Doce Triunfo

Judith McNaught · Capítulo 6 de 21

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Doce Triunfo

Capítulo 6

KATIE ACORDOU NA MANHA seguinte com o barulho insistente do telefone na mesa de cabeceira. Zonza de sono, estendeu o braço e pegou o aparelho, levando-o ao ouvido sem se levantar dos travesseiros. A voz de sua mãe ressoou antes mesmo que ela dissesse ”alo”.

— Katie, querida, quem era aquele homem?

— Ramon Galverra — ela respondeu, os olhos ainda fechados.

— Eu sei o nome dele, isso você nos falou. Quero saber o que ele está fazendo com você.

— Fazendo comigo? — ela repetiu, sonolenta. — Nada.

— Katie, não se faça de desentendida! E evidente que ele sabe que você tem dinheiro, que nós temos dinheiro. Tenho o pressentimento de que está atrás de alguma coisa.

Grogue de sono, Katie tentou defender Ramon.

— Ele não está atrás de dinheiro, mamãe. Está querendo uma esposa.

Houve um silêncio prolongado. Quando a voz de sua mãe tornou a soar, cada palavra era carregada de desprezo.

— Aquele fazendeiro porto-riquenho realmente está pensando em se casar com você?

— Espanhol — Katie corrigiu-a, enquanto sua mente começava a despertar.

— O quê?

— Ele disse que é espanhol, e não porto-riquenho. Na verdade, é norte-americano.

— Katherine — a voz no outro lado da linha soou com tensa impaciência —, você não está, nem em sonhos, considerando a possibilidade de se casar com ele, não é?

Katie hesitou, sentando na cama e preparando-se para se levantar.

— Acho que não.

— Você acha que não? Katherine, ique aı́ mesmo e não deixe que aquele homem se aproxime, enquanto não chegarmos. Meu Deus, seu pai vai morrer de desgosto. Vamos sair assim que acabarmos de tomar o café da manhã.

— Não! — Katie falou, inalmente saindo do seu estupor sonolento. — Escute, mamãe. Você me acordou e não estou conseguindo pensar direito, mas não há nada com que se preocupar. Não vou me casar com Ramon, e duvido que ainda o veja de novo.

— Tem certeza, Katherine? Ou está dizendo isso apenas para me tranquilizar?

— Sim, tenho certeza. De verdade.

— Está bem, querida. Mas se ele se aproximar de você outra vez, basta nos ligar e estaremos aí em meia hora.

— Mamãe...

— Ligue para cá, Katie. Seu pai e eu a amamos muito e queremos protegê-la. Não tenha vergonha de admitir que não pode lidar sozinha com aquele espanhol, ou porto-riquenho, ou seja lá o que for.

Katie abriu a boca para protestar, dizer que não precisava ser ”protegida” de Ramon, mas mudou de ideia. Sua mãe não acreditaria, e ela não queria mais discutir.

— Tudo bem — suspirou. — Se precisar, eu ligo. Até logo, mamãe.

O que havia com seus pais?, Katie perguntou-se, irritada, meia hora depois, enquanto vestia um conjunto de calça comprida e blusa amarelo. Por que pensavam que Ramon iria magoá-la ou fazer qualquer coisa que a obrigaria a ter de chamá-los em seu socorro? Escovou os cabelos com vigor, prendeu-os com uma ivela no alto da cabeça, depois aplicou uma leve maquiagem. Decidira sair para comprar alguma coisa fútil e bem cara, a im de parar de pensar em Rammon e em seus pais.

A campainha tocou, como Katie temia, no momento em que ela guardava a xı́cara na máquina de lavar louça. Com certeza eram seus pais. Eles também tinham acabado de tomar café e, agora, vinham para acabar com Ramon, literalmente.

Com um suspiro resignado, foi para a sala e abriu a porta, e então deu um passo para trás, surpresa ao ver a silhueta alta e esguia bloqueando a luz do sol.

— Eu... estou de saı́da — Katie murmurou. Ignorando a desculpa, Ramon passou pela porta e fechou-a atrás de si. Um leve sorriso tocava-lhe os lábios.

— De alguma forma, imaginei que era o que você faria.

Katie olhou para o rosto de traços belos e másculos, vendo a determinação ali estampada, e os ombros largos e resolutos. Confrontada com 1,90m de poderosa masculinidade e determinação férrea, ela preferiu fazer um recuo estratégico a im de recuperar a coragem estilhaçada. Virando-se, foi dizendo por cima do ombro:

— Vou buscar uma xícara de café para você.

