Doce Triunfo
Capítulo 16
KATIE ERGUEU A CABEÇA no instante em que ouviu o padre Gregório dizer o seu nome, seguido pelo de Ramon, no altar da igreja. Ele estava lendo os proclamas, concluiu. Todas as pessoas presentes na igreja lotada viraram-se de uma só vez na direção da ileira nos fundos, onde ela e Ramon estavam sentados na companhia de Gabriella, o marido e a família de Rafael.
Os moradores do vilarejo certamente sabiam quem era Ramon Galverra Vicente, Katie pensou, o que não seria de surpreender, já que ele havia nascido ali. Mas, o que de fato a surpreendeu foi a atitude peculiar das pessoas em relação a ele. Desde o instante em que Ramon entrara na igreja com ela, todos os observavam com franca curiosidade. Alguns sorriam ou cumprimentavam-no em silêncio, mas também havia curiosidade em suas expressões, mesclada com incerteza e até espanto.
Mas, naturalmente, o comportamento distante de Ramon havia desencorajado qualquer pessoa que desejasse se aproximar para uma conversa amigável. Com um sorriso educado, embora frio e altivo, ele limitara-se a dar uma rápida passada de olhos pelos ocupantes da igreja, depois sentara-se ao lado de Katie e os ignorara completamente.
Katie mexeu-se no desconfortável banco de madeira, com a atenção voltada para o sermão do padre Gregório, do qual não compreendia nem uma palavra. Estava começando a imaginar se o destino conspirava para evitar que ela e Ramon icassem sozinhos, pelo menos por um perı́odo de tempo razoável. Nos últimos sete dias, não houvera nenhuma ocasião em que pudessem ”compartilhar um do outro”, como ele havia prometido.
Na sexta-feira, quando Katie encontrava-se nos braços dele, recebendo seus beijos de gratidão pelo ”buqué” que ela lhe dera, uma súbita massa de nuvens escuras começara a formar-se no céu, bloqueando a luz do sol. O que começara como um leve chuvisco logo se transformou numa tempestade. E eles acabaram passando uma noite agradável, apesar de bastante insatisfatória, jogando cartas com Gabriella e Eduardo.
No sábado o sol voltara a brilhar, e os homens passaram o dia trabalhando na reforma da casa. Agora que a eletricidade fora ligada, eles icavam trabalhando no interior do chalé mesmo depois que escurecia, o que o eliminava como um local de encontro. No im da tarde de sábado, Eduardo, o marido de Gabriella, havia sugerido a Ramon que levasse Katie para conhecer a baı́a Fosforescente.
Katie espantara-se que Eduardo, entre todas as pessoas, sugerisse um passeio romântico para eles, bem como oferecesse o carro para o trajeto até a costa oeste da ilha. Não podia imaginá-lo bancando o Cupido, quando sabia muito bem que ele não a aprovava. O mistério foi solucionado no instante em que Ramon consultou-a, e ela concordou animadamente com o passeio.
— Então está resolvido — Eduardo dissera. — Gabriella e eu icaremos muito contentes com a companhia de vocês.
Isso, de initivamente, evitara que ela e Ramon icassem sozinhos na casa, enquanto Gabriella e Eduardo fossem para a baı́a. Sob a expressão de leve surpresa no rosto de Ramon, Katie pudera ver que ele estava bastante aborrecido com o amigo.
Apesar disso, a noite havia sido muito divertida e agradável. No inı́cio da viagem de cerca de 30km pelas bem conservadas estradas costeiras, Ramon permaneceu num silêncio pensativo, sentado ao lado de Katie no banco traseiro. Percebendo que Eduardo era o motivo daquele mau humor, Katie ofereceu-lhe o seu sorriso mais luminoso e em poucos segundos Ramon sorria de volta, enquanto tentava responder às suas intermináveis perguntas a respeito dos lugares por onde passavam.
