dia. Eu providencio a comida. — Sorrindo diante da surpresa e indecisão que ela exibia, acrescentou: — E você pode providenciar um sermão sobre como sou grosseiro em insistir, e não pedir, que você vá passear comigo.

Foi apenas naquela noite, quando saiu cedo de uma tumultuada festa no apartamento de uma amiga porque estava entediada, que Katie considerou seriamente as últimas palavras de Ramon. Seria o tédio o motivo de sua crescente inquietação, daquela insatisfação vaga e inexplicável que crescia dentro dela nos últimos meses?, perguntou-se, enquanto vestia o pijama de seda. Não, concluiu após um momento de meditação, sua vida podia ser tudo, menos tediosa. Às vezes até aconteciam coisas demais.

Sentada no sofá da sala, Katie traçou, distraı́da, a ponta do dedo pela capa do livro em seu colo, os olhos azuis nublados e sombrios. Se não era tédio, então o que estava acontecendo com ela ultimamente? Esta era uma pergunta que se fazia com cada vez mais frequência, e com crescente frustração, pois a resposta sempre lhe fugia. Se ao menos pudesse descobrir o que estava faltando em sua vida, então poderia tentar fazer alguma coisa a respeito.

Mas nada estava lhe faltando, Katie disse a si mesma com irmeza. Impaciente com seu descontentamento, relacionou mentalmente os motivos que tinha para ser feliz: aos 23 anos, já possuı́a um diploma e conseguira um emprego maravilhoso e estimulante, que lhe pagava muito bem. Mesmo se não tivesse um salário, o fundo de reservas que seu pai estabelecera para ela anos antes lhe garantiria uma soma de dinheiro maior do que ela necessitava. Tinha um belo apartamento e os armários repletos de roupas. Era atraente aos homens; tinha bons amigos e sua vida social era intensa e animada. Seus pais eram carinhosos, preocupavam-se com ela e, portanto, tinha... tudo!, garantiu a si mesma.

O que mais poderia querer, ou precisar, para ser mais feliz? ”Um homem”, Karen diria, como sempre.

Um leve sorriso surgiu nos lábios de Katie. ”Um homem” não era, de initivamente, a resposta aos seus problemas. Já conhecera dezenas de homens, portanto não era a falta de companhia masculina o motivo daquela sensação inquietante, ansiosa e de vazio.

Katie, que sempre desprezara qualquer coisa que se aproximasse da autopiedade, tratou de se recompor. Não havia nenhuma desculpa para sua infelicidade, nenhuma. Ela tinha muita sorte! As mulheres em todo mundo ansiavam por uma carreira de sucesso; lutavam para ser independentes e autossu icientes; sonhavam com a segurança inanceira. E ela, Katie Connelly, possuía tudo isso com apenas 23 anos de idade.

— Eu tenho tudo o que desejo — disse em voz alta, com determinação, abrindo o livro.

Ficou olhando para a confusão de palavras na página, enquanto, em algum lugar de seu coração, uma voz gritava: Não é o bastante. Isso não significa nada. Eu não significo nada.