Doce Triunfo

Judith McNaught · Capítulo 12 de 21

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Doce Triunfo

Capítulo 12

KATIE VIROU NA cama e abriu os olhos, emergindo de um sono profundo com uma estranha sensação de irrealidade. O quarto onde dormira era ensolarado e imaculadamente limpo, mobiliado apenas com uma velha cômoda de cerejeira e um criado-mudo cuja madeira brilhava de tão encerada.

— Bom dia — a voz doce de Gabriella saudou-a da porta.

A memória de Katie rapidamente retornou ao foco, enquanto Gabriella cruzava o quarto e deixava uma xı́cara de café fumegante na mesa de cabeceira. Com 24 anos, Gabriella tinha uma beleza exótica e adorável. As faces salientes e os olhos castanhos e luminosos eram o sonho de qualquer fotógrafo de moda. Na noite anterior, ela con idenciara a Katie que havia sido convidada para posar para um famoso fotógrafo que a vira no vilarejo, mas seu marido, Eduardo, recusara-se a permitir. Isso, Katie pensou, irritada, era exatamente o que seria de esperar daquele homem atraente, mas taciturno, que ela conhecera ao chegar.

Katie agradeceu pelo café e Gabriella sorriu.

— Ramon veio vê-la logo cedo, antes de ir para o trabalho. Mas quando soube que você estava dormindo, disse-me para não incomodá-la — Gabriella explicou. — Pediu-me para lhe dizer que virá vê-la à tardezinha, quando retornar.

— De Mayagúez — Katie acrescentou, apenas para manter a conversa.

— Não, de San Juan — Gabriella corrigiu-a. Uma quase cômica expressão de horror cruzou-lhe o rosto. — Ou talvez seja de Mayaguez. Desculpe, acho que não me lembro.

— Isso não tem importância — Katie assegurou-lhe, intrigada com sua evidente agitação.

Gabriella mostrou-se aliviada.

— Ramon deixou bastante dinheiro para você. Disse que poderı́amos começar as compras ainda hoje, se estiver disposta.

Katie assentiu e olhou no relógio ao lado da cama, surpresa em ver que já eram dez horas. No dia seguinte iria certi icar-se de estar acordada, quando Ramon viesse vê-la antes de sair para trabalhar na decadente fazenda em Mayaguez.

O silêncio pesava como uma nuvem carregada sobre os sete homens sentados em torno da mesa da sala de reuniões, na sede da Galverra International, em San Juan — um silêncio quebrado apenas pelo tiquetaquear do imponente relógio em estilo barroco, marcando os derradeiros suspiros de uma corporação que, um dia, fora um dos conglomerados mais lucrativos do mundo.

De seu lugar na ponta da longa mesa, Ramon passou os olhos pelos cinco homens à sua esquerda, que formavam o conselho de diretores da Galverra International. Cada um deles havia sido cuidadosamente escolhido por seu pai, e possuı́a as três qualidades que Simon Galverra exigia de seus subordinados: inteligência, ambição e falta de caráter. Durante vinte anos Simon havia sugado a inteligência deles, explorado sua ambição e, sem nenhum constrangimento, aproveitara-se da incapacidade deles de contradizê-lo ou de desafiar as suas decisões.

— Eu perguntei — Ramon repetia agora, num tom frio e impassı́vel — se algum de vocês pode sugerir uma alternativa viável para o pedido de falência da companhia.

Dois diretores pigarrearam nervosamente, outro pegou a garrafa de água na mesa e encheu seu copo.

Os olhares desviados e o silêncio prolongado acenderam a raiva que Ramon mantinha sob frágil controle.

— Nenhuma sugestão? — ele perguntou, num sedoso tom de ameaça. — Neste caso, talvez algum de vocês, que não esteja incapacitado de falar, possa explicar-me por que não fui informado das desastrosas decisões de meu pai, ou de seu comportamento excêntrico nos últimos dez meses.

Passando o dedo na parte interna do colarinho, um dos homens respondeu:

— Seu pai nos disse que você não deveria ser incomodado com os problemas da empresa. Ele nos deu ordens especı́ icas quanto a isso, não é, Charles? — ele pedindo con irmação ao francês que sentava ao seu lado. — Disse a todos nós que ”Ramon irá comandar as operações na França e na Bélgica durante seis meses, depois estará participando da Conferência Mundial de Negócios na Suı́ça. Quando sair de lá, estará ocupado com as negociações com o pessoal no Cairo. Ele não deve ser incomodado com as decisões menores que tomamos aqui”. Foi exatamente isso o que ele disse, não foi?

