Doce Triunfo
Capítulo 18
O PADRE GREGORIO cumprimentou Katie com formalidade e reserva, quando ela entrou em seu escritório, na manhã seguinte. Esperou que ela se sentasse, e foi para a sua cadeira atrás da escrivaninha.
Katie tentou imitar sua expressão grave.
— Ramon me contou que o senhor acha que me falta docilidade, submissão e respeito pela autoridade.
— Sim, foi o que eu disse. — O padre recostou-se na cadeira. — Você discorda?
Katie balançou a cabeça devagar, com um leve sorriso nos lábios.
— Não, de maneira alguma. Na verdade, considero um grande elogio. — A expressão dele não se alterou, e ela hesitou um pouco, antes de continuar: — Mas é óbvio que o senhor não vê as coisas dessa forma. O senhor disse a Ramon que esse era o motivo pelo qual não queria realizar o nosso casamento.
— Você prefere que eu diga a ele o verdadeiro motivo? Que a mulher a quem ele ama não retribui seus sentimentos?
Ela cerrou os dedos, afundando as longas unhas nas palmas das mãos.
— Eu não disse que...
— Srta. Connelly! — ele interrompeu-a, numa voz baixa e controlada. — Não vamos perder mais tempo fazendo rodeios que não nos levarão a parte alguma. Você está procurando um meio de evitar esse casamento, e é isso que eu estou lhe fornecendo. Katie ficou rígida.
— Como o senhor pode dizer uma coisa dessas?
— Porque é a verdade. Pressenti isso desde o nosso primeiro encontro. Quando lhe perguntei há quanto tempo conhecia Ramon, você disse ”apenas” duas semanas. Deliberadamente fez-me acreditar que é o tipo de mulher que frequenta cantinas na esperança de conhecer homens, homens a quem permite que lhe façam carícias em lugares públicos, como estacionamentos. Mas você não é desse tipo, señorita, e nós dois sabemos disso.
O padre ergueu a mão autoritária, impedindo-a de protestar.
— Já é tarde demais para explicações. Há outros motivos que me levaram a acreditar no que a irmei: eu lhe disse que bastaria você dizer que amava Ramon para que pudéssemos concluir os detalhes para o casamento. Se você realmente quisesse se casar com ele, teria dito o que eu esperava ouvir, mesmo se fosse mentira, para que eu concordasse em realizar a cerimônia. E quando eu lhe disse que, em vez disso, aceitaria a sua palavra de que pretendia ser uma boa esposa para Ramon, seu rosto icou pálido como uma folha de papel. Dez segundos depois, você começou a acusar-me de tentar fazê-la prometer que iria respeitar a autoridade dele e obedecer-lhe.
Katie baixou os olhos para as mãos no colo. Esfregou as palmas úmidas contra os joelhos.
— Não há nada que eu possa dizer para provar que o senhor está enganado, não é?
— Você não quer provar que eu estou enganado, señorita. Em seu coração, o que deseja mesmo é evitar esse casamento. — O padre tirou os óculos e massageou a arcada do nariz, com uma expressão de cansaço. — Talvez você tenha medo de comprometer-se ou de entregar o seu amor. Não sei. Mas sei de uma coisa: quando Ramon perceber que você é capaz de dar-lhe apenas o seu corpo, e não o seu coração, ele não icará satisfeito. Nenhum homem de caráter e orgulho se permitiria continuar gostando tanto de uma pessoa que não o ama. O amor de Ramon por você acabará diminuindo e morrendo, pois ele fará de tudo para que isso aconteça; ele próprio irá matar esse sentimento. E, quando isso acontecer, ele estará livre para encontrar outra mulher e casar-se, se assim decidir. Sabendo de tudo isso, eu não posso, e não irei uni-lo a você pelo resto da vida com os laços eternos do Sagrado Matrimonio.