A baı́a Fosforescente fora uma experiência mágica para Katie. As mesmas nuvens escuras que haviam trazido a chuva e mantiveram os turistas longe do local também obscureceram a lua. Com Gabriella e Eduardo na frente do barco a motor que alugaram, e Katie e Ramon na parte de trás, ela às vezes erguia o rosto para que ele lhe desse um beijo furtivo, depois virava-se para admirar as luzes brilhantes e esverdeadas que flutuavam sobre a água, na rasteira do barco. Seguindo a sugestão de Ramon, ela inclinou-se para o lado e mergulhou a mão na água. Quando a retirou, uma camada do mesmo brilho esverdeado havia se colado em seu braço. Até mesmo os peixes que saltavam da água deixavam um feixe de luz em seu rastro.
Aos poucos Ramon fora relaxando no barco, parecendo um nativo indulgente que se divertia com três turistas. E, se houve algo que o divertiu mais do que observar Katie se divertindo, foi frustrar todas as tentativas de Eduardo de ter um pouco de privacidade com a esposa no fundo do barco. A cada vez que Eduardo sugeria que mudassem de lugar, Ramon declinava o oferecimento dizendo: ”Estamos perfeitamente confortáveis aqui, Eduardo”.
Ao final do passeio, era Eduardo quem parecia aborrecido, e Ramon sorria com satisfação.
O barulho dos trovões lá fora ecoou pela igreja sombria, seguido de um lampejo de luz dos relâmpagos que iluminou as janelas com vitrais. Katie esboçou um leve sorriso de resignação, aceitando o que aparentemente seria outro dia em que ficariam em casa, outro dia e outra noite em que ela e Ramon não conseguiriam ficar a sós.
— Está um dia perfeito para as compras — Gabriella anunciou às 8.30 da manhã seguinte, entrando no quarto de Katie com a habitual xı́cara de café. — E o sol está brilhando! — acrescentou alegremente, sentando na beirada da cama.
Bebeu um gole do seu café, observando Katie, que se arrumava para o encontro com o padre Gregório.
— Acha que estou respeitável o bastante? — Katie perguntou, ajeitando o cinto em forma de corrente dourada na cintura do vestido branco.
— Está perfeita — Gabriella respondeu, sorrindo. — E linda como sempre!
Katie girou os olhos para o alto e riu, aceitando o elogio. Antes de sair, prometeu a Gabriella que voltaria assim que terminasse a entrevista com o padre.
Quinze minutos depois, Katie não estava mais rindo. Pregada à cadeira, ruborizava-se sob o exame frio e minucioso do padre Gregório.
— Eu perguntei — ele repetiu, ameaçador —, se Ramon sabe que você está usando o seu dinheiro, os seus cartões de crédito, para pagar as coisas que compra para a casa.
— Não — Katie admitiu, apreensiva. — Como o senhor ficou sabendo?
— Chegaremos a isso num instante — ele disse, num tom baixo, irritado. — Primeiro, quero saber se você está ciente de que Ramon retornou a este vilarejo depois de uma ausência de muitos anos. Que ele partiu daqui há muito tempo, em busca de algo melhor.
— Sim... para trabalhar numa empresa que faliu.
Sua afirmativa fez com que o padre ficasse ainda mais zangado.
— Então, você entende que Ramon voltou para cá a im de recomeçar sua vida, a partir da estaca zero?
Ela assentiu, sentindo como se um machado estivesse prestes a cair sobre sua cabeça.
— Você tem alguma ideia, señorita, de quanta força e coragem são necessárias para um homem voltar ao lugar onde nasceu não como um sucesso, mas como um fracasso? Será que percebe quanto o seu orgulho ica ferido quando precisa encarar as pessoas que acreditavam que ele havia alcançado o sucesso, e que agora testemunham a sua derrota?
— Não acho que Ramon se sente derrotado, nem desonrado — Katie protestou.
O padre bateu a mão com força no tampo da mesa.
— Não, ele não está desonrado, mas vai icar... graças a você! Graças a você, todos os moradores deste vilarejo vão dizer que a noiva rica de Ramon, vinda dos Estados Unidos, teve de pagar pelas toalhas com que ele enxuga as mãos!