Cinco cabeças assentiram concordando. Ramon olhou para todos eles, enquanto girava um lápis entre os dedos.

— Então — concluiu, num tom perigosamente calmo —, nenhum de vocês pensou em ”incomodar-me”. Nem mesmo quando ele vendeu uma frota de petroleiros e uma companhia aérea pela metade do valor... Nem quando ele decidiu doar nossa participação nos lucros de mineração na América do Sul para o governo local, como um ”presente”?

— Era... era o seu dinheiro, Ramon, e do seu pai. — O homem na outra ponta da mesa estendeu as mãos num gesto de impotência. — Todos nós juntos possuímos apenas uma pequena porcentagem das ações da corporação. O restante das ações pertence à sua famı́lia. Ele sabia que o que estava fazendo não era o melhor para a corporação, mas a sua famı́lia é proprietária da corporação. E seu pai disse que queria que o conglomerado tivesse maiores deduções de impostos.

A raiva fervia dentro de Ramon, prestes a explodir pelos seus poros. Sem nem mesmo perceber, quebrou o lápis ao meio.

— Deduções de impostos? — disparou, furioso.

— S-sim... — outro homem gaguejou. — Você sabe... uma redução dos impostos para a corporação.

Ramon bateu a mão com toda a força na mesa, enquanto se levantava.

— Vocês estão tentando me dizer que acharam que ele estava tomando uma decisão racional, quando passou a se desfazer dos bens da corporação apenas para não ter de pagar os impostos sobre eles? — Um músculo saltou na mandı́bula contraı́da, quando lhes enviou um último olhar fulminante. — Tenho certeza de que vocês compreenderão que a companhia não poderá reembolsá-los pelas despesas de viagem para esta reunião. — Fez uma pausa, desfrutando o prazer maldoso que as expressões perplexas lhe forneciam. — Nem tampouco irá aprovar o pagamento anual de seus serviços como ”diretores” no ano passado. Esta reunião está encerrada!

Erroneamente, um dos diretores escolheu aquele momento para mostrar-se assertivo:

— Ha... Ramon, consta dos estatutos da companhia que os diretores devem receber a soma anual de...

— Pois me processe! — Ramon disparou.

Girando nos calcanhares, marchou pela porta na direção do seu escritório, seguido pelo homem que estivera sentado à sua direita, observando em silêncio o transcorrer da reunião.

— Sirva-se de uma bebida, Miguel — Ramon falou entre os dentes, enquanto tirava o paletó. Afrouxando a gravata, aproximou-se das janelas.

Miguel Villegas lançou um olhar para o elegante armário onde estavam as bebidas, numa das paredes revestidas de madeira, depois foi sentar-se numa das quatro poltronas forradas com veludo diante da enorme escrivaninha. Os olhos pensativos continham uma simpatia mal disfarçada quando os voltou para Ramon, que continuava parado junto à janela, de costas para ele, os punhos cerrados com força.

Após vários minutos de tensão, os punhos foram se afrouxando. Num gesto de cansada resignação, Ramon lexionou os ombros largos, depois passou a mão pela nuca, massageando os músculos rígidos.

— Pensei que eu tivesse aceitado a derrota semanas atrás

— ele disse, com um suspiro amargurado, enquanto se virava. — Mas, ao que parece, isso não aconteceu.

Foi na direção da escrivaninha e sentou-se na cadeira maciça de espaldar alto, olhando para o filho mais velho de Rafael Villegas. Sem qualquer expressão no rosto, disse:

— Devo concluir que a sua investigação não obteve nenhum resultado encorajador?

— Ramon — Miguel quase implorou —, sou um contador local; essa era uma tarefa para os auditores da corporação. Você não pode basear-se apenas nas minhas descobertas.

Ramon não se deixou abater pela evasiva de Miguel.

— Meus auditores estão vindo de Nova York esta manhã, mas eu não lhes darei acesso aos registros pessoais de meu pai que dei a você. O que foi que descobriu?

— Exatamente o que você esperava — Miguel suspirou.

— Seu pai vendeu todas as empresas da corporação que estavam dando lucro, e manteve apenas aquelas companhias que atualmente operam com prejuı́zo. Quando não soube o que fazer com o produto das vendas, doou milhões de dólares para todas as instituições de caridade que você puder imaginar. — Retirou vários maços de papel da pasta de couro e, relutante, passou-os a Ramon por cima da mesa.

