Doce Triunfo
Capítulo 4
FORAM AO PARQUE da Floresta fazer o piquenique, e Ramon estendeu a manta, que Katie levara, sob um enorme e frondoso carvalho, onde se deliciaram com os frios e queijos importados e os pães crocantes que ele havia comprado.
Enquanto conversavam e comiam, Katie estava vagamente ciente da maneira apreciadora com que ele a itava, e em como a atenção dele dirigia-se para seus cabelos, que lhe caı́am pelos ombros sempre que se inclinava sobre a cesta de piquenique. Porém, estava divertindo-se tanto que nem mesmo incomodou-se com isso.
— Creio que nos Estados Unidos é costume trazer frango frito em piqueniques — disse Ramon, quando houve uma pausa na conversa. — Infelizmente, eu não sei cozinhar. Se izermos outro piquenique, eu compro os ingredientes e deixo que você prepare a comida.
Katie quase engasgou com o vinho Chianti que estava bebendo num copo de plástico.
— Mas que suposição mais terrivelmente chauvinista!
— disse, rindo. — Por que você presume que eu saiba cozinhar?
Estendendo-se na manta, Ramon apoiou-se no braço e encarou-a com seriedade exagerada.
— Porque você é mulher, é claro.
— Você... está falando sério? — ela gaguejou.
— Sobre você ser mulher? Ou sobre sua capacidade de cozinhar? Ou sobre você?
Katie percebeu a pontinha de sensualidade que surgiu na voz dele, quando pronunciou as últimas palavras.
— Sobre essa ideia de que todas as mulheres são capazes de cozinhar — respondeu com frieza.
O sorriso dele alargou-se diante daquela evasiva.
— Eu não disse que todas as mulheres são boas cozinheiras, apenas acho que as mulheres devem cozinhar. Os homens devem trabalhar para comprar a comida que elas preparam. E assim que devem ser as coisas.
Katie encarou-o com incredulidade, quase convencida de que ele zombava dela deliberadamente.
— Bem, talvez você ique surpreso em saber, mas nem todas as mulheres nascem com o desejo ardente de picar cebolas e ralar queijo.
Ramon sufocou um risinho, depois mudou de assunto:
— Em que você trabalha?
— Trabalho no departamento de pessoal de uma grande empresa. Entrevisto candidatos para empregos, coisas assim.
— E você gosta disso?
— Muito — ela disse, tirando uma enorme maçã vermelha de dentro da cesta. Puxou as pernas para junto do corpo e deu uma mordida na maçã suculenta. — Está uma delícia.
— É uma pena — ele falou. Katie fitou-o, surpresa.
— É uma pena que a maçã esteja boa?
— Não, é uma pena que você goste tanto de seu trabalho. Talvez se ressinta por ter de abandoná-lo quando se casar.
— Abandoná-lo quando eu...! — Katie repetiu rindo, balançando a cabeça. — Ramon, você tem sorte de não ser norte-americano. Nem mesmo está a salvo, neste paı́s. Existem mulheres que seriam capazes de cozinhar você pela maneira como pensa.
— Eu sou norte-americano — ele disse, ignorando o aviso dela.
— Mas você disse que é porto-riquenho.
— Eu disse que nasci em Porto Rico. Na verdade, sou espanhol.
— Você acabou de dizer que é porto-riquenho e norte americano.
— Katie — ele disse, provocando-lhe um inexplicável arrepio de prazer ao pronunciar seu nome. — Porto Rico faz parte da comunidade norte-americana. Todos que nascem nesse paı́s são, automaticamente, cidadãos norte-americanos. Meus ancestrais, no entanto, eram todos espanhóis, e não porto-riquenhos. Portanto, eu sou, americano, nascido em Porto Rico e descendente de espanhóis. Exatamente como você é... — Ele examinou-lhe a pele clara, os olhos azuis e os cabelos avermelhados. — Como você é norte americana, nascida nos Estados Unidos e descendente de irlandeses.
Katie sentiu-se irritada com o tom de superioridade com que ele fez o discurso.
— Na verdade, você é um macho chauvinista espanhol porto-riquenho-norte-americano da pior espécie!
— Por que usar esse tom de voz comigo? Só porque acredito que, quando uma mulher se casa, sua obrigação é cuidar do marido?
Katie enviou-lhe um olhar de desprezo.
— Não importa no que você acredita, o fato é que muitas mulheres precisam ter outros interesses e realizações fora do lar, exatamente como os homens têm. Nós gostamos de ter nossas carreiras e profissões, e nos orgulhamos disso.
— Uma mulher pode orgulhar-se de cuidar do marido e dos filhos.
Katie sabia que nada, nada do que dissesse apagaria aquele sorriso complacente do rosto dele.
— Para nossa sorte, os homens que nascem nos Estados Unidos não fazem objeções às carreiras de suas esposas. Eles são mais compreensivos e atenciosos!
— Sim, eles são muito compreensivos e atenciosos Ramon assentiu, irônico. — Eles permitem que vocês trabalhem, deixam que lhes entreguem todo o dinheiro que ganham, permitem que tenham seus ilhos e que contratem alguém para cuidar das crianças, para limpar a casa e... fazer a comida.
Katie icou por um momento emudecida diante daquela colocação, mas logo atirou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.
— Você está absolutamente certo! — disse.
Ramon deitou-se ao lado dela, apoiando-se nas mãos cruzadas sob a cabeça e olhando para o céu azul pontilhado de nuvens brancas como algodão.
— Você tem um riso muito agradável, Katie.
Ela deu outra mordida na maçã e disse alegremente:
— Você está dizendo isso apenas porque pensa que mudei de ideia, mas não mudei. Se uma mulher deseja seguir uma carreira, deve ter a chance de segui-la. Além disso, muitas mulheres querem ter casas melhores e roupas mais caras do que seus maridos podem lhes proporcionar com apenas seus salários.
— Então ela consegue uma bela casa e boas roupas à custa do orgulho do marido, indo trabalhar e provando a ele, e a todo mundo, que o que ele lhe dá não é bom o bastante.
— Os maridos norte-americanos talvez não sejam tão orgulhosos quanto os espanhóis.
— Os maridos norte-americanos abdicaram de suas responsabilidades. Eles não têm nada de que se orgulhar.
— Ora, que tolice! — Katie exclamou. — Você iria querer levar a garota a quem amasse e com quem se casasse para morar num bairro como o Harlem, porque isso é o melhor que pode proporcionar a ela com o que ganha dirigindo aquele caminhão? Mesmo sabendo que, se ela trabalhasse, fazendo algo de que gosta, os dois poderiam ter muito mais?
— Eu esperaria que ela ficasse feliz com o que eu pudesse lhe dar.
Katie sentiu um arrepio diante da perspectiva de uma meiga jovem hispânica ser obrigada a morar numa favela porque o orgulho de Ramon não permitiria que ela trabalhasse. Ele acrescentou num tom baixo:
— E eu não gostaria que ela se envergonhasse do que faço para o meu sustento, como você se envergonha.
Katie ouviu a censura contida naquelas palavras, mas manteve-se firme.
— Você nunca desejou fazer algo melhor do que dirigir um caminhão de entregas?
A resposta dele demorou a chegar, e Katie descon iou que ele a rotulava como uma mulher insistente e ambiciosa.
— Eu faço algo além disso. Também trabalho numa fazenda.
Katie endireitou o corpo.
— Você trabalha numa fazenda? Aqui no Estado de Missouri?
— Em Porto Rico — ele corrigiu-a.