— Ninguém sabe que tenho usado o meu dinheiro para pagar metade das compras! — Katie explodiu. — Exceto o senhor e... ninguém mais — corrigiu-se rapidamente, protegendo Gabriella.
— Ninguém, exceto você, eu... — ele ironizou — e Gabriella Alvarez, é claro. E metade do vilarejo que, neste exato minuto, está ”fofocando” com a outra metade! Será que estou sendo claro?
Sentindo-se miserável, Katie assentiu.
— E óbvio que Gabriella manteve segredo de Eduardo, do contrário ele já teria contado a Ramon. Você obrigou-a a enganar o próprio marido em seu benefício!
Apreensiva, Katie observou-o tentar controlar a fúria.
— Srta. Connelly, haverá a mais remota, a mais longı́nqua possibilidade de você ter imaginado que Ramon não iria se opor ao que está fazendo?
Mais do que qualquer coisa, Katie desejava agarrar-se a essa desculpa, mas seu orgulho impediu-a de se acovardar.
— Não, eu mencionei a Ramon que gostaria de dividir todas as despesas, e ele... não apreciou a ideia. — Viu os olhos do padre estreitarem-se. — Tudo bem, ele foi completamente contra.
— Então — ele falou, num tom desagradável —, Ramon lhe disse que não era para dividir os gastos, mas, mesmo assim, você fez isso. Só que às escondidas, não é? Você lhe desobedeceu.
Katie perdeu a paciência.
— Não use a palavra desobedecer para mim, padre. Não sou um cachorrinho treinado. Além disso, quero lembrá-lo de que, se gastei boa parte do meu dinheiro ”às escondidas”, foi para Ramon, o que se pode considerar uma caridade. E isso não é nenhum crime.
— Caridade! — o padre explodiu, furioso. — E assim que você o vê? Como um caso de caridade, um objeto de piedade?
— Não! É claro que não! — Katie arregalou os olhos, com um horror genuíno.
— Se você está pagando metade de tudo que compra, então está gastando o dobro do que ele pode gastar. Será que é tão mimada que precisa ter tudo o que deseja na hora, no mesmo instante?
Comparado a isso, Katie pensou que a Inquisição espanhola devia ter sido um recreio. Não podia evitar a pergunta e, certamente, não poderia dizer que pagara pela metade de tudo para que não se sentisse obrigada a casar com Ramon.
— Estou esperando a resposta.
— Eu gostaria de lhe dar uma — ela disse, com tristeza.
— Mas não posso. Não agi assim por nenhum desses motivos que o senhor está pensando. E muito difícil explicar.
— E ainda mais difı́cil entender. Na verdade, eu não entendo você, srta. Connelly. Gabriella é sua amiga, e no entanto você não hesita em envolvê-la nas suas traições. Está morando sob o teto de Eduardo, mas não sente nenhum remorso em retribuir a hospitalidade dele forçando Gabriella a enganá-lo. Quer casar-se com Ramon, e ainda assim lhe desobedece, o engana e desonra. Como pode agir assim com alguém a quem ama?
O rosto de Katie empalideceu e, reparando em sua expressão contida, o padre balançou a cabeça, frustrado. Quando voltou a falar, foi num tom mais gentil:
— Señorita, apesar de tudo, não posso acreditar que você seja uma pessoa egoı́sta e sem coração. Deve ter algum bom motivo para fazer o que fez. Diga-me o que é, para que eu possa entender.
Imersa num misto de vergonha e tristeza, Katie limitou-se a olhá-lo, sem palavras.
— Diga-me! — ele insistiu, o rosto retomando a expressão de raiva e exasperação. — Diga que você ama Ramon, e que não imaginava que o vilarejo iria comentar o que fez. Eu acreditaria nisso, e até a ajudaria a explicar-se com Ramon. Apenas admita, e poderemos concluir os detalhes para o seu casamento agora mesmo.
O estômago de Katie revirava dolorosamente, mas seu rosto pálido estava impassível.
— Não lhe devo nenhuma explicação, padre. E também não vou discutir os meus sentimentos por Ramon com o senhor.
