Doce Triunfo
Capítulo 11
AO RETORNAR DO BANHEIRO do aeroporto, Katie encaminhou-se para a área de retirada de bagagem, onde suas malas estariam chegando do voo de Miami para San Juan.
Um arrepio de antecipação perpassou-lhe a espinha, enquanto ouvia os rápidos e incompreensı́veis luxos de espanhol, intercalados com a sua própria lı́ngua, e que eram falados em toda sua volta. A sua esquerda, um grupo de homens loiros e bem-vestidos falava o que ela julgou ser o idioma sueco. Atrás dela havia uma grande concentração de turistas, conversando em francês luente. Porto Rico, Katie deu-se conta com alegre surpresa, devia ser um lugar de turismo que atraía pessoas do mundo inteiro.
Procurando entre a multidão que se aglomerava em volta das esteiras, viu quando Ramon fez sinal para um carregador, que imediatamente mudou de direção, levou o carrinho para perto dele e começou a enchê-lo com as seis malas Gucci que ela trouxera. Katie sorriu consigo mesma, porque todas as outras pessoas estavam acenando freneticamente e chamando os ocupados carregadores, tentando atrair-lhes a atenção, mas tudo o que Ramon precisou fazer foi assentir com a cabeça. E não era de admirar, pensou com orgulho. Vestido com um elegante terno escuro e gravata conservadora, ele era o homem mais atraente que ela já vira. Havia uma aura de implacável autoridade e tranquila determinação em torno dele, que nem mesmo um carregador deixava de perceber. Olhando-o, Katie achou que ele parecia um bem-sucedido homem de negócios, e não um fazendeiro em di iculdades. Calculou que o carregador tivera a mesma impressão e, provavelmente, esperava ganhar uma boa gorjeta pelos seus serviços. Com um certo desconforto, perguntou-se se Ramon saberia disso.
Por que não sugerira que carregassem a própria bagagem?, pensou. E verdade que teriam de ir e voltar duas ou três vezes, embora Ramon estivesse levando apenas uma mala grande e outra pequena. Ela precisava aprender a ser mais econômica, lembrar-se de que Ramon não tinha muito dinheiro e que até precisava trabalhar como motorista de caminhão para ganhar um salário extra.
— Está pronta? — ele perguntou, pousando a mão no braço dela e guiando-a através do aeroporto lotado.
Vários táxis alinhavam-se junto à calçada, à espera dos passageiros. O carregador encaminhou-se para o primeiro carro da fila, enquanto Katie e Ramon o seguiam.
— O tempo aqui é sempre assim tão bom? — ela perguntou, erguendo o rosto para o céu de puro azul, pontilhado de nuvens brancas e esparsas.
O prazer no sorriso dele lhe disse quanto desejava que ela gostasse de seu futuro lar.
— Normalmente é, sim. A temperatura costuma permanecer na casa dos vinte e oito graus, e os ventos vindos do oeste fornecem uma brisa que... — Ramon voltou os olhos para o carregador, verificando até aonde ele ia, e deixou a frase incompleta.
Seguindo seu olhar zangado, Katie levou um susto ao ver a bagagem sendo guardada no porta-malas de um imponente Rolls-Royce cor de vinho, que esperava no inı́cio da ila dos táxis. Um motorista, usando uniforme preto impecável e boné de aba, estava parado ao lado do veı́culo. Assim que Katie e Ramon se aproximaram, ele abriu a porta traseira com um loreio, afastando-se para que eles entrassem.
Katie parou na calçada e lançou um olhar interrogativo para Ramon, que já disparava perguntas ao motorista, falando em espanhol. Fosse qual fosse a resposta do homem, pareceu deixar Ramon furioso. Sem nada dizer, ele pousou a mão nas costas de Katie e empurrou-a levemente para o interior fresco e luxuoso do Rolls-Royce.
— O que está acontecendo? — Katie perguntou assim que ele sentou ao seu lado. — De quem é este carro?
Ramon esperou que o motorista fechasse a porta, antes de responder. Sua voz estava tensa, como se fizesse um esforço para controlar uma irritação inexplicável.