Katie não soube dizer se estava aliviada ou desapontada pelo fato de ele não permanecer em St. Louis. Percebeu que ele fechava os olhos por um instante e permitiu-se um exame mais demorado daquele rosto emoldurado por fartos cabelos escuros. Havia uma nobreza hispânica estampada em seus traços de bronze, autoridade e arrogância nas linhas irmes das faces e do nariz reto, determinação no queixo empinado. Ainda assim, Katie pensou com um sorriso, a leve covinha no queixo e os cı́lios longos e espessos suavizavam o efeito geral. Os lábios dele eram irmes, com um formato sensual, e foi com um lampejo de excitação que ela imaginou como seria senti-los movendo-se quentes sobre os seus. No dia anterior ele lhe dissera ter 34 anos, mas Katie achou que agora parecia mais jovem, com a expressão relaxada pelo sono.
Deixou seu olhar vagar lentamente pelo corpo longo e musculoso estendido ao seu lado na manta. A camisa polo vermelha que ele usava colava-se nos ombros largos e no peito, as mangas curtas expondo a força de seus braços. A calça jeans acentuava os quadris estreitos, a barriga lisa e as coxas irmes. Mesmo dormindo, ele parecia exalar uma virilidade poderosa e selvagem, mas isso não mais a repelia. De alguma forma, tendo admitido que ele a fazia lembrar-se um pouco de David, ela havia banido de sua mente toda semelhança entre os dois homens.
Os olhos dele não se abriram, mas a linha de seus lábios moveu-se num meio sorriso.
— Espero que esteja gostando do que vê. Katie desviou rapidamente o olhar, embaraçada.
— Estou mesmo. O parque está lindo hoje, as árvores...
— Você não estava olhando para as árvores, señorita. Katie achou melhor não responder. E icou contente por ele tê-la chamado de señorita, uma expressão que soava estrangeira e estranha para ela, enfatizando as diferenças entre eles e neutralizando o efeito que sua ostensiva masculinidade estava provocando nela. O que estava pensando, querendo que ele a beijasse? Envolver-se com Ramon levaria apenas ao desastre. Não tinham nada em comum, vinham de mundos em tudo diferentes. Socialmente, estavam a anos-luz de distância. No dia seguinte, por exemplo, ela deveria comparecer a um churrasco na elegante casa de seus pais, nos arredores do Clube de Campo de Forest Oaks. Ramon jamais se adaptaria ao tipo de gente que estaria lá. Sentir-se-ia deslocado se ela o levasse. Estaria fora de seu ambiente. E, no instante em que seus pais descobrissem que ele era um trabalhador rural que dirigia um caminhão de entregas durante o verão, era bem provável que deixassem claro a Ramon que achavam que o lugar dele não era ali naquela casa, tampouco com a sua filha.
Ela não tornaria a ver Ramon depois daquele dia, Katie decidiu com irmeza. Jamais poderia haver qualquer coisa entre eles, e aquele princı́pio de reação sexual que sentira em relação a ele era um motivo mais do que sólido para que interrompesse tal relacionamento imediatamente. Isso nunca levaria a algo significativo nem duradouro.
— Por que se afastou de mim, Katie?
Os penetrantes olhos negros estavam abertos, examinando-lhe o rosto. Katie ingiu concentrar-se na tarefa de ajeitar a manta sob si, e depois deitou-se.
— Não sei o que você está dizendo — falou, fechando os olhos e deliberadamente ignorando-o.
A voz dele era baixa e sensual.
— Quer saber o que vejo, quando olho para você?
— Não — ela apressou-se em responder. — Sobretudo se você vai se portar como um ardente amante latino. E, pelo tom de sua voz, acho que é isso mesmo que pretende.
— Tentou relaxar, mas no silêncio carregado que se seguiu, isso foi impossı́vel. Minutos depois, levantou-se abruptamente. — Acho que está na hora de irmos embora — anunciou, ajoelhando-se e começando a recolher os remanescentes do piquenique.
Sem nada dizer, Ramon também levantou-se e dobrou a manta.
O silêncio tenso durante o trajeto até o apartamento foi quebrado apenas por Katie que, na esperança de retratar-se pela sua grosseria, fez duas tentativas de conversa, apenas para ser repelida pelas respostas monossilábicas de Ramon. Ela sentia-se envergonhada de seus pensamentos esnobes, constrangida pela maneira como falara com ele, e irritada porque Ramon não lhe permitia suavizar o clima entre eles.
Quando ele entrou na vaga do estacionamento na frente do apartamento dela, Katie só queria dar aquele dia por encerrado, embora fossem apenas três horas da tarde. Antes que Ramon tivesse a chance de dar a volta para abrir-lhe a porta do carro, ela mesma abriu-a e pulou para fora.
— Vou abrir a porta para você — ele disparou. — É um gesto básico de cortesia.
Katie, que pela primeira vez deu-se conta de que ele estava extremamente irritado, logo foi contagiada por tal obstinação.
— Talvez você ique surpreso em saber — anunciou, enquanto subia os degraus quase correndo e en iava a chave na fechadura da porta —, mas não há nada de errado com minhas mãos, e sou perfeitamente capaz de abrir uma maldita porta de carro. E não vejo por que precisa ser gentil comigo, depois de eu ter sido muito grosseira com você!
O humor irritado daquele comentário não passou despercebido a Ramon, mas foi totalmente eclipsado pelo que se seguiu. Enquanto Katie abria a porta do apartamento, virou-se na soleira e disse, furiosa:
— Obrigada, Ramon. Eu me diverti muito.
Sem fazer ideia de que ele começara a rir, Katie icou aliviada ao ver que ele não estava mais zangado e, de repente, sentiu-se inquieta pela maneira como Ramon a seguiu para dentro do apartamento, fechou a porta com irmeza e, agora, a itava com uma expressão que não deixava dúvidas sobre o que pretendia.
As palavras que disse com suavidade eram em parte um convite, em parte uma ordem:
— Venha aqui, Katie.
Ela balançou a cabeça e deu um cauteloso passo para trás, mas, em resposta, um arrepio percorreu-lhe a espinha.
— Não é costume, entre as mulheres liberadas, demonstrar sua apreciação com um beijo, por terem ”se divertido muito”? — ele persistiu.
— Nem todas fazem isso — ela respondeu, a voz trêmula.
— Algumas dizem apenas ”obrigada”.
Um leve sorriso surgiu nos lábios dele, mas os olhos negros deslizaram até a convidativa maciez da boca de Katie, ali demorando-se.
— Venha aqui, Katie. — Quando ela continuou recuando, ele acrescentou num tom mais baixo: — Não está curiosa em saber como os espanhóis beijam, ou como os porto-riquenhos fazem amor?
Ela engoliu em seco.
— Não — sussurrou.
— Venha cá, Katie, e eu lhe mostro.
Hipnotizada por aquela voz de veludo e pelos olhos negros, Katie foi até ele numa espécie de transe, que era um misto de temor e excitação.
O que quer que esperava encontrar, quando caminhou para os braços de Ramon, não foi aquele abraço forte e apertado que a envolveu numa suave escuridão, onde a única sensação era a dos lábios dele movendo-se incessantemente sobre os seus; a sensação de ondas de calor liquefeito que a percorriam enquanto ele a acariciava.
— Katie — Ramon sussurrou com voz rouca, afastando os lábios dos dela e beijando seus olhos, faces, têmporas.
— Katie... — repetiu num murmúrio doloroso, enquanto tomava posse novamente de sua boca.
Uma eternidade se passou, antes que ele inalmente erguesse a cabeça. Fraca e trêmula, Katie recostou o rosto em seu peito irme e sentiu o coração bater enlouquecido. Sentia-se devastada pelo que acabara de acontecer. Fora beijada muitas e muitas vezes, e por homens cujas técnicas tinham sido aperfeiçoadas a ponto de se tornarem uma espécie de arte. Nos braços deles sentira prazer, mas não aquele intenso luxo de alegria, seguido de um desejo penetrante. Os lábios de Ramon roçaram-lhe os cabelos.