As sobrancelhas brancas e espessas juntaram-se numa expressão furiosa. Recostando-se na cadeira, ele submeteu-a a um olhar penetrante.
— Você não quer falar sobre os seus sentimentos por Ramon porque não sente nada por ele... É isso?
— Não foi o que eu disse! — Katie negou, mas suas mãos contorciam-se convulsivamente em seu colo, traindo suas emoções tumultuadas.
— Será que pode afirmar que o ama?
Katie sentia-se desfazer em pedaços por emoções tão desencontradas que não conseguia compreender nem controlar. Tentou formular as palavras que o padre esperava ouvir, dar-lhe a certeza de que ele tinha o direito de esperar, mas não pôde. Tudo o que conseguiu foi olhá-lo em silêncio.
Os ombros do padre Gregório desabaram. Quando falou, o terrı́vel desespero em sua voz provocou lágrimas nos olhos de Katie.
— Entendo — ele disse, em voz baixa. — Sentindo-se como se sente, que tipo de esposa você seria para Ramon?
— Uma boa esposa! — ela respondeu, enfática.
A intensidade das suas emoções deixou o padre ainda mais confuso. Ele tornou a encará-la como se realmente quisesse compreendê-la. Os olhos perpassaram o rosto pálido, examinando os olhos azuis e descobrindo algo nas profundezas agonizantes, que provocou uma inesperada doçura em sua voz.
— Pois muito bem — disse, mais calmo. — Vou aceitar isso.
Aquela a irmação surpreendente provocou um efeito igualmente surpreendente em Katie, que começou a tremer dos pés a cabeça, numa inexplicável mistura de alívio e medo.
— Se você me disser que está disposta a cumprir suas obrigações como esposa de Ramon, eu vou acreditar. Está disposta a colocar os desejos dele na frente dos seus, a honrá-lo e respeitar a sua...
— Autoridade? — Katie completou, tensa. — Não esqueça de acrescentar ”obedecer-lhe” à sua lista, padre juntou, enquanto se levantava, revoltada. — Não era isso que ia perguntar?
O padre também se levantou.
— E se fosse? — ele indagou, num tom de fria curiosidade. — O que você responderia?
— Exatamente o que qualquer mulher com um mı́nimo de inteligência, com um mı́nimo de caráter diria diante de uma sugestão tão ultrajante! Eu não vou prometer obediência a homem algum! Animais e crianças obedecem, e não as mulheres.
— Já terminou, señorita?
Katie engoliu em seco e assentiu com firmeza.
— Então permita-me dizer que não ia mencionar a palavra ”obedecer”. Eu estava prestes a perguntar se você estaria disposta a respeitar os desejos de Ramon, e não a sua autoridade. E, para sua informação, esses mesmos compromissos seriam citados a Ramon, para que ele os confirmasse.
Katie fechou os olhos por um instante, tentando ocultar a vergonha.
— Desculpe, padre — ela disse baixinho. — Eu pensei que...
— Não precisa se desculpar. — O padre suspirou, cansado. Virou-se e olhou pela janela, que dava para a praça e para a igreja. — Você não precisa mais voltar aqui acrescentou, voltando-se para ela. — Depois comunico a minha decisão a Ramon.
— Que é...?
Ele cerrou os dentes, balançando a cabeça.
— Quero pensar um pouco sobre tudo isso, antes de me decidir.
Katie passou as mãos pelos cabelos.
— Padre Gregório, o senhor não pode impedir o nosso casamento. Se recusar-se a fazê-lo, outro padre o fará.
Ele endireitou as costas, enrijecendo. Aproximando-se dela, enviou-lhe um olhar que era um misto de irritação e divertimento.
— Obrigado por me lembrar das minhas limitações, señorita. Eu icaria bastante desapontado se você não encontrasse uma nova maneira de me hostilizar antes que saı́sse, de forma que eu tivesse a pior opinião a seu respeito.
Katie encarou-o com uma raiva frustrada.
