Doce Triunfo

Judith McNaught · Capítulo 9 de 21

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Doce Triunfo

Capítulo 9

KATIE ESTAVA SENTADA à escrivaninha, girando distraidamente um lápis entre os dedos. Virgı́nia encontrava-se numa reunião com a diretoria da empresa, e isso lhe daria um tempo até as 10.30 para decidir-se. Uma hora e meia para resolver se pediria demissão ou se requisitava duas semanas de férias e mais duas semanas de licença não remunerada.

Katie sabia o que Ramon queria — não, esperava — que ela izesse. Ele esperava que ela se demitisse, que rompesse com todos os laços. Se ela simplesmente requisitasse um mês de férias, em vez da demissão, ele poderia sentir que ela não estava comprometendo-se completamente, que estava mantendo aberta uma espécie de ”rota de fuga”, caso fosse necessário.

Seus pensamentos voltaram para a maneira como ele a olhara naquela manhã, quando chegara para levá-la ao trabalho. Os olhos escuros haviam analisado seu rosto com aguçada intensidade. ”Você mudou de ideia?”, ele perguntara, e quando Katie respondeu que não, Ramon a tomara em seus braços e a beijara com um misto de violenta doçura e alívio profundo.

Cada momento que passava com Ramon ela sentia-se mais próxima dele emocionalmente. Seu coração, fosse qual fosse o motivo, dizia que ele era o homem certo para ela, que estava agindo da maneira acertada. Sua mente, no entanto, enviava-lhe constantes sinais de alerta. Dizia-lhe que tudo estava acontecendo depressa demais, cedo demais e, pior, icava atormentando-a com a impressão de que Ramon não era o que parecia ser, que ele estava lhe escondendo alguma coisa.

Os olhos azuis de Katie nublaram-se. Naquela manhã ele chegara vestido com um belo suéter amarelo-escuro. Por duas vezes, antes disso, ele aparecera com ternos elegantes e bem cortados. Katie achou tão estranho que um fazendeiro, sobretudo um fazendeiro modesto, pudesse usar aquele tipo de roupas, que decidiu perguntar-lhe sem rodeios.

Sorrindo, Ramon respondera que os fazendeiros podiam ter ternos e suéteres tanto quanto os outros homens. Katie esforçara-se para aceitar tal resposta, mas quando tentou descobrir mais coisas a respeito dele, Ramon evadira-se dizendo:

— Katie, você terá muitas perguntas sobre mim e sobre o nosso futuro, mas todas as respostas estão em Porto Rico.

Recostando-se na cadeira, Katie icou observando o alvoroço controlado na área de recepção do departamento, onde os candidatos estavam preenchendo formulários, fazendo testes ou esperando ser atendidos por ela mesma ou por um dos outros cinco funcionários que reportavam para Virgínia.

Talvez ela estivesse errada em sentir-se insegura a respeito de Ramon, pensou. Talvez ele não estivesse sendo deliberadamente evasivo. Talvez aquele medo, incômodo e persistente, fosse apenas o resultado da terrível experiência anterior de seu casamento com David.

No entanto, talvez não fosse nada disso. Ela teria de ir a Porto Rico para descobrir, mas até que todos os seus temores fossem aplacados, não poderia pôr em risco o seu emprego. Se pedisse demissão naquele dia, estaria saindo sem aviso prévio e, nesse caso, nunca mais poderia retornar à empresa, nem receberia boas referências se tentasse trabalhar em outro lugar. Além disso, Virgı́nia icaria numa posição bastante delicada se tivesse de explicar ao vice-presidente de operações, que acabara de aprovar o aumento de Katie, que sua protegida havia se demitido sem aviso prévio, como se fosse uma funcionária irresponsável e transitória.

Katie levantou-se e passou a mão distraidamente pelo coque impecável, depois encaminhou-se para a área de recepção e passou direto pela mesa de Donna e das outras duas secretárias do departamento. Dirigindo-se para um dos cubı́culos onde eram aplicados os testes de digitação e datilogra ia, colocou uma folha de papel numa das máquinas elétricas e icou olhando para o papel em branco, as mãos indecisas posicionadas no teclado.