No momento em que estava servindo o café, Ramon segurou-a pela cintura e colou o corpo contra suas costas. Sua respiração quase tocava-lhe os cabelos, quando ele disse:

— Não quero café, Katie.

— Quer comer alguma coisa?

— Não.

— Então, o que quer?

— Vire-se e eu lhe mostro.

Katie balançou a cabeça, agarrando-se na beirada do balcão da cozinha com tanta força que os nós dos dedos embranqueceram.

— Katie, não lhe falei sobre o motivo principal de não querer que você usasse aquele biquı́ni, porque eu mesmo não queria admitir. E você também não vai gostar de ouvir. Mas acho que devemos ser sempre sinceros um com o outro.

— Ele fez uma pausa e acrescentou, com um suspiro relutante:

— A verdade é que iquei com ciúme... Não queria que ninguém, exceto eu mesmo, visse o seu corpo maravilhoso.

Katie engoliu em seco, tentando falar, temendo virar-se, trêmula pela sensação do corpo musculoso contra suas costas e pernas.

— Aceito sua explicação, e você está certo: eu não gosto disso. Eu mesma decido que tipo de roupas devo usar, e mais ninguém. Mas isso não tem nenhuma importância. Lamento ter-me comportado como uma criança, ontem à noite; eu deveria ter saı́do do quarto para despedir-me de você. Mas não posso me casar com você, Ramon. Jamais daria certo.

Katie esperava que ele aceitasse isso. Porém, deveria saber que não seria tão fácil. As mãos de Ramon deslizaram pelos seus ombros, fazendo-a virar-se de frente para ele com um movimento irme, mas delicado. Katie manteve os olhos ixos no colarinho aberto de sua camisa azul.

— Olhe para mim, querida.

A voz profunda e rouca, chamando-a de ”querida”, alcançou seu objetivo. Katie itou-o, os olhos azuis muito abertos e apreensivos.

— Você pode casar comigo. E vai dar certo. Eu farei de tudo para que dê certo.

— Existe um imenso abismo cultural entre nós dois! ela exclamou. — Como você pode pensar que daria certo?

Hipnóticos, os olhos dele fixaram-se nos dela.

— Porque voltarei para casa todas as noites e farei amor com você até que implore para que eu pare. Todas as manhãs a deixarei com o gosto dos meus beijos em seus lábios.

Viverei minha vida para você. Preencherei seus dias com alegrias e, se Deus nos enviar alguma tristeza, vou ampará-la em meus braços até que suas lágrimas se acabem, e a ensinarei a sorrir novamente.

Hipnotizada por aquelas palavras, Katie icou olhando quando os lábios irmes e sensuais desciam até os seus.

— Nós iremos brigar — ela avisou, trêmula. Ramon roçou os lábios nos dela.

— As brigas são apenas uma forma raivosa de demonstrar carinho.

— Nós... nós discordamos em tudo. Você é tirânico, eu sou independente.

Ele colou os lábios nos dela.

— Vamos aprender a fazer concessões.

— Uma pessoa não pode fazer todas as concessões. O que você esperaria em troca?

Os braços dele envolveram-na.

— Nem mais, nem menos do que lhe ofereço: tudo o que você tem para dar, sem nada a esconder. Para sempre.

— Ramon cobriu-lhe a boca, insistindo para que ela entreabrisse os lábios e recebesse a doce invasão de sua língua.

O que para Katie começara como uma leve chama transformou-se em fogo, explodindo em labaredas ardentes, percorrendo-a com uma força incontrolável. Colava-se a ele, retribuindo seus beijos intermináveis e avassaladores com uma urgência desesperada, gemendo baixinho quando Ramon espalmou as mãos em seus seios.

— Nós pertencemos um ao outro — ele sussurrou. Diga-me que acredita nisso — ordenou em voz baixa, as mãos deslizando pelas costas dela e abrindo caminho pelo elástico da calça, até alcançarem seu traseiro e encostá-lo contra a irmeza de seu membro rı́gido. — Nossos corpos sabem disso, Katie.

Apanhada entre a sensação excitante das mãos dele em sua pele e a orgulhosa evidência do desejo que sentia por ela, as já enfraquecidas defesas de Katie desabaram completamente. Enlaçou-lhe o pescoço, puxando-o mais para si, deslizando as mãos pelos seus ombros, pelos cabelos espessos. E quando ele ordenou novamente: ”Diga-me”, ela afastou seus lábios apenas para responder, quase num soluço:

— Sim, nós pertencemos um ao outro.