— O carro pertence a um homem que tem uma villa na ilha, mas que raramente vem para cá. Garcia, o motorista, é um velho amigo da minha famı́lia. Quando icou sabendo que chegaríamos hoje, decidiu vir nos encontrar.
— Que gentileza da parte dele! — Katie exclamou.
— Só que eu havia deixado bem claro que não queria que ele fizesse isso.
— Ah... — Katie hesitou. — Bem, tenho certeza de que ele não fez por mal.
Voltando a atenção para o motorista, que se sentara atrás do volante e olhava pelo retrovisor em expectativa, Ramon pressionou um botão que abriu uma espécie de vidraça que separava o compartimento do motorista dos passageiros. Num rápido espanhol, disparou as instruções e depois tornou a fechar o vidro. O veículo deslizou suavemente para a rua.
Katie nunca estivera num Rolls-Royce, e estava encantada com o carro. Passou os dedos pelo assento de couro, adorando a deliciosa sensação de maciez.
— O que é isso? — perguntou, inclinando-se para a frente e pressionando um botão nas costas do assento do motorista.
Riu quando uma pequena prancha de madeira clara ergueu-se automaticamente sobre o assento e desdobrou-se em seu colo. Levantando a tampa da escrivaninha, viu que estava equipada com papel, canetas de ouro e até mesmo um pequeno grampeador dourado.
— Como faço para guardá-la de volta? — indagou, depois de tentar empurrá-la.
— Aperte o mesmo botão.
Ela o fez. Com um barulho suave, a prancha de madeira retornou ao lugar, disfarçada no assento dianteiro.
— E isso, para que serve? — quis saber, indicando o botão logo acima dos joelhos de Ramon.
Ele a observava, o rosto sem qualquer expressão.
— Esse abre o compartimento onde estão guardadas as bebidas.
— E onde estão os aparelhos de tevê e estéreo? — ela brincou.
— Entre a escrivaninha e o compartimento das bebidas.
O sorriso desapareceu dos lábios dela. Ramon, ela percebeu, não estava compartilhando do seu divertimento em explorar os equipamentos exclusivos daquele carro de luxo. Depois de uma pausa hesitante, Katie falou:
— O proprietário deste carro deve ser extraordinariamente rico.
— Ele era.
— Era? — Katie repetiu. — Ele morreu?
— Financeiramente, sim, ele está morto. — Com essa resposta breve e incompreensı́vel, Ramon virou a cabeça e ficou olhando pela janela.
Confusa e magoada por aquela frieza, Katie olhou para a sua própria janela. Mas seus pensamentos sombrios foram interrompidos quando Ramon tomou-lhe a mão, apertando-a delicadamente entre as suas. Embora mantivesse o rosto virado para a janela, ele disse:
— Eu gostaria de poder lhe dar uma dúzia de carros como este, Katie.
Ela compreendeu tudo no mesmo instante e, por um segundo, icou atônita demais para falar. Uma onda de alívio invadiu-a, seguida por um indisfarçável divertimento.
— Pois eu gostaria que você pudesse me dar apenas um carro como este. A inal, um carro de luxo é a garantia de felicidade, não é? — O olhar aguçado de Ramon disparou na direção dela, e Katie arregalou seus olhos azuis com exagerada inocência. — David me deu um Porsche quando nos casamos, e veja que vida feliz eu tive ao lado dele!
A linha irme dos lábios de Ramon relaxou num leve sorriso, enquanto ela continuava dizendo:
— Agora, se David tivesse me dado um Rolls-Royce, eu teria ficado perfeitamente satisfeita com o nosso casamento. Apesar de que — acrescentou, quando Ramon passou o braço em seus ombros e puxou-a mais para si — a única coisa que teria tornado minha vida absolutamente maravilhosa seria...
A frase foi interrompida de repente, quando Ramon tomou-lhe os lábios num beijo longo e profundo. Depois que se separaram, ele fitou-a, sorrindo com ternura.