Ramon queria que ela se demitisse. Ele dissera que a amava. Igualmente importante, Katie sentia, quase por instinto, que ele precisava dela, e muito. Sentia que seria deslealdade de sua parte se apenas tirasse um mês de licença do trabalho. Considerou a possibilidade de mentir para ele sobre isso, mas a honestidade signi icava muito para Ramon, e era algo que signi icava muito para ela também. Não queria mentir para ele. Por outro lado, depois de ter concordado, na noite anterior, em ir a Porto Rico e casar-se com ele, não conseguira imaginar um meio de explicar-lhe suas dúvidas e incertezas naquela manhã. Nem mesmo estava certa de que seria sensato dizer a ele como se sentia. Se tivesse dito a David que suspeitava de algo obscuro em seu caráter, ele teria encontrado um meio de ocultá-lo e convencê-la do contrário. Parecia-lhe muito melhor simplesmente ir a Porto Rico e dar-se uma chance de conhecer Ramon a fundo. Com o tempo, suas dúvidas seriam respondidas, ou suas suspeitas seriam confirmadas.

Suspirando, Katie tentou pensar numa boa desculpa que pudesse dar a Ramon para a sua decisão de não demitir-se do emprego. E a resposta veio numa súbita inspiração. Seria a verdade, iria aliviá-la do peso do sentimento de deslealdade a ele, e era algo que ela seria capaz de fazê-lo entender. Era tão óbvio que Katie icou admirada por ter chegado a pensar em demitir-se sem aviso prévio.

Rápida e e iciente, datilografou um pedido formal a Virgı́nia para dois meses de férias, com inı́cio no dia seguinte, e depois mais duas semanas de licença não remunerada. Naquela noite ela explicaria a Ramon que seria impossı́vel demitir-se sem aviso prévio para se casar. Os homens não se demitem dos empregos para se casar e, se ela o izesse, re letiria negativamente em todas as outras mulheres que lutam com tanto empenho para oportunidades iguais de obter cargos de che ia. Um dos argumentos mais frequentes contra a contratação de mulheres para cargos de gerência era justamente o fato de que elas abandonam os empregos a fim de ter filhos, ou para seguir os maridos quando são transferidos para outras cidades. O diretor de operações era o exemplo tı́pico de macho chauvinista. Se Katie se demitisse sem aviso prévio para se casar, ele jamais deixaria que a pobre Virgı́nia se esquecesse disso, e acabaria encontrando algum motivo legal para desquali icar qualquer outra candidata que Virgı́nia desejasse contratar para o lugar de Katie. Se, por outro lado, Katie se demitisse enquanto estivesse de férias em Porto Rico, as duas semanas de licença que estava solicitando serviriam como perı́odo de aviso prévio. Isso signi icava que ela teria apenas duas semanas para superar os temores relativos ao seu casamento com Ramon.

Ainda assim, Katie sentiu-se bastante aliviada. Agora que pensava racionalmente, decidiu que, quando e se pedisse demissão enquanto estivesse em Porto Rico, não iria apresentar como motivo o casamento. Diria apenas o que os homens sempre diziam: estava saindo da empresa para ”aceitar uma posição melhor”.

Tendo decidido isso, Katie colocou outra folha de papel na máquina e escreveu uma carta de demissão formal, datando-a com duas semanas de antecedência, a im de aceitar um cargo mais recompensador.

Eram quase 11.30 quando ela acabou de entrevistar os candidatos que estavam agendados para aquela manhã. Pegando o pedido de férias e o pedido de demissão pré-datado, foi para o escritório de Virgínia, mas então hesitou.

Virgı́nia estava ocupada em registrar os números num formulário, a cabeça inclinada e imersa em sua tarefa. Parecia, como sempre, muito eficiente e feminina.

Ajeitando o blazer azul-marinho e as pregas da saia da mesma cor, Katie entrou na sala.

— Ginny, será que pode me ceder alguns minutos? perguntou, nervosa, chamando-a pelo apelido que normalmente só usava fora do trabalho.