As palavras murmuradas pareceram ecoar pela cozinha, despertando-a da paixão como uma ducha de água fria. Ela deu um passo para trás, olhando para ele.

Ramon viu as faces rosadas, o pânico surgindo nos profundos olhos azuis. Passando as mãos pelos cabelos macios e avermelhados, segurou-lhe o rosto entre elas.

— Não ique com medo, minha querida — disse gentilmente. — Creio que o que mais a amedronta não é o que está acontecendo conosco, mas sim a rapidez com que tudo aconteceu. — Acariciou-lhe as faces ardentes e acrescentou:

— Eu faria tudo para poder lhe dar mais tempo, mas não posso. Teremos de partir para Porto Rico nesse domingo. Você ainda terá quatro dias para fazer as malas e organizar suas coisas. Eu pretendia partir há dois dias, mas não posso mais retardar a minha volta para além de domingo.

— Mas... amanhã eu preciso trabalhar — ela protestou, distraída.

— Sim, eu sei. Terá de comunicar aos seus patrões que vai partir para Porto Rico e que esta será a sua última semana no trabalho.

Dentre todos os obstáculos monumentais a um possı́vel casamento com Ramon, Katie apegou-se justamente ao menos importante, que era o seu trabalho.

— Não posso simplesmente entrar lá e demitir-me com apenas quatro dias de aviso prévio. Preciso avisá-los com no mínimo duas semanas de antecedência. Não posso fazer isso.

— Sim, Katie, você pode — ele falou com calma.

— Além disso, há também os meus pais... Oh, não! Precisamos sair daqui imediatamente — ela disse, num súbito tom de urgência. — Eu me esqueci deles. Tudo o que preciso agora é que cheguem e encontrem você aqui comigo. Minha mãe já me ligou hoje cedo, chamando-me de ”Katherine”.

Quase frenética, Katie desvencilhou-se, puxou-o na direção da sala, pegou a bolsa e só relaxou quando entraram no carro dele.

— Qual é o problema de sua mãe tê-la chamado de ”Katherine” — Ramon perguntou, enviando-lhe um olhar divertido, enquanto inseria a chave no contato.

Katie observou-o dirigir com tranquila competência, admirando os dedos longos no volante.

— Quando meus pais me chamam de Katherine, em vez de Katie, signi ica que as linhas de batalha foram marcadas, que a artilharia está sendo colocada em posição e que, a não ser que eu acene com a bandeira branca, vão começar a atirar.

Ele sorriu, e Katie relaxou. Quando tomaram a via expressa para a rodovia principal, ela perguntou:

— Para onde vamos?

— Para o Arco. Ainda não tive a chance de conhecê-lo de perto.

— Turista! — ela brincou.

Passaram o restante da manhã e boa parte da tarde comportando-se como verdadeiros turistas. Embarcaram num dos barcos a vapor para um passeio nas águas lamacentas do rio Mississipi. Distraı́da, Katie observava a paisagem, a mente envolvida num turbilhão de pensamentos confusos.

Ramon recostou-se no gradil, observando-a.

— Quando você vai contar aos seus pais?

Ela sentiu as mãos transpirando, só de pensar nisso. Enxugando as palmas úmidas nos lados da calça comprida, balançou a cabeça.

— Ainda não decidi — respondeu, sendo deliberadamente vaga sobre o que ainda não decidira.

Caminharam pelas antigas ruas revestidas de pedras de Laclede’s Landing, próximo à margem do rio, e pararam num adorável pub que servia sanduíches que eram verdadeiras obras-primas. Katie comeu pouco e icou olhando pelas janelas, vendo as pessoas que passavam apressadamente, aproveitando o horário do almoço.

Ramon recostou na cadeira, com uma cigarrilha presa entre os dentes, os olhos semicerrados pela fumaça, e observando-a.

— Quer que eu esteja com você, quando contar a eles? — perguntou.

— Ainda não pensei sobre isso.

Depois do lanche, icaram passeando pelo parque dominado pelo grande Arco Gateway. Katie fez as vezes de guia de turismo, explicando que o Arco era o monumento mais alto dos Estados Unidos, e depois icou em silêncio, limitando-se a olhar, sem realmente ver, para o rio que corria em toda a extensão do parque. Sem ter um destino específico, desceu a escadaria que levava para a margem do rio e sentou-se, pensando, sem na verdade ser capaz de pensar em nada.