— O que teria tornado sua vida absolutamente maravilhosa? — perguntou, brincalhão.
Os olhos dela reluziram, enquanto aconchegava-se contra ele.
— Uma Ferrari!
Ramon começou a rir, e Katie sentiu que toda a tensão abandonava seu corpo poderoso. Agora as coisas estavam em sua verdadeira perspectiva, tão às claras que até poderiam rir delas, e era exatamente isso que Katie pretendera fazer.
Porto Rico apanhou-a totalmente de surpresa. Katie não havia esperado encontrar aquele paraı́so montanhoso e tropical, com vales verdes e luxuriantes, e tranquilos lagos azuis reluzindo sob o sol. O Rolls-Royce seguia macio pelas estradas cheias de curvas margeadas por árvores floridas, os galhos cobertos de botões amarelos e rosados.
Passaram por vários vilarejos pitorescos aninhados entre as montanhas; cada vilarejo possuı́a uma praça central, na qual a principal construção era a igreja, com sua torre apontando para o céu. Katie observava tudo com interesse, os olhos deliciando-se com as cores vívidas com que a natureza pintara as colinas e os campos, a voz repleta de felicidade quando emitia exclamações a respeito de tudo, desde as samambaias até as casas das fazendas. O tempo todo, podia sentir os olhos aguçados de Ramon, observando cada uma de suas reações. Por duas vezes ela virou-se abruptamente, a im de fazer um comentário entusiasmado, e captara um brilho de ansiedade em sua expressão, antes que ele tivesse tempo de disfarçá-la com um sorriso. Ele queria desesperadamente que ela gostasse de sua terra natal e, por algum motivo, parecia incapaz de acreditar que ela fosse sincera.
Quase uma hora depois que saı́ram do aeroporto, o veı́culo passou por outro vilarejo e entrou numa estrada de terra, continuando a subir a montanha. Katie ofegou, maravilhada. Era como se estivessem passando por um túnel de seda vermelha, iluminado por esparsos raios de sol. Enormes árvores cobertas de lores vermelhas erguiam-se dos dois lados da estrada, os galhos pesados encontrando-se no meio, e as pétalas caídas cobrindo o chão como um tapete.
— Isso é inacreditável! — ela exclamou, virando-se para Ramon. — Estamos perto da sua casa?
— Sim, mais uns cinco quilômetros adiante desta estrada
— ele respondeu, mas a tensão retornara aos seus traços e o sorriso não passava de uma leve curvatura dos lábios.
Ramon mantinha os olhos ixos à frente, como se estivesse tão ansioso quanto ela em descobrir o que havia no final da estrada.
Katie estava prestes a perguntar se as lindas lores que via eram alguma variedade de tulipa, quando o veı́culo saiu do longo túnel de árvores vermelhas e emergiu num amplo terreno, feio e malcuidado, que cercava uma velha casa de tijolos brancos. Tentando ocultar o desapontamento, Katie virou-se para Ramon, que olhava para a casa com uma expressão tão furiosa que, inconscientemente, ela apressou-se em se recostar no assento.
Antes mesmo que o carro parasse de todo, Ramon já saı́a, batendo a porta com força atrás de si, e cruzou o feio gramado com a raiva transparecendo em cada passo.
O motorista ajudou Katie a sair do carro, depois ambos viraram-se a tempo de ver Ramon tentando abrir a porta do chalé, depois batendo o ombro com tanta força contra ela que a fez soltar-se das ferragens e desabar no chão no interior da casa.
Katie congelou no lugar, olhando para o buraco negro onde a porta estivera segundos antes. Seu olhar voltou-se para as venezianas de madeira, penduradas em ângulos incertos nas janelas, e para a pintura toda descascada dos batentes.
Num instante, todo seu otimismo e coragem desertaram-na. Queria estar em seu lindo condomı́nio de apartamentos, com sua varanda cheia de lores. Jamais poderia morar num lugar como aquele; havia sido uma tola em tentar negar sua própria necessidade de luxo e conforto, a maneira como fora criada.
