Doce Triunfo
Capítulo 15
KATIE E GABRIELLA passaram a manhã e quase toda a tarde visitando as lojas dos vilarejos vizinhos. Katie gostava imensamente de Gabriella pois, além de ser uma companhia maravilhosa, era uma ”compradora” incansável. As vezes parecia mais entusiasmada do que a própria Katie, em relação ao que estavam fazendo. Mas, en im, as compras intermináveis, com centenas de detalhes em que pensar em tão pouco tempo, não eram exatamente o que Katie chamaria de diversão.
Enquanto Katie pagava os lençóis e colchas que acabara de comprar, Gabriella afastou-se discretamente dos procedimentos que envolviam o pedido de duas notas, cada uma com o valor correspondente à metade da compra, e depois o pagamento usando partes iguais do dinheiro de Ramon e do seu próprio dinheiro.
— Creio que Ramon vai gostar das cores que escolhi para o quarto, não acha? — Katie perguntou alegremente, enquanto entravam no carro.
— Com certeza — Gabriella respondeu, virando-se no assento para olhar para Katie, com um sorriso. Os espessos cabelos negros estavam revoltos e os olhos brilhavam. Tudo o que você compra é para agradá-lo, e não para você mesma. Eu teria escolhido a colcha estampada de flores.
Katie, que estava dirigindo, olhou no espelho retrovisor antes de sair da vaga e entrar no lento fluxo do tráfego. Depois, disparou um rápido olhar para Gabriella.
— Por algum motivo, não consigo visualizar Ramon num quarto decorado em tons pastel, com uma colcha estampada de flores.
— Eduardo é tão másculo quanto Ramon e não faria objeções se eu decidisse fazer uma decoração mais feminina em nosso quarto.
Katie teve de admitir que o que Gabriella dizia era verdade; Eduardo provavelmente concordaria com tudo o que a esposa desejasse fazer, com um daqueles seus sorrisos vagos e divertidos que sempre Lhe enviava. Naqueles últimos quatro dias, Katie havia reformulado a opinião que fazia de Eduardo. Na verdade, ele não encarava o mundo todo com aquela expressão contida e desaprovadora — tal expressão era dirigida apenas para ela. Sempre se mostrara correto e gentil com ela, mas no instante em que ela entrava num cômodo, todo o calor desaparecia do rosto dele.
Talvez Katie não se sentisse tão desconfortável se Eduardo fosse um homem retraído e sem graça, ou então do tipo que não expressa suas opiniões. Porém, na realidade Eduardo era um homem esplêndido, que desde o inı́cio izera com que ela se sentisse em desvantagem. Aos 35 anos, era extremamente atraente, moreno, um pouco mais baixo que Ramon, mas com o mesmo fı́sico poderoso e a mesma atitude de con iante supremacia masculina, que provocava em Katie sentimentos contraditórios de irritação e admiração. Não se parecia com Ramon, fosse na aparência ou no comportamento, mas quando os dois homens estavam juntos, havia uma fácil camaradagem entre eles, que fazia com que Katie tivesse certeza de que ela, e apenas ela, falhara em atingir os misteriosos padrões de Eduardo. Ele tratava a esposa com uma afeição indulgente; tratava Ramon com uma estranha combinação de amizade e admiração... e Katie com nada além de uma distante cortesia.
— Gabriella, será que iz alguma coisa que ofendesse Eduardo? — Katie perguntou, quase esperando que Gabriella se apressasse em negar qualquer coisa incomum na atitude dele.
— Você não deve lhe dar atenção — Gabriella respondeu, com uma inocência impressionante. — Eduardo não con ia nas mulheres norte-americanas, sobretudo as ricas como você. Ele acha que são mimadas e irresponsáveis, entre outras coisas.
Katie presumiu que as ”outras coisas” provavelmente incluíam a promiscuidade.
— E por que ele acha que sou rica? — perguntou, cautelosa. Gabriella enviou-lhe um sorriso de desculpas.
— Por causa da sua bagagem. Eduardo trabalhava na recepção de um hotel de luxo em San Juan, na época de estudante. Disse que as suas malas custam mais caro do que todos os móveis da nossa sala de estar.