Ramon ficou ao seu lado, uma das pernas apoiadas no degrau da escada, observando-a.

— Quanto mais você demorar para contar a eles, mais nervosa vai ficar, e mais difícil será.

— Você quer mesmo subir no Arco? — ela perguntou, evasiva. — Não sei se o bondinho está funcionando, mas se estiver, dizem que a vista é fantástica. Não posso a irmar que já tive essa experiência... Morro de medo de altura.

— Katie, nós não temos muito tempo.

— Eu sei.

Voltaram para o carro e, enquanto seguiam pela Market Street, Katie sugeriu, sem muito entusiasmo, que poderiam passar pelo Lindell Boulevard. Ramon seguiu suas instruções e, quando alcançaram o Lindell, indo na direção oeste, ele perguntou:

— O que é isso?

Katie olhou para onde ele indicava, à sua direita.

— E a catedral de St. Louis. — Levou um susto quando ele parou diante da antiga igreja. — Por que estamos parando aqui?

Ramon virou-se em seu assento e passou o braço pelos ombros dela.

— Faltam poucos dias para partirmos, e há tantas decisões a tomar, tantas coisas para fazer. Vou ajudá-la em tudo que puder, mas não posso falar com seus pais em seu lugar, nem tampouco com os seus patrões.

— Sim, eu sei.

Ramon segurou-lhe o queixo, erguendo-o delicadamente, e o beijo que lhe deu estava repleto de ternura.

— Mas por que você quer ir à igreja? — Katie perguntou, quando ele fez a volta e abriu-lhe a porta.

— Em geral, as melhores obras artı́sticas de uma época podem ser encontradas nas igrejas, não importa em que país estejam.

Katie não acreditava que esse fosse o motivo, e seus nervos, já tão abalados, enrijeceram-se ao extremo enquanto subia os degraus de pedra que levavam à entrada da catedral. Ramon abriu uma das pesadas portas entalhadas e deu-lhe passagem para o vasto e frio interior. No mesmo instante ela foi assaltada pela lembrança de velas ardendo e flores no altar.

Ramon segurou-a pelo braço, não lhe dando outra escolha senão acompanhá-lo até o corredor central. Katie passava os olhos pelas in indáveis ileiras de bancos de madeira, observando os altos tetos abobadados com suas maravilhosas cenas em mosaicos que reluziam com o ouro, sempre evitando olhar para o altar central. Na primeira ileira, ajoelhou-se ao lado de Ramon, sentindo-se como uma fraude, uma intrusa. Finalmente obrigou-se a olhar para o altar, depois fechou os olhos diante da tontura que a invadia. Deus não a queria ali, não daquela forma, não com Ramon. Era doloroso demais estar ali com ele. E errado. Tudo o que ela desejava era o corpo dele, e não sua vida.

Ramon estava ajoelhado ao seu lado, e Katie teve a aterrorizante impressão de que estava rezando. Quase teve certeza do pedido que ele fazia. Como se pudesse cancelar o pedido dele com o seu próprio, ela começou a rezar também, uma prece rápida e incoerente, sentindo o pânico crescer dentro de si.

Por favor, por favor, não dê ouvidos a ele. Não permita que isso aconteça. Não permita que ele goste tanto de mim. Não posso fazer o que ele me pede. Sei que não posso. Não quero. Deus ela implorou em silêncio —, está me ouvindo? Algum dia me ouviu?

Katie levantou-se, cega pelas lágrimas, e, quando virou-se, seu corpo colidiu com o de Ramon.

— Katie? — ele chamou-a em voz baixa, repleta de preocupação, e segurou-lhe o braço delicadamente.

— Deixe-me, Ramon. Por favor! Preciso sair daqui!

— Eu... eu não sei o que aconteceu comigo lá dentro Katie desculpou-se, enxugando as lágrimas com a ponta dos dedos.

Estavam parados na escadaria da igreja, sob o sol luminoso. Katie observava o tráfego que seguia pelo Lindell Boulevard, ainda confusa e envergonhada demais para olhar para Ramon, enquanto explicava:

— Eu não entrava nesta igreja desde o dia em que me casei. — Baixou os olhos, encolhendo-se ao som da voz atônita— de Ramon.

— Você já foi casada?

Ela assentiu, sem olhar para ele.

— Sim. Há dois anos, quando tinha vinte e um anos, no mesmo mês em que me formei na faculdade. E divorciei-me um ano depois.

Ainda era doloroso admitir isso a qualquer pessoa. Katie desceu mais dois degraus, antes de perceber que Ramon não a estava seguindo. Virando-se, viu que ele a itava com os olhos duros, estreitados.

