Doce Triunfo
Capítulo 10
O SOL REFLETIA-SE no grande jato em seu rumo ao sudeste, a 10.000 m de altitude.
Tomando cuidado para não incomodar Katie, que dormia com a cabeça recostada em seu ombro, Ramon estendeu o braço e fechou a proteção da janela, evitando que o brilho do sol batesse no lindo rosto adormecido. Até o momento, o voo estava sendo muito turbulento e vários passageiros demonstravam sinais de alarme. Mas não Katie, ele pensou com um sorriso terno. Sob aquele exterior tão deliciosamente feminino e frágil, Ramon descobria que ela possuía uma enorme coragem, força e determinação.
Mesmo no dia anterior, e naquele dia, quando a evidente tristeza dos pais dela acerca de sua partida iminente colocara um terrı́vel peso de culpa nos delicados ombros de Katie, ela suportara a infelicidade com uma tranquila compreensão e uma determinação sorridente, apesar da forte pressão emocional que ele sabia que estava sentindo.
Na noite de sexta-feira os pais de Katie tinham se oferecido para cuidar da sublocação do apartamento, e para empacotar o restante de suas coisas que seriam enviadas mais tarde para Porto Rico. Depois, insistiram para que os dois passassem o fim de semana na casa deles, em vez de icarem no apartamento. Embora aceitasse o convite, Ramon não teve a chance nem a desculpa de estar a sós com ela em nenhum momento.
Com o passar das horas, ele havia observado a crescente tensão de Katie, preparando-se para o momento em que ela pesaria um futuro incerto ao lado dele em relação ao amor e segurança que seus pais e seu emprego ainda lhe ofereciam, e lhe diria que havia mudado de ideia a respeito de ir para Porto Rico. Movido pelo egoı́smo, ansiava por levá-la de volta para o apartamento onde poderia abraçá-la e onde, com tempo e privacidade, poderia fazer com que a paixão sobrepujasse a razão. No entanto, mesmo sem os estı́mulos fı́sicos do desejo, Katie não abandonara a corajosa resolução de partir com ele.
Os longos cı́lios formavam uma sombra em suas faces delicadas, e Ramon deliciou-se em observar a pura beleza de seu per il. Estava contente por ter reservado lugares na primeira classe, pois os assentos eram mais espaçosos. Katie erradamente presumira que o motivo de terem tido a ”sorte” de conseguir aqueles lugares era o fato de a companhia aérea ter excedido as vendas da classe turı́stica e, por isso, oferecido a eles os assentos na primeira classe, pelo mesmo preço. Ramon deixou-a acreditar nisso.
Um sentimento de amargura perpassou-o, enrijecendo as linhas de seu rosto, e ele virou-se para olhar pela janela do outro lado do corredor. Poucos meses antes ele teria condições de levar Katie para Porto Rico no jato particular da companhia Galverra International, com as esplêndidas acomodações que incluı́am um quarto de dormir, salas de estar e de jantar, todo mobiliado com antiguidades e revestido com um carpete branco. Katie teria apreciado o conforto, ele pensou. Mas teria icado ainda mais impressionada com o jatinho Lear que havia sido sua propriedade particular, no qual ele voara para St. Louis e que, agora, encontrava-se num hangar do aeroporto dessa cidade.
O jatinho Lear pertencera a ele e não à corporação, mas, como tudo o mais que Ramon possuı́a, incluindo as casas, a ilha e o iate, havia entregado o avião como garantia para os empréstimos que a companhia izera, e que agora não tinha como pagar. De que adiantaria ter levado Katie para Porto Rico no Lear, dando-lhe uma pequena amostra da vida luxuosa que ele poderia ter lhe oferecido, quando isso serviria apenas para fazer com que a vida que agora era capaz de lhe dar parecesse ainda mais pobre e insípida, em comparação?