— O mais frustrante, na minha opinião, são aqueles edifı́cios de escritórios que você está construindo em Chicago e St. Louis. Você tem vinte milhões de dólares investidos em cada um deles. Se ao menos os bancos lhe emprestassem a quantia que falta para concluı́-los, você poderia vendê-los, receber de volta o investimento e ainda obter um lucro considerável.

— Os bancos não vão cooperar — Ramon constatou, tenso. — Já tive uma reunião com os representantes deles, em Chicago e em St. Louis.

— Mas por quê, diabo? — Miguel explodiu, abandonando toda pretensão de seu papel de contador pro issionalmente impessoal. Sua expressão era amargurada, quando olhou para os traços impassı́veis daquele homem a quem amava como se fosse um irmão. — Eles emprestaram o dinheiro para a construção dos edifícios até agora, por que não emprestam o que falta para terminá-la?

— Porque perderam a con iança no meu julgamento e na minha capacidade — Ramon respondeu, analisando os números dos relatórios que Miguel lhe entregara. — Não acreditam que eu seja capaz de terminar a construção dos edifı́cios e pagar o empréstimo. Do ponto de vista deles, enquanto meu pai estava vivo recebiam um milhão de dólares todos os meses como pagamento dos juros. Ele morreu, eu assumi o controle da corporação e, de repente, estamos quase quatro meses atrasados com os pagamentos.

— Mas é por culpa de seu pai que a corporação não tem dinheiro entrando para fazer os pagamentos! — Miguel retrucou, entre os dentes cerrados.

— Se você explicar isso aos banqueiros, eles irão reverter a opinião inicial e salientar que, embora meu pai fosse o presidente do conselho, eu ainda era presidente da corporação e deveria ter tomado providências para impedi-lo de cometer tais erros.

— Erros! — Miguel explodiu. — Não foram erros! Ele planejou tudo de forma que não restasse mais nada para você. Queria que todos pensassem que, sem o controle dele, as empresas afundariam após a sua morte.

Os olhos de Ramon nublaram-se, duros.

— Ele tinha um tumor cerebral; não era responsável pelos próprios atos.

Miguel enrijeceu na cadeira, os traços hispânicos inflamando-se.

— Ele era um miserável filho da mãe, um egoísta tirânico, e você sabe disso! Todos sabiam! Ele se ressentia do seu sucesso e odiava a sua fama. Aquele tumor serviu apenas para que ele inalmente perdesse o controle da inveja que sentia de você. — Vendo a fúria crescente na expressão de Ramon, Miguel baixou a voz. — Sei que não quer ouvir isso, mas é a verdade. Você assumiu a corporação e, em poucos anos, conseguiu erguer um império inanceiro internacional, obtendo um lucro trezentas vezes maior do que aquele que seu pai obtinha no inı́cio. Você fez isso, não ele. Era de você que os jornais e revistas falavam, a quem se referiam como ”o empresário mais dinâmico do mundo”. Foi você que convidaram para comandar a Conferência Mundial de Negócios, em Genebra. Eu estava almoçando num restaurante, sentado a uma mesa perto da de seu pai, no dia em que ele ficou sabendo do convite. Ele não ficou orgulhoso, mas sim furioso! Estava tentando convencer os homens que o acompanhavam de que você havia sido convidado apenas porque ele mesmo não tinha tempo a perder com isso.

— Já basta! — Ramon disparou, o rosto pálido de dor e raiva. — Ainda assim ele era meu pai, e agora está morto. Quase não havia amor entre nós, quando ele era vivo; não destrua os poucos sentimentos por ele que restaram em mim. — Num silêncio pesado, Ramon concentrou-se nos papéis sobre a mesa. Quando passou os olhos pela última coluna de números, ergueu a cabeça para Miguel. — O que é este total em haver de três milhões de dólares que você relacionou no final?

— Não se trata realmente de um crédito — Miguel respondeu, desolado. — Foi algo que encontrei entre os documentos pessoais de seu pai, na casa em Mayaguez. Pelo que entendi, é um empréstimo que ele fez a Sidney Green, de St. Louis, nove anos atrás. Sidney Green ainda lhe deve o dinheiro, mas você não pode processá-lo, nem tomar qualquer medida legal para reaver essa quantia pois, segundo a lei, você tem apenas sete anos para entrar com um processo. E esse prazo já se esgotou.