— Você se casou na Igreja Católica?

A rispidez de seu tom, bem como a pergunta aparentemente pouco importante, a surpreenderam. Por que ele estava mais preocupado com o fato de ela ter casado numa igreja católica do que por ter sido casada? A resposta atingiu-a em cheio, como um balde de água fria, revitalizante mas, ainda assim, doloroso. Ramon devia ser católico. Sua religião di icultaria o casamento com ela, se Katie casara-se na igreja e depois se divorciara.

Deus atendera às suas preces, Katie pensou com um misto de gratidão e culpa pela dor que estava prestes a causar a Ramon com uma mentira. Ela havia se divorciado, mas David morrera seis meses atrás, portanto não haveria nenhum obstáculo ao seu casamento com Ramon. Por outro lado, ele não sabia disso, e ela não pretendia lhe contar.

— Sim, eu me casei na Igreja Católica — respondeu baixinho.

Katie estava vagamente ciente de que haviam entrado no carro e seguiam na direção da rodovia expressa. Sua mente estava imersa em seu passado doloroso. David. O rebelde e atraente David, que precisava de um meio de silenciar os rumores sobre seu relacionamento com a esposa do sócio principal da irma de advogados onde trabalhava, e também com várias de suas clientes, e izera isso por intermédio de seu noivado com Katherine Connelly. Ela era uma linda jovem, inteligente e convenientemente ingênua. Aqueles que acreditavam nos rumores souberam que só podiam ser infundados com apenas um olhar para ela. A inal, que homem em seu juı́zo perfeito se incomodaria em conquistar todas aquelas mulheres se tinha uma garota como Katie?

David Caldwell faria isso. Era advogado, ex-jogador de futebol no time da universidade. Era um homem so isticado, dono de um enorme carisma pessoal e de um ego que se alimentava de mulheres. Toda conquista que fazia servia para provar que ele era melhor do que os outros homens. E era tão encantador... até o momento em que icasse com raiva de alguma coisa. Quando furioso, transformava-se num homem violento e brutal.

No dia em que completava seis meses de casamento, Katie saı́ra mais cedo do trabalho e tirara a tarde de folga. Passou no supermercado para comprar os ingredientes para um jantarzinho especial e dirigiu para o apartamento repleta de planos excitantes para a surpresa que pretendia fazer a David. Quando chegou, descobriu que David já estava ”comemorando” com a bela esposa de meia-idade do sócio da irma. Enquanto vivesse, Katie sabia que jamais esqueceria o momento em que icara parada na soleira da porta do quarto, vendo-os em sua cama. Mesmo agora, a lembrança ainda era capaz de deixá-la nauseada.

Porém, a lembrança do pesadelo que se seguira era ainda mais dolorosa.

As marcas fı́sicas da violência que David lhe in ligira naquela noite haviam se curado rapidamente; as emocionais agora eram cicatrizes. Estavam curadas, mas ainda eram sensíveis.

Katie lembrou-se dos telefonemas que recebera no meio da noite, depois que o deixou. David insistindo que iria mudar dizendo que a amava. David insultando-a com palavrões e ameaçando-a com represálias brutais se ela se atrevesse a contar o que ele havia feito. Até mesmo suas esperanças para um divórcio digno foram para os ares. O divórcio em si foi amigável, com base em diferenças irreconciliáveis, mas o comportamento de David estava longe de ser amigável. Num temor furioso de que Katie pudesse revelar seu segredo a alguém, David passou a difamar Katie, e até mesmo sua famı́lia, para quem quer que estivesse disposto a ouvir. As coisas que dizia eram tão baixas e cruéis que a maioria das pessoas com quem ele falava provavelmente deu-lhe as costas com nojo, ou começou a duvidar de sua sanidade. Mas Katie estava humilhada e destruída demais para nem sequer considerar essa possibilidade.

Então, certo dia, quatro meses depois do divórcio, levada ao fundo do poço por toda sua infelicidade e horror, Katie olhara-se no espelho e dissera: ”Katherine Elizabeth Connelly, você vai permitir que David Caldwell destrua o resto da sua vida? Realmente deseja dar a ele essa satisfação?”