— E agora, posso dizer o que penso, quando olho para você?
Katie tentou manter a voz irme, mas descobriu que esta estava tão enrouquecida quanto a dele.
— Você vai se comportar como um ardente amante latino?
— Sim.
— Tudo bem.
Ele riu baixinho, um som quente e rico.
— Eu vejo uma bela mulher de cabelos avermelhados e com o sorriso de anjo; e lembro-me de uma princesa que parecia perdida naquele bar de solteiros, muito desgostosa com seus súditos. Então, ouço uma feiticeira dizendo, a um homem que tentava conquistá-la, que suas companheiras de apartamento eram duas lésbicas. — Ramon deslizou a mão pelo rosto dela, os dedos leves e suaves. — quando olho para você, acho que você é a minha princesa, meu anjo e minha feiticeira.
A maneira como ele referiu-se a ela como ”sua” fez com que Katie voltasse subitamente para a realidade. Afastando-se dele de repente, disse com falsa animação:
— Gostaria de dar uma volta na piscina? Vai ser aberta hoje e todos os moradores do condomínio estarão lá.
Enquanto falava, Katie en iou as mãos nos bolsos traseiros da calça, mas ao captar a maneira como ele itava o contorno de seus seios sob a camiseta, apressou-se em removê-las e endireitar o corpo.
Ramon arqueou a sobrancelha, intrigado, perguntando em silêncio por que ela fazia objeção ao fato de ele estar olhando-a quando, minutos antes, a acariciara.
— Sim, é claro — respondeu. — Gostaria muito de ver a piscina e conhecer seus amigos.
Mais uma vez Katie sentiu-se pouco à vontade com ele. A inal, Ramon era um desconhecido, um estrangeiro que parecia intensamente interessado nela. Além disso, ela agora estava descon iada, e com razão. Sabia muito bem quando um homem pretendia levá-la para a cama, e era isso que ele queria. E o mais depressa possível.
Uma porta de correr envidraçada abria-se nos fundos da sala para um pequeno terraço cercado por um alambrado. Duas espreguiçadeiras, com macias almofadas loridas, foram estrategicamente colocadas para os banhos de sol. Atrás delas, em ambos os lados, espalhava-se uma profusão de vasos de plantas, algumas já com botões de flores.
Katie parou ao lado de um vaso de petúnias brancas e vermelhas. Com uma das mãos apoiada no alambrado, hesitou por um instante, tentando pensar numa maneira de dizer o que queria.
— Você tem um belo apartamento — Ramon comentou atrás dela. — O aluguel deve ser caro.
Katie virou-se, imediatamente considerando o comentário distraı́do como um meio perfeito para chamar a atenção dele para as diferenças que os separavam e assim, talvez, esfriar suas ardentes intenções.
— Obrigada. Na verdade, o aluguel é bem caro. Moro aqui porque meus pais querem ter certeza de que meus amigos e vizinhos são o tipo certo de pessoas.
— Pessoas ricas?
— Não necessariamente ricas, mas bem-sucedidas e socialmente aceitáveis.
O rosto de Ramon era uma máscara sem qualquer expressão.
— Neste caso, talvez seja melhor que você não me apresente aos seus amigos.
Com um único olhar para aquele rosto orgulhoso e atraente, Katie sentiu-se de novo envergonhada de si mesma.
Passando a mão agitada pelos cabelos, respirou fundo e, com determinação, confrontou-se com o verdadeiro problema:
— Ramon, apesar do que acabou de acontecer entre nós, quero que entenda que não vou para a cama com você. Nem agora, nem nunca.
— Porque sou espanhol? — ele perguntou, sem nada demonstrar.
Katie ruborizou de embaraço.
— Não, claro que não! — Ela sorriu, constrangida. Para usar um chavão, ”eu não sou esse tipo de garota”. Sentindo-se melhor, agora que tudo estava às claras, virou-se para abrir o portão do alambrado. — Bem, o que acha de descermos para ver o que está acontecendo na piscina?
— Não acho uma boa ideia — ele respondeu, sarcástico.
— Ser vista em minha companhia poderia lhe causar constrangimentos na frente de seus amigos ”bem-sucedidos e socialmente aceitáveis”.
Katie olhou por cima do ombro para aquele homem alto que, por sua vez, a fitava com uma expressão de irônico desprezo. Ela suspirou.
— Ramon, só porque dei a impressão de ser uma idiota presunçosa, você não precisa agir assim também. Por favor, venha até a piscina comigo, está bem?
O riso brincou nos traços dele, enquanto a olhava. Sem nada dizer, estendeu o braço por cima do ombro de Katie e abriu-lhe o portão.
A piscina olı́mpica era um cenário de caos total, como Katie imaginava que seria. Quatro partidas de polo aquático estavam sendo disputadas separadamente, com os respectivos participantes gritando e espirrando água por todos os lados. Garotas de biquı́ni e homens em calções de banho estendiam-se sobre as toalhas nas espreguiçadeiras, os corpos besuntados de bronzeador tostando sob o sol. Latas de cerveja e rádios portáteis estavam em toda parte, e a música jorrava dos alto-falantes.
Katie encaminhou-se para uma das mesas cobertas por guarda-sóis e puxou uma cadeira de alumínio.
— O que está achando disso tudo? — perguntou, quando Ramon sentou ao seu lado.
Ele passou o olhar enigmático pelo colorido pandemônio.
— Interessante.
— Olá, Katie! — Karen chamou, emergindo da piscina como uma graciosa sereia, o corpo voluptuoso reluzindo com a água. Como sempre, Karen estava acompanhada de pelo menos dois rapazes devotados, que a seguiram pingando até a mesa onde se encontravam Katie e Ramon.
— Você conhece Don e Brad, não é? — ela perguntou, indicando os dois rapazes que também moravam no condomínio.
Katie os conhecia e não demorou muito a perceber que o que Karen estava esperando era que ela a apresentasse a Ramon.
Com uma certa relutância, Katie fez as apresentações. Tentou não reparar no evidente sorriso de apreciação que surgiu nos lábios de Ramon, ao ser apresentado a Karen, nem na reação efusiva da amiga quando estendeu a mão para ele.
— Por que vocês não vão mudar de roupa e voltam para nadar um pouco? — Karen convidou, sem tirar os olhos de Ramon. — Haverá uma bela festa ao pôr do sol. Vocês também precisam participar.
— Ramon não trouxe nenhuma roupa de banho — Katie apressou-se em recusar.
— Isso não é problema — a desembaraçada Karen respondeu, desviando os olhos de cima de Ramon pela primeira vez desde que saı́ra da piscina. — Brad pode emprestar um calção para ele, não é, Brad?
Brad, que tentava conquistar Karen havia quase um ano, deu a impressão de que preferia emprestar a Ramon uma passagem de ida para qualquer lugar longe da cidade, mas foi educado o bastante para con irmar o oferecimento. E como poderia evitar? Poucos homens eram capazes de negar qualquer coisa a Karen, pois ela sempre parecia prometer muito em troca. Karen tinha a mesma altura que Katie, cerca de 1,75 m, porém havia uma sensualidade latente em seu corpo sinuoso e nos cabelos escuros que a faziam parecer uma fruta madura, pronta para ser colhida, mas apenas pelo homem que ela escolhesse. A independência que reluzia em seus olhos verdes deixava bem claro que ela fazia as suas próprias escolhas. E, pelo jeito que ela observava Ramon afastar-se com Brad para vestir o calção de banho, icou evidente para Katie que ela o escolhera.
— Onde foi que você o encontrou? — Karen perguntou, quase com reverência. — Ele parece um deus grego... ou os deuses gregos eram loiros? Bem, de qualquer forma, parece um deus grego moreno.