Antes que Katie pudesse recobrar-se da surpresa, Gabriella voltou a falar, num tom sério:
— Eduardo gosta muito de Ramon, por vários motivos, e tem medo que você não se acostume com a vida de esposa de fazendeiro. Ele acha que, pelo fato de ser uma norte americana rica, você acabará indo embora quando descobrir que a vida aqui às vezes é muito difı́cil. Que, quando as safras forem ruins e os preços baixarem, você jogue seu dinheiro na cara de Ramon.
Katie ruborizou-se, invadida por um súbito desconforto, e Gabriella assentiu, grave.
— E por isso que Eduardo nunca poderá descobrir que você está pagando uma parte de tudo o que compra. Ele a condenará por ter desobedecido a Ramon, e vai pensar que você está fazendo isso porque o que o dinheiro de Ramon pode comprar não é bom o bastante para você. Não sei por que você está fazendo isso, Katie, mas não acredito que esse seja o motivo. Algum dia você irá me dizer, se desejar, mas enquanto isso Eduardo não pode descobrir. Ele iria contar a Ramon imediatamente.
— Nenhum deles vai saber de nada, a não ser que você diga alguma coisa — Katie assegurou-lhe, sorrindo.
— Você sabe que não direi. — Gabriella ergueu os olhos para o sol. — Você quer ir ao leilão naquela casa em Mayatjuez? Estamos bem perto.
Katie concordou de imediato e, três horas depois, era a orgulhosa proprietária de um jogo de jantar, um sofá e duas poltronas. A casa pertencera a um rico solteirão que, antes de morrer, desenvolvera um gosto apurado para móveis de boa qualidade, com ótimo acabamento e sólido conforto. As poltronas tinham espaldar alto, revestidas com um belo tecido cor de creme. O sofá também era confortável, com as almofadas grandes e macias.
— Ramon vai adorar — Katie dizia, enquanto pagava o leiloeiro e providenciava para que os móveis fossem entregues no chalé.
— E você, Katie, vai adorar? — Gabriella perguntou, ansiosa. — Você também vai morar naquela casa, e até agora não comprou nada apenas porque era do seu gosto.
— Ora, é claro que sim — Katie retrucou.
As 15.50, Gabriella parou o carro na frente da casinha do padre Gregório. Esta localizava-se no lado oeste da praça, bem em frente à igreja, e era facilmente identi icada por sua pintura branca e venezianas verde-escuras. Katie pegou a bolsa, enviou um sorrisinho nervoso para Gabriella e saiu do carro.
— Tem certeza de que não quer que eu fique esperando?
— Gabriella perguntou.
— Tenho, sim. Sua casa não ica longe daqui e terei tempo de sobra para me arrumar, antes de encontrar Ramon no chalé.
Relutante, Katie encaminhou-se para a porta da frente. Parou para ajeitar a saia do vestido verde-claro que usava e passar a mão pelos cabelos, que estavam puxados para trás e presos com uma presilha. Esperava estar com uma aparência composta e adequada para uma conversa com um padre. Mas sentia-se uma pilha de nervos. Uma senhora de idade atendeu à porta e a fez entrar na casa. Seguindo-a pelo vestíbulo mal iluminado, Katie sentia-se como uma condenada dando os derradeiros passos ao encontro do seu carrasco, embora tal sensação a deixasse um tanto intrigada.
Padre Gregório levantou-se assim que ela entrou no pequeno escritório. Era mais magro e mais baixo do que ela calculara na noite anterior, o que lhe provocou um alı́vio absurdo, desde que não iriam travar nenhuma batalha fı́sica. Katie sentou-se na cadeira que lhe foi indicada, em frente à escrivaninha, e ele também se sentou.
Por um instante, icaram apenas olhando-se com uma cordial descon iança, mas depois ele disse:
— Gostaria de tomar um café?
— Não, obrigada — Katie respondeu, com um sorriso ixo. — Não posso icar por muito tempo.
Dissera a coisa errada, pensou logo em seguida ao ver as sobrancelhas espessas do padre juntarem-se, quando ele franziu a testa.