Com o pouco que lhe sobrara de seu antigo espı́rito e entusiasmo, entregou-se à tarefa de reconstruir sua vida. Mudou de emprego e saiu da casa de seus pais, indo morar sozinha em seu próprio apartamento. Primeiro, seu sorriso retornou, e depois voltaram as risadas. Começou a viver novamente a vida que o destino lhe entregara. E viveu-a com determinação e alegria. Exceto que, algumas vezes, ela lhe parecia um tanto vazia e fútil. Sem um sentido verdadeiro.

— Quem era ele? — Ramon perguntou com rispidez.

Katie recostou a cabeça no assento e fechou os olhos.

— David Caldwell. Ele era advogado. Ficamos casados por seis meses, e nos divorciamos seis meses depois disso.

— Fale-me sobre ele.

— Detesto falar sobre ele. Aliás, detesto pensar nele. Assaltada pelas terrı́veis lembranças de seu casamento com David, que a invadiam agora, e em pânico pela pressão incansável que Ramon fazia para que se casasse com ele, Katie agarrou-se à única forma de fuga que pôde pensar no momento: embora desprezasse a própria covardia, decidiu fazer Ramon acreditar que David ainda estava vivo, a im de colocar um ponto inal naquela conversa sobre levá-la para Porto Rico e torná-la sua esposa. Lembrando-se de referir-se sempre a David como se ele ainda estivesse vivo, disse:

— Não há muito o que falar sobre ele. Tem trinta e dois anos, é alto, moreno e muito atraente. Ele me faz lembrar de você, na verdade.

— Quero saber por que se divorciou dele.

— Divorciei-me porque o desprezava, e porque tinha medo dele.

— Ele a ameaçava?

— Ele não ameaçava.

— Ele batia em você? — Ramon parecia furioso e revoltado. Katie estava determinada a mostrar-se indiferente.

— David chamava isso de ”ensinar-me bons modos”.

— E eu a faço lembrar-se dele?

Ramon parecia prestes a explodir, e Katie apressou-se em tranquilizá-lo:

— Apenas na aparência, e bem pouco. Vocês dois têm a pele morena, olhos e cabelos escuros. David jogava futebol na universidade, e você... — Katie lançou um olhar para ele e depois recuou, assustada pela raiva mal contida em seu per il. — Bem, você parece alguém que deveria jogar tênis — concluiu, sem muita convicção.

Enquanto entravam no estacionamento do seu prédio, Katie de repente deu-se conta de que aquele sem dúvida seria o último dia que passariam juntos. Se Ramon fosse um católico tão devoto quanto a maioria dos hispânicos, seria incapaz de persistir na possibilidade de casar-se com ela.

A ideia de nunca mais tornar a vê-lo foi surpreendentemente dolorosa, e Katie sentiu-se invadida pela tristeza e desolação. Queria prolongar aquele dia, poder passar mais tempo com ele. Porém, não a sós, não onde ele pudesse abraçá-la e, em poucos minutos, levá-la aos limites do desejo e pronta a lhe confessar toda a verdade. Então, voltaria ao mesmo lugar onde estivera até havia pouco: encurralada.

— Sabe o que eu adoraria fazer esta noite? — falou, quando encaminhavam-se para a porta. — Isto é, se você não precisar trabalhar.

— Não. O quê? — ele indagou, entre os dentes cerrados.

— Gostaria de ir a algum lugar onde pudéssemos ouvir música e dançar.

A simples a irmação fez com que o rosto dele enrijecesse de raiva. A linha irme de sua mandı́bula retesou-se, as faces imobilizaram-se. Ele estava furioso, Katie pensou com um lampejo de medo. Rapidamente, em tom de desculpas, ela disse:

— Ramon, eu deveria saber que você é católico e que o fato de eu ter me casado antes na igreja tornaria impossível o nosso casamento. Lamento por não ter-lhe falado sobre isso antes.

— Você ”lamenta” tanto que agora está com vontade de dançar — ele retrucou, sarcástico. Então, fazendo um esforço evidente para controlar a raiva, virou-se para ela. A que horas devo vir buscá-la?

Katie ergueu os olhos para o sol da tarde.

— Daqui a quatro horas, mais ou menos. Às oito, está bem?

Katie escolheu um vestido de seda azul, que era do tom exato de seus olhos e fazia um vivo contraste com os cabelos avermelhados. Diante do espelho, examinou a profundidade com que o decote deixava os seios à mostra, querendo ter certeza de que Ramon não julgaria o vestido escandaloso demais. Se aquela seria sua última noite juntos, não queria estragá-la com outra discussão a respeito de suas roupas. Prendeu os brincos de argola nas orelhas, colocou um largo bracelete de ouro no braço e calçou as sandálias de salto alto, da mesma cor do vestido. Ajeitou os cabelos por cima dos ombros e foi para a sala esperar Ramon.