Cansado, Ramon recostou a cabeça no assento e fechou os olhos. Não tinha o direito de pedir que Katie compartilhasse de seu exı́lio, de privá-la do apartamento luxuoso, da carreira, e pedir que fosse viver ao seu lado numa fazenda, num chalé reformado. Era egoísmo de sua parte, mas Ramon não conseguia pensar numa vida sem a presença dela. Pouco tempo antes, poderia ter dado tudo a ela, e agora não podia lhe dar mais nada... nem mesmo a honestidade. Não por enquanto.
Ramon tinha várias reuniões agendadas para o dia seguinte, uma das quais com o seu contador, e agarrava-se à frágil esperança de que sua situação inanceira pessoal não fosse tão desastrosa quanto parecia. Depois dessa reunião saberia com precisão em que pé se encontrava, e então teria de descobrir um meio de explicar a Katie quem ele de fato era, e o que havia sido. Insistira tanto na honestidade e sinceridade entre eles e, embora não tivesse exatamente mentido para ela, agora lhe devia a verdade — toda a verdade. A ideia de dizer a Katie que ele fora um fracasso fazia seu estômago se contorcer. Ramon não se importava que o mundo inteiro pensasse nele nesses termos, mas era insuportável saber que seria um fracassado aos olhos de Katie.
Já havia sido difı́cil o bastante explicar a situação ao pai dela, no encontro que tiveram na sexta-feira de manhã. O afeto pelo seu futuro sogro suavizou as feições tensas de Ramon, quando lembrou-se do início inesperadamente hostil daquele encontro no café da manhã.
Quando Ramon entrara no clube exclusivo em que haviam combinado se encontrar, Ryan Connelly o esperava com uma raiva mal contida irradiando-se por todo seu corpo.
— Que diabo de brincadeira é essa que está fazendo, Galverra? — o sr. Connelly lhe perguntara, num tom baixo e furioso, assim que Ramon sentou-se à mesa. — Por que anda dizendo por aı́ que é apenas um pequeno fazendeiro? Eu estava icando maluco, pois tinha certeza de que já o conhecia de algum lugar. Não era apenas o seu nome que me era familiar, mas o seu rosto também. Ontem à noite lembrei-me de uma matéria que li sobre você na revista Time e...
A medida que Ramon explicava ao pai de Katie sobre o colapso iminente da Galverra International, a fúria de Connelly fora substituı́da primeiro pela perplexidade e, depois, pela compreensão compassiva. Ramon tentara não sorrir quando Ryan lhe oferecera uma ajuda inanceira. O pai de Katie era um homem rico mas, como Ramon lhe explicara, seriam necessários mais de cem investidores como ele para reerguer a companhia Galverra International. Do contrário, ela ainda iria desabar sob seu próprio peso e levar consigo todos aqueles que haviam investido na corporação.
O jato mergulhou assustadoramente numa forte turbulência, depois voltou para cima com um impulso de virar o estômago.
— Estamos aterrissando? — Katie murmurou.
— Ainda não — Ramon respondeu. Roçou os lábios em seus cabelos perfumados. — Continue dormindo. Eu a acordo quando estivermos chegando a Miami.
Obediente, Katie fechou os olhos e aconchegou-se mais contra ele.
A porta da cabine abriu-se e o piloto saiu, indo em direção ao lavatório. O passageiro sentado na frente de Ramon o deteve, fazendo algumas perguntas e, quando o piloto abaixou-se para responder, Ramon reparou que os olhos dele examinavam o rosto de Katie com apreciação, demorando-se ali enquanto falava com o homem. Ramon sentiu um lampejo de irritação, que imediatamente identificou como sendo ciúme.
Ciúme — esta era outra emoção com a qual ele precisava aprender a lidar, por causa de Katie. Depois de lançar um olhar gélido para o desafortunado piloto, Ramon pegou a mão de Katie e entrelaçou os dedos nos dela. Suspirou, resignado. A julgar por aquela amostra, o ciúme com certeza seria seu companheiro constante.
Apenas atravessar o saguão do aeroporto com ela, e observar os homens que se viravam para olhá-la, já havia lhe provocado uma intensa irritação. Usando um vestido de seda azul-turquesa que deixava à mostra as pernas longas e bem torneadas, realçadas pelos sapatos de salto alto, Katie parecia uma modelo. Não... As modelos que ele conhecia não possuı́am aquelas curvas provocantes, nem a perfeição de seus traços. Elas tinham glamour. Katie era linda.