Os olhos de Katie ardiam com as lágrimas que ela recusava-se a derramar, e um nó formou-se em sua garganta quando ouviu as últimas palavras do padre:
— Seria melhor para os dois se você voltasse imediatamente para os Estados Unidos. Se lhe falta coragem e decência para tanto, então vá viver com ele em pecado, ou case-se apenas numa cerimônia civil. Não vou impedi-los. Mas eu já lhe dei uma saı́da para isso, e espero que você também dê a Ramon uma saída... e que não o force a unir-se a você pela Igreja.
Katie levantou-se, rígida.
— E essa é a sua decisão final? — perguntou.
O padre pareceu demorar uma eternidade para sair da cadeira.
— Se é dessa forma que deseja colocar, sim, é a minha decisão final. Vou deixar que você se encarregue de contar a Ramon. — Os olhos dele adquiriam um brilho quase solidário. — Não se sinta culpada por não conseguir amá-lo, señorita. Ramon é um homem que atrai as mulheres. Muitas já o amaram no passado, e muitas ainda irão amá-lo no futuro e estarão mais do que dispostas a casar com ele.
Katie mantinha a cabeça erguida, orgulhosa, mas os olhos enchiam-se de lágrimas,
— Eu não me sinto culpada, mas sim furiosa! — Girando nos calcanhares, encaminhou-se para a porta.
A voz do padre Gregório soou incrivelmente triste, quando a chamou:
— Señorita...
Ela manteve o rosto baixo, sem querer dar-lhe a satisfação de vê-la chorando.
— Sim?
— Deus a abençoe.
As lágrimas presas na garganta impediram-na de responder. Katie abriu a porta e saiu apressada.
Foi dirigindo para o chalé, quase cega pelas lágrimas de medo e humilhação. O padre Gregório estava certo. Ela realmente estivera procurando um meio de escapar do casamento... Não, não um meio de escapar, mas sim de ganhar mais tempo.
— Maldito seja, David! — ela murmurou com a voz rouca. Toda aquela confusão na qual sua vida se transformara
era por culpa dele. Mesmo depois de morto, David continuava a persegui-la. Era por causa dele que não conseguia superar aquele pânico paralisante de que pudesse estar cometendo o mesmo erro duas vezes.
Na primeira vez, casara-se mesmo quando seus próprios instintos alertavam-na de que aquele homem não era quem parecia ser. Agora, queria casar-se com outro homem, e sentia a mesma coisa. Não conseguia afastar tal sensação.
Parou o carro na frente da casinha de contos de fadas e entrou, aliviada ao ver que Ramon não estava ali. Não queria ter de explicar a sua expressão transtornada. E como poderia? Como poderia dizer: ”Há algo em você que me assusta, Ramon”?
Katie foi para a cozinha e, preparou um café na cafeteira nova que havia comprado. Depois de pronto, encheu uma caneca e levou-a para a mesa. Com as mãos em volta da caneca quente, icou olhando para as colinas que se estendiam em todas as direções, deixando que a paisagem magnífica acalmasse suas emoções desencontradas.
Lembrou-se da maneira como se sentia, antes de casar com David. Alguma intuição, algum instinto a avisara de que David Caldwell não era realmente o homem que ingia ser. Ela devia ter dado ouvidos a si mesma.
E, agora, queria casar-se com Ramon — e todos os seus instintos lhe diziam que ele, tampouco, era o homem que fingia ser.
Katie massageou as têmporas com a ponta dos dedos. Nunca se sentira tão confusa e amedrontada. Não podia mais adiar a decisão. Ou ignorava seus temores instintivos e casava-se com Ramon, ou teria de voltar para os Estados Unidos.
A ideia de deixá-lo a fez sentir-se fisicamente doente. Ela o adorava!
Amava seus olhos negros, o sorriso radiante, a irmeza de seus traços e a tranquila autoridade de sua expressão. Mesmo sendo um homem alto, forte e musculoso, era terno e delicado com ela. Ao lado dele, sentia-se protegida, amada, e não ameaçada nem insignificante.