Katie resistiu ao impulso pouco caridoso de esfriar o interesse de Karen informando-a de que Ramon era um trabalhador rural porto-riquenho.
— Eu o conheci no Canyon Inn, sexta-feira à noite respondeu, em vez disso.
— E mesmo? Eu não o vi por lá, e é quase impossı́vel não reparar num sujeito como ele. O que ele faz, além de ser lindo e sexy?
— Ele... — Katie hesitou, tentando poupar Ramon de qualquer possı́vel constrangimento. — Trabalha no ramo de transportes. De entregas, na verdade.
— Sério? — Karen falou, lançando a Katie um olhar investigativo. — Já é sua propriedade privada ou ainda está no mercado?
Katie não pôde evitar de sorrir diante da franqueza de Karen.
— E isso faria alguma diferença para você?
— Você sabe que sim. Nós somos amigas. Se você me disser que o quer, eu desisto.
Por mais estranho que parecesse, Katie sabia que ela falava a sério. Karen possuı́a um código de ética pessoal, e jamais roubaria o homem de uma amiga. Ainda assim, Katie sentiu-se um tanto exasperada pela presunção imediata de Karen de que poderia conquistar Ramon, a não ser que, levada pelo espírito da amizade, decidisse não fazê-lo.
— Pois pode servir-se à vontade — Katie falou com uma indiferença que realmente não sentia. — Ele é todo seu, se quiser. Vou trocar de roupa.
Enquanto vestia o biquı́ni em seu apartamento, Katie estava irritada consigo mesma por não ter falado a Karen que deixasse Ramon em paz. E estava igualmente irritada por perceber que dava tanta importância a isso. Além do mais, sentia-se um pouco abalada pela franca admiração que vira na expressão de Ramon, quando ele olhara para a lasciva igura de Karen usando biquíni.
Katie parou diante do espelho, analisando de forma crı́tica a própria aparência. O biquı́ni azul vivo revelava um corpo admirável em todo seu esplendor, desde os seios cheios e perfeitos, a cintura ina e os quadris arredondados até as pernas longas e bem torneadas. Com uma pontinha de desgosto, Katie pensou que devia ser a única mulher capaz de parecer tão fria e séria mesmo estando praticamente despida!
Os homens assoviavam com aprovação para garotas como Karen Wilson, mas mantinham-se num silêncio respeitoso quando Katie Connelly passava. A maneira como ela erguia de leve seu queixo orgulhoso e a graça natural com que se movia sempre a faziam parecer um tanto arrogante, e Katie não tinha como mudar essa imagem mesmo se quisesse, o que normalmente não queria.
Exceto quando ia aos bares de solteiros, era raro que Katie fosse abordada por homens desconhecidos. Não tinha uma aparência ”abordável”. Como regra geral, bastava os homens olharem para sua pele imaculada e olhos muito azuis para verem a beleza clássica, em vez do apelo sexual. Esperavam que ela fosse distante, intocável, e tratavam-na com respeitosa admiração. Depois que a conheciam bem o bastante para saber que ela era amigável e acolhedora, também descobriam que de nada adiantaria pressioná-la para que ela entregasse mais do que estava disposta a dar. Conversavam com ela, riam e convidavam-na para sair, mas suas tentativas na direção do sexo em geral eram mais verbais do que fı́sicas. Insinuações murmuradas que Katie sempre ignorava com um sorriso, embora com firmeza.
Katie escovou os cabelos volumosos e depois sacudiu-os até tomarem a forma casual e descuidada de sempre, depois lançou mais um olhar insatisfeito para o espelho.
Quando voltou para a piscina, encontrou Ramon deitado numa espreguiçadeira ao lado de três garotas, que haviam estendido suas toalhas no chão e lertavam descaradamente com ele. Karen estava sentada a uma mesa do outro lado, em companhia de Brad e Don.
— Posso juntar-me ao seu harém, Ramon? — Katie provocou-o, parando diante dele com um leve sorriso nos lábios.
Um sorriso lento e devastador perpassou o rosto bronzeado quando ele ergueu os olhos para ela. Depois, levantando-se com agilidade, Ramon ofereceu-lhe a espreguiçadeira. Por dentro, Katie suspirou. Poderia muito bem ter aparecido na piscina usando uma capa de chuva, pensou. Nem uma vez o olhar dele deslizara para baixo de seu pescoço.
Ele foi sentar-se à mesa com Karen e os dois rapazes.
Tentando ignorar as emoções desencontradas que a invadiam, Katie começou a passar o bronzeador nas pernas.
— Sou especialista nisso, Katie — Don falou, sorrindo para ela. — Precisa de ajuda?
Katie encarou-o com um sorriso desencorajador.
— Minhas pernas não são assim tão compridas — recusou. Ao contrário de Brad, Don não estava completamente obcecado por Karen, e Katie já pressentira nos últimos meses que, se lhe desse o menor sinal de encorajamento, ele substituiria seu interesse de Karen para ela com toda facilidade. Estava espalhando o creme no braço esquerdo quando ouviu Karen dizer:
— Katie contou-me que você trabalha no ramo de transportes, Ramon.
— Ah, ela contou, é? — Ramon falou devagar, com sarcasmo bastante para que Katie parasse o que estava fazendo e olhasse para ele.
Estava recostado na cadeira com um ino charuto preso entre os dentes muito brancos, os olhos penetrantes fixos nos dela. Katie ruborizou e desviou o rosto rapidamente.
Poucos momentos depois, Karen fez de tudo para levá-lo para nadar com ela, mas recebeu uma recusa firme e gentil.
— Você sabe nadar? — Katie perguntou, quando os outros se afastaram.
— Porto Rico é uma ilha, Katie — ele respondeu com frieza. — O oceano Atlântico ica de um lado e o mar do Caribe, do outro. Não há escassez de água para se nadar.
Katie encarou-o, um pouco intrigada. Desde o momento em que ele a beijara, em seu apartamento, uma sutil transferência de poder estivera ocorrendo. Até então ela sentira-se con iante e no controle da situação. Agora, estava confusa e estranhamente vulnerável, enquanto Ramon parecia seguro de si e no comando das decisões. Encolhendo o ombro, ela disse:
— Eu ia apenas me oferecer para ensiná-lo a nadar, caso você não soubesse. Não há necessidade de dar-me uma aula sobre a geografia de Porto Rico.
Ignorando o seu tom irritado, ele falou:
— Se você quiser nadar, vamos nadar.
Katie prendeu o fôlego quando ele levantou-se e icou parado à sua frente, vestido apenas com o calção branco de Brad. Quase 1,90m de esplêndida masculinidade, ombros largos e quadris estreitos, os músculos irmes de um atleta. O peito era coberto por uma ina camada de pelos escuros e, quando ela também se levantou, manteve os olhos focalizados na medalha de prata que ele trazia no pescoço.
Desconcertada e constrangida pela maneira como aquele corpo bronzeado a afetava, Katie não olhou para ele até dar-se conta de que Ramon não pretendia sair da sua frente. Quando, por fim, ergueu os olhos até os dele, ouviu-o dizer:
— Também acho que você está ótima.
Um sorrisinho incontrolável surgiu nos lábios dela.
— Pensei que você não tivesse reparado — ela disse, enquanto dirigiam-se para a piscina.
— Pois achei que você não queria que eu ficasse olhando.
— Você olhou para Karen, sem dúvida — Katie apanhou-se dizendo. Balançou a cabeça, atônita consigo mesma, e acrescentou: — Eu não pretendia dizer isso.
— Não — ele falou, divertido. — Tenho certeza que não. Preferindo esquecer aquela conversa, Katie foi para o lado mais fundo da piscina e mergulhou, atravessando-a por baixo d’água numa linha reta. Ramon estava bem ao lado dela, acompanhando suas fortes braçadas com uma facilidade que ela teve de admirar. Deram vinte voltas na piscina, antes que Katie parasse. Ficou observando Ramon completar mais dez voltas e então chamou-o, rindo:
— Exibido!
