Doce Triunfo

Judith McNaught · Capítulo 7 de 21

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Doce Triunfo

Capítulo 7

KATIE FOI PARA O TRABALHO na manhã seguinte, determinada a mostrar-se animada, porém os efeitos de sua noite insone estavam evidentes nas marcas escuras sob seus olhos e na tensão de seu sorriso, normalmente tão espontâneo.

— Olá, Katie! — sua secretária cumprimentou-a. — Como passou o feriado?

— Muito bem — ela disse. Pegou o punhado de recados que a secretária lhe entregava. — Obrigada, Donna.

— Quer um café? — Donna ofereceu. — Está parecendo que não vê uma cama desde sexta-feira. Ou — ela acrescentou com um sorrisinho malicioso — será que devo dizer que parece que não dorme desde sexta-feira?

Katie conseguiu esboçar um fraco sorriso diante da brincadeira.

— Eu adoraria um café, Donna.

Separando rapidamente os recados, Katie entrou em sua pequena sala. Sentou na cadeira atrás da escrivaninha e olhou em volta. Ter um escritório privado, não importava de que tamanho fosse, era um importante sı́mbolo de status na empresa Technical Dynamics, e ela sempre se orgulhara muito desse sinal externo de seu sucesso. Naquela manhã, entretanto, isso lhe parecia fútil e sem sentido.

Como podia ser que, quando trancara sua mesa na sexta-feira, jamais tinha ouvido falar de Ramon, e agora a ideia de nunca mais tornar a vê-lo estava consumindo seu coração? Consumindo seu corpo, não o coração, Katie corrigiu-se com irmeza. Ergueu os olhos quando Donna entrou e deixou uma xícara de café na mesa.

— A srta. Johnson gostaria de falar com você no escritório dela, às nove e quinze — a secretária avisou.

Virgı́nia Johnson, a supervisora imediata de Katie, era uma mulher de quarenta anos, inteligente, capaz e muito bonita, que nunca havia se casado e ocupava o cargo de diretora do departamento de pessoal. De todas as pro issionais de carreira que Katie conhecia, Virgı́nia era a quem mais admirava.

Em contraste com o acanhado escritório de Katie, que continha apenas os móveis mais básicos e funcionais, o de Virgı́nia era espaçoso, com móveis de estilo provençal francês e um carpete verde e macio. Katie sabia que Virgínia estava preparando-a para que ela ficasse em seu lugar, que pretendia que ela fosse a próxima diretora do departamento, e a próxima ocupante daquele escritório.

— Como foi seu im de semana prolongado? — Virgı́nia perguntou sorrindo, quando Katie entrou na sala.

— Muito bom — ela respondeu, sentando-se na cadeira diante da mesa de Virgı́nia. — Mas hoje parece que não estou tão bem assim; não estou conseguindo entrar no ritmo do trabalho.

— Pois então eu tenho uma notı́cia que talvez desperte seu entusiasmo. — Virgı́nia fez uma pausa para aumentar o suspense, depois deslizou um formulário bem conhecido sobre a mesa, na direção de Katie. — O seu aumento de salário foi aprovado — comunicou com um largo sorriso.

— Ah, isso é ótimo. Obrigada, Virgı́nia. — Katie mal olhou para a folha de papel que lhe concedia um aumento de 18% no salário. — Há mais alguma coisa que queira falar comigo?

— Katie! — Virgínia exclamou com um riso impaciente.

— Tive de lutar com unhas e dentes para lhe conseguir esse aumento!

— Eu sei. — Katie tentou mostrar-se devidamente agradecida. — Você sempre foi sensacional comigo, e é claro que adoro a ideia de ganhar um dinheiro extra.

— Você merece cada centavo e, se fosse homem, já teria recebido-o aumento tempos atrás. Aliás, foi exatamente isso que eu disse ao nosso vice-presidente financeiro.

Katie mexeu-se na cadeira.

— Há mais algum assunto que queira discutir, Virgı́nia? E que tenho uma entrevista marcada, e o candidato já está esperando.

