Doce Triunfo
Capítulo 17
— MAIS UMA VEZ, obrigada! — Katie disse alegremente, dois dias depois.
Limpou a mancha de sujeira do rosto e acenou para Rafael, sua esposa e ilhos, que estiveram ajudando na limpeza do chalé, pendurando cortinas e arrumando os móveis, durante os dois dias anteriores. Ficou observando a velha caminhonete de Rafael seguir aos solavancos pela estradinha de terra, depois virou-se para Gabriella, que se levantava da cadeira com um suspiro de cansaço. Estavam trabalhando na casa desde o amanhecer, e agora já era o inal da tarde.
— Acha que Ramon vai gostar da surpresa? — Katie perguntou, o rosto re letindo a mesma expressão de feliz exaustão que via no de Gabriella.
— Se ele vai gostar da surpresa? — Gabriella repetiu, os olhos brilhando de contentamento. — Dois dias atrás, os marceneiros ainda estavam aqui dentro e não havia nenhum móvel. Quando ele entrar aqui esta noite, verá cada peça de mobı́lia no lugar, a cama arrumada, e até as velas acesas na mesa da cozinha. Ramon nem vai acreditar nos próprios olhos! — ela previu.
— Espero que esteja certa — Katie falou, com uma pontinha de orgulho. — Eu disse a ele que esta casa poderia ficar muito bonita, mas ele não acreditou.
— Bonita? — disse Gabriella, balançando a cabeça, enquanto pegava a bolsa e encaminhava-se para a porta da frente. — A casa está linda. Você tem um talento enorme para decoração, Katie.
Olhando para ela, Katie pensou nos incontáveis quilômetros que haviam percorrido juntas, nas excursões frenéticas de compras, nas horas exaustivas que passaram visitando uma loja após a outra. Durante todo o tempo Gabriella mostrara-se animada, alegre e companheira.
— E você, Gabriella — ela falou, invadida por uma onda profunda de gratidão e afeição —, tem um grande talento para a amizade.
Um sorriso iluminou os traços de Gabriella.
— E estranho, não acha? Esta nossa amizade. Nós nos conhecemos há apenas onze dias, mas você já é quase como uma irmã para mim.
As duas mulheres, que haviam compartilhado uma garrafa de vinho enquanto trabalhavam, sorriram uma para a outra, os rostos afogueados de contentamento. Depois Gabriella virou-se e saiu.
Katie pegou os copos de vinho vazios e olhou no relógio de pulso; eram 17.00 horas. Na noite anterior ela izera Ramon prometer que viria para a casa direto do trabalho, o que signi icava que ele estaria chegando a qualquer momento na próxima meia hora. Foi para a cozinha, lavou os copos e deixou-os no novo balcão revestido de fórmica perto da pia, para que estivessem à mão quando Ramon chegasse.
Cantarolando, abriu um dos armários e tirou uma garrafa de vinho tinto. Na verdade, já bebera bastante vinho. Um pouco mais do que o bastante, pensou. Estava sentindo-se aquecida e um tanto alegre demais. Mas, lembrou a si mesma com animação, o fato de a casa estar pronta era um bom motivo para comemorar.
Olhou em torno na cozinha. Estava aconchegante e acolhedora, exatamente como ela dissera a Ramon que iria icar, concluiu, com orgulho. As paredes foram revestidas com um alegre papel de parede verde e branco. Uma delas exibia uma coleção de cestas confeccionadas pelos habitantes locais, de todos os tipos e tamanhos, que Katie comprara por menos da metade do preço que custariam nos Estados Unidos. Todos os armários haviam sido pintados de branco e forrados com um revestimento que combinava com o papel de parede.
Saiu da cozinha e icou vagando de um cômodo para outro. No quarto, parou para alisar desnecessariamente a colcha da cama. Feita a mão, era formada por grandes quadrados costurados uns nos outros, em tons que iam do marrom ao amarelo-claro. As cortinas que pendiam das grandes janelas foram feitas num tecido de amarelo-dourado, harmonizando e complementando as cores escuras da madeira dos móveis e o espesso tapete que cobria parcialmente o piso de carvalho. Ajeitou as dobras das cortinas, para que caı́ssem graciosas nos lados das janelas. O quarto estava perfeito, concluiu.
E masculino.
Katie afastou o pensamento indesejado e foi para a sala. Havia gasto cerca de 3 mil dólares de seu próprio dinheiro, mas valera a pena, pensou com orgulho. O sofá confortável que comprara no leilão estava posicionado no lado oposto das poltronas forradas com tecido cor de creme. Um tapete, também de cor clara, estendia-se no piso de madeira. A mesa de centro, com as laterais entalhadas e com detalhes de bronze, havia sido sua maior extravagância, mas, quando a vira, não conseguira resistir. Ou a maior extravagância fora o abajur de bronze, que agora estava colocado na mesa entre as duas poltronas? Não conseguia se lembrar, porém, de qualquer forma, isso não importava. A sala, com as cortinas cor de creme nas janelas amplas, estava perfeita, convidativa e elegante.