A brisa soltou algumas mechas de seus cabelos, presos num elegante coque. Katie ergueu a mão para tirá-las dos olhos, tentando ao mesmo tempo afastar a imagem de si mesma, parada naquele gramado repleto de ervas daninhas, parecendo tão malcuidada e desgrenhada quanto aquela horrı́vel cabana. Em um ou dois anos, estaria tão desleixada como seus arredores, pois viver daquela maneira poderia corroer o orgulho de qualquer pessoa, a ponto de nem importar-se mais com nada.
Relutante, começou a abrir caminho pelo que restava de uma calçada de tijolos até a porta do chalé. Pedaços de telhas vermelhas tinham caı́do do telhado e Katie desviou-se com cuidado dos cacos, com as finas sandálias italianas que usava.
Passou hesitante pela soleira da porta, piscando para acostumar os olhos à escuridão. Sentiu o estômago revirar, assim que enxergou o interior. O chalé vazio estava coberto por camadas de poeira, sujeira e teias de aranha. Onde o sol penetrava, pelas venezianas quebradas, a poeira lutuava no ar. Como Ramon podia viver daquela maneira?, perguntou-se, horrorizada. Ele estava sempre tão limpo e bem arrumado, não podia imaginá-lo vivendo naquela... imundície.
Com um esforço supremo, Katie tentou controlar as emoções frenéticas e obrigou-se a pensar com lucidez. Em primeiro lugar, ninguém estivera morando naquela casa, pois era óbvio que a poeira acumulara-se durante anos. E os ratos também, ela pensou com um estremecimento, ouvindo ruídos suspeitos emanando das paredes.
Ramon estava parado no meio da sala, de costas para ela, numa postura rígida.
— Ramon? — a voz de Katie era um sussurro apreensivo.
— Saia deste lugar — ele ordenou entre os dentes, num tom que vibrava de fúria. — A sujeira vai grudar em você, mesmo que não toque em nada.
Não havia nada que Katie desejasse mais do que sair dali, exceto voltar para o aeroporto, depois para seu paı́s e para seu lindo e moderno apartamento. Começou a se afastar, mas ao perceber que Ramon não a seguia, parou e voltou-se de novo. Ele continuava parado de costas para ela, sem querer — ou sem ter coragem — de virar-se para encará-la. Com uma pontada de compaixão, Katie deu-se conta de quanto ele deveria estar temendo o momento em que ela veria aquela casa. Não era de admirar que parecia tão tenso, quando seguiram pela estrada de terra. E, agora, ele zangava-se por se sentir envergonhado e constrangido por não poder oferecer-lhe nada melhor do que aquele chalé caindo aos pedaços. Katie falou, a im de quebrar o incomodo silêncio:
— Você... você disse que nasceu aqui.
Ramon virou-se devagar, fitando-a como se ela não existisse.
Enfrentando o olhar vazio, ela acrescentou:
— Presumi que você morasse aqui desde quando nasceu, mas ninguém nunca mais morou nesta casa, não é?
— Não — ele disparou.
Katie encolheu-se diante daquele tom ríspido.
— Faz tempo desde a última vez em que esteve aqui?
— Faz, sim.
— Os lugares... as casas que icam desabitadas por muito tempo sempre parecem feias e lúgubres, mesmo quando são realmente bonitas. — Katie tentava desesperadamente consolá-lo, mesmo sabendo que era ele quem deveria estar consolando-a. — Com certeza ela não está mais do jeito que você se lembrava.
— Está exatamente do jeito que eu me lembrava!
O sarcasmo cortante na voz dele penetrou nos nervos sensı́veis de Katie, mas ela continuou tentando:
— Se é assim, então por que você está tão furio... tão chateado? — corrigiu-se rapidamente.
— Porque — ele respondeu, irritado — mandei um telegrama quatro dias atrás, dando ordens para que mandassem quantos homens fossem necessários para limpar e arrumar a casa.
— Ah... — Katie suspirou, num misto de alívio e surpresa.