— Não, isso é tudo.

Katie levantou-se e encaminhou-se para a porta, mas parou ao ouvir a voz preocupada de Virgínia:

— Katie, o que há de errado? Será que posso ajudar? Katie hesitou. Precisava falar com alguém, e Virgı́nia era uma mulher sensata. Na verdade, era a pessoa a quem Katie mais admirava e gostaria de poder imitar. Caminhando até as janelas envidraçadas, Katie olhou para baixo, vendo o tráfego incansável na rua.

— Virgínia, alguma vez você pensou em desistir da carreira para se casar?

Virando-se abruptamente, deparou com Virgı́nia observando-a com aguçado interesse, a testa franzida.

— Katie, podemos ser francas uma com a outra? Você está considerando a ideia de casar-se com alguém em especial ou simplesmente visualizando um futuro obscuro?

— Meu futuro seria de initivamente obscuro sem ele Katie riu, mas sentia-se tensa e deprimida. Com um gesto nervoso, passou as mãos pelos cabelos, ajeitando o coque impecável. — Eu conheci esse homem... muito recentemente... e ele quer se casar comigo e ir embora do país. Ele não é daqui.

— Quão recentemente? — Virgínia perguntou, perspicaz. Katie ruborizou-se.

— Na sexta-feira à noite.

Virgı́nia emitiu uma gostosa gargalhada, que destoava de seu tamanho pequeno e delicado. — Puxa, você chegou a me deixar preocupada por alguns minutos, mas agora acho que estou entendendo. Quatro dias atrás você conheceu um homem maravilhoso, diferente de todos os que conhece. Não pode suportar a ideia de perdê-lo. Estou certa? Bem, ele é muito atraente, sem dúvida. E mexe com você de tal forma que nenhum outro homem jamais conseguiu. E isso, não é?

— Exatamente — Katie admitiu, encolhendo-se por dentro.

— Nesse caso, tenho a cura perfeita: recomendo que você não o deixe sair de suas vistas, a não ser que seja absolutamente necessário. Fique ao lado dele o tempo todo, coma com ele, durma com ele, vá morar com ele. Façam tudo juntos.

— Está dizendo — Katie falou, surpresa — que acha que as coisas podem dar certo? Que devo casar-me com ele?

— E claro que não! Estou sugerindo uma cura, não que você se case com a doença! Estou lhe prescrevendo doses maciças do remédio, para que você tome em horários determinados... como se fosse um antibiótico. A cura é infalı́vel e o único efeito colateral será um leve caso de desilusão. Acredite, Katie, eu sei o que estou dizendo. Vá morar com ele, se quiser, mas desista da ideia de apaixonar-se em quatro dias, casar com ele e viver feliz para sempre. O que me leva à questão do ”apaixonar-se”. A pessoa apaixonada realmente parece acometida de algum tipo de doença, não acha? Por isso a medicação precisa ser rápida e e icaz. — Virgı́nia interrompeu-se ao ouvir o riso de Katie. — Otimo, ico contente em vê-la novamente animada. — Pegando um envelope na caixinha de entrada sobre a mesa, deu um largo sorriso e fez um gesto para Katie, indicando a porta. — Agora, vá entrevistar seu candidato e faça jus ao aumento que acabou de receber.

Vendo o desapontado jovem sair de sua sala vinte minutos depois, Katie pensou com desgosto que até sua secretária poderia ter conduzido a entrevista melhor do que ela. Havia feito perguntas vagas e gerais, e não aquelas mais concisas e pertinentes, e depois ouvira as respostas sem o menor interesse. Mas o coroamento do desastre acontecera no inal da infeliz entrevista. Levantando-se, ela havia cumprimentado o rapaz com um aperto de mão e, num tom de desculpas, avisara-o de que não poderia ser muito encorajadora acerca de suas chances para o cargo de engenheiro na Technical Dynamics.

Um tanto irritado, o jovem respondera:

— Eu estava me candidatando para o cargo de auditor.

— Bem, nem como auditor, infelizmente — ela havia retrucado, sem o menor tato.