E masculina, uma vozinha sussurrou.
Katie ignorou-a e foi para o banheiro lavar o rosto e escovar os cabelos. Seus olhos brilhavam de expectativa, quando se olhou no espelho. Ou estariam brilhando por causa do vinho?, perguntou-se. Encolheu os ombros e olhou em volta do banheiro. Ali, ela usara a sua criatividade num sentido mais moderno. Já que as peças eram todas brancas, ela decidira usar papel de parede branco também, com as bordas junto ao teto contendo pequenos detalhes em preto. Achou que havia encontrado uma boa solução, pois se Ramon enjoasse das toalhas vermelhas e pretas, poderia substituı́-las por de outras cores, dando ao banheiro uma aparência completamente diferente. Enxugou as mãos na toalha nova, depois dobrou-a com todo cuidado, deixando-a sobre o balcão. O restante das toalhas que ela havia encomendado iria chegar no dia seguinte, pensou. Iria buscá-las depois que falasse com o padre Gregório.
Lançou um último olhar crı́tico para o banheiro, inclinando a cabeça para o lado. Talvez estivesse um pouco mais arrojado do que o restante da casa, mas certamente tinha uma atmosfera alegre. E masculina.
Katie inalmente admitiu — mas, se fosse verdade, então era certo que Ramon icaria satisfeito. A inal, ele era muito másculo. Encaminhou-se para a mesa de centro na sala e arrumou de novo as lores amarelas que pusera num vaso. O Rolls-Royce cor de vinho parou por um instante, a poucos metros da estrada de terra que levava ao chalé. Ramon olhou com impaciência para as árvores cobertas de lores vermelhas que margeavam a estrada, pensando se diria ou não a Garcia que o deixasse na frente da casa. Estava ansioso por ver Katie, e não queria perder tempo caminhando quase 1km pela estrada. Por outro lado, se Katie soubesse que ele ia e voltava do trabalho todos os dias com aquele carro, dirigido pelo motorista, certamente faria perguntas. Perguntas que ele teria de recusar-se a responder, ou responder com mentiras e evasivas. Levado pela necessidade, ele a enganara, mas não mentiria para ela.
— Espere por mim no lugar de sempre, amanhã cedo
— disse a Garcia.
Ramon abriu a porta do carro e saiu, sem esperar que o motorista respondesse. Sabia que no dia seguinte, às 7.30, Garcia estaria esperando numa curva logo após a estrada de terra, a 500m da praça do vilarejo. Nenhuma pergunta havia sido feita, e nenhuma explicação era esperada. Embora Garcia não estivesse mais recebendo o salário, ainda insistia em trabalhar para Ramon.
— Estivemos juntos há tanto tempo — Garcia lhe dissera no aeroporto, no dia em que Katie chegara a Porto Rico. Com uma expressão de grande dignidade, acrescentara: Até que este carro seja vendido, vou continuar trabalhando para o senhor como sempre fiz.
Caminhando pela trilha de terra batida, Ramon pensou em Garcia com um misto de afeição e tristeza. Se pedisse a ele para manter o carro ligado na frente de um banco, enquanto entrava para assaltá-lo, Garcia obedeceria sem hesitar. Sua recompensa por vinte anos de serviços e lealdade acabaria sendo o desemprego — e uma carta de recomendação. Ramon desejava dar-lhe mais do que isso. Ele merecia mais.
Ao passar pela soleira da porta, Ramon parou de repente; todos os problemas e preocupações do dia desapareceram, esquecidos. Katie estava ali, em sua casa, esperando por ele. Os raios de sol penetravam pelas vidraças, banhando-a com uma luz dourada, enquanto ela inclinava-se sobre o vaso na mesa, ajeitando o buqué de flores de cores vibrantes.
Uma profunda sensação de felicidade perpassou-o por inteiro, espalhando seu calor pelas suas veias. Como era estranho o fato de ele já ter sido considerado um dos homens mais ”ricos” do mundo e, ainda assim, jamais ter experimentado antes algo assim, aquela sensação de estar chegando em casa. Ele já havia ”chegado em casa”, sendo recebido por amantes e criados em mansões, coberturas, e villas de frente para o mar. Porém, nunca tivera aquela maravilhosa sensação de paz à sua espera — porque nunca tivera um ”lar” de verdade. E Katie era o seu lar.