— Se não for muito urgente, dê-me uma meia hora para terminar este relatório — Virgı́nia respondeu, sem olhar para cima.

A tensão de Katie crescia a cada segundo, e ela achou que não conseguiria aguentar mais meia hora.

— É... acho que é importante, Ginny.

Ao ouvir a voz trêmula de Katie, Virgı́nia ergueu a cabeça no mesmo instante. Devagar, deixou a caneta na mesa e observou-a aproximar-se, franzindo a testa num misto de curiosidade e preocupação.

Agora que chegara o momento, Katie não conseguia pensar em como começar. Entregou a Virgínia sua carta com o pedido de férias e licença.

Virgínia leu-a rapidamente, e a expressão de surpresa substituiu a preocupação anterior.

— Este pedido de férias veio um tanto em cima da hora

— disse, deixando a carta de lado. — Mas você está com suas férias vencidas, e vou aprová-lo. Por que está pedindo também uma licença de duas semanas?

Katie afundou na cadeira diante da escrivaninha.

— Quero ir a Porto Rico com Ramon. Enquanto estiver lá, vou decidir se me casarei ou não com ele. Se por acaso eu decidir que sim... aqui está meu pedido de demissão. As duas semanas de licença servirão como perı́odo de aviso prévio. Isto é, se você permitir que eu faça tudo dessa maneira.

Virgínia recostou-se na cadeira e encarou-a, atônita.

— Sobre quem você está falando? — perguntou.

— Ramon é o homem sobre quem lhe falei na quarta-feira. — Quando Virgı́nia continuou itando-a com incredulidade, Katie acrescentou: — Ele tem uma pequena fazenda em Porto Rico. Quer que eu me case com ele e vá morar lá.

— Meu Deus... — Virgínia murmurou.

Katie, que nunca a vira daquela maneira, tentou explicar:

— Sei que isso tudo é muito repentino, mas não inacreditável. É...

— Loucura... — Virgínia completou, parecendo finalmente recobrar-se do susto. Balançou a cabeça como se quisesse clareá-la. — Katie, quando você mencionou esse sujeito, dois dias atrás, imaginei-o como alguém não apenas atraente, mas possuindo um estilo de vida e uma so isticação semelhantes aos seus. Agora, você vem me dizer que ele é um fazendeiro porto-riquenho e que vai se casar com ele?

Katie assentiu.

— Acho que você perdeu o juı́zo, mas pelo menos foi sensata o bastante para não demitir-se e fechar todas as suas portas, caso decida retornar. Em um mês, ou menos, você estará arrependida desse impulso insano e romântico, para não dizer absurdo. Você sabe que tenho razão, pois do contrário não estaria pedindo uma licença, mas sim demissão.

— Não é loucura e não estou agindo por impulso Katie discordou, os olhos implorando pela compreensão de Virgínia. — Ramon é diferente...

— Pois aposto que sim! — Ginny exclamou com desdém. — Os homens latinos são bem conhecidos pelo seu ”machismo”.

Katie ignorou o comentário, pois já sabia que Ramon era muito latino e muito ”machista”.

— Ramon é especial — disse, envergonhada por tentar expressar em palavras o que estava sentindo. — E me faz sentir especial também. Não é fútil e vazio como a maioria dos homens que eu conheci até hoje. — Vendo que Ginny não parecia nada convencida, acrescentou: — Ginny, ele me ama. Posso sentir que é verdadeiro. E precisa de mim. Eu...

— E claro que ele precisa de você! — Ginny interrompeu-a. — Sendo um pequeno fazendeiro, com certeza não pode pagar uma cozinheira, nem uma arrumadeira, tampouco uma companheira de cama. Portanto, precisa de uma esposa que, pelo custo básico de cama e comida, fará o trabalho das três. — No instante seguinte, Virgı́nia ergueu a mão num gesto de desculpas. — Desculpe, Katie, não devia ter dito isso. Não devia estar impondo a você as minhas opiniões acerca do casamento. Mas acontece que sinto, sinceramente, que você jamais vai se satisfazer com esse tipo de vida, não quando já experimentou como é ser uma mulher independente.