Por natureza, ele era um homem dominador, viril e seguro de si, enquanto ela era obstinada e independente. Deveria ressentir-se por ele querer con iná-la ao seu papel de mãe e esposa, mas isso não acontecia. A ideia de ser sua mulher a enchia de alegria, e ficava encantada ao pensar que poderia ter ilhos com ele. De bom grado icaria em casa, limpando e preparando as refeições, em troca de ser acolhida naqueles braços fortes todas as noites.
Ramon queria que ela aceitasse uma espécie de laço sexual, que entregasse seu corpo e sua alma aos seus cuidados. Em troca, ele seria seu amante, provedor e um pai para seus ilhos. Um tanto envergonhada, Katie admitiu a si mesma que também era o que queria. Poderia ser uma situação um tanto machista, não emancipada, mas parecia certa, satisfatória. Pelo menos para ela.
Ficou olhando para as mãos cruzadas em seu colo. Ramon era tudo o que ela poderia desejar: um homem inteligente, sensível, sensual, e que a amava.
Exceto que ele não era real.
Ele não era o que ingia ser. Katie não sabia por que se sentia dessa forma, ou o que estava errado, mas a sensação não a abandonava.
Ramon estacionou o carro de Rafael na frente do armazém geral e desceu. Eduardo abriu a porta no lado do passageiro.
— Eu vou com você — disse. — Gabriella pediu-me para comprar leite.
— O quê? — Ramon perguntou, distraído.
— Eu disse que... — Eduardo balançou a cabeça, exasperado. — Não importa. Você não ouviu nenhuma palavra do que eu disse a manhã toda. Esse casamento está afetando sua audição, meu amigo.
— Eu não vou me casar — Ramon falou, mal-humorado, deixando Eduardo boquiaberto enquanto abria a pesada porta e entrava no armazém.
Em contraste com o calor de fora, o interior da loja estava fresco e agradável. Ignorando o olhar perplexo de Eduardo, bem como as dez pessoas que o encaravam com ávida curiosidade, Ramon escolheu várias caixas de charutos e levou-as para o balcão, onde duas jovens atendiam os fregueses.
Eduardo deixou a caixa de leite ao lado dos charutos e perguntou, em voz baixa:
— Você está brincando? Ramon olhou-o de relance.
— Não, não estou brincando.
Uma linda jovem que atendia uma senhora imensa, que experimentava um avental, avistou Ramon e seu rosto iluminou-se. Pediu à outra funcionária que cuidasse da senhora e foi para onde Ramon e Eduardo esperavam.
— Señor Galverra — ela chamou, em espanhol. — Lembra-se de mim? Sou Maria Ramirez. Eu usava tranças quando era criança, e o senhor costumava puxá-las e dizer que eu icaria linda quando crescesse.
— Então acertei — ele disse, esforçando-se para sorrir.
— Estou noiva, agora, vou me casar com Juan Vega a jovem continuou, sempre sorrindo, enquanto se abaixava por trás do balcão e pegava um grande pacote, embrulhado em papel branco e amarrado com barbante. — Estas são as toalhas que a señorita Connelly encomendou para o senhor. Quer levá-las agora?
— Tudo bem — Ramon respondeu, assentindo brevemente. En iou a mão no bolso da calça jeans e tirou a carteira, enquanto examinava a nota. — Você cobrou apenas os charutos, Maria. Qual é o preço das toalhas?
— A señorita Connelly já pagou pelas toalhas, com o cartão de crédito — a jovem assegurou-lhe.
Ramon tentou não mostrar-se tão impaciente quanto se sentia.
— Deve haver algum engano.
— Engano? — Maria repetiu. — Acho que não, mas vou verificar.
A garota cortou o barbante e abriu o pacote. Uma pilha de toalhas felpudas e coloridas espalhou-se no balcão. Ramon sentia que os fregueses começavam a amontoar-se atrás e ao lado dele, tentando ver melhor o conteúdo do pacote.