— O empréstimo foi pago — Ramon falou, encolhendo os ombros.

— De acordo com os registros que encontrei, não foi, não.

— Se você continuar procurando, acabará descobrindo que foi pago, mas não perca mais tempo com isso. Já tem muito o que fazer.

Houve uma rápida batida na porta, e logo em seguida a elegante secretária de Simon Galverra entrou na sala.

— Os auditores de Nova York já chegaram. Também estão aqui dois repórteres de jornais locais pedindo para marcar uma entrevista, e há um telefonema urgente de Zurique.

— Mande os auditores para a sala de reuniões e diga aos repórteres que darei uma entrevista no mês que vem. Isso os deixará fora do caminho. Vou retomar a ligação de Zurique mais tarde.

Assentindo, a secretária fez meia-volta e saiu, a saia colando-se nas pernas bem torneadas.

Miguel observou a saída de Elise, arqueando a sobrancelha com admiração.

— Pelo menos seu pai tinha bom gosto para as secretárias. Elise é muito bonita — comentou, num tom de apreciação estética impessoal.

Ramon abriu uma das gavetas da escrivaninha de madeira maciça e entalhada, e manteve-se em silêncio, enquanto retirava três pesadas pastas cujas etiquetas diziam ”Confidencial”.

— Por falar em mulheres bonitas... — Miguel prosseguiu, com uma indiferença bem calculada, ao mesmo tempo que juntava seus papéis, preparando-se para sair. — Quando é que vou conhecer a bela filha do dono do supermercado?

Apertando o botão do interfone ao seu lado, Ramon passou as instruções para Elise:

— Chame Davidson e Ramirez, e, quando chegarem, mande-os para a sala de reuniões com os auditores. — Com a atenção ainda voltada para as pastas em sua mesa, perguntou a Miguel: — Sobre quem está falando? Que filha do dono do supermercado?

Miguel girou os olhos, divertido.

— Ora, aquela que você trouxe dos Estados Unidos. Eduardo disse que é razoavelmente atraente. Sabendo o quanto ele detesta as mulheres norte-americanas, isso signi ica que deve ser extraordinariamente bonita. Disse também que ela é filha do dono de um supermercado e...

— Dono de um...? — Por um instante Ramon mostrou-se irritado e confuso, mas logo seus traços foram relaxando lentamente. Os olhos, que até então estavam duros e aguçados, suavizaram-se com um brilho diferente, e os lábios foram tocados por um sorriso inexplicável. — Katie — disse, num tom baixo. — Ele estava se referindo a Katie. — Recostou na cadeira e fechou os olhos. — Como pude me esquecer que Katie está aqui? — Reparando no olhar intrigado do amigo, explicou, bem-humorado: — Katie é ilha de um rico e bem-sucedido proprietário de uma enorme rede de supermercados. Ela veio comigo dos Estados Unidos e vai ficar hospedada na casa de Gabriella e Eduardo por duas semanas, até o nosso casamento.

Enquanto Ramon explicava rapidamente a situação, Miguel foi sentando-se devagar na poltrona que acabara de desocupar. Balançou a cabeça, atônito.

— Dios mio, e eu aqui pensando que ela era a sua amante...

— Eduardo sabe que ela não é. Mas como descon ia de todas as mulheres norte-americanas, prefere pensar que acabarei mudando de ideia quanto ao casamento. Quando conhecer Katie, ele irá gostar dela. Enquanto isso, em respeito por mim, irá tratá-la como uma hóspede em sua casa e não lhe dirá nada sobre o meu passado.

— Mas a sua volta é a grande notı́cia da cidade. Mais cedo ou mais tarde a sua Katie acabará ouvindo alguns rumores no vilarejo.

— Tenho certeza que sim, mas ela não vai compreender nem uma palavra. Katie não fala espanhol.

Levantando-se de novo da poltrona, Miguel enviou-lhe um olhar preocupado.

— Ramon, depois disso, nada do que você disser ou fizer poderá deixar-me surpreso.

— Quero que você seja o meu padrinho. Miguel esboçou um leve sorriso.