Muitas pessoas o invejavam, no passado, e agora apiedavam-se dele por ter perdido toda sua fortuna. Que incrı́vel estupidez! Agora ele tinha Katie, e ela era a sua riqueza. Aquele anjo de doçura e beleza, com os cabelos ruivos e olhos sorridentes, iria ter seus ilhos e compartilhar de seus dias e noites. Ela era tudo o que faltava em sua vida. Era a alegria, a felicidade.
Em voz baixa e quase sem ênfase, ele falou:
— Eu amo você, Katie.
Ela fez um giro, um largo sorriso iluminando seu rosto.
— Então? — perguntou. — O que acha? — Os braços estendidos indicavam toda a sala, enquanto olhava para ele em expectativa.
Ramon sabia que ela o escutara e sentiu um peso no peito quando não recebeu a resposta que desejava, mas deixou passar.
— Acho que você está linda — disse, os olhos deslizando desde o rosto até a blusa curta e justa que ela usava, seguindo pelo short que revelava as longas pernas.
Katie girou os olhos para o alto, exasperada.
— Eu não, a casa! — exclamou. — O que acha dos móveis, de tudo...?
Pela primeira vez Ramon olhou para algo além dela. E ficou perplexo com o que viu.
— Como conseguiu comprar tudo isso com o dinheiro que lhe dei? Eu não pretendia comprar tudo de uma vez, mas sim lhe dar mais dinheiro quando você dissesse que estava na hora de escolher os móveis.
A alegria dela desapareceu no mesmo instante.
— Você não gostou?
— Se gostei? — ele sorriu. — Ainda nem vi tudo. Mas como foi que...?
— Pare de pensar no dinheiro. Acontece que sou uma ótima negociante — Katie falou, passando a mão pelo braço dele e levando-o de um cômodo para outro.
A reação de Ramon deixou-a intrigada. Embora tivesse certeza de que ele gostara de tudo, e que estava satisfeito com suas escolhas, pois os elogios eram sinceros, havia alguma coisa incomodando-o.
Katie não precisou esperar muito para descobrir o que era. A cozinha foi o último cômodo para onde o levou e, quando Ramon acabou de inspecioná-la, foi até o balcão onde ela deixara o vinho. Katie observou-o, admirando a maneira habilidosa e ágil como ele manejava o saca-rolhas.
— Bem? — ela disse, em expectativa. — Agora que viu a casa toda, o que acha?
— Acho que está muito bonita — ele respondeu, servindo o vinho nos dois copos. Entregou um a ela, acrescentando:
— Você está planejando morar aqui?
A pergunta apanhou-a de surpresa e Katie demorou alguns segundos para responder:
— Sim, é claro.
— Por quanto tempo? — ele indagou, num tom neutro. O vinho que ela já havia bebido a deixava um tanto confusa.
— Por que está me fazendo essas perguntas?
— Porque há dois quartos nesta casa — ele disse, observando-a com atenção. — O segundo quarto, como estou certo de que você sabe, seria destinado às crianças. Ainda assim, você esmerou-se em decorá-lo com uma bela escrivaninha para mim, uma estante de livros e uma poltrona confortável. Não duas poltronas, apenas uma. Sua intenção é que o cômodo seja usado somente por mim, não por nós dois e nem pelos nossos filhos. O seu apartamento estava cheio de plantas, mas não existe nem um vaso de plantas nesta casa. O seu quarto era extremamente feminino, mas este aqui...
— Plantas? — Katie piscou, as emoções oscilando entre o medo e o contentamento. — Eu nem mesmo pensei nas plantas! Já sei, vou lhe dar as plantas como presente de casamento! — decidiu prontamente.
— E você pretende me dar filhos? — ele perguntou, o rosto impassível.
— Não como presente de casamento — ela brincou. Imagine o que as pessoas vão falar!
O olhar de Ramon desviou-se do rosto afogueado de Katie para a garrafa de vinho vazia que estava ao lado daquela que ele acabara de abrir.
— Quanto desse vinho você já bebeu?
— Um pouco mais da metade — ela declarou, com uma pontinha de orgulho. — Gabriella bebeu o restante.
Ramon teve ı́mpetos de sacudi-la. Em vez disso, aproximou-se das janelas envidraçadas no canto da cozinha e, tomando um longo gole do vinho, observou a paisagem lá fora.
— Por que você quer se casar comigo, Katie?
Ela viu a tensão nos ombros dele, a irmeza de seu per il, e tentou desesperadamente manter o clima de alegria.
— Porque você é um homem atraente, alto e moreno!
— brincou.
O breve sorriso que ele lhe enviou não continha nenhum humor.
— E por que mais, Katie?
— Ah, pelos motivos por que as pessoas se casam, hoje em dia — ela gracejou. — Nós gostamos dos mesmos filmes, nós...
— Já chega de brincadeiras! — ele disparou. — Perguntei por que você quer se casar comigo.
Um lampejo de pânico perpassou-a por inteiro; seu coração começou a disparar loucamente.