— Não há dúvida de que você tem coisas mais importantes a fazer — ele disparou.
— Não para mim — ela apressou-se em explicar, tentando uma trégua. — Para Ramon.
Para seu imenso alı́vio, o padre aceitou a oferta de trégua. Os lábios inos relaxaram em algo que era quase um sorriso, enquanto balançava a cabeça branca.
— Ramon está com muita pressa de ver tudo terminado e deve estar mantendo-a extremamente ocupada. — Estendendo a mão na mesa, pegou um formulário e a caneta.
— Vamos começar preenchendo estes formulários. Seu nome completo e idade, por favor? Katie deu-lhe a informação.
— Estado civil? — Antes que Katie pudesse responder, ele olhou-a com tristeza e disse: — Ramon mencionou que seu primeiro marido morreu. Deve ter sido uma tragédia, icar viúva logo ao florescer do casamento.
A hipocrisia nunca fora um dos defeitos de Katie. Educada, mas com irmeza, ela respondeu:
— Eu iquei viúva ”ao lorescer” do divórcio e, se alguma tragédia aconteceu, foi o meu casamento com ele.
Os olhos do padre estreitaram-se por trás dos óculos.
— Como foi que disse?
— Nós estávamos divorciados, antes que ele morresse.
— Por que motivo?
— Incompatibilidade de gênios.
— Não perguntei os motivos legais, mas sim os seus motivos.
A bisbilhotice do padre provocou-lhe faı́scas de revolta, e Katie respirou fundo, tentando acalmar-se.
— Eu me divorciei dele porque o desprezava.
— Por quê?
— Prefiro não falar nesse assunto.
— Entendo. — O padre Gregório afastou os papéis para o lado, largou a caneta, e Katie sentiu que a frágil trégua começava a se desfazer. — Nesse caso, talvez não faça objeções em falar sobre Ramon e você. Há quanto tempo se conhecem?
— Apenas duas semanas.
— Que resposta incomum... — ele comentou. — Onde se conheceram?
— Nos Estados Unidos.
— Srta. Connelly — ele disse, num tom gélido —, você consideraria uma invasão de privacidade se eu lhe pedisse para ser um pouco mais específica?
Os olhos dela faiscaram, belicosos.
— De forma alguma, padre. Conheci Ramon num bar... ou uma cantina, como vocês dizem aqui.
O padre ficou perplexo.
— Ramon a conheceu numa cantina?
— No lado de fora, na verdade.
— Como?
— Eu me encontrava no lado de fora, no estacionamento. Estava com um problema, e Ramon me socorreu.
O padre relaxou na cadeira e assentiu, aprovando.
— É claro. Você estava com um problema no carro, e ele a ajudou.
Como se tivesse feito um juramento de ”dizer a verdade, nada mais do que a verdade”, Katie o corrigiu:
— Para ser mais exata, eu estava tentando escapar de um homem que... bem... queria me beijar à força, no estacionamento. Ramon deu um soco nele. Acho que estava um pouco embriagado.
Por trás dos óculos de aros finos, os olhos do padre pareciam duas pedras de gelo.
— Señorita — ele disse, com desprezo —, está tentando me dizer que Ramon Galverra envolveu-se numa briga de bêbados no estacionamento de uma cantina, por causa de uma mulher desconhecida... você, no caso?
— E claro que não! Ramon não estava bêbado e, certamente, aquilo não foi uma briga. Ele bateu em Rob apenas uma vez, e o nocauteou.
— E depois, o que aconteceu? — o padre indagou, impaciente.
Infelizmente, o senso de humor de Katie escolheu aquele momento para se manifestar.
— Depois, nós enfiamos Rob no carro dele, e Ramon e eu fomos embora no meu.
— Encantador.
Um sorriso sincero surgiu na expressão de Katie.
— Na verdade, não foi tão terrível quanto parece.
— Acho difícil de acreditar.
O sorriso dela desapareceu. Os olhos azuis adquiriram um brilho denso, de revolta.
— Pois acredite no que quiser, padre.
— E o que você deseja que eu acredite que me deixa atônito, señorita — ele disparou, levantando-se de repente.