Seu alı́vio evidente fez com que Ramon a encarasse, o corpo rı́gido. Seus olhos pareciam duas adagas negras, prontas para atacá-la.
— Você tem uma opinião tão negativa de mim que acha que eu a traria para morar neste... neste chiqueiro? Agora que viu a casa deste jeito, jamais permitirei que more aqui. Você nunca mais será capaz de esquecer o que está vendo agora.
Katie devolveu-lhe o olhar furioso. Minutos atrás, tinha certeza do seu futuro e do que queria, sentindo-se segura e amada. Agora não tinha mais certeza de nada, e estava furiosa com Ramon por ele estar descontando nela toda sua frustração.
Diversas respostas indignadas surgiram-lhe na mente, apenas para icarem engasgadas em sua garganta, sufocadas por uma onda de simpatia e ternura que emergiu no instante em que olhou para ele. Parado no meio da decadente sala vazia da casa onde nascera, Ramon parecia tão profundamente derrotado e tão orgulhosamente determinado a não demonstrar isso que o coração de Katie condoeu-se.
— Acho que você tem uma opinião negativa a meu respeito, se acredita nisso — ela falou, quebrando o silêncio pesado.
Afastando-se dele, Katie encaminhou-se para as duas passagens em arco que icavam no lado direito da sala e espiou: havia dois quartos, um maior na frente da casa, outro menor nos fundos.
— Há uma linda vista das janelas dos dois quartos anunciou.
— Mas nenhuma das janelas tem vidraças — Ramon retrucou, irônico.
Katie ignorou-o e entrou pela outra passagem. Um banheiro, concluiu com uma leve careta, vendo a pia e a banheira sujas e enferrujadas. Uma imagem da banheira de mármore da casa de seus pais intrometeu-se em sua mente, imediatamente seguida pela lembrança do moderno banheiro em seu apartamento. Corajosa, ela afastou as duas imagens e acionou o interruptor de luz.
— A eletricidade chega até a casa — entusiasmou-se.
— Mas não está ligada — Ramon disparou.
Katie sabia que estava comportando-se como uma corretora de imóveis tentando fazer uma venda, mas não pôde evitar.
— E aqui deve ser a cozinha — disse, aproximando-se de uma antiquada pia de porcelana apoiada num suporte de ferro. — E, veja, há duas torneiras, para água quente e fria. — A im de provar o que dizia, estendeu a mão para a torneira.
— Nem se dê ao trabalho — Ramon falou num tom contido, observando-a da soleira da porta. — Elas não funcionam.
Katie empinou o queixo e tentou reunir coragem antes de virar-se para encará-lo. No processo, viu-se olhando para uma ampla janela sobre a pia.
— Ramon — disse baixinho —, quem quer que tenha construı́do esta casa, devia adorar a vista tanto quanto eu.
As colinas verdejantes espalhavam-se na paisagem à sua frente, as encostas cobertas de flores amarelas e vermelhas.
Quando afastou-se da pia, havia uma sincera expressão de prazer em seu rosto.
— E lindo, absolutamente lindo! Eu icaria aqui lavando pratos para sempre, apenas para ficar olhando a paisagem.
Animada, deu uma volta pela cozinha. No lado oposto, uma parede inteira de janelas envidraçadas unia-se com o outro canto, cuja parede também era revestida de vidraças. Diante delas, fora colocada uma mesa rústica e algumas cadeiras.
— Seria como fazer as refeições num terraço! — ela exclamou, vendo um lampejo de incerteza cruzar os traços congelados de Ramon. — Ora, esta cozinha poderia se transformar num lugar iluminado e espaçoso!
Evitando cuidadosamente olhar para o piso de linóleo descascado, Katie virou-se e marchou de volta para a sala. Encaminhou-se para as grandes vidraças que ocupavam duas paredes e esfregou um pouco da fuligem. Espiando através do pedacinho de vidro limpo, soltou um gritinho de admiração.