— Isso não é o bastante para mim, Ginny — Katie a irmou com tranquilidade e segurança. — Muito antes de conhecer Ramon, eu já me sentia dessa forma. Não posso ser feliz devotando toda minha vida a mim mesma... à minha carreira, minha próxima promoção, meu futuro. Não que seja uma vida solitária, pois nunca me sinto sozinha. Mas é uma vida vazia; sinto-me inútil e sem sentido.

— Será que faz ideia de quantas mulheres anseiam pelo que você tem? Sabe quantas mulheres desejam poder pensar apenas em si mesmas?

Katie assentiu, ciente de que estava, de uma forma indireta, rejeitando o modo de vida de Ginny, bem como o seu próprio.

— Eu sei. Talvez isso seja o certo para elas, mas não é para mim.

Ginny consultou o relógio e levantou-se.

— Preciso me apressar. Tenho uma reunião no centro da cidade e só estarei de volta depois que você sair. Não se preocupe em me ligar daqui a duas semanas. Tire o mês inteiro de férias e, caso se decida pela demissão, eu simplesmente arquivo sua icha e digo que você me deu o aviso prévio. Não estarei seguindo à risca as regras da empresa, mas, a inal, para que servem os amigos? — Passou de novo os olhos pela carta e sorriu ao ler o motivo da demissão que Katie apresentara. — ”Para aceitar um cargo melhor” — citou. — Muito bem pensado.

Katie também se levantou, os olhos ardendo com as lágrimas de gratidão.

— Nesse caso, acho que devemos nos despedir...

— Não, Katie — Ginny retrucou rindo, enquanto guardava a papelada na pasta de couro. — Daqui a duas semanas você estará começando a se sentir entediada. Daqui a um mês sentirá falta dos desa ios da sua carreira. Você vai voltar. Nesse meio tempo, espero que aproveite bem suas férias. A inal, creio que é disso que está precisando. Está apenas cansada. Nós nos veremos daqui a um mês... ou antes, talvez.

Cinco minutos depois das 5.00 da tarde, Katie passou pelas portas giratórias e correu na direção da calçada, onde Ramon estacionara o carro e estava à sua espera. Deslizando para dentro do veículo, ela enfrentou bravamente seu olhar interrogativo e disse:

— Tirei um mês de férias, em vez de pedir demissão. A expressão dele enrijeceu e Katie virou-se no assento a fim de encará-lo.

— Fiz isso porque...

— Agora não! — ele disparou bruscamente. — Vamos falar sobre isso quando chegarmos ao seu apartamento.

Entraram juntos no apartamento, sendo que nenhum deles dissera uma palavra sequer durante todo o trajeto de 35 minutos. Os nervos já em frangalhos de Katie retesaram-se ainda mais quando ela deixou a bolsa na mesa, tirou o blazer e virou-se para ele. Consciente de quanto Ramon estava zangado, perguntou, cautelosa:

— Por onde quer que eu comece?

Ele estendeu as mãos, agarrando-a pelos braços.

— Comece me dizendo por quê! — ordenou com rispidez, sacudindo-a. — Por quê?

Katie conseguiu manter os olhos amedrontados fixos nos dele.

— Por favor, não olhe para mim desse jeito. Sei que está magoado e zangado, mas não deveria estar.

Lentamente, ela deslizou as mãos sob a malha macia do suéter dele, espalmando-as sobre o peito musculoso, tentando acalmá-lo e acariciá-lo.

Mas o gesto surtiu o efeito contrário. Ramon puxou-lhe as mãos, afastando-se.

— Não tente me distrair com suas carı́cias, de nada vai adiantar. Isso não é uma brincadeira, Katie!

— Pois eu não estou brincando! — ela disparou de volta, desvencilhando-se dele com uma força que re letia sua própria raiva crescente. — Se achasse que tudo não passa de brincadeira, eu teria mentido e lhe dito que pedi demissão.