— Aqui está o recibo do cartão de crédito, e estas são as notas de compra — Maria falou, pegando as notas entre duas toalhas. — Não há nenhum engano. A señorita Connelly pagou as toalhas com o cartão de crédito, no mesmo dia em que pagou as outras compras que fez, na semana passada. Veja, aqui está a nota discriminando os artigos que ela comprou, num total de quinhentos dólares. Uma torradeira, uma cafeteira, pratos, panelas, copos de diversos tamanhos, um liquidificador, utensílios de cozinha e todos estes outros itens.
Um homem idoso atrás de Ramon deu-lhe um leve tapinha nas costas.
— Você é um sujeito de sorte, Ramon. Sua noiva quer que tenha tudo o que há de melhor. Não é apenas bonita, mas também muito generosa, hein?
— Embrulhe as toalhas — Ramon ordenou a Maria, numa voz baixa e rápida.
Maria empalideceu ao ver a expressão no rosto dele, e mais que depressa juntou as toalhas e embrulhou-as.
— Aqui... aqui estão as cópias dos recibos da señorita Connelly — ela gaguejou —, um para cada metade da quantia que ela gastou. — Desviou os olhos do rosto furioso de Ramon, entregando-lhe os recibos. — A señora Alvarez acrescentou, voltando-se apreensivamente para Eduardo ao pronunciar o nome da esposa dele — explicou que eu não precisaria fazer os recibos em duplicatas dessa forma quando a señorita Connelly pagasse em dinheiro. Mas eu faço... assim mesmo.
Empurrou o pacote na direção de Ramon como se estivesse queimando-lhe as mãos, e a voz baixou para um sussurro amedrontado:
— Dessa maneira, eu nunca me esqueço.
O tom da voz de Ramon estava gélido:
— Tenho certeza de que a srta. Connelly gostou muito da sua ajuda, Maria.
Todos afastaram-se rapidamente do caminho, quando ele marchou para fora da loja com a fúria explodindo em cada passo duro.
Os dez fregueses olharam a porta batendo com força, depois que Ramon e Eduardo saı́ram. Olharam uns para os outros, os rostos re letindo uma variedade de reações que iam do susto à satisfação. Apenas uma pessoa que estava na loja ficou indiferente ao que acabara de acontecer
— um turista inglês, que não entendia espanhol. Ele pigarreou educadamente e tentou ser atendido, mas foi ignorado.
Maria foi a primeira a falar. Olhou para as pessoas que rodeavam o balcão, os olhos castanhos muito abertos e preocupados, quando sussurrou:
— O que eu fiz de errado?
Um homem de meia-idade, que também trabalhava no armazém, encarou-a com ironia.
— Maria, você acabou de ”ajudar” a señorita Connelly um pouco mais do que ela precisava.
O velho que provocara Ramon acerca da generosidade de sua noiva deu um tapa na perna e exclamou, exultante:
— Eu disse que Galverra não sabia o que a garota estava fazendo! Eu disse! — O rosto enrugado iluminou-se com um largo sorriso, enquanto olhava para os vizinhos. — Eu disse a vocês que ele não deixaria que uma mulher o sustentasse, nem se estivesse morrendo de fome! Ele devia dar-lhe uma boa lição, isso sim!
— Volto depois para comprar o avental — a mulher muito gorda foi dizendo, enquanto se encaminhava para a porta.
— Para onde vai, Rosa? — sua amiga chamou, atrás dela.
— À igreja, oferecer uma prece.
— Para a moça americana? — uma das senhoras perguntou, rindo.
— Não, para Gabriella Alvarez.
— Essa também devia receber uma boa lição — o velho declarou.
Quando ouviu Ramon entrar, Katie ingiu que estava arrumando os suportes de pratos na mesa da cozinha. Era incrı́vel como o simples som da voz dele chamando seu nome era o suficiente para deixá-la mais animada.
— Aqui estão as toalhas que você encomendou — ele foi logo dizendo, deixando o pacote na mesa. — A garota da loja disse que já foram pagas. O café ainda está fresco?
— perguntou, enquanto se adiantava e pegava uma caneca.
Katie sorriu por sobre o ombro e assentiu, abrindo o pacote e começando a dobrar as toalhas.