A última noite com ele... A animação de Katie diminuiu consideravelmente ao pensar nisso. Foi para a cozinha e serviu-se de um pouquinho de brandy, depois sentou no sofá da sala, bebericando devagar e observando o relógio na parede. Quando a campainha tocou, às 8.00 em ponto, ela deu um pulo nervoso, deixou o cálice na mesa e foi abrir a porta.

Nada, no pouco tempo em que se conheciam, havia preparado Katie para o Ramon Galverra que estava parado na soleira da porta.

Ele estava extremamente elegante, usando um terno azul marinho cujo caimento era perfeito, contrastando com a camisa branca impecável e a gravata de listras em tons escuros.

— Você está fantástico — Katie comentou, sem esconder sua admiração. — Parece um presidente de banco acrescentou, afastando-se para melhor admirar aquele porte atlético.

A expressão de Ramon era irônica.

— Para dizer a verdade, eu odeio os banqueiros. A maioria deles parece aves de rapina, ansiosos para devorar os lucros daqueles que se arriscam, embora nunca estejam dispostos a arriscar nada.

— Ah... — Katie murmurou, um tanto confusa. — Bem, em todo caso, eles sabem como se vestir.

— Como sabe disso? — Ramon retrucou. — Por acaso também casou-se com um banqueiro e esqueceu de mencionar?

Katie imobilizou-se no ato de pegar o xale de seda que combinava com o vestido.

— Não, é claro que não — murmurou.

Voltaram para o Laclede’s Landing, onde passaram por três bares que exibiam espetáculos de jazz e blues. No transcorrer da noite, Ramon foi se tornando cada vez mais frio e distante e, quanto mais indiferente ele se mostrava, mais Katie bebia e tentava divertir-se.

Quando seguiram para um conhecido restaurante perto do aeroporto, Katie estava um pouco zonza, muito nervosa e infeliz.

O lugar que ela havia escolhido estava surpreendentemente cheio para uma noite de terça-feira, mas tiveram sorte de conseguir uma mesa perto da pista de dança. Entretanto, a sorte de Katie acabou ali mesmo. Ramon recusou-se a dançar, e ela não sabia por quanto tempo ainda suportaria aquela expressão gélida, que mal disfarçava seu desprezo. Com olhos frios, ele examinou-a com cinismo e desinteresse, que a fizeram encolher-se por dentro.

Katie olhou em volta, mais para evitar a expressão fria de Ramon do que por qualquer interesse que tivesse pelos arredores, e de repente seu olhar colidiu com um homem sentado no bar, que a observava. Ele arqueou a sobrancelha e perguntou: ”Quer dançar?” Quase em desespero, ela assentiu, aceitando.

Ele aproximou-se da mesa, observando a evidente altura e força de Ramon com uma certa apreensão, e educadamente convidou Katie para dançar.

— Você se importa? — ela perguntou a Ramon, ansiosa em afastar-se dali.

— Nem um pouco — ele respondeu, encolhendo os ombros com indiferença.

Katie adorava dançar; possuı́a uma graciosidade natural e seus movimentos eram ágeis e chamavam a atenção. Seu par, logo icou óbvio, não apenas adorava dançar, mas era também um exibicionista. Com as luzes coloridas piscando no salão, a música pulsando, Katie entregou-se completamente ao ritmo.

— Ei, você é boa nisso! — o homem elogiou, obrigando-a, com seus próprios movimentos, a dançar de uma maneira mais saliente do que ela estava acostumada.

— Você está se exibindo — Katie lhe disse, quando os outros pares começaram a se afastar para lhes dar mais espaço, e depois pararam de dançar.

Ao final da música, todos aplaudiram, encorajando-os a uma nova rodada.

— Eles querem que continuemos dançando — o homem falou, apertando-lhe o braço quando Katie fez menção de voltar à mesa.

Ao mesmo tempo, outra música agitada começou a reverberar no salão lotado, e ela não teve outra escolha senão ceder àquilo que considerava um puro exibicionismo. Enquanto dançava, olhou de relance para Ramon, depois desviou rapidamente os olhos. Ele havia posicionado a cadeira na direção da pista de dança, colocara as mãos nos bolsos e a olhava com o interesse desapaixonado de um conquistador observando uma dançarina de cabaré.

Quando a música terminou, houve mais aplausos ensurdecedores. Seu par tentou convencê-la a ficar para outra dança, mas dessa vez Katie recusou-se com firmeza.