Katie lexionou os dedos, e ele deu-se conta de que estivera apertando-lhe a mão possessivamente. Com um movimento leve, sensual, passou a ponta do dedo em sua palma. Mesmo no sono ela reagiu àquela carı́cia e moveu-se para mais perto dele. Deus, como ele a desejava! Só de tê-la ali, aconchegada contra seu ombro, já o fazia arder de desejo e ternura.
Tornando a recostar-se, Ramon fechou os olhos de novo e suspirou de prazer. Ele havia conseguido! Conseguira levar Katie para aquele avião, com ele! Ela iria para Porto Rico. Iria ser sua. Ele admirava sua independência e inteligência, e adorava a vulnerabilidade e meiguice que ela possuı́a. Katie era a personi icação de tudo do que ele gostava numa mulher: era feminina sem ser dependente e fútil; orgulhosa, sem ser esnobe; assertiva, sem ser agressiva. Quanto ao sexo, era liberada na teoria, mas não na prática, o que o agradava imensamente. Ramon sabia que detestaria a ideia de que ela havia se entregado casualmente a outros homens. Ela era muito mais especial e preciosa a ele porque escolhera não entregar-se ao sexo casual. O que, ele supunha, o tornava culpado de aplicar padrões diferentes para a moralidade de homens e mulheres, considerando-se o número de namoradas que ele próprio tivera, desde St. Moritz até St. Croix, naquela última década.
Ramon sorriu por dentro, pensando em como Katie icaria furiosa se soubesse o que ele realmente pensava a respeito de sua moralidade. Entre outras coisas, ela o acusaria de antiquado e de machista, o que não deixava de ser engraçado, pois Ramon descon iava que o motivo pelo qual ela sentira-se atraída por ele era justamente...
A breve sensação de prazer foi subitamente apagada pela mesma dúvida que crescia mais e mais dentro dele, nos últimos dias. Ramon não sabia por que Katie sentira-se atraı́do por ele. Não sabia por que ela achava que devia casar-se com ele, não fazia ideia dos motivos que a levaram a decidir segui-lo para Porto Rico. O único motivo válido seria porque o amava.
Mas ela não o amava.
Ramon recuou mentalmente diante dessa verdade, embora soubesse que teria de encará-la e aceitá-la. Nem uma vez sequer Katie havia mencionado a palavra amor. Três noites antes, quando ele dissera que a amava, as palavras tinham explodido de dentro dele, mas ainda assim ela preferira agir como se não tivesse escutado. Como era irônico que, na primeira vez em sua vida que dizia a uma mulher que a amava, ela não fosse capaz de dizer que o amava também.
Com uma pontada de tristeza, perguntou-se se essa seria a maneira de o destino castigá-lo por todas as vezes em que as mulheres lhe confessavam seu amor, e em que ele respondera apenas com o silêncio, ou com um sorriso descompromissado, porque se recusava a declarar uma emoção que não sentia.
Porém, se Katie não o amava, por que estava naquele avião? Sim, ela o desejava sexualmente, Ramon sabia disso. Desde o primeiro instante em que a tomara nos braços, ele estivera forçando-a a querer mais, acendendo implacavelmente as chamas do seu desejo por ele. Ao que parecia, a paixão era a única coisa que ela sentia por ele; o desejo, o único motivo de ela estar ali ao seu lado.
Não, diabo, não podia ser verdade, pensou. Katie era inteligente demais para pensar em casar-se com ele levada apenas por um impulso sexual. Ela devia sentir algo além disso. A inal, desde o inı́cio existira uma enorme atração entre eles, que era tanto emocional quanto fı́sica. Mas, se ela não o amava, ele seria capaz de manter aquele relacionamento apenas no plano fı́sico? E, mesmo se conseguisse, suportaria viver com ela, sabendo que seus sentimentos eram tão mais profundos e sólidos do que os que ela lhe dedicava?