— O senhor é mesmo muito convencido, julga-se muito importante! — Respirou fundo, tentando se controlar. Pois ique sabendo que não dou a mı́nima para a sua opinião a meu respeito.
O padre Gregório inclinou a cabeça, numa saudação exagerada.
— Mais uma vez, obrigado.
Katie arrancou um punhado de grama e atirou-o para longe, irritada. Estava sentada numa pedra, recostada no tronco de uma árvore, olhando sem realmente ver os quilômetros de colinas e vales que se estendiam à sua frente. O sol começava a se pôr, envolto em raios vermelhos e dourados, mas a beleza da paisagem não era su iciente para acalmar-lhe os nervos, depois do encontro com o padre Gregório naquela manhã. Nem mesmo as seis horas que passara fazendo compras com Gabriella. A alguns metros de distância, os homens que trabalhavam no chalé começavam a deixar as ferramentas de lado a im de irem jantar em suas casas. Depois, retornariam para terminar as tarefas restantes.
Vagamente, Katie perguntou-se onde Ramon teria passado o dia todo, mas estava frustrada e irritada demais consigo mesma, e com o padre, para preocupar-se com isso. Como aquele homem se atrevia a questionar seus motivos e suas emoções?, pensou, olhando furiosamente para as montanhas.
— Só espero — uma voz profunda, divertida, falou atrás dela — que você não esteja pensando em mim, com essa expressão em seu rosto.
Katie virou a cabeça, surpresa, fazendo com que os cabelos se espalhassem nos ombros. Ramon estava parado a menos de 1m, os ombros largos bloqueando o crepúsculo dourado. Parecia ter passado o dia no escritório da fábrica de enlatados, e havia tirado o paletó, desabotoado o colarinho e dobrado as mangas da camisa branca até os cotovelos. A testa estava franzida pela curiosidade, e os olhos perscrutavam-lhe o rosto.
Katie enviou-lhe um sorriso forçado.
— Na verdade, eu estava...
— Planejando um assassinato? — ele brincou.
— É, mais ou menos isso.
— A vítima é alguém que eu conheço?
— Padre Gregório — ela admitiu, levantando-se.
Sempre olhando para ela, Ramon en iou as mãos nos bolsos. O movimento fez com que a camisa colasse em seu peito musculoso, e Katie sentiu o pulso acelerar-se em resposta à poderosa masculinidade que dele emanava. No entanto, as palavras que ele proferiu em seguida desviaram sua atenção para o problema em questão.
— Eu o encontrei no vilarejo, poucos minutos atrás. Ele não quer realizar o nosso casamento, Katie.
Katie sentiu um desapontamento profundo ao saber que o desprezo do padre Gregório por ela realmente chegava àquele ponto. Seu rosto inflamou-se com indignação.
— Ele disse o motivo?
Inesperadamente, Ramon sorriu; um daqueles sorrisos súbitos e devastadores que sempre a deixavam sem fôlego.
— O padre Gregório parece pensar que lhe faltam determinados atributos que ele acha necessários para uma boa esposa.
— Tais como? — ela exigiu, belicosa.
— Submissão, docilidade e respeito pela autoridade. Katie estava dividida entre o antagonismo e a culpa.
— E o que você disse a ele?
— Disse que queria uma esposa, e não um cachorrinho de estimação.
— E...?
Os olhos negros de Ramon brilhavam com o riso.
— Na opinião dele, eu ficaria melhor com um cachorrinho de estimação.
— Ah, é claro! — Katie exclamou, in lamada. — Bem, se quer saber o que eu acho, aquele velho tirano e intrometido demonstra uma preocupação exagerada com o seu bem-estar!
— Na verdade, ele está preocupado com o seu bem-estar
— Ramon retrucou calmamente. — Ele receia que, depois de pouco tempo de casados, eu possa sentir-me tentado a esganá-la.
Katie virou as costas para ele, tentando esconder sua mágoa e confusão.
— A opinião dele é tão importante assim para você? perguntou.
Ramon pousou as mãos nos ombros dela e, com delicada firmeza, puxou-a para si.