— Posso ver o vilarejo daqui! — exclamou. — E possı́vel avistar até a igreja. Parece uma cidadezinha de brinquedo, com as colinas em volta. Ramon, é como estar olhando para... um cartão-postal. Estas janelas devem ter sido colocadas de forma que, não importa onde se esteja, há sempre uma bela paisagem para se ver. Sabe de uma coisa? — Sem perceber que Ramon postara-se logo atrás dela, virou-se e colidiu com seu corpo alto e musculoso. — Esta casa tem grandes possibilidades! — Enfrentou o olhar cı́nico dele com um sorriso. — Tudo o que precisa é de uma boa limpeza, uma mão de tinta e algumas cortinas novas!
— Além de uma dedetização e um exército de carpinteiros — Ramon retrucou com sarcasmo. — Ou, melhor ainda, um incendiário competente.
— Tudo bem... Pintura, cortinas novas, dedetização e você com um martelo e pregos. — Katie mordeu o lábio quando um pensamento inquietante ocorreu-lhe. — Você sabe alguma coisa de carpintaria, não é?
Pela primeira vez desde que chegaram à casa, Katie viu um brilho de humor surgir no rosto dele.
— Imagino que eu saiba tanto sobre carpintaria quanto você sabe fazer cortinas, Katie.
— Otimo! — blefou Katie, que não tinha a menor ideia de como se faz uma cortina. — Neste caso, não terá nenhuma dificuldade em consertar as coisas por aqui, certo?
Ramon pareceu prestes a ceder, mas então perpassou os olhos pela sala decadente com uma expressão de desprezo. Seus traços endureceram novamente, até que o rosto parecesse ter sido talhado em pedra. Katie, percebendo que ele iria recusar, pousou a mão em seu braço.
— Nós poderemos transformar esta casa num lar alegre e aconchegante, Ramon. Sei que você se sente constrangido pela maneira como ela está agora, mas isso apenas tornará a tarefa de reformá-la ainda mais divertida e grati icante. Vou gostar muito de ajudá-lo a reformar a casa, de verdade. Ramon — ela baixou a voz quando ele encarou-a —, por favor, não estrague tudo para mim, agindo desse jeito.
— Estragar tudo para você? — ele explodiu, passando as mãos nos cabelos com um gesto nervoso. — Estragar?
— repetiu. Sem nenhum aviso, estendeu os braços para ela, e Katie viu-se abraçada a ele com toda força. — Eu sabia que não deveria trazê-la para Porto Rico, Katie — disse num sussurro agoniado. — Sei que foi egoı́smo de minha parte, mas não pude evitar. Agora que você está aqui, sei que deveria mandá-la de volta para casa, para o lugar a que pertence. Sei disso — acrescentou, com a respiração ofegante. — Mas... Deus me perdoe... não posso suportar esta ideia!
Katie enlaçou-o pela cintura e pressionou o rosto em seu peito sólido.
— Não quero ir para casa, quero icar aqui com você. — E, pelo menos naquele momento, tinha certeza do que dizia.
Ouviu a respiração dele ofegar, e sentiu a súbita tensão de seus músculos. Ramon afastou-se um pouco e segurou-lhe o rosto entre as mãos.
— Por quê? — perguntou num sussurro, os olhos negros itando-a com intensidade. — Por que quer ficar aqui comigo?
Um sorriso iluminou o rosto dela.
— Para que eu possa lhe provar que esta casa se transformará no lar dos nossos sonhos!
Tal resposta causou uma tristeza inexplicável nos olhos dele. E ali permaneceu, enquanto Ramon baixava o rosto para ela.
— Este é o verdadeiro motivo para você querer icar comigo, Katie... — Seus lábios roçaram nos dela, quentes e provocantes, enquanto as mãos deslizavam pelos ombros e pelas costas, numa carícia excitante, enlouquecedora.