— Ainda não posso imaginar como conseguiu comprar tudo isso com o dinheiro que lhe dei — ele comentou.
— Já lhe disse — ela retrucou, num tom animado. Sou uma especialista em pechinchas.
— E é uma excelente mentirosa, também.
Katie fez meia-volta rapidamente, sentindo um arrepio de medo, que se transformou em pânico no instante em que olhou para ele. Em contraste com a calma paralisante de sua voz, o rosto de Ramon era uma máscara de fúria.
— Quanto do seu dinheiro você gastou, Katie? Ela sentiu a boca seca.
— Muito pouco. Uns... cem dólares.
Os olhos dele penetraram-na como facas afiadas.
— Eu perguntei... quanto, Katie — repetiu, numa voz aterrorizante.
— Duzentos... duzentos dólares.
— Se você mentir para mim mais uma vez — ele ameaçou, num tom sedoso —, vou fazer com que o seu primeiro marido pareça um santo.
A ameaça deixou-a nauseada de medo.
— Cerca de três mil dólares — ela confessou, a inal. A pergunta seguinte atingiu-a como um chicote.
— Por quê?
— Porque... eu não queria sentir-me obrigada a casar com você.
Um lampejo de dor perpassou os traços dele, mas, no instante seguinte, todo seu corpo ficou rígido, tenso, tentando controlar-se.
— Amanhã, às duas da tarde, Garcia irá levá-la para o aeroporto. Ele lhe entregará um cheque, para reembolsá-la de tudo o que gastou. Não precisa dar-se ao trabalho de explicar nada a Gabriella e Eduardo, pois eles já sabem que você está de partida.
Katie respirava com dificuldade, sufocando.
— Você vai mesmo mandar-me embora apenas porque comprei algumas coisas para a casa?
— Não. Porque eu lhe disse para não fazer isso — ele corrigiu-a num tom de desprezo.
— É... é só por isso? Porque lhe desobedeci? — Katie sentia-se como se tivesse sido atacada fisicamente. Sua mente não conseguia absorver o choque.
Ramon devia estar louco, pensou. O homem a quem conhecia jamais, jamais agiria daquela forma. Não por algo tão insignificante.
Começou a andar na direção da porta, sentindo as pernas pesadas, rı́gidas. Ao passar por ele, fitou-o por um instante, os olhos repletos de dor e desilusão.
— Apenas por causa disso... — murmurou, balançando a cabeça como se estivesse entorpecida. — Não! — gritou quando Ramon agarrou-a e puxou-a de encontro ao peito rígido.
Os olhos dele ardiam, o rosto estava pálido de ódio.
— Você não tem nada além de um corpo ardente e um coração vazio — ele falou com violência, entre os dentes cerrados. — Achou mesmo que eu estava tão desesperado pelo seu corpo a ponto de aceitá-lo num aluguel temporário e chamar isso de casamento? — Empurrou-a para longe como se não suportasse tocá-la, e foi com passos duros até a porta, onde se virou, a voz soando como um rugido selvagem: — Se em duas semanas você não descontar o cheque que Garcia vai lhe dar, farei com que tudo o que está nesta casa seja atirado ao fogo!
Katie prendeu o fecho da sua última mala e levou-a para a porta do quarto, deixando-a ao lado das outras cinco. Não havia mais nada que fazer naquela noite, exceto dormir.
Sentou-se na cama do quarto de hóspedes de Gabriella e olhou em volta, atordoada. Ela queria tempo... e agora tinha tempo de sobra. Tinha o resto da vida à sua frente para perguntar-se se havia jogado fora sua chance de felicidade, ou se escapara de outro pesadelo em forma de casamento. Ergueu os olhos para o espelho, e o rosto repleto de sofrimento que a encarou de volta era o reflexo perfeito de seus sentimentos.