Com um mergulho, ele desapareceu de suas vistas. Katie deu um gritinho assustado quando um par de mãos segurou-a pelas pernas e puxou-a para o fundo. Ao voltar à superfı́cie, lutava para respirar e os olhos ardiam pelo cloro.
— Isso foi uma infantilidade! — protestou com uma risonha severidade, quando Ramon passou as mãos nos cabelos molhados e sorriu para ela. — Quase tanto quanto... isso! — Espalmando a mão na água, lançou um jato bem no rosto dele, depois desviou e nadou para longe, tentando evitar a represália.
Mas Ramon a seguiu e icaram ali por cerca de quinze minutos, rindo, mergulhando e brincando até que ambos estivessem exaustos e ofegantes.
Katie saiu da piscina e foi para a espreguiçadeira, entregando-lhe a toalha que trouxera para ele.
— Você joga duro — disse, bem-humorada, inclinando-se para secar os longos cabelos.
Com o peito ofegante pelo exercı́cio, Ramon pendurou a toalha no pescoço e pousou as mãos nos quadris.
— Se você quisesse, eu poderia ser muito mais delicado. Katie sentiu-se desmanchar por dentro ao pressentir o significado daquelas palavras. Quase certa de que ele estava referindo-se a fazer amor com ela, deixou-se cair na espreguiçadeira, virou de bruços e apoiou a cabeça nos braços. Sentiu um arrepio percorrê-la no instante em que Ramon começou a passar o bronzeador em suas costas, sentando-se ao seu lado. Ficou tensa quando as mãos dele moviam-se lentamente, massageando-a com movimentos vagarosos e rítmicos.
— Quer que eu abra o fecho aqui atrás? — ele perguntou.
— Nem pense nisso — Katie avisou.
Quando as mãos dele subiram até seus ombros e os dedos formavam cı́rculos em sua nuca, Katie estava respirando ofegante e cada milímetro de sua pele parecia vibrar sob aquele toque.
— Estou incomodando você, Katie? — ele perguntou, num sussurro enrouquecido.
— Você sabe que sim — ela murmurou, letárgica, antes mesmo de pensar. Ouviu o risinho satisfeito e virou a cabeça para ele. — Você está fazendo isso de propósito e está me deixando muito nervosa.
— Neste caso, vou deixá-la relaxar — Ramon, disse levantando-se da espreguiçadeira.
Depois que Ramon se afastou, Katie tentou não pensar no que ele estaria fazendo, e fechou os olhos com força sob o ardente sol da tarde.
De vez em quando ouvia a voz profunda e grave seguida por risinhos femininos, ou um dos homens dizendo alguma coisa para Ramon. Não havia dúvida de que ele estava adaptando-se ao ambiente, pensou. Mas, então, por que não se adaptaria? A única exigência para a popularidade, por ali, era ter um corpo atraente, de preferência combinado com uma bela fachada, no caso do sexo feminino. E, para os homens, ter um bom emprego. E, com sua pequena mentira, Katie havia lhe providenciado a segunda parte.
O que estava acontecendo com ela?, Katie perguntou-se vagamente. Não tinha nenhum motivo para se queixar. Apesar das crises de insatisfação que a atingiam ultimamente, quando seu mundo parecia ser habitado apenas por pessoas fúteis e tolas, ela até que gostava dos lertes ocasionais com homens con iantes e inteligentes que conhecia. Gostava de ter boas roupas, um belo apartamento e de ser objeto de tanta admiração masculina. Apreciava a companhia dos homens, embora evitasse cuidadosamente qualquer intimidade com eles, pois seus desejos fı́sicos nunca foram mais intensos do que a sua esmagadora necessidade de guardar o que lhe restara do orgulho e do respeito próprio, depois de tudo o que David fizera.
Rob teria sido o único homem com quem ela se permitiria fazer amor. Felizmente, descobrira que ele era casado antes que isso acontecesse. O homem certo acabaria aparecendo algum dia, e então ela não precisaria mais se guardar. O homem certo, e não qualquer homem. Sob nenhuma circunstância Katie Connelly encontrar-se-ia sentada perto da piscina, ou num bar de solteiros, em companhia de três ou quatro homens que já conhecessem seu corpo intimamente. Isso acontecia a outras mulheres o tempo todo, mas Katie achava tal ideia degradante e repulsiva.
— Ei, Katie, acorde! — Don chamou-a.
Ela abriu os olhos e piscou, surpresa ao perceber que havia cochilado, e virou-se na cadeira.
— São quase seis horas. Brad e eu vamos buscar pizzas e cervejas para a festa desta noite.
Quer que eu traga algo mais forte para você e Ramon?
Haveria um leve desprezo na maneira como Don pronunciara o nome de Ramon?
Katie torceu o nariz, encarando seu sorridente admirador.
— Mais forte do que as pizzas da Mamma Romana? Impossível.
Olhou em volta, procurando Ramon, e viu-o encaminhando-se para ela, ladeado por Karen e outra garota. Sufocando a ridícula sensação de ciúme que a invadiu, Katie dirigiu-se a ele:
— Você quer ficar para a festa? — perguntou.
— É claro que ele quer ficar — Karen respondeu prontamente, no lugar dele.
— Então, por mim, tudo bem. — Katie encolheu os ombros. Ela se divertiria na festa com seus amigos, e Ramon Poderia divertir-se com Karen e com quem mais escolhesse.
As 9.30 da noite toda a comida havia sido consumida, juntamente com incontáveis garrafas de cerveja e outras bebidas. As luzes da piscina estavam acesas, proporcionando um brilho iridescente à água cristalina, e os alto-falantes ressoavam com uma música de discoteca. Katie, que adorava dançar, estivera fazendo exatamente isso por mais de uma hora com diversos parceiros, quando reparou que Ramon estava afastado de tal atividade, uma igura solitária recostada na grade que cercava a piscina, observando tudo a distância. Com a silhueta contra a noite, o calção branco realçado na escuridão, parecia indiferente a tudo e, mesmo assim, de alguma forma, muito solitário.
— Ramon? — Katie chamou ansiosa, aproximando-se dele e pousando a mão em seu braço.
Ele virou-se devagar e olhou para ela, que viu em seu sorriso o prazer que aquele simples toque lhe provocava. Cautelosa, retirou a mão.
— O que está fazendo aqui, sozinho?
— Precisava me afastar do barulho para pensar um pouco. Você nunca sentiu necessidade de estar sozinha?
— Sim, é claro — ela admitiu. — Mas não no meio de uma festa.
— Não precisamos ficar aqui, no meio de uma festa ele salientou num tom significativo.
O coração de Katie deu um pulo, que ela apressou-se em ignorar.
— Você quer dançar? — perguntou.
Ele inclinou a cabeça, ouvindo a música agitada que berrava nos alto-falantes.
— Quando danço, gosto de segurar uma mulher em meus braços — respondeu. — Além disso, teria de esperar na fila pelo privilégio de dançar com você.
— Ramon, você sabe dançar? — Katie insistiu, certa de que ele provavelmente não sabia, e disposta a oferecer-se para ensiná-lo.
Atirando a cigarrilha num reluzente arco avermelhado, ele respondeu num tom irônico:
Sim, Katie, eu sei dançar, sei nadar, sei amarrar meus sapatos. Só porque tenho este leve sotaque você parece pensar que sou atrasado e ignorante, mas acontece que muitas mulheres o consideram bastante atraente.
Katie enrijeceu, furiosa. Empinando o queixo, fitou-o direto nos olhos e disse baixinho:
— Vá para o inferno.
