Doce Triunfo
Capítulo 13
NO DIA SEGUINTE, Miguel passou direto pela secretária, abriu a porta do escritório de Ramon e depois fechou-a com firmeza atrás de si.
— Fale-me sobre o seu bom amigo de St. Louis, o tal Sidney Green — foi logo dizendo, com uma ênfase sarcástica na palavra amigo.
Ramon, que estava recostado em sua cadeira, imerso na leitura de alguns documentos legais, olhou distraidamente para Miguel.
— Ele não é meu amigo. Apenas conhecia um amigo meu. — Voltando a atenção para os documentos, Ramon acrescentou: — Ele foi falar comigo durante um coquetel na casa de um amigo, nove anos atrás, e descreveu uma nova fórmula de tinta que havia inventado. Disse que, utilizando essa fórmula, seria capaz de produzir tintas que se ixavam melhor e duravam mais do que qualquer outra existente no mercado. No dia seguinte ele levou-me uma análise dessa tinta, realizada por um laboratório independente, e provou o que estava a irmando. — Fez uma pausa, antes de continuar: — O sujeito precisava de três milhões de dólares para dar inı́cio à fabricação e comercialização do seu produto, e eu providenciei para que a Galverra International lhe emprestasse. Também coloquei-o em contato com vários amigos proprietários de companhias que utilizam tinta na manufatura de seus produtos. Você poderá encontrar todas as informações arquivadas em algum lugar por aí. Foi só isso.
— Parte das informações estava no arquivo, e o restante obtive com o tesoureiro da companhia, esta manhã — disse Miguel. — Não foi tão simples quanto você pensa. Seu pai fez com que Green fosse investigado, descobriu que ele era um quı́mico modesto e decidiu que, como tal, jamais teria perspicácia su iciente para comercializar seu produto, e assim os três milhões de dólares seriam desperdiçados. Sendo o pai ”bondoso e amoroso” que era, ele decidiu ensinar-lhe uma lição. Instruiu o tesoureiro para retirar três milhões de dólares da sua conta particular e entregar o dinheiro a Green como se você estivesse lhe fazendo um empréstimo pessoal. Um ano depois, quando o empréstimo deveria ser pago, Green escreveu e disse que precisava de um adiamento do prazo. De acordo com o tesoureiro, você estava no Japão naquela época, e ele levou a carta para seu pai. Seu pai lhe disse para ignorar a carta e não fazer nenhuma tentativa de receber o pagamento, pois isso seria um problema seu.
Ramon suspirou, irritado.
— Ainda assim, o empréstimo foi pago — disse. — Lembro-me do meu pai dizendo que havia sido.
— Não dou a mı́nima para o que aquele demônio lhe disse. Não foi pago. Obtive tal confirmação do próprio Sidney Green.
Ramon ergueu a cabeça no mesmo instante, cerrando os dentes com raiva.
— Você falou com ele?!
— Bem... sim... eu liguei para ele. Você me disse para não perder mais tempo procurando nos arquivos, Ramon
— Miguel defendeu-se, encolhendo-se diante do olhar furioso do amigo.
— Diabo! Eu não lhe dei autorização para fazer isso, Miguel! — Ramon explodiu. Recostou-se na cadeira e fechou os olhos por um segundo, obviamente lutando para controlar a raiva que o invadia. Quando voltou a falar, a voz estava mais calma: — Mesmo quando eu me encontrava em St. Louis, não quis ligar para ele. Green sabia que eu estava com problemas e, se quisesse ajudar, teria entrado em contato comigo. Ele vai interpretar seu telefonema sobre esse antigo empréstimo como um triste e derradeiro recurso de minha parte para tentar tirar-lhe o dinheiro. Ele era um bastardo arrogante nove anos atrás, quando não tinha nada além da roupa do corpo. Bem posso imaginar como deve estar agora, sendo um empresário de sucesso.
— Ele continua um bastardo arrogante — Miguel confirmou. — E nunca pagou um centavo do empréstimo. Quando expliquei que estava tentando localizar os recibos de pagamento do dinheiro que você lhe emprestou, ele disse que já é tarde demais para você tentar reaver a quantia por meio dos tribunais.