Todos os nervos de Katie começaram a vibrar de antecipação. Parecia que semanas, e não dias, tinham se passado desde a última vez em que Ramon a beijara e acariciara com aquela paixão arrebatadora. Agora, ele prolongava as carı́cias de propósito, fazendo-a esperar, provocando-a. Mas Katie não queria ser provocada. Passando o braço em torno do pescoço dele, pressionou o corpo, colando-se a ele. Beijou-o profundamente, tentando romper aquele controle férreo. De encontro aos seus quadris, sentiu o enrijecimento dele, mas, como se quisesse castigá-la por tê-lo deixado excitado, Ramon afastou os lábios dos dela e passou a beijá-la no rosto, no pescoço, nas orelhas, a língua sensual explorando cada curva, cada concavidade.
— Não! — ela implorou, ardendo de desejo. — Não me provoque mais, Ramon. Agora não.
Quase esperava que ele a ignorasse. Mas, em vez disso, ele tomou-lhe os lábios com um desejo faminto e uma urgência selvagem, que sobrepujavam o próprio desejo dela. As mãos acariciavam-na por inteiro, deslizando pelo pescoço até os seios, espalmando-se possessivamente sobre eles, depois descendo até pressionar os quadris contra os seus.
Estremecendo de prazer, Katie mergulhou os dedos em seus ombros musculosos, alimentando a fome insaciável de sua boca, arqueando o corpo contra os movimentos rı́tmicos e exigentes da ereção dele.
Uma eternidade depois, diminuindo a pressão dos lábios, Ramon ergueu a cabeça devagar. Mesmo zonza como estava, Katie reconheceu a paixão luzindo nos olhos negros e sabia que era um re lexo dos seus próprios olhos. Ainda tremendo de desejo, viu os olhos dele ixarem-se em seus lábios entreabertos. Os braços de Ramon retesaram-se convulsivamente quando começou a baixar a cabeça para ela, e depois Ramon hesitou, tentando lutar contra a tentação.
— Ah, meu Deus... — ele gemeu baixinho, e os lábios tomaram os dela mais uma vez.
Uma vez após outra ele tentava afastar-se, apenas para mudar de ideia e mergulhar nos lábios de Katie para mais uma série de beijos longos e profundos.
Quando por im separaram-se, Katie estava exaurida. Louca e maravilhosamente exaurida pelo poder combinado de paixão e prazer compartilhados. Ramon recostou a cabeça contra os cabelos dela, as mãos acariciando-lhe as costas, mantendo-a presa em seu peito, enquanto Katie apoiava-se nele, os braços ainda em seu pescoço.
Vários minutos se passaram, até que ela ouviu-o murmurar alguma coisa. Ergueu a cabeça e abriu os olhos azuis e langorosos, itando-o. Perdida em sua euforia sonhadora, admirou o rosto másculo que retribuı́a seu olhar. Ele era de fato um homem por demais bonito, pensou. E extremamente másculo, com os traços irmes e esculpidos. Ela adorava as linhas de seu rosto, o queixo determinado com a covinha brincalhona, e a sensualidade de sua boca. E os olhos, que a atraı́am como se fossem um imã, olhos capazes de derretê-la ou deixá-la congelada. Os cabelos tão espessos, negros, longos apenas o bastante para permitir que ela mergulhasse os dedos em sua deliciosa maciez.
Katie ergueu a mão e ajeitou os cabelos nas têmporas dele, depois acariciou-lhe as faces, deslizando até a covinha no queixo.
Os olhos escuros observavam-na, captando seu olhar, sustentando-o enquanto virava a cabeça e beijava a parte sensı́vel da palma de sua mão. Quando Ramon falou, a voz era profunda, rouca de uma emoção tão intensa que ultrapassava a paixão.
— Você me faz muito feliz, Katie.
Katie tentou sorrir, mas o tom quase doloroso que percebeu na voz dele encheu seus olhos de lágrimas. E, depois de três dias de um turbilhão emocional que culminara naquela última tumultuada hora, estava fraca demais para contê-las.
— Você também me faz muito feliz — sussurrou, enquanto as lágrimas escorriam de seus olhos.
— Sim — ele disse, com um solene divertimento ao ver as lágrimas tremeluzindo. — Estou vendo mesmo.