— Foi com passos duros até o centro da sala e girou, tornando a encará-lo. — Decidi pedir um mês de férias para que eu possa demitir-me quando estiver em Porto Rico por vários motivos importantes. Em primeiro lugar, Virgı́nia Johnson não é apenas minha chefe, é alguém a quem respeito e de quem gosto imensamente. Se eu me demitisse sem aviso prévio, iria colocá-la numa situação constrangedora e delicada.

Katie ergueu o queixo com determinação, prosseguindo com seu discurso nervoso e apaixonado:

— E quanto aos homens? Se eu me demitir sem aviso prévio, estarei lhes dando um motivo perfeito para sentirem-se vingados e superiores, pois os homens não deixam seus empregos para se casar. Recuso-me terminantemente a ser uma traidora do meu próprio sexo! Portanto... quando eu me demitir em Porto Rico, com aviso prévio, direi que estou saindo para aceitar ”um cargo melhor”. Que, na minha opinião, é ser sua esposa! — ela finalizou, desafiadora.

— Obrigado — Ramon falou, quase com humildade. Sorrindo, começou a andar na direção dela.

Katie, que agora estava prestes a explodir, recuou alguns passos.

— Ainda não terminei — disse, o rosto vermelho, os olhos luzindo de indignação. — Você me disse que queria que fôssemos honestos e sinceros um com o outro, e, quando fui sincera com você, zangou-se comigo e tentou intimidar-me. Se devo ser completamente sincera com você, preciso saber que, não importa quão difı́cil seja a verdade, não irá zangar-se ao ouvi-la. Você foi muito injusto e insensível há pouco e acho que tem um gênio terrível!

— Já terminou? — ele perguntou num tom suave.

— Não, ainda não! — ela gritou, batendo o pé no chão.

— Quando o toquei, queria apenas sentir-me próxima de você. Não estou de ”brincadeira” e detesto a maneira como você me tratou! — Tendo esgotado suas queixas, olhou por cima do ombro dele, recusando-se a fitá-lo. A voz de Ramon era profunda, tentadora:

— Gostaria de me tocar agora?

— Nem em sonhos!

— Nem mesmo se eu lhe pedir desculpas e disser que quero muito que me toque?

— Não.

— Não quer mais ficar perto de mim, Katie?

— Não, não quero.

— Olhe para mim. — Ramon segurou-lhe o queixo, obrigando-a a encará-lo. — Eu a magoei, e você me magoou de volta, e agora nós dois estamos feridos. Podemos esfregar nossas dores na cara um do outro até que a raiva passe, ou podemos parar agora e começar a aprender mutuamente como curar nossas feridas. Não sei como você prefere fazer.

Fitando aqueles olhos intensos, Katie percebeu que ele falava a sério: queria que ela decidisse se transformariam a batalha em guerra, pelo menos até que toda a irritação se esgotasse, ou se ela lhe diria o que fazer para que a acalmasse. Por im, engolindo em seco, ela falou:

— Eu... gostaria que você me abraçasse.

Com uma doçura quase dolorosa, Ramon enlaçou-a em seus braços.

— E gostaria que você me beijasse...

— Como? — ele sussurrou.

— Com os seus lábios — ela respondeu, confusa com a pergunta.

Os lábios dele roçaram os dela com sensualidade, quentes, mas não abertos.

— E com a sua língua — Katie esclareceu, sem fôlego.

— E você me dará a sua? — ele perguntou, começando a lhe dizer como queria ser acalmado.

Katie assentiu, e Ramon abriu os lábios sobre os dela com urgência, suas lı́nguas tocando-se e mesclando-se. As mãos dele passaram a acariciá-la sem cessar, desde os ombros, seguindo pela coluna, até os quadris. Sua boca a devorava quando levou-a para o sofá, deitou-se ao lado dela e começou a abrir os botões de sua blusa. Impaciente por não conseguir, pediu, num tom ansioso, baixo:

— Abra a blusa.

Katie pareceu levar uma eternidade abrindo os botões, pois suas mãos estavam trêmulas, e Ramon não parou de beijá-la nem por um instante. Quando o último botão inalmente foi aberto, ele afastou os lábios dos dela e sussurrou:

— Quero que tire a blusa para mim.