Ramon ouviu a informação com uma expressão de cínico divertimento.
— E ele está certo, é claro. Era responsabilidade minha providenciar para que o empréstimo fosse pago, e, se não fosse, tomar as providências legais cabı́veis dentro do prazo limite.
— Pelo amor de Deus, Ramon! Você entregou três milhões de dólares ao sujeito e ele está se recusando a pagar, mesmo depois de ter enriquecido! Como pode ficar sentado aí, desse jeito?
Ramon encolheu os ombros, irônico.
— Eu não ”entreguei” o dinheiro a ele, iz um empréstimo. E não iz isso levado por bondade ou caridade, mas sim porque senti que haveria um bom mercado para o produto que ele se dispunha a fabricar, e porque esperava obter lucros com isso. Foi um investimento comercial, e é responsabilidade do investidor cuidar do seu dinheiro. Infelizmente eu não sabia que era o meu dinheiro particular que havia sido investido, e presumi que os auditores da companhia estivessem cuidando do assunto. A recusa de Green de fazer o pagamento agora, quando não é mais obrigado a fazer, não é uma questão pessoal. Ele está simplesmente cuidando dos próprios interesses. São apenas negócios.
— Isso é roubo! — Miguel exclamou, revoltado.
— Não, Miguel, para ele é somente um bom negócio Ramon retrucou, encarando-o com uma pontinha de divertimento. — Aposto que, depois de lhe dizer que não iria pagar o empréstimo, ele enviou-me lembranças e disse que ”lamenta muito” a minha atual situação financeira.
— Pois acertou em cheio! Disse também que, se você fosse tão esperto quanto todos a irmam, teria exigido o pagamento anos atrás. E que se você, ou qualquer pessoa que o represente, tentar contatá-lo de novo para receber o dinheiro, ele fará com que seus advogados entrem com um processo contra você, por ”intimidação e danos pessoais”. Depois, desligou na minha cara.
Todo o humor desapareceu na expressão de Ramon, enquanto deixava a caneta na mesa.
— Ele fez o quê? — perguntou com uma suavidade mortal.
— Ele... falou todas essas coisas, depois desligou na minha cara — Miguel repetiu.
— Agora, isso sim foi um mau negócio — Ramon falou num tom sedoso, ameaçador.
Tornou a recostar-se na cadeira e mergulhou num silêncio pensativo, os lábios curvados num sorrisinho irônico. Então, de repente, inclinou-se sobre a mesa e apertou o botão do interfone. Quando Elise atendeu, Ramon passou-lhe sete números de telefone para que ela ligasse, em sete diferentes cidades do mundo.
— Se bem me recordo dos termos do empréstimo falou para Miguel —, a taxa de juros sobre os três milhões de dólares seria aquela que estivesse sendo cobrada no dia do pagamento.
— Certo — disse Miguel. — Se ele tivesse pago o empréstimo depois de um ano, a taxa de juros na época seria de oito por cento, e ele estaria lhe devendo cerca de 3.240.000 dólares.
— A taxa de juros de hoje é de dezessete por cento, e ele me deve o dinheiro há nove anos.
— Tecnicamente, ele lhe deve mais de doze milhões de dólares — Miguel con irmou —, mas isso não importa. Será impossível reaver esse dinheiro.
— Pois não tenho a menor intenção de tentar — Ramon declarou, afável. Seus olhos voltaram-se para o telefone na mesa, esperando que a primeira das ligações internacionais fosse completada.
— Então, o que pretende fazer? Ramon arqueou a sobrancelha, divertido.
— Vou ensinar uma lição ao nosso amigo Green, algo que ele deveria ter aprendido há muito tempo. É uma variação do velho ditado.
— Que velho ditado?
— Aquele que diz que, quando se está subindo a escada do sucesso, não se deve pisar nas mãos de ninguém, pois pode-se precisar delas para ajudá-lo quando estiver descendo.
— E qual é a variação que você vai lhe ensinar? — Miguel perguntou, os olhos começando a brilhar de antecipação.
— ”Nunca faça inimigos desnecessários” — Ramon respondeu. — E esta lição vai custar a ele doze milhões de dólares.