Ainda vermelha de vergonha por causa de sua gafe, Katie pegou o telefone e ligou para o escritório de Karen.

— Como estão as coisas aı́ no jornal? — perguntou, quando a secretária de Karen passou a ligação.

— Tudo bem, Katie. E você? Como vão as coisas no departamento de pessoal da poderosa Technical Dynamics?

— Péssimas! Eu praticamente acabei de dizer a um candidato que ele não tem a mı́nima chance de trabalhar conosco, seja em que cargo for.

— E o que há de errado nisso? Suspirando, Katie respondeu:

— Em meu trabalho, devo mostrar-me um pouco mais diplomática do que isso. Normalmente dizemos que não há nenhuma vaga disponı́vel que seja adequada à experiência e escolaridade do candidato. Signi ica a mesma coisa, mas soa melhor e não fere os sentimentos de ninguém.

— Katie massageou os músculos tensos da nuca. — Escute, estou ligando porque queria saber o que você vai fazer esta noite. Não estou com vontade de icar sozinha em casa. E pensando em Ramon, acrescentou mentalmente.

— Combinei com o pessoal de irmos todos ao Purple Bottle — Karen falou. — Por que não nos encontra lá? Acho que devo avisá-la de que é um bar estritamente de solteiros. Mas a música é boa e eles têm um cantor razoável.

A e iciência de Katie, se não o seu entusiasmo, melhorou um pouco depois disso. Passou o dia resolvendo os problemas de sempre e lidando com os atritos rotineiros. Ouviu um supervisor queixar-se, em alto e bom som e com entediante meticulosidade, de uma funcionária do departamento de arquivos. Depois, escutou as lacrimosas reclamações da garota sobre as exigências do tal supervisor. No inal, ignorou a exigência dele para que a funcionária fosse demitida e, em vez disso, transferiu-a para outro departamento. Depois de examinar as fichas de vários candidatos, escolheu uma jovem que a impressionara bastante durante a entrevista, por mostrar-se assertiva e autoconfiante, e marcou com ela uma entrevista com o supervisor.

Acalmou uma irada contadora que estava ameaçando processar a empresa por discriminação porque outra pessoa havia sido promovida em seu lugar. Depois, concluiu uma pesquisa acerca das exigências do governo em relação à segurança na empresa.

Entre tudo isso, mais as entrevistas com candidatos, o dia de Katie voou. No inal da tarde, ela recostou-se na cadeira e contemplou com tristeza uma vida inteira de dias sendo passados exatamente como aquele. Isso era ”ter uma carreira”. Virgı́nia Johnson devotara toda sua energia, toda sua vida, a ”ter uma carreira”. Para isso.

Aquela sensação vazia e inquietante que estivera assombrando-a nos últimos dias retornou com toda força. Katie tentou ignorá-la e começou a trancar as gavetas, preparando-se para sair.

Katie passou os piores momentos de sua vida no bar Purple Bottle. Ficou por ali, ingindo ouvir a música, observando os homens e mulheres que faziam suas abordagens muitas vezes nada sutis. Sentia-se desconfortavelmente consciente de três homens sentados a uma mesa à sua direita, que a observavam sem disfarçar, julgando sua aparência, calculando as possibilidades de levá-la para a cama sem maiores esforços. Katie pensou que todas as mulheres que estavam considerando a ideia de se divorciar de seus maridos deveriam passar pelo menos uma noite num bar de solteiros. Depois daquela experiência degradante e desmoralizadora, muitas delas voltariam voando para os braços de seus homens.

Saiu às 9.30, uma hora depois de ter chegado, e voltou para o seu apartamento. Enquanto dirigia, os pensamentos sobre Ramon assaltavam-na. Sua vida era ali mesmo, e ele não podia fazer parte dela, enquanto a vida dele era diferente demais da sua, distante demais para que nem sequer fosse capaz de imaginá-la.

Katie foi para a cama às 10.30 e, depois de várias horas virando-se de um lado para outro, finalmente caiu num sono profundo.