— Você sabe que não. Mas qualquer atraso em nosso casamento é importante para mim. Se o padre Gregório não mudar de ideia, terei de encontrar um padre em San Juan que faça o casamento, e os proclamas terão de ser lidos novamente. Quero casar-me com você no domingo, Katie, e o padre Gregório é o único que poderá tornar isso possı́vel. Você sabe disso. Tudo o mais está pronto e acertado.
Os trabalhos no chalé devem terminar esta noite, seus pais já compraram as passagens para o voo de sábado, eu reservei uma suíte para eles no Hotel Caribe Hilton.
Katie sentia a respiração dele em seus cabelos, a sensação ı́ntima do corpo musculoso pressionado contra suas costas e pernas, enquanto Ramon continuava dizendo:
— O padre Gregório acabou de partir para a ilha Vieques. Quando voltar, na quinta-feira, quero que você vá conversar com ele e o faça mudar de opinião.
A resistência de Katie começou a desabar, quando ele a fez virar-se em seus braços e cobriu-lhe os lábios com um longo beijo.
— Fará isso por mim? — Ramon murmurou ao apertar-se. Ela manteve os olhos ixos nos lábios cheios e sensuais.
Ergueu os olhos, itando os dele, intensos, hipnóticos, e todas as suas defesas se desintegraram. Ele a desejava tanto, a evidência disso era a rigidez de sua ereção contra os quadris dela. E ela... também o desejava demais.
— Farei, sim — sussurrou.
Ramon abraçou-a com mais força, enquanto procurava seus lábios para um beijo faminto. Quando Katie entreabriu a boca, permitindo que a lı́ngua dele penetrasse, Ramon gemeu de prazer, e o som provocou nela uma espécie de reação primitiva. Sem conter-se mais, foi ao encontro da paixão dele, querendo proporcionar-lhe o mesmo prazer que ele lhe dava. Beijou-o com o mesmo erotismo com que ele a beijava, as mãos deslizando pelas suas costas, o corpo arqueando contra o dele.
Ofegou, desapontada, quando Ramon terminou o beijo e ergueu a cabeça. Ainda tremendo de desejo, ela abriu os olhos desfocados. À meia-luz do anoitecer, seus olhos se encontraram.
— Eu amo você, Katie — ele disse.
Ela abriu a boca para falar, mas não conseguiu. Seu estômago contorcia-se de medo e nervosismo. Tentou dizer: ”Também amo você”, mas as palavras que havia gritado vezes sem conta a David, naquela noite terrı́vel de anos antes, agora estavam presas em sua garganta, paralisando suas cordas vocais. Com um gemido baixo e angustiado, prendeu os braços em torno do pescoço de Ramon e começou a beijá-lo com frenético desespero, enquanto cada músculo do corpo dele retesava para rejeitá-la.
A dor atravessou o peito de Ramon como uma faca afiada. Ela não o amava. Não o amava...
— Eu... não consigo, Ramon — ela disse, chorando abertamente e colando-se a ele como se precisasse de apoio. Não consigo dizer as palavras que você quer ouvir. Não posso...
Ele encarou-a, odiando-a e odiando a si mesmo por amá-la tanto. Afastando-se, fez menção de retirar os braços dela de seu pescoço, mas Katie balançou a cabeça em desespero, segurando-o com mais força, pressionando-se ainda mais contra ele. As lágrimas corriam de seus olhos azuis, incontroláveis.
— Não pare de me amar — ela implorou. — Não deixe de me amar, somente porque ainda não posso dizer as palavras. Por favor, Ramon!
— Katie! — ele exclamou, ríspido.
Os lábios dela tremeram diante da fria rejeição que ouviu em sua voz, e Ramon agarrou-a pelos ombros com a intenção de desvencilhar-se, de afastá-la com firmeza.
E Katie sabia disso.
— Não, por favor — ela murmurou.
Ao ouvir o tom de sua voz, toda a resistência de Ramon desabou. Com um gemido, puxou-a para um abraço apaixonado, beijando-a com ardor. Katie dissolvia-se contra ele, o fogo de sua reação acendendo as chamas dentro dele.