— Eu... — tentou falar, mas não conseguiu.
Ela sabia que Ramon queria ouvi-la dizer que o amava e que se comprometeria, irrevogavelmente, a casar-se com ele. Mas não podia fazer nenhuma dessas coisas. Receando icar em silêncio, e ao mesmo tempo incapaz de dizer algo que o deixasse satisfeito, ela limitou-se a encará-lo, numa mudez infeliz.
No silêncio carregado que desabou entre eles, Katie sentiu que Ramon se afastava dela e, quando ele inalmente falou, havia uma rı́spida e amarga fatalidade em sua voz, que a deixou assustada.
— Não iremos mais tocar nesse assunto — ele declarou. Sempre em silêncio, voltaram para a casa de Gabriella.
Katie ainda tentava consolar-se no calor confortável do vinho que consumira, mas sentia-se mais apreensiva a cada passo que davam. Em vez de entrar para jantar com ela, Ramon parou na porta da frente e, mal tocando os lábios em seu rosto, despediu-se com um breve ”boa noite”.
Havia um tom agourento na voz dele, Katie pensou. Era como se estivesse dizendo adeus, em vez de boa noite.
— Você... vai passar aqui amanhã, antes de ir para o trabalho? — ela perguntou, hesitante.
Ramon parou no degrau da escada e virou-se para ela, a expressão impassível.
— Não vou trabalhar amanhã.
— Então podemos nos encontrar depois que eu falar com o padre Gregório? Vou à casa dele logo cedo, depois pretendo passar no chalé para arrumar algumas coisas que não icaram prontas.
— Sim, eu encontro você lá — ele disse.
— Ramon — ela insistiu, temendo deixá-lo ir daquela maneira. — Acho que você não icou muito entusiasmado com a arrumação da casa. Você não gostou?
— Pois peço que me desculpe — ele disse, com toda a educação. — Você fez um excelente trabalho. A casa me convém perfeitamente.
Embora ele não enfatizasse o ”me”, Katie reparou que evitara usar o pronome ”nos”. Não sabia o que dizer, quando ele mostrava-se tão distante e formal. Abriu a porta.
— Então... boa noite, Ramon.
Ele icou olhando para a porta que ela acabara de fechar, sentindo a dor e a amargura invadi-lo. Caminhou sem destino durante horas, pensando naqueles últimos dias. Por dois dias ele havia esperado que ela dissesse que o amava. Havia brincado, izera com que Katie risse e gemesse de paixão em seus braços, mas nem mesmo em seus momentos mais ardentes Katie respondera às suas confissões de amor. Ela o beijava, ou sorria, tranquilizava-o como se fosse um garotinho impaciente, mas nunca lhe dissera o que ele tanto desejava ouvir.
A lua estava alta no céu quando Ramon retornou ao seu quarto temporário na casa de Rafael. Deitou-se na cama e icou olhando para o teto. Havia pedido honestidade e sinceridade a Katie, e ela estava sendo honesta. Recusava-se a declarar uma emoção que não sentia. Era tudo muito simples.
Deus! Como era possível que ela não o amasse, quando ele a amava tanto?
A imagem de Katie surgiu em sua mente: subindo a colina, indo ao seu encontro com aquele andar gracioso e os cabelos esvoaçando ao vento. Fitando-o com os olhos azuis e profundos reluzindo de riso, ou nublados de preocupação por ele estar cansado.
Ramon fechou os olhos, tentando adiar o momento em que teria de tomar uma decisão, mas foi em vão. A decisão já fora tomada. Ele a enviaria para casa amanhã mesmo. Não, não amanhã, mas depois de amanhã. Precisava icar perto dela pelo menos mais um dia... mais uma noite. Apenas mais um dia, para que pudesse observá-la andando pela casa, memorizar a imagem dela em cada cômodo para que pudesse lembrar-se de tudo depois que ela se fosse. Mais uma noite, para que izessem amor no quarto que Katie havia decorado para ele, para unir seu corpo faminto ao dela, deixar-se perder dentro dela. Iria saciar seus sentidos com todos os prazeres que um homem pode proporcionar a uma mulher, fazer com que ela gemesse e gritasse de gozo, levando-a a um êxtase após outro.
Um dia e uma noite para guardar todas as lembranças
— lembranças que lhe trariam mais tormento do que prazer, mas isso não importava. Ele precisava delas.
E, depois, a mandaria embora. Ela icaria aliviada, agora ele sabia. Sempre soubera. Quaisquer que tivessem sido os motivos que a levaram a concordar com o casamento, Katie jamais se comprometera inteiramente com a ideia. Do contrário, não teria decorado o seu futuro lar como se fosse o refúgio de um solteirão, sem acrescentar o menor traço de sua própria personalidade.