O coração de Katie disparou, enquanto puxava os braços das mangas, deixando a blusa de seda branca deslizar pelas costas. O olhar de Ramon fixou-se em seu sutiã de renda.

— Tire isso também.

Com o fogo percorrendo cada nervo de seu corpo, Katie abriu o fecho do sutiã e tirou-o. Seus seios cheios e macios enrijeceram sob o olhar possessivo dele, os mamilos ardendo sob o toque sensual. Sem desviar os olhos brilhantes de paixão, ele disse:

— Um dia quero ver nosso filho em seu seio, Katie.

O constrangimento de Katie diante da reação óbvia de seu corpo ao olhar dele foi eclipsado pelo desejo violento que a percorreu. Respirando fundo, ela disse:

— Neste exato momento, eu prefiro ver você...

— Então entregue-o para mim, Katie.

Uma excitação incontrolável atingiu-a, enquanto passava uma das mãos pelo pescoço dele e puxava-lhe a cabeça, ao mesmo tempo que erguia o seio, oferecendo-lhe o mamilo rı́gido. Quando Ramon começou a sugá-lo, ela quase gritou de prazer. No momento em que os lábios dele se afastaram, o desejo a percorria como um fogo líquido.

— Dê-me o outro — ele pediu, a voz rouca.

As mãos trêmulas de Katie seguraram o outro seio, levando-o à boca dele. No instante em que os lábios de Ramon tocaram-na, ela sentiu-se prestes a explodir.

— Pare, por favor — pediu, ofegante. — Preciso de você agora, não posso mais suportar.

— Não pode? — ele sussurrou, os lábios explorando a curva de seu pescoço, o rosto, as orelhas, enquanto estendia-se ao seu lado.

Perdida num frenesi de desejo, Katie sentiu as mãos dele deslizarem por baixo de sua saia e em seguida puxando a calcinha dos quadris até o meio de suas coxas.

Ramon gemeu baixinho, traçando uma trilha entre as pernas dela com a ponta do dedo.

— Você me quer, mas ainda não precisa de mim — murmurou, buscando-lhe a boca com uma insistência exigente.

Katie quase soluçava com o desejo de ser possuı́da, as mãos acariciando febrilmente os músculos tensos das costas e ombros dele.

— Preciso de você — sussurrou, abrindo os lábios sob os dele. — Por favor...

Ramon ergueu a cabeça e fitou-a.

— Você não precisa de mim. — Tomando-lhe uma das mãos, pressionou-a fortemente contra sua rígida ereção. Isso sim é precisar, Katie.

Abrindo os olhos nublados de desejo, ela fitou-lhe o rosto tenso, enquanto ele dizia:

— Você me quer quando a tomo nos meus braços, mas eu preciso de você a todo momento, a toda hora. E uma dor que nunca me abandona, um desejo de torná-la minha que é capaz de sufocar-me. — Abruptamente, perguntou:

— Você sabe o que é o medo?

Confusa por aquela súbita mudança de assunto, Katie examinou os traços másculos e sombrios, mas não tentou responder.

— O medo é saber que não tenho o direito de querer você, e saber que não posso impedir-me disso. E temer o momento em que você verá a casa em que terá de morar e decidirá que não me quer o bastante para ficar ali.

— Não pense assim, Ramon — ela pediu, acariciando-lhe os cabelos. — Por favor, não pense assim.

— O medo é icar acordado a noite inteira, perguntando-me se você decidirá não se casar comigo, e imaginando se serei capaz de suportar essa dor. — Gentilmente, ele enxugou a lágrima que despontava num dos olhos de Katie.

— Tenho medo de perdê-la, e se isso me torna um sujeito ”insensı́vel” e com um ”gênio terrível”, então peço as mais humildes desculpas. É apenas porque tenho medo.

Desmanchando-se de ternura, Katie segurou o rosto dele entre as mãos e itou os profundos olhos negros.

— Em toda a minha vida — sussurrou —, nunca conheci um homem com coragem suficiente para admitir que tem medo.