— Isso não me surpreende. Eu sempre esperei ser o seu padrinho de casamento, da mesma forma que você foi do meu. — Estendeu a mão sobre a escrivaninha. — Parabéns, meu amigo. — O irme aperto de mãos transmitiu seu contentamento, bem como a tristeza pela situação financeira de Ramon. — Vou retomar a análise dos arquivos de seu pai.

O interfone tocou e a voz da secretária anunciou que os dois advogados da corporação, a quem Ramon lhe instruíra para chamar, já estavam à sua espera na sala de reuniões.

Ainda sentado atrás da escrivaninha, Ramon icou olhando Miguel cruzar a sala e sair. Quando a porta se fechou, ele perpassou os olhos pelo seu escritório como se o estivesse vendo pela primeira vez, inconscientemente memorizando todos os detalhes de elegante esplendor.

A paisagem de Renoir, que ele comprara de um colecionador particular por uma quantia exorbitante, estava pendurada sob uma luminária especial, as cores formando um contraste vibrante contra a parede revestida de madeira. Ramon entregara todos os seus bens pessoais como garantia de empréstimos para a corporação, antes de descobrir toda a extensão dos atos destrutivos de seu pai. Juntamente com tudo o mais que ele possuı́a, o Renoir logo seria leiloado e entregue a quem izesse o lance mais alto. Esperava apenas que quem quer que o comprasse fosse capaz de apreciá-lo tanto quanto ele.

Recostando a cabeça na cadeira, fechou os olhos por um instante. Dali a pouco ele estaria entrando na sala de reuniões a im de liberar os auditores e instruir seus advogados para entrarem com os documentos legais que anunciariam aos tribunais e ao mundo empresarial que a Galverra International estava incapacitada. Falida.

Durante quatro meses ele lutara para salvá-la, tentando infundir-lhe vida com seus próprios recursos, fazendo de tudo para manter a corporação funcionando. E havia fracassado. Agora, tudo o que podia fazer era certificar-se de que teria uma morte rápida e digna.

Noite após noite ele icara acordado, temendo aquele exato momento. E, agora que finalmente chegara, iria encará-lo sem a agonia sufocante que teria sentido duas semanas antes.

Porque, agora, ele tinha Katie.

Ramon entregara sua vida à corporação. A partir de agora, entregaria o restante dela a Katie. Somente a Katie.

Pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se invadido por uma profunda sensação de religiosidade. Era como se Deus tivesse decidido privá-lo de sua famı́lia, de suas posses, de seu status, e, quando nada mais restara a Ramon, apiedara-se dele e lhe enviara Katie. E a presença de Katie em sua vida compensava tudo o que ele havia perdido.

Katie passou um batom de cor suave nos lábios, que combinava com o esmalte das unhas. Checou a maquiagem dos olhos e penteou os cabelos com os dedos, restaurando a aparência natural. Satisfeita com o resultado, afastou-se do espelho sobre a cômoda e olhou no relógio. As 5.15 da tarde ainda era dia claro, e Ramon dissera a Gabriella que viria buscar Katie entre 5.30 e 6.00, a fim de levá-la para jantar na casa de Rafael.

Num impulso, Katie decidiu sair e encontrá-lo. Depois de vestir uma calça comprida branca e uma blusa de seda azul-marinho, saiu pela porta da frente, aliviada por poder escapar da presença opressiva de Eduardo, o marido de Gabriella, que parecia estar sempre desaprovando-a.

No alto, o céu azul-cobalto estava pontilhado de nuvens brancas. As colinas erguiam-se à sua volta, cobertas por um tapete verde-esmeralda, salpicado de lores rosadas e vermelhas. Com um suspiro de satisfação, Katie ergueu o rosto para a brisa refrescante e atravessou o gramado da casa, na direção da estreita estrada de terra que levava à rua principal.

Havia se sentido um tanto perdida, estando cercada de pessoas estranhas o dia todo, e sentia falta da presença reconfortante de Ramon. Eles não tinham se visto desde a noite anterior, quando Ramon a apresentara a Gabriella e Eduardo e depois voltara para a casa de Rafael.

— Katie!

A voz conhecida a fez parar. Virando a cabeça, ela avistou Ramon a uns 30m de distância, à sua esquerda. Ele vinha pela colina, da casa de Rafael, e era óbvio que ela havia cruzado diretamente seu caminho, enquanto andava para a estrada. Ele parou, esperando que ela fosse em sua direção. Com um aceno de alegria, Katie virou-se e começou a subir a colina.