Prestes a se afastar, parou de repente e ofegou de susto, quanto Ramon segurou-a pelo braço e a fez virar-se de frente para ele.
Num tom que vibrava de raiva, ele disse:
— Nunca mais fale comigo desse jeito, e nem blasfeme. Você não é assim.
— Eu falo como quiser — ela disparou. — E se tantas mulheres acham você tão infernalmente atraente, então que façam bom proveito!
Ramon itou os olhos em brasa e o rosto orgulhoso, e um relutante sorriso de admiração suavizou-lhe os traços.
— Que diabinha você é — ele riu. — E quando fica zangada...
— Não sou ”diabinha” nenhuma — ela interrompeu-o, irritada. — E se vai dizer que ico linda quando estou zangada, já vou avisando que sou capaz de morrer de rir. Os homens sempre dizem isso porque ouviram em algum filme idiota e...
— Katie — Ramon sussurrou, baixando os lábios irmes e sensuais para os dela. — Você ica linda quando está zangada... e, se rir, vou jogá-la na piscina.
Uma descarga elétrica perpassou-lhe o sistema nervoso, quando Ramon cobriu-lhe os lábios num beijo longo e profundo. Depois, ele passou o braço em torno da cintura dela, Puxou-a para perto de si e levou-a para o salão improvisado, onde vários casais dançavam ao som de uma música romântica.
Em voz baixa, Ramon murmurou algo em seu ouvido, enquanto dançavam, mas Katie não entendeu as palavras. Estava preocupada demais com a inacreditável excitação que as pernas nuas dele e seus quadris lhe provocavam, quando roçavam de encontro aos seus movendo-se ao ritmo da música. O desejo espalhava-se dentro dela, dissolvendo toda sua decisão. Queria erguer o rosto e sentir os lábios dele nos seus; queria ser sufocada com a força daqueles braços e ser levada para o louco e selvagem esquecimento que ele lhe mostrara antes.
Fechando os olhos com desespero, admitiu a verdade a si mesma. Embora o conhecesse havia apenas dois dias, ela queria fazer amor com Ramon naquela noite. Queria tanto que se sentia abalada e atônita... Mas, pelo menos, era capaz de entender a atração fı́sica que sentia por ele. O que não compreendia, e que a amedrontava, era a atração magnética e estranha que sentia por ele, emocionalmente. As vezes, quando Ramon falava naquele tom profundo e tentador, ou a itava com aqueles olhos penetrantes, Katie quase sentia que ele a estava puxando de forma inexorável para mais perto de si.
Katie obrigou-se a parar de pensar nisso. Um envolvimento com Ramon seria desastroso, pois eram completamente incompatı́veis. Ele era orgulhoso, pobre e dominador, enquanto ela também era orgulhosa, rica e, pelos padrões dele, por demais independente. Qualquer relacionamento que tivessem acabaria apenas em sofrimento e ódio.
Como a mulher inteligente e sensı́vel que era, Katie concluiu que a melhor maneira de fugir do perigo que Ramon signi icava seria evitá-lo. Ficaria o mais longe dele que pudesse pelo restante da noite, e se recusaria terminantemente a tornar a vê-lo. Era tudo muito simples. Exceto que, quando os lábios dele roçaram primeiro em sua testa e depois em seu rosto, Katie quase esqueceu que era sensı́vel e inteligente, e quase entregou-lhe os lábios para receber o beijo ardente que sabia que Ramon lhe daria.
No instante em que a música terminou, Katie afastou-se dele. Com um sorriso luminoso colado nos lábios, encontrou seus olhos indagadores e disse alegremente:
— Por que você não se mistura um pouco com as pessoas e se diverte? Nos encontramos mais tarde.
Pela hora e meia seguinte, Katie lertou com todos os homens que conhecia, e com vários que não conhecia, exibindo seu lado mais sociável e esfuziante. Os homens seguiam-na para onde quer que fosse, prontos para dançar, nadar, beber ou fazer amor, de acordo com o que ela quisesse. Katie riu, bebeu e dançou...
E a todo instante tinha consciência de que Ramon parecia ter aceitado sua sugestão e estava esbaldando-se na companhia de pelo menos quatro garotas, e sobretudo com Karen, que não saía do lado dele.
— Katie, vamos dar o fora daqui e procurar um lugar mais sossegado. — A respiração de Don estava quente em seu ouvido, enquanto dançavam ao ritmo de uma música agitada.
— Detesto lugares sossegados — Katie anunciou, girando para longe dele, indo cair em cima de Brad, que icou surpreso, mas não incomodado, ao vê-la sentar de repente em seu colo. — Brad também detesta lugares quietos, não é?
— E claro que sim — Brad concordou. — Então vamos para o meu apartamento, onde podemos fazer barulho em Particular.
Mas Katie não estava escutando. Com o canto dos olhos, observava Karen dançando com Ramon. Ela enlaçava-lhe o pescoço com os dois braços, e o corpo movia-se sinuosamente contra o dele. O que quer que Karen estivesse dizendo devia ser engraçado, pois Ramon, que estivera sorrindo para ela, de repente atirou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Sem saber por quê, Katie icou magoada com aquela deserção tão fácil. Redobrando seus esforços para mostrar-se animada, levantou-se e puxou o relutante Brad.
— Levante-se, preguiçoso, e venha dançar comigo. Brad deixou a lata de cerveja na mesa e encaminhou-se para a pista de dança com o braço nos ombros de Katie, depois prendeu-a num abraço apertado.
— Que diabo está acontecendo com você? — perguntou no ouvido dela. — Nunca a vi agindo desse jeito.
Katie não respondeu, porque estava procurando ansiosamente Ramon e Karen que, como logo percebeu, não se encontravam mais ali. Sentiu um aperto no peito. Ele saı́ra da festa com Karen.
Depois de trinta minutos, vendo que eles não retornavam, Katie abandonou toda a pretensão de divertir-se. Seu estômago estava contraı́do e, estivesse dançando ou conversando, seus olhos perscrutavam constantemente as pessoas que iam e vinham, procurando a igura alta e esguia de Ramon.
Katie não foi a única a perceber o desaparecimento dos dois. Estava dançando de novo com Brad, ignorando-o completamente, enquanto espiava os arredores por cima do ombro dele. Então Brad sibilou com desprezo:
— Por acaso você está procurando aquele ”caipira” que Karen levou para o apartamento dela?
— Não o chame assim! — Katie protestou, afastando-se dos braços dele. Havia lágrimas em seus olhos, enquanto contornava e desviava-se dos casais que dançavam.
— Aonde você vai? — uma voz autoritária chamou atrás dela.
Katie virou-se e deparou com Ramon. Cerrando os punhos com força, perguntou:
— Onde você estava?
Ele arqueou a sobrancelha.
— Está com ciúmes?
— Até parece! — ela disse, quase engasgando. — Acho que nem mesmo gosto de você!
— Eu também não gosto muito da maneira como você está se comportando esta noite — ele retrucou calmamente. Então, olhou-a mais de perto. — Está com lágrimas nos olhos. Por quê?
— Porque — ela sussurrou, furiosa — aquele estúpido idiota chamou-o de ”caipira”.
Ramon começou a rir e puxou-a para seus braços.
— Ah, Katie — ele riu e suspirou contra seus cabelos.
— Brad está zangado porque a garota que ele quer foi dar um passeio comigo.
Erguendo a cabeça, Katie examinou-lhe o rosto.
— Vocês só foram dar um passeio?
O riso desapareceu da expressão dele.
— Só um passeio, mais nada. — Seus braços apertaram-se em torno dela, puxando-a mais para si, ambos movendo-se ao ritmo da música.