Katie também se levantou, as emoções tão confusas diante da abrupta e inesperada conclusão da entrevista que mal sabia se deveria sentir-se aliviada ou preocupada.
— O que o senhor quis dizer com isso? — perguntou, intrigada.
— Pense um pouco a respeito, e tornaremos a conversar na segunda-feira, às nove da manhã.
Uma hora mais tarde Katie já havia trocado o vestido por uma calça comprida e uma blusa de linha branca. Sentia-se irritada, confusa e culpada, enquanto caminhava colina acima, indo da casa de Gabriella para o chalé onde Ramon estava trabalhando.
Parou por um instante, virando-se para admirar as colinas cobertas de lores silvestres. Do ponto onde se encontrava, podia avistar o telhado da casa de Gabriella, a casa de Rafael e, naturalmente, o vilarejo. A casa de Ramon icava num lugar mais elevado do que as casas vizinhas, e, vendo quanto ainda teria de caminhar, decidiu sentar-se um pouco e descansar. Puxou as pernas contra o peito, passando o braço em torno delas, e encostou o queixo nos joelhos.
”E o que você deseja que eu acredite que me deixa atônito”, o velho padre lhe dissera. Ele soara como se ela estivesse tentando lhe passar uma má impressão, Katie pensou, irritada, quando, na verdade, ela havia passado o dia inteiro fazendo compras, usando um vestido e saltos altos para que pudesse aparecer diante dele vestida com todo o respeito!
Havia simplesmente lhe contado a verdade sobre como conhecera Ramon, e se isso ofendesse sua antiquada moralidade, bem, não era por culpa dela. Se ele não quisesse ouvir as respostas, não deveria fazer tantas perguntas, Katie pensou, com raiva.
Quanto mais pensava nisso, menos culpada sentia-se pela atmosfera de hostilidade daquele primeiro encontro com o padre Gregório. Na verdade, estava sentindo-se justi icadamente indignada com tudo aquilo, até que as palavras de Ramon surgiram em sua mente: ”Como pôde se esquecer do encontro com o padre Gregório, se eu mesmo a lembrei poucas horas antes?... O padre Gregório é o único obstáculo possı́vel ao nosso casamento daqui a dez dias... Você quer que ele decida que não somos compatíveis, Katie?”
A incerteza esfriou a sua raiva instantaneamente. Como pudera ter-se esquecido do encontro marcado? Seu primeiro casamento havia exigido meses de preparação e incontáveis compromissos com costureiros, loristas, fotógrafos, banquete iras, além de dezenas de pessoas. Nem uma vez ela se ”esquecera” de uma hora marcada com qualquer um deles.
Será que, em seu subconsciente, quisera esquecer o encontro com o padre, no dia anterior?, perguntou-se com uma pontinha de culpa. E será que, deliberadamente, tentara causar uma má impressão a ele, naquela tarde? A pergunta a fez encolher-se por dentro. Não, pensou, não tentara lhe causar nenhuma impressão, fosse boa ou má. Porém, de fato deixara que ele izesse uma imagem distorcida e pouco lisonjeira de seu primeiro encontro com Ramon no Canyon Inn, sem nem mesmo tentar corrigi-la. E quando o padre tentara obter informações sobre seu divórcio, ela praticamente dissera que isso não era de sua conta. Com uma honestidade que lhe era inata, Katie teve de admitir que sim, isso era da conta dele. Por outro lado sentia-se no direito de ressentir-se de qualquer pessoa qualquer pessoa mesmo — que tentasse obrigá-la a falar sobre David. Ainda assim, poderia ter se mostrado menos hostil, poderia ter dito ao padre que o motivo de seu divórcio havia sido o adultério e a brutalidade fı́sica da parte de David. Então, se ele tentasse estender-se no assunto, poderia ter explicado que, para ela, era impossível discutir os detalhes e que preferia esquecê-los.
Era isso que deveria ter feito. Mas, ao contrário, mostrara-se pouco disposta a cooperar, indiferente e friamente desa iadora. Na verdade, não se lembrava de algum dia ter-se comportado de maneira tão indelicada com alguém. Como resultado, hostilizara a única pessoa capaz de di icultar a realização do casamento no prazo de dez dias. Que coisa mais tola e impensada para fazer...