Foi sentar-se no lado oposto da mesa, de frente para Ramon, e deu um gole em sua bebida, sentindo-se cada vez mais irritada pela maneira como estavam comportando-se um com o outro.

— E então? — perguntou com uma pontinha de hostilidade, quando ele não fez nenhum comentário sobre sua dança.

Ele arqueou a sobrancelha, sarcástico.

— Nada mau.

Katie teve vontade de lhe dar um soco. Outra música começou, dessa vez uma balada romântica. Ela olhou em volta, viu outros dois prováveis parceiros aproximando-se da mesa e enrijeceu. Ramon, seguindo seu olhar, também avistou-os e, relutante, levantou-se. Sem nada dizer, segurou-a pelo braço e levou-a para a pista de dança.

A música suave, juntamente com a doce sensação de estar de novo nos braços de Ramon, foi a perdição de Katie. Colando-se contra ele, recostou o rosto em seu peito. Desejou que ele a abraçasse com mais força, que a beijasse com suavidade nas têmporas como izera na última vez que dançaram, junto à piscina. Ela desejava... tantas coisas loucas, impossíveis.

Ainda estava desejando quando voltaram para seu apartamento. Ramon acompanhou-a até a porta e Katie implorou para que entrasse para um último drinque. Assim que acabou de engolir o brandy, ele levantou-se e não disse mais nada, simplesmente encaminhou-se para a porta.

— Ramon, por favor, não vá embora. Não assim — ela pediu.

Ele virou-se e olhou para ela, o rosto sem qualquer expressão.

Katie moveu-se na direção dele, depois parou a poucos passos de distância, sentindo-se invadir por uma imensa tristeza.

— Não quero que você vá embora — ouviu-se dizer. No instante seguinte, seus braços estavam em torno do pescoço de Ramon, seu corpo pressionado contra o dele, beijando-o desesperadamente. Os lábios de Ramon estavam frios e imóveis, os braços caı́dos ao longo do corpo.

Humilhada e ferida, Katie afastou-se e ergueu os olhos lacrimejantes.

— Nem mesmo vai me dar um beijo de despedida? perguntou, prestes a desabar em lágrimas.

O corpo dele pareceu retesar-se numa postura de rejeição, e então Ramon puxou-a para seus braços.

— Diabo! — sussurrou com fúria, enquanto seus lábios procuravam os dela, num beijo cuja ardente violência fez com que Katie se colasse a ele no mesmo instante, correspondendo com um desejo selvagem.

Ramon passou a acariciá-la por inteiro, moldando o corpo dela contra o seu. Então, de repente, afastou-a.

Trêmula e ofegante, Katie itou-o e, logo em seguida, deu um passo para trás, assustada com o brilho furioso nos olhos dele.

— É só isso que você quer de mim, Katie? — Ramon disparou.

— Não! — ela apressou-se em negar. — Isto é, não quero nada de você. Apenas... apenas achei que você não se divertiu muito esta noite, portanto...

— Portanto — ele interrompeu-a, num tom ofensivo —, você me trouxe aqui a im de oferecer-me um divertimento melhor.

— Não! — ela quase gritou. — Eu...

Calou-se de repente, ao perceber que os olhos dele analisavam-na da cabeça aos pés. Justamente quando pensou que ele faria meia-volta e iria embora, Ramon virou-se em outra direção e foi com passos duros até a mesinha onde estava o telefone. Pegou um bloquinho de papel e escreveu ali alguma coisa.

Ao voltar para a porta, pousou a mão na maçaneta.

— Deixei o número de telefone onde poderei ser encontrado até quinta-feira. Ligue, se quiser falar comigo. — Seu olhar demorou-se no rosto dela e, depois, ele saiu, fechando a porta atrás de si.

Katie icou exatamente onde estava, perplexa e sentindo o coração desfazer-se em pedaços. Aquele último olhar... fora como se Ramon quisesse memorizar o seu rosto. Ele a odiava, estava furioso com ela e, ainda assim, queria lembrar-se de como ela era. Katie não podia acreditar em quanto estava sofrendo. As lágrimas ardiam em seus olhos, e um nó se formara em sua garganta.

Virou-se devagar e foi para o quarto. O que havia de errado com ela? A inal, era assim que queria que tudo acontecesse, não era? Bem, não exatamente. Queria Ramon, estava pronta para admitir isso, mas o queria do seu jeito: ali em St. Louis, trabalhando num emprego decente.