Gabriella estava dormindo, e Eduardo saı́ra logo depois do jantar. Katie estremeceu, lembrando-se da atmosfera desagradável que se instalara durante a refeição. Nenhuma palavra fora pronunciada por ninguém. Eduardo comera mergulhado num silêncio furioso, e Gabriella, que estava tão pálida quanto a morte, passara o tempo todo enviando a Katie leves sorrisos de piedade e tristeza, entre ruidosas fungadelas. Katie, que não conseguira engolir nada, havia evitado cuidadosamente o olhar fulminante de Eduardo e enviara um olhar de desculpas à pobre Gabriella. Quando acabou de jantar, Eduardo empurrara a cadeira para trás, levantara-se e olhara para Katie com um ódio evidente.
— Meus parabéns — ele dissera, entre os dentes cerrados.
— Você conseguiu destruir um grande homem. Nem mesmo o pai dele obteve tanto sucesso, quando tentou, mas você conseguiu. — Girou nos calcanhares e saiu.
Katie olhou automaticamente no relógio ao lado da cama, quando ouviu a porta da frente abrir e fechar. Os passos pesados de Eduardo vinham na direção do seu quarto. Mais que depressa ela enxugou as lágrimas e ergueu o rosto, deparando com Eduardo na soleira da porta. Empinou o queixo, numa fraca tentativa de desa io, quando ele encaminhou-se para onde ela estava.
Atirando na cama um grande álbum de fotogra ias com a capa de couro, ele disse com frieza:
— Este é o homem a quem você reduziu ao nível de mendigo, aos olhos desta cidade.
Confusa, Katie pegou o álbum.
— Abra — Eduardo disparou. — Pertence a Rafael e à esposa. Eles querem que você o veja, antes de partir.
Katie engoliu em seco.
— Ramon está na casa deles? — perguntou.
— Não.
Depois que Eduardo saiu, Katie abriu o álbum. Mas este não continha fotogra ias, e sim dezenas e dezenas de recortes de jornais e revistas. Ela passou os olhos pelo primeiro recorte, e as mãos começaram a tremer violentamente, enquanto virava as páginas plasti icadas. Havia uma foto de jornal de Ramon parado diante de uma dúzia de microfones, durante a Conferência Mundial de Negócios em Genebra, na Suíça.
— Ah, meu Deus... — ela murmurou. — Ah, meu Deus... Os recortes pareciam voar diante dos seus olhos como uma sequência de ilme: fotos de Ramon em centenas de poses diferentes assaltavam seus sentidos. Ramon, com a expressão grave falando numa reunião de xeques árabes; recostado numa cadeira à mesa de conferência com lı́deres internacionais; Ramon, com a pasta em punho, embarcando num jato com o logotipo Galverra International pintado na lateral.
Katie tentou ler os artigos, mas conseguiu apenas absorver algumas frases esparsas:
”Conhecido pela genialidade como negociador, Galverra foi responsável pelas aquisições que alçaram a Galverra International ao status de império financeiro... Fluente em espanhol, francês, italiano, inglês e alemão... Formado pela Universidade de Harvard... Pós-graduado em Administração de Empresas... Um homem que valoriza a vida pessoal e ressente-se da intromissão da imprensa em seus assuntos particulares...”
Havia instantâneos de Ramon usando um smoking, jogando num cassino em Monte Carlo, enquanto uma loira maravilhosa lhe sorria com adoração; Ramon apoiado no parapeito de seu imenso iate, a brisa desmanchando-lhe os cabelos.
Muitas das fotos con irmavam a relatada recusa de admitir que a imprensa se intrometesse em sua vida particular, pois eram desfocadas e obviamente tiradas de uma longa distância, com algum tipo de lentes especiais.
Estava tudo ali, incluindo o inı́cio do im. Havia fotos de dois edifı́cios cuja construção fora interrompida, em Chicago e St. Louis, juntamente com os artigos sobre a corporação estar sofrendo perdas irremediáveis no Ira.
Katie fechou o álbum e apertou-o contra o peito, num gesto protetor. Encostou o rosto na capa de couro, e seu corpo sacudiu-se com soluços incontidos.
— Ah, meu querido, por que você não me contou? soluçou, em desespero.