Katie pegou uma lor que caı́ra ao seu lado e começou a tirar as pétalas vermelhas, distraı́da. As palavras de Gabriella soaram em sua mente: ”Você não comprou nada que fosse apenas do seu gosto”. Na ocasião, Katie descartara tal comentário, achando que não era verdadeiro. Mas, agora que pensava nisso, deu-se conta de que, inconscientemente, havia evitado escolher qualquer coisa que pudesse deixar a marca de sua personalidade, ou da sua feminilidade, na casa de Ramon. Porque isso a obrigaria a casar-se com ele e morar naquela casa.
Quanto mais a data do casamento se aproximava, mais assustada e hesitante ela estava se sentindo. Não havia sentido em negar, mas o fato de admitir tampouco ajudava muito. Quando partira de St. Louis com Ramon, ela tinha certeza de que estava fazendo a coisa certa. Agora, não tinha mais certeza de nada. Não podia compreender esse medo ou essa incerteza; não conseguia nem mesmo entender algumas das coisas que estava fazendo! Para alguém que se orgulhava de ter uma mente lógica, ela de repente passara a comportar-se como uma completa neurótica. Não havia nenhuma desculpa para o seu comportamento, pensou, irritada.
Ou talvez houvesse. Na última vez em que se comprometera com um homem, com o casamento, seu mundo desabara. Poucas pessoas sabiam melhor do que ela que experiência agonizante, humilhante, um mau casamento poderia ser. Talvez não valesse a pena correr o risco. Talvez ela jamais devesse ter considerado a ideia de casar-se outra vez e... não! Absolutamente não!
Não permitiria que as cicatrizes emocionais que David lhe deixara arruinassem a sua vida e destruı́ssem a chance de ter um casamento feliz e duradouro. Não daria essa satisfação a David — estivesse ele vivo ou morto!
Katie levantou-se e passou as mãos pela calça. Subiu a colina um pouco mais, virou-se novamente e olhou para baixo, para o vilarejo. Sorriu de leve, pensando que a vista parecia tirada das páginas de um folheto de turismo: as casinhas brancas aninhadas entre as colinas verdes, com a igreja no centro. A igreja onde estaria se casando dali a dez dias.
Seu estômago contorceu-se com tal pensamento, e Katie poderia ter chorado de desespero. Sentia como se estivesse se dividindo ao meio. Sua razão a puxava para um lado, e o coração, para outro. O medo instalara-se em seu peito, o desejo pulsava em suas veias e o amor por Ramon ardia como um fogo constante e crescente no centro de tudo isso.
E ela realmente o amava. Ela o amava muito.
Ainda não havia admitido tal verdade para si mesma, e agora o reconhecimento disso provocou-lhe um luxo de prazer e pânico. Agora que reconhecia seus sentimentos, por que simplesmente não aceitava seu amor por aquele homem terno, bonito, apaixonado, e o seguia para onde ele a levasse?
Seguir o amor para onde a levasse, Katie pensou com amargura. Já izera isso antes, e o im de caminho revelara-se um pesadelo interminável. Mordendo o lábio, virou-se e recomeçou a caminhada.
Por que estava pensando em David e em seu primeiro casamento o tempo todo?, perguntou-se, em desespero. A única semelhança entre David e Ramon, além da cor dos cabelos e a altura, era que ambos eram muito inteligentes. David fora um advogado talentoso e ambicioso, um homem educado, cosmopolita. Enquanto Ramon...
Bem, Ramon era um enigma, um quebra-cabeça: um homem culto, educado e inteligente, com um intenso interesse nos assuntos mundiais. Um homem capaz de socializar-se facilmente com os so isticados amigos de seus pais — um homem que, ainda assim, escolhera ser um simples fazendeiro. Porém, mesmo tendo escolhido ser fazendeiro, era um homem que não tinha sentimentos profundos, nem um orgulho verdadeiro em relação às suas terras. Ele nunca se oferecera para levá-la para conhecer a fazenda, embora ela tivesse lhe pedido para ver suas terras. E quando Ramon conversava com Rafael acerca das melhorias que tinham de ser feitas, falava com determinação resoluta — mas nunca com um entusiasmo genuíno.