— Katie...

O nome dela foi pronunciado num gemido que emergiu de seu peito, enquanto os lábios buscavam-na de novo, com uma ânsia e desejo incontroláveis, guiando-a para o clímax, para tão perto do limite quanto ela deliberadamente o levava. E, então, a campainha tocou.

— Não atenda! — Katie implorou quando ele afastou-se de seus braços e levantou-se. — Seja quem for, acabará indo embora.

Enviando-lhe um olhar desolado, Ramon passou as mãos pelos cabelos a im de restaurar-lhes a ordem.

— Não, não irá. Com toda essa... agitação... eu me esqueci de lhe dizer que seus pais estavam vindo para cá, para jantar conosco e ajudar-nos a arrumar as coisas.

Katie levantou-se num pulo, recolhendo as roupas espalhadas, enquanto disparava para o quarto.

— Corra e vá abrir a porta, ou eles vão adivinhar o que estávamos fazendo — disse a ele, vendo que Ramon limitava-se a ficar parado ao lado do sofá, com as mãos na cintura.

— Katie — ele disse com um sorrisinho malicioso —, se eu os deixar entrar agora, eles verão o que estávamos fazendo.

— O quê? — ela perguntou, parada na soleira da porta do quarto, o olhar perplexo percorrendo o sofá em busca de evidências incriminadoras, depois para o chão, e para o corpo de Ramon. — Ah... — disse, então, ruborizando como uma adolescente.

Katie tirou as roupas com uma pressa enlouquecida, dizendo a si mesma que estava sendo absurda. Tinha 23 anos, já fora casada, e iria casar-se com Ramon. Não havia dúvida de que seus pais sabiam que já izera amor muitas vezes. A inal, seus pais eram pessoas sensatas, modernas. Muito sensatas e modernas... exceto quando se referia ao comportamento dos filhos.

Exatamente quatro minutos depois do primeiro toque da campainha, Katie saiu do quarto usando uma calça comprida caqui, um suéter cor de creme e os cabelos escovados e soltos nos ombros. Conseguiu cumprimentar a mãe com um sorriso de alegria, mas o rosto permanecia ligeiramente rubro, os olhos langorosos e, por dentro, tremia com os choques retardados da excitação do desejo.

Encontrou Ramon, que parecia totalmente à vontade, preparando as bebidas na cozinha, rindo de alguma coisa que seu pai dissera.

— Vou levar as bebidas para a sala — Ryan Connelly falou, pegando dois copos. Virando-se, viu a ilha itando o per il de Ramon. — Querida, você está maravilhosa disse, plantando um sonoro beijo em sua testa. — Ramon deve ser muito bom para você.

Katie ruborizou-se ainda mais, enquanto sorria para o pai. Esperou até que ele desaparecesse na sala e voltou-se para Ramon, que colocava pedras de gelo nos outros dois copos. Um sorriso tocou os cantos dos lábios dele. Sem nem mesmo olhá-la, ele disse:

— Você está se ruborizando, querida. E está maravilhosa.

— Obrigada — ela falou, com um divertimento exasperado. — Estou com a aparência de quem acabou de fazer amor, e você aı́, parecendo que acabou de ler o jornal. Como pode icar tão calmo?

Ela estendeu a mão para pegar um dos copos, mas ele foi mais rápido e puxou-a para si, abraçando-a e beijando-a longamente.

— Não estou calmo, Katie — sussurrou, os lábios colados nos dela. — Estou ardendo de desejo por você.

— Katie? — a sra. Connelly chamou da sala, fazendo com que ela desse um pulo de susto. — Vocês dois vêm para cá, ou devemos ficar esperando na varanda?

— Estamos indo, mamãe — Katie apressou-se em responder. Enviando um olhar sorridente para Ramon, falou:

— Certa vez li um romance em que todas as vezes que o homem e a mulher iam fazer amor, o telefone tocava, ou alguém batia na porta, ou algo acontecia para impedi-los.

O sorriso dele foi lento, preguiçoso.

— Isso não acontecerá conosco. Eu não vou permitir.