Katie recostou o rosto no peito irme e rendeu-se ao prazer, enquanto Ramon acariciava seus ombros desnudos, depois deslizou a mão lentamente pelas suas costas, obrigando seu corpo lânguido a um contato ı́ntimo com cada curva das pernas e quadris dele. Uma das mãos fechou-se em torno da nuca de Katie, acariciando-a com sensualidade, e depois com mais força, num abrupto comando. Emitindo um suspiro trêmulo, Katie obedeceu e levantou o rosto para receber o beijo. Ramon mergulhou a mão em seus cabelos macios, mantendo-a cativa do intenso ardor de seus lábios.
Quando ele por fim se afastou, respirava ofegante, e o coração de Katie batia descontrolado, o sangue latejando em seus ouvidos. Ela olhou para ele e disse em voz baixa:
— Acho que estou ficando com medo.
— Eu sei, minha querida. As coisas estão acontecendo depressa demais para você.
Katie fechou os olhos e engoliu em seco, movendo-se contra ele.
— Por quanto tempo vai ficar aqui, antes de voltar para Porto Rico?
Ramon demorou a responder.
— Posso icar até domingo, daqui a uma semana, mas não mais do que isso. Passaremos todos os dias juntos, até lá.
Katie estava desapontada demais para tentar esconder o que sentia.
— Não podemos. Amanhã preciso ir a uma festa na casa dos meus pais. Não vou trabalhar na terça, mas na quarta-feira tenho de voltar ao escritório. — Viu que ele estava prestes a argumentar e, desde que queria estar com ele pelo máximo de tempo que fosse possı́vel, acrescentou: Quer ir comigo à casa dos meus pais amanhã? — Ramon mostrou-se hesitante, e um pouco da sanidade retornou a ela. — Bem, talvez não seja uma boa ideia. Você não vai gostar deles, e eles não vão gostar de você.
— Porque eles são ricos e eu não sou? — Ramon esboçou um leve sorriso. — Talvez eu goste deles, apesar de serem ricos.
Katie sorriu diante da maneira como Ramon simpli icou o problema, e os braços dele apertaram-na possessivamente, puxando-a mais para si. O sorriso em seu rosto suavizava-lhe os traços viris, fazendo-o parecer quase um menino.
— Vamos voltar para o meu apartamento? — ela perguntou.
Ramon assentiu, e Katie foi pegar suas coisas, enquanto se servia uı́sque e gelo em dois copos de plástico, depois foi para onde ela o esperava.
Quando chegaram à pequena varanda do apartamento dela, Katie ficou surpresa ao ver que, em vez de entrar, Ramon deixou os copos na mesinha entre as duas espreguiçadeiras de madeira, depois deitou-se numa delas. De alguma forma, ela havia esperado que ele tentasse prosseguir com aquela conversa em sua cama.
Com um misto de desapontamento e alı́vio, ela enroscou-se na outra cadeira e virou-se para ele. Ramon acendeu uma cigarrilha e, para Katie, a brasa vermelha e lamejante tornou-se o único ponto de foco na escuridão.
— Fale-me sobre seus pais, Katie.
Ela bebeu um gole do uísque, como se precisasse tomar coragem.
— Pelos padrões da maioria das pessoas, eles são muito ricos, mas não foi sempre assim. Meu pai era dono de uma mercearia comum até uns dez anos atrás, quando pediu um empréstimo ao banco para que pudesse expandir-se e abrir um supermercado de luxo. Os negócios correram bem e, depois disso, ele abriu outras vinte lojas. Você já deve ter passado por algum supermercado da rede Connelly’s.
— Creio que sim.
— Bem, somos nós. Há quatro anos papai icou sócio do Clube de Campo de Forest Oaks. Não é tão fechado e seleto quanto o Old Warson, ou o Clube de Campo de St. Louis, mas os sócios do Forest Oaks gostam de ingir que sim, e meu pai construiu a maior casa nos arredores do clube, perto do campo de golfe.
— Eu lhe pergunto sobre seus pais e você me fala sobre o dinheiro deles. Quero saber como eles são.
Katie tentou ser sincera e objetiva.
— Eles me amam muito. Minha mãe joga golfe, e meu pai trabalha duro. Creio que a coisa mais importante para eles, fora os ilhos, é ter uma casa maravilhosa, uma criada, dois Mercedes na garagem e serem sócios do clube de campo. Meu pai é muito bem conservado para os seus cinquenta e oito anos, e minha mãe está sempre linda e impecável.
— Você tem irmãos?
— Um irmão e uma irmã. Sou a mais nova. Minha irmã Maureen tem trinta anos, e é casada. Meu pai entregou o cargo de vice-presidente da Companhia Connelly ao marido dela, e agora ele mal pode esperar para que papai se aposente. Meu irmão Mark tem vinte e cinco anos, e é um bom sujeito. Não é ambicioso e ganancioso como Maureen, que passa a vida preocupando-se com a possibilidade de ele receber uma parte maior dos negócios da famı́lia, depois que meu pai se aposentar. Agora que sabe do pior, quer mesmo ir comigo amanhã? Muitos amigos e vizinhos dos meus pais também estarão presentes, e a maioria deles são quase como da família.
Ramon jogou fora a cigarrilha e tornou a recostar-se preguiçosamente na cadeira.
— Você quer que eu vá?
— Quero, sim — ela respondeu, enfática. — Mas talvez seja egoı́smo de minha parte, pois sei que minha irmã irá encará-lo com o nariz empinado quando souber no que você trabalha. Meu irmão Mark provavelmente vai esforçar-se tanto para lhe mostrar que não é como ela que poderá deixá-lo ainda mais constrangido.
Com sua voz profunda e aveludada, que Katie estava começando a adorar, Ramon perguntou:
— E você, Katie, o que vai fazer?
— Bem, eu... Para dizer a verdade, não sei.
— Neste caso, creio que eu terei de ir, para que possamos descobrir. — Deixando o copo na mesinha, ele levantou-se.
Percebendo que Ramon pretendia ir embora, Katie insistiu para que icasse mais um pouco para tomar um café, pelo simples motivo de que não podia suportar a ideia de vê-lo partir. Levou o café à sala de estar, numa bandeja pequena, e sentou-se ao lado de Ramon no sofá. Beberam o café num silêncio prolongado, que se tornava mais desconfortável a cada minuto e, sem compreender o que estava acontecendo, Katie não sabia o que dizer.
— No que está pensando? — ela perguntou por fim, observando o perfil sério na luz difusa do único abajur aceso.
— Em você. — Quase com rispidez, Ramon perguntou:
— As coisas que são importantes para seus pais são importantes para você também?
— Creio que sim, algumas — ela admitiu.
— Quanto são importantes?
— Em comparação com o quê?
— Com isso — ele falou, num sussurro enrouquecido.
Seus lábios baixaram para os dela, movendo-se freneticamente, obrigando-a a entreabrir a boca para a doce invasão de sua língua, enquanto a fazia deitar no sofá e girava o corpo de forma a cobri-la quase por inteiro.
Katie gemeu em protesto, e no mesmo instante Ramon suavizou O beijo, iniciando então uma lenta e irresistı́vel sedução erótica, provocando nela uma reação imediata. Sua lı́ngua mesclava-se com a dela, recuando, penetrando profundamente, até que Katie cedeu e entregou-se ao beijo ardente.
Quando Ramon tentou afastar-se, Katie passou as mãos em torno de seu pescoço, mantendo os lábios colados nos dele. Então sufocou um gemido de prazer quando ele puxou a parte de cima de seu biquı́ni, deixando-lhe os seios à mostra e inclinando a cabeça para beijar os mamilos rosados. Com lentidão, começou a sugar um deles, depois o outro, até que Katie estivesse reduzida a um desejo louco e doloroso.
Ramon apoiou o peso do corpo nas mãos e se afastou um pouco, os olhos ardentes acariciando-lhe os seios nus, os mamilos rígidos e eretos pelas carícias de sua língua.