Ramon obrigou-se a icar onde estava, desfrutando o puro prazer de saber que ela seguia ao seu encontro. Seu olhar perpassou-a como uma terna carı́cia, observando a maneira como os seus cabelos esvoaçavam, parecendo uma nuvem dourada. Os olhos azuis reluziam de contentamento e um sorriso curvava os lábios convidativos e cheios. Ela movia-se com uma graça natural, os quadris ondulando apenas o bastante para serem lindamente provocantes.

Ramon sentiu o coração disparar com o desejo de tomá-la nos braços e apertá-la contra si, de absorvê-la inteira. Queria cobrir aqueles lábios de beijos e murmurar muitas e muitas vezes, ”eu amo você, amo você, amo você...” Queria dizer isso a Katie, mas não a ponto de arriscar-se a ouvir a resposta dela — ou não ouvir resposta alguma — de que não o amava. Isso ele não conseguiria suportar.

A poucos passos dele, Katie parou, imobilizada por uma estranha combinação de felicidade e timidez. A camisa azul que Ramon usava estava com os primeiros botões abertos, revelando parte do peito bronzeado e musculoso; a calça de brim escuro colava-se nos quadris e nas coxas, seguindo cada contorno das longas pernas. A sensualidade rústica e poderosa que dele emanava fazia com que Katie se sentisse estranhamente frágil e vulnerável. Ela engoliu em seco, procurando algo para dizer, e finalmente conseguiu formular um ”olá”.

Ramon abriu os braços para ela. Com a voz rouca, murmurou:

— Olá, mi amor.

Katie hesitou, mas logo atirou-se em seu abraço aconchegante. Ramon apertou-a contra si como se não desejasse mais soltá-la.

— Sentiu saudades? — ele sussurrou, quando seus lábios por fim se separaram.

Katie pressionou os lábios em sua garganta, aspirando o perfume másculo e quente de sua pele.

— Senti, sim. E você?

— Não.

Afastando-se, Katie olhou para ele com um sorriso incerto.

— Não sentiu?

— Não — ele repetiu, sério. — Porque, desde as dez horas desta manhã, eu a mantive junto comigo. Não deixei que saísse de perto de mim.

— Desde as dez horas...? — Katie começou a perguntar, mas algo na voz dele a fez observá-lo com mais atenção.

Instintivamente, reconheceu as emoções devastadoras que se ocultavam nas profundezas daqueles olhos negros. Estendendo a mão, segurou-lhe o queixo com a ponta dos dedos e virou-lhe o rosto surpreso primeiro para o lado esquerdo, depois para o direito. Mantendo a expressão animada, perguntou, em tom de brincadeira:

— Como eram os outros sujeitos?

— Que outros sujeitos?

— Aqueles que tentaram acabar com você.

— Está dizendo que pareço que estive numa briga? Ramon perguntou.

Katie assentiu devagar, o sorriso alargando-se.

— Sim, e com pelo menos seis homens armados e um tanque de guerra desgovernado.

— Está tão ruim assim, é? — ele sorriu, desolado. Katie assentiu outra vez, e então icou séria.

— Deve ser muito difícil, muito deprimente trabalhar para uma empresa que você sabe que está falida.

O olhar atônito de Ramon revelou a Katie que sua conclusão fora correta.

— Sabe de uma coisa? — ele disse, balançando a cabeça com divertida surpresa. — Muitas pessoas, em todas as partes do mundo, já me disseram que eu consigo manter o rosto absolutamente impassível quando quero.

— E você queria que estivesse impassı́vel esta noite, comigo? — Katie adivinhou. — Por que não queria que eu visse quanto está cansado e deprimido?

— É, sim.

— Há algum dinheiro seu investido nessa companhia?

— Literalmente, todo o meu dinheiro e a maior parte da minha vida — Ramon admitiu, diante do assombro que ela demonstrava. — Você é muito perspicaz, Katie. Mas não precisa se preocupar. Depois do que ficou decidido hoje, não terei de passar tantas horas do dia na empresa. Amanhã à tarde pretendo começar a ajudar os homens que estão trabalhando na reforma da nossa casa.

O jantar na casa de Rafael foi muito agradável, com brincadeiras e risos. A señora Villegas, esposa de Rafael, era uma mulher robusta e cheia de energia, que tratava Ramon com a mesma solicitude que dedicava ao marido e aos ilhos — dois rapazes de cerca de vinte anos e uma garota de catorze. Em consideração a Katie, a maior parte da conversa transcorreu em seu idioma, que os mais jovens não sabiam falar mas que, aparentemente, entendiam um pouco, pois várias vezes ela os viu sorrirem com algo que Rafael ou Ramon diziam.