Katie icara tão surpresa com aquela atitude que, dias antes, havia lhe perguntado se ele já desejara fazer outra coisa que não fosse cuidar da fazenda. E Ramon respondera apenas com um breve e pouco informativo ”sim”.
— Então, por que não faz? — ela insistira.
— Porque a fazenda está aqui — ele respondera, sem nada explicar. — Porque é nossa. Porque encontrei mais paz e alegria aqui do que em qualquer outro lugar.
Paz?, ela pensou, em desespero. E se Ramon realmente estivesse feliz, nem sempre demonstrava. Na verdade, houvera vezes naquela última semana em que Katie olhara para ele e captara uma sombra de tristeza em seu rosto, uma raiva contida em seus olhos. No instante em que ele percebia que estava sendo observado, a expressão desaparecia, sendo substituı́da por um sorriso — um de seus sorrisos quentes, íntimos.
O que ele estaria escondendo? Alguma tristeza profunda? Ou algo muito pior? Seria um traço de personalidade violenta, como a de David, ou...
Ela balançou a cabeça, negando. Ramon não era como David. De maneira alguma. Parou um instante, quebrando um galho de um pequeno flamboyant. Estava coberto de lores amarelas, e ela aspirou o perfume, tentando afastar as incertezas que a perseguiam para onde fosse.
Ao chegar ao topo da colina, ouviu o barulho de martelos e serras que vinha do chalé. Quatro pintores trabalhavam no lado de fora, aplicando uma camada de tinta branca nos batentes de madeira, enquanto outro pintava as venezianas de preto.
Seu ânimo elevou-se ao comparar o estado em que a casa se encontrava no domingo, quando a vira pela primeira vez, e como estava agora. Em cinco dias, com a ajuda de um exército de carpinteiros e marceneiros, Ramon já conseguira transformá-la na casinha pitoresca que devia lembrar-se de suas visitas na época em que os avós moravam ali.
— Jardineiras — ela falou em voz alta.
Inclinou a cabeça para o lado, tentando visualizar as jardineiras repletas de lores sob as janelas dos dois lados da porta da frente. Era exatamente isso que estava faltando, concluiu. Faria com que a casa parecesse uma cena de um livro de histórias, numa ilha de contos de fadas. Mas sua vida ali também faria parte dessa história?
Encontrou Ramon descendo de uma escada no lado extremo da casa, onde também estivera pintando as paredes. Ao ouvi-la chamá-lo com um ”olá”, ele virou-se, surpreso. Um sorriso lento, devastador, cruzou os traços bronzeados. Ele se mostrou tão feliz em vê-la que, de repente, Katie também foi invadida por uma felicidade absurda.
— Eu lhe trouxe uma coisa — ela brincou, mostrando o galho de flamboyant lorido que trouxera escondido atrás das costas.
— Flores? — ele disse, com exagerada admiração, enquanto aceitava o galho. — Para mim?
Embora o tom fosse de brincadeira, Katie captou um lampejo de calor nos olhos dele. Assentiu, com um sorriso provocante.
— Sim, e amanhã lhe trarei bombons.
— E depois de amanhã?
— Bem, depois das lores e bombons, é costume partir para as joias. Algo de bom gosto e muito caro, mas pequeno... Nada de ostentações que possam alertá-lo para as minhas verdadeiras intenções.
Ele sorriu.
— E depois disso?
— Tranque as portas e proteja a sua virtude, pois será o dia da recompensa — ela riu.
Ramon estava sem camisa e seu peito nu brilhava como bronze, exalando um perfume de sabonete e suor, que Katie achou estranhamente estimulante quando ele a puxou para seus braços.
— Para você — ele disse, enquanto os lábios aproximavam-se lentamente dos dela —, serei uma conquista fácil. Minha virtude em troca das flores, apenas.
— Que pouca vergonha! — ela brincou, ofegante.: Os olhos dele nublaram-se de desejo.
— Beije-me, Katie.