— Katie... — Ramon sussurrou dolorosamente, beijando-a com uma paixão que nunca demonstrara antes. Katie.. Katie... Katie...
Ela o amava, ele sabia! Podia sentir em cada poro de seu corpo. Talvez ela não conseguisse pronunciar as palavras, mas seu corpo lhe dizia que o amava. Nenhuma mulher seria capaz de entregar-se a um homem da maneira como ela estava fazendo, a não ser que estivesse disposta a entregar também o coração.
Ramon a fez deitar-se na relva, sempre mantendo os lábios presos nos dela, as mãos acariciando-a por inteiro. Katie o deixava em brasa, e Ramon abriu os botões da camisa, tirando-a em seguida, permitindo que ela o tocasse.
Depois, ele tirou-lhe a blusa e o sutiã, desfrutando da sensação dos seios nus em suas mãos. Inclinando-se sobre ela, tornou a beijá-la profundamente, penetrando a lı́ngua de forma a lhe dizer o que desejava fazer com ela. E Katie recebeu com prazer a deliciosa invasão.
O corpo dele parecia arder em brasa quando a puxou para cima, os olhos devorando a visão dos seios muito brancos contra os pelos escuros de seu peito.
— Estou faminto por você — sussurrou roucamente. Meu desejo é tão intenso que chega a doer. — Segurou-a pelo pescoço, até encontrar-lhe os lábios, e acrescentou, com a voz embargada: — Sacie a minha fome, Katie.
E ela o fez. Beijou-o com todo o corpo e alma, arrancando-lhe um gemido de prazer, enquanto se movia sinuosamente contra sua rı́gida ereção. Ramon apertou-a mais contra si, querendo absorver seu corpo, permitindo que ela o levasse a agonias de desejo antes de virar-se para o lado, levando-a consigo.
Katie abriu os olhos. Ramon respirava ofegante, o rosto tenso e nublado de paixão. Começou a inclinar-se para beijá-la e emitiu um suspiro enrouquecido.
— Antes que tudo isso termine, você ainda vai me enlouquecer.
Katie esperava que ele acabasse o que havia começado. Mas, em vez disso, Ramon deitou de costas na relva e estendeu-se ao lado dela, amparando sua cabeça na curva do ombro, mantendo-a bem perto de si, enquanto olhava para o céu estrelado. Katie icou imóvel, tomada de profunda confusão. Não podia imaginar por que Ramon havia parado de repente, a não ser que, de alguma forma, achasse que ela não queria continuar. Mas ela queria! Como ele podia pensar o contrário, quando todo seu corpo ansiava pelo dele, quando desejava, mais do que tudo, dar-lhe prazer? Girou para o lado, pretendendo tomar o controle da situação.
— Se eu o enlouqueço, a culpa é toda sua — disse e, antes que ele pudesse responder, passou a fazer carícias sedutoras em sua orelha.
Ramon estendeu a mão, segurando-a pela cintura, acariciando-a. Estremeceu de prazer quando Katie penetrou a língua na concavidade de sua orelha, explorando-a sensualmente.
— Katie, pare com isso — ele pediu, num gemido rouco.
— Ou vou fazer o mesmo com você.
Sem se abalar, ela prosseguiu com a exploração excitante.
— Você já fez — sussurrou em seu ouvido. — E eu adorei.
— Eu também estou adorando, e é por isso que quero que pare.
Katie reuniu toda sua coragem e apoiou-se no cotovelo. Por um instante, ficou olhando para a medalha de prata que pendia de uma corrente, quase oculta entre os pelos espessos do peito dele.
— Ramon — ela disse, traçando uma trilha sinuosa com a ponta dos dedos até chegar à medalha, inconsciente do efeito que isso provocava nele. — Será que já lhe ocorreu que não precisamos parar?
Ramon segurou-lhe a mão, evitando que a trilha de carícias seguisse até a cintura.
— Sim, isso já me ocorreu — murmurou. — Mais ou menos umas cem vezes nestes últimos dez minutos.