Depois da refeição os homens foram para a sala, enquanto as mulheres tiravam os pratos da mesa e lavavam a louça. Quando terminaram, reuniram-se a eles para o café. Como se a estivesse aguardando, Ramon estendeu a mão para Katie. Ele puxou-a para si, fazendo-a sentar ao seu lado. Katie icou ouvindo Rafael falar com Ramon, sugerindo-lhe melhorias para a fazenda, mas durante todo o tempo sentia-se vividamente consciente da sensação dos quadris dele contra os seus. Ramon estendera o braço no encosto do sofá, e mantinha a mão acariciando-lhe o ombro, o polegar movendo-se em sua nuca, sob os cabelos espessos. De propósito, ele a mantinha totalmente ciente de sua proximidade. Katie pensou no que ele lhe dissera antes, sobre tê-la mantido o tempo todo ao seu lado, insinuando que havia precisado dela para enfrentar os problemas do dia. E será que a estava mantendo isicamente próxima agora, tocando-a daquela maneira, porque precisava dela para enfrentar a noite também?

Katie olhou disfarçadamente para o per il esculpido e, com uma pontada de solidariedade, reconheceu os sinais de preocupação em seus traços. Com um gesto delicado, ingiu um bocejo por trás da mão fechada, e Ramon olhou-a no mesmo instante.

— Você está cansada?

— Um pouco — ela mentiu.

Em três minutos Ramon concluiu a conversa com Rafael e, desculpando-se com a famı́lia, praticamente arrastou-a pela porta afora.

— Está com disposição de ir andando ou prefere que eu a leve de carro?

— Eu estou disposta a qualquer coisa — Katie respondeu sorrindo. — Mas você parece cansado e distraído, por isso inventei essa desculpa para tirá-lo de lá.

Ramon não se deu ao trabalho de negar.

— Obrigado, Katie — disse ternamente.

Gabriella e o marido já haviam se recolhido, mas deixaram a porta destrancada. Katie parou para acender um abajur, enquanto Ramon ia direto para o sofá. Quando foi sentar ao seu lado, ele a puxou pelo braço, fazendo-a sentar em seu colo. Porém, desvencilhando-se dele com firmeza, Katie levantou-se e fez a volta por trás do sofá.

Sob suas mãos delicadas, os largos ombros de Ramon estavam tensos, quando ela começou a massageá-los. Katie foi invadida por uma estranha sensação, diante do estado em que ele se encontrava. Havia uma intimidade tranquila entre eles, que jamais estivera presente antes, pois Ramon sempre parecia instigar-lhe uma energia sensual que mantinha seus sentidos em constante excitação. Mas, naquela noite, a energia existente era de tranquilo magnetismo.

— Como está se sentindo? — ela perguntou, massageando-lhe a base da nuca.

— Melhor do que você pode imaginar — ele respondeu, inclinando a cabeça para que ela tivesse um melhor acesso à sua nuca. — Onde aprendeu a fazer isso? — indagou minutos depois, quando Katie dava leves batidinhas em suas costas e ombros.

As mãos dela congelaram no ar.

— Não me lembro — mentiu.

Algo na voz dela fez com que Ramon se virasse abruptamente. Viu a expressão assustada em seus olhos, segurou-a pelos braços e a fez voltar para a frente, sentando-a em seu colo.

— Agora, vou fazer com que você se sinta melhor disse, enquanto abria os botões da blusa e, mergulhando as mãos por dentro do sutiã de renda, puxava-lhe os seios para fora.

Antes que Katie pudesse dar conta de si mesma, os lábios dele estavam em seus seios, nublando seus pensamentos, carregando-a para um estado de ardente desejo. Com um braço em torno de seus ombros e outro em sua cintura Ramon a fez deitar no sofá, o corpo quase cobrindo o seu.

— Ele está morto — lembrou-a com intensidade. — E eu não quero nenhum fantasma entre nós. — Apesar do tom rı́spido, seu beijo estava repleto de ternura. — Esqueça-o, Katie — implorou. — Por favor.

Katie enlaçou-o pelo pescoço, arqueando o corpo contra o dele e, imediatamente, esqueceu o mundo inteiro.