— Toque-me, Katie — pediu, a voz rascante.
Ela ergueu as mãos, movendo lentamente a ponta dos dedos sobre os músculos sinuosos do peito dele, observando-os enrijecer-se em resposta, depois relaxar.
— Você é tão bonito — Katie murmurou, as mãos espalmadas no peito rijo e liso, acariciando os ombros largos e os braços musculosos.
— Os homens não são bonitos — Ramon tentou brincar, mas a voz estava enrouquecida pelo efeito que as mãos dela lhe provocavam.
— Você é. Do mesmo jeito que são as montanhas e o mar. Sem pensar, ela deixou os dedos traçarem o V formado pelos cabelos negros do peito dele, que se estreitava na direção da cintura do calção branco.
— Não faça isso! — ele ordenou, tenso.
Katie imobilizou-se e olhou para o rosto sombrio com a paixão que ele tentava manter sob controle.
— Você é bonito e forte — ela sussurrou, encontrando-lhe o olhar ardente. — Mas é delicado também. Acho que é o homem mais gentil que já conheci... E nem mesmo sei por que penso assim.
Ramon perdeu todo o controle.
— Ah, Deus! — ele gemeu.
Beijou-a novamente, com uma paixão desenfreada que a invadiu com ondas de desejo. As mãos mergulharam na maciez dos cabelos dela, mantendo sua cabeça imobilizada sob o ardor insaciável de seus lábios. Katie sentiu-se desmanchar ao sentir a rı́gida masculinidade dele contra si, e gemeu com um desejo febril quando Ramon passou a contornar-lhe os lábios com a ponta da língua.
— Deseje-me, Katie — ele ordenou com voz rouca. Deseje-me mais do que tudo que o dinheiro pode comprar. Deseje-me, tanto quanto eu desejo você.
Katie quase soluçava de desejo, quando de repente Ramon se afastou, sentou-se e apoiou a cabeça no encosto do sofá, fechando os olhos. Ela observou a respiração ofegante dele e, depois de alguns minutos, endireitou o sutiã, passou a mão trêmula pelos cabelos e também se sentou. Sentindo-se descartada e ferida, encolheu-se no canto mais distante do sofá e cruzou as pernas sob o corpo.
— Katie — a voz dele era um murmúrio doloroso. Confusa, ela o encarou. Ramon mantinha a cabeça recostada e os olhos fechados, quando falou:
— Eu não queria dizer isso enquanto você estava em meus braços e nós dois enlouquecidos de desejo. Não queria lhe dizer nunca, mas, desde aquela primeira noite eu soube que teria de dizer antes de partir...
O coração de Katie parou de bater. Ele iria confessar-lhe que era casado, e ela... ela icaria histérica.
— Quero que você vá para Porto Rico comigo.
— O quê? — ela sussurrou.
— Quero que você case comigo.
Katie abriu a boca, mas vários segundos se passaram antes que conseguisse falar.
— Eu... eu não posso. Não poderia, Ramon. Tenho meu emprego, minha famı́lia, meus amigos... Tudo está aqui. Aqui é o meu lugar.
— Não — ele retrucou, irritado, virando a cabeça e itando-a com seu olhar penetrante. — Aqui não é o seu lugar. Fiquei observando-a, naquela primeira vez em que a vi no bar, e também esta noite. Você nem mesmo gosta dessas pessoas, e o seu lugar não é ao lado delas. — Ramon percebeu a crescente apreensão nos olhos dela, e estendeu os braços. — Venha — disse com suavidade. — Quero abraçá-la agora.
Atordoada demais para fazer qualquer coisa além de obedecer, Katie deslizou no sofá para o abraço quente e aconchegante, recostando a cabeça no ombro dele. No mesmo tom gentil, Ramon continuou:
— Existe uma bondade em você que a separa de todas essas pessoas a quem chama de amigos.
Katie balançou a cabeça devagar.
— Você nem me conhece direito, Ramon. Não pode estar falando sério sobre casar-se comigo.
Ele tocou-lhe o queixo, obrigando-a a encará-lo, e sorriu para seus olhos azuis.
— Eu soube quem você é desde aquele momento em que deixou cair no chão aquela rosa que eu lhe trouxe, e depois quase chorou de vergonha pelo que havia feito. E eu tenho trinta e quatro anos; sei exatamente o que quero.
— Colou os lábios nos dela num beijo profundo. — Case comigo, Katie — sussurrou.
— Não posso... Você não pode icar aqui nos Estados Unidos, em St. Louis, para que possamos nos conhecer melhor? Então, talvez eu...
— Não — ele respondeu com absoluta irmeza. — Isso é impossı́vel. — Levantou-se, e ela fez o mesmo. — Não me responda agora. Ainda há tempo para você decidir. Olhou no pequeno relógio de mesa, ao lado do abajur. Já é tarde. Preciso ir me vestir e ainda tenho trabalho para fazer esta noite. A que horas você quer que eu venha buscá-la, para irmos à casa de seus pais?
Ainda zonza, Katie marcou uma hora.
— Ah, eu acho que minha mãe disse que haveria um churrasco, portanto podemos ir com uma roupa informal.
Depois que ele saiu, Katie icou andando pela casa, recolhendo automaticamente as xı́caras de café, apagando as luzes, e foi preparar-se para dormir.
Deitou-se na cama, icou olhando para o teto e tentou absorver, tudo o que acabara de acontecer. Ramon queria casar-se com ela e levá-la para Porto Rico! Isso era impossı́vel, completamente fora de questão, ainda era cedo demais para nem sequer imaginar algo assim. E, mesmo se Ramon lhe desse tempo, ela conseguiria imaginar tal possibilidade algum dia?
Virou a cabeça no travesseiro e sentiu ainda as mãos dele acariciando-a com uma ternura ardente, os lábios ansiosos e famintos. Nenhum homem jamais izera seu corpo sentir-se tão vivo, e ela duvidava que qualquer outro conseguisse. Com Ramon o sexo não era apenas a prática de técnicas aprendidas e desenvolvidas, mas sim o instinto. Para ele, era natural fazer amor com uma sensualidade tão exigente e dominadora. Ele era, por cultura e nascimento, um macho dominador.
E o engraçado, ela pensou, era que gostava de ser dominada por ele. Até mesmo sentira um luxo de excitação, naquele dia, quando ele ordenara, baixinho: ”Venha aqui, Katie”. Mas, ainda assim, ele era também gentil e delicado.
Fechou os olhos, tentando pensar. Se Ramon lhe desse tempo, seria possı́vel que se casasse com ele? Absolutamente não!, sua razão respondeu com sensatez. Mas seu coração sussurrava: talvez...
Por que, Katie perguntou-se, ela nem sequer consideraria a possibilidade de casar com ele? A resposta estava na estranha sensação que a invadia quando estavam rindo ou conversando — a sensação inexplicável de que, emocionalmente, eles formavam um par perfeito; a sensação de que algo no fundo dele tentava alcançá-la e descobrir uma resposta dentro dela. Além daquela atração intensa e magnética, que lenta e inexoravelmente os unia.
Ao pensar nisso, a parte lógica de sua mente entrou em con lito com as emoções: se ela fosse tola o bastante para casar com Ramon, ele exigiria que vivessem apenas com o fruto de seu trabalho, embora ela não fosse muito feliz vivendo como uma princesa, como acontecia agora.
Ele era um macho chauvinista, sem dúvida. Porém todos os seus instintos lhe diziam que era também um homem sensível, capaz de grande delicadeza, além de toda a força...
Katie emitiu um gemido, levada pelas dúvidas que a assaltavam. Fechou os olhos e, quando inalmente mergulhou num sono cansado, nem a razão nem a emoção tinham vencido a batalha.