— Então, por que paramos?
Ele virou a cabeça e tornou a olhar para o alto, visualizando as minúsculas estrelas no céu escuro.
— Porque daqui a pouco os homens estarão retornando do jantar, para terminar o trabalho na casa.
Era verdade, mas não o motivo por que ele se continha. Se tivesse absoluta certeza de que Katie o amava, ele simplesmente a levaria para qualquer outro lugar onde pudessem ter privacidade, naquele exato momento. Se tivesse certeza do amor dela, teria feito amor desde o dia em que chegaram a Porto Rico. Se Katie o amasse, então a união fı́sica de seus corpos poderia fortalecer e aprofundar esse amor.
Porém, se tudo o que ela sentia por ele fosse aquele intenso desejo fı́sico, se este fosse o único motivo porque ela estava disposta a se casar, então o fato de satisfazer esse desejo antes que estivessem realmente casados iria aliviar a pressão que a levava na direção do altar. E isso ele não se arriscaria a fazer. Sobretudo, ele pensou com amarga autorrecriminação, quando por nove dias estivera estimulando a paixão dela, levando-a a um estado quase febril e ali mantendo-a, sem qualquer intenção de saciar seu desejo e proporcionar-lhe o alı́vio. Deliberadamente, Ramon estimulava o apetite sexual de Katie, sem jamais saciar-lhe a fome. Para isso, primeiro ela teria de se casar.
Desde o primeiro instante em que a tomara nos braços, ainda em St. Louis, uma tremenda atração fı́sica havia surgido entre eles. Ramon a reconhecera de imediato e, desde então, vinha explorando-a. Envergonhava-se do que estava fazendo com ela. Katie con iava nele, e ele usava seu próprio desejo como uma arma para forçá-la a casar-se. Mas a arma era uma faca de dois gumes, pois ele também torturava-se quando a beijava e acariciava até o ponto em que ambos estivessem quase enlouquecidos, para depois recuar. Todas as vezes em que se afastava dela, era um tormento saber que Katie era doce, quente, e estava disposta a ser possuída, mas ele não a possuía.
Que tipo de homem era ele, para arquitetar aquele tipo de chantagem sexual?, Ramon perguntou-se com desprezo. A resposta era tão humilhante quanto a pergunta: era um homem apaixonado por uma mulher que, aparentemente, não o amava. No mesmo instante, sua mente rejeitou tal pensamento. Katie o amava, sim! Ele sentia o gosto do amor nos lábios dela. Por Deus, antes que estivessem casados, ela iria admitir essa verdade! Ele faria de tudo para que isso acontecesse.
Fechando os olhos, Ramon respirou fundo. Se isso não acontecesse, teria de deixá-la ir embora. Seu orgulho e respeito por si mesmo jamais permitiriam que vivesse ao lado dela, que a amasse daquela maneira, sabendo que não era amado. Não poderia suportar a vergonha, ou o sofrimento, de um amor não correspondido.
Ao seu lado, Katie aconchegou-se um pouco mais, arrancando-o dos pensamentos.
— Está na hora de irmos embora — ele disse, relutante, sentando-se. — Gabriella e Eduardo estão nos esperando para o jantar. Vão começar a perguntar-se onde estamos.
Katie lançou-lhe um sorriso irônico, enquanto vestia a blusa e penteava os cabelos com os dedos.
— Gabriella sabe onde estamos. E Eduardo irá presumir que o levei para algum lugar para tentar seduzi-lo. No que se refere a mim, Eduardo sempre pensa o pior.
Ramon encarou-a com uma expressão divertida.
— Eduardo não está preocupado com a possibilidade de você roubar a minha virgindade, Katie. Isso eu perdi há muito tempo... Se bem me lembro, na mesma noite em que ele perdeu a dele.
Katie empinou o queixo, numa atitude de desinteressada dignidade, mas sua voz continha uma ponta de ciúme, que Ramon adorou, pois era exatamente essa a reação que havia esperado.
— Quantos anos você tinha? — ela perguntou.
— Isso não é da sua conta — ele riu.