Katie agarrou-se a ele, sentindo como se pairasse à beira da insanidade. Dez segundos antes poderia jurar ter ouvido a tristeza na voz de Ramon, mas agora ele ria, enquanto ela chorava. Exceto que não estava mais chorando, estava começando a rir.
— Eu... sempre choro quando estou feliz — explicou, enxugando as lágrimas.
— Não acredito! — ele exclamou com fingido horror. Quer dizer que ri quando está triste?
— E bem possı́vel — ela admitiu, o rosto iluminando-se com um sorriso. — Estou toda atrapalhada desde que o conheci. — Num impulso, ergueu-se na ponta dos pés e pressionou um beijo nos lábios quentes e macios, depois tornou a aconchegar-se em seus braços. — Garcia deve estar pensando o que estamos fazendo aqui. Acho que é melhor sairmos.
Katie exalou um suspiro tão triste que Ramon sorriu.
— Garcia é um homem de grande dignidade. Jamais icaria especulando sobre as nossas atividades.
Ainda assim, ele a soltou, relutante. Mantendo o braço em torno de sua cintura, seguiu com ela pela porta afora, para o sol ardente.
Katie estava prestes a perguntar quando começariam a trabalhar na reforma da casa, mas a atenção de Ramon desviara-se para um homem de cerca de sessenta anos, que vinha caminhando pelo gramado.
Quando o homem avistou Ramon, seu rosto bronzeado e curtido abriu-se num largo sorriso.
— Seu telegrama chegou há uma hora... pouco antes de eu ver o Rolls-Royce passar pelo vilarejo. Estes meus velhos olhos estão me enganando, Ramon, ou é você mesmo que está aí?
Sorrindo, Ramon estendeu a mão.
— Seus olhos estão tão aguçados quanto estavam naquela noite em que você viu a fumaça saindo pela janela e apanhou-me em flagrante com um maço de cigarros na mão, Rafael.
— Eram os meus cigarros — o homem chamado Rafael o lembrou, enquanto apertava-lhe a mão e dava-lhe uma palmadinha afetuosa nas costas.
Ramon enviou uma piscadela para Katie.
— Infelizmente, eu não tinha meus próprios cigarros para fumar.
— Isso porque você tinha apenas nove anos, e era jovem demais para comprá-los — Rafael explicou, com um sorriso conspiratório para Katie. — Foi uma cena e tanto, señorita. Ele estava todo refestelado num monte de feno, parecendo um homem muito importante desfrutando de um momento de lazer. Eu obriguei-o a comer três cigarros.
— E isso o curou? — Katie riu.
— Sim, curou-me dos cigarros — Ramon admitiu. Depois disso, passei a fumar apenas charutos.
— E a correr atrás das moças — Rafael acrescentou, com uma severidade bem-humorada. Virou-se para Katie Quando o padre Gregório leu os proclamas de vocês na missa de hoje cedo, todas as señoritas choraram de desapontamento, e o padre suspirou de alı́vio. Rezar para a salvação da alma de Ramon deve ser a tarefa que mais consome o tempo daquele pobre padre. — Fazendo uma pausa em seu alegre monólogo para desfrutar do visı́vel desconforto de Ramon, ele acrescentou: — Mas não se preocupe, señorita. Agora que está comprometido com você, Ramon sem dúvida vai se emendar e esquecer as garotas que correram atrás dele todos estes anos.
Ramon enviou um olhar falsamente zangado para o velho.
— Se já acabou de estraçalhar o meu caráter, Rafael, quero apresentar-lhe a minha noiva... presumindo que Katie ainda queira casar comigo, depois de tudo o que ouviu de você.
Katie estava atônita ao saber que os proclamas do casamento já haviam sido lidos na igreja local. Como Ramon conseguira providenciar isso, estando em St. Louis? De alguma forma, conseguiu esboçar um leve sorriso quando Ramon apresentou-lhe Rafael Villegas como o homem que sempre fora como ”um segundo pai” para ele, mas vários minutos se passaram antes que pudesse recuperar-se e prestar atenção à conversa.
— Quando vi o carro vindo nesta direção — Rafael estava dizendo —, iquei contente por