Quando as ligações começaram a ser completadas, Ramon ligou o viva-voz no telefone, para que Miguel pudesse ouvi-las. Várias conversas aconteceram em francês, e Miguel esforçava-se para acompanhá-las, agarrando-se aos seus conhecimentos rudimentares da língua. Ramon falava com luência. Depois das quatro primeiras ligações, Miguel já havia compreendido o suficiente do que estava ocorrendo para sentir-se absolutamente assombrado.
Todos os homens com quem Ramon conversava eram grandes industriais cujas empresas usavam, ou já tinham usado, a tinta fabricada pela companhia de Green. Cada um deles tratava Ramon com afável cordialidade e ouviu com surpresa quando ele explicou brevemente o que estava tentando fazer. Quando cada um dos telefonemas se completava, Miguel também se sentia um tanto surpreso ao ouvi-los perguntar se haveria algo que pudessem fazer para ajudar Ramon em sua ”situação problemática”, e em todos os casos ele recusou gentilmente.
— Ramon! — Miguel desabafou quando o quarto telefonema foi encerrado, às 4.30 da tarde. — Cada um desses homens poderia resgatá-lo do desastre financeiro em que você se encontra, e todos lhe ofereceram ajuda.
Ramon balançou a cabeça.
— Trata-se apenas de uma formalidade, Miguel. Eles oferecem ajuda, mas já está subentendido que eu vou recusar a oferta. São negócios, bons negócios. Você está vendo? acrescentou, com um leve sorriso. — Nós todos já aprendemos a lição que o sr. Green está prestes a aprender.
Miguel não pôde reprimir um risinho.
— Se entendi esses telefonemas corretamente, amanhã os jornais de Paris irão relatar que a maior fábrica de automóveis do paı́s, que utiliza as tintas fabricadas por Green, teve um problema de desgaste nos testes de pintura dos veı́culos e decidiu usar outro produto. Ramon foi até o armário onde estavam as bebidas e serviu uísque em dois copos.
— Isso não é tão fatal a Green quanto você pode estar pensando. Meu amigo em Paris já havia comentado que havia decidido contra o uso das tintas de Green porque eram caras demais; fui eu que recomendei Green a ele, nove anos atrás. O problema com o desgaste da pintura ocorreu porque foi aplicada incorretamente pelo pessoal da fábrica, mas é claro que ele não tem intenção de mencionar isso à imprensa.
Ramon aproximou-se de Miguel e entregou-lhe o copo.
— O fabricante de equipamentos agrı́colas na Alemanha vai esperar um dia, depois do anúncio da imprensa francesa, antes de ligar para Green e ameaçar cancelar os pedidos devido ao que ficou sabendo por intermédio dos jornais.
Ramon en iou as mãos nos bolsos e sorriu para Miguel, com uma cigarrilha presa entre os dentes.
— Infelizmente para Green, as tintas que fabrica já não têm mais a qualidade superior. Outros fabricantes norte americanos já começaram a produzir tintas tão boas ou até melhores. Meu amigo em Tóquio irá reagir ao noticiário de Paris declarando à imprensa local que jamais utilizou as tintas de Green e que, portanto, não tem nenhum problema em relação ao desgaste da pintura nos veı́culos que fabrica. Na quinta-feira, Demétrios Vasiladis vai ligar para Green, de Atenas, e cancelar todos os pedidos de tintas navais que foram feitos para a sua frota de navios.
Ramon bebeu um gole do uı́sque, foi sentar-se à escrivaninha e começou a guardar os papéis na pasta, documentos que pretendia analisar ainda naquela noite, depois que visse Katie.
Intrigado, Miguel inclinou-se na beirada da poltrona.
— E o que vai acontecer depois? — perguntou. Ramon olhou-o como se o assunto tivesse perdido todo o interesse.
— Quem é que sabe? Espero que os outros fabricantes de tintas dos Estados Unidos, que fazem um produto de igual qualidade, aceitem o desa io e façam o possı́vel para destruir Green por meio da imprensa norte-americana. Dependendo de quanto forem e icientes nisso, a publicidade negativa provavelmente fará cair o valor das ações de Green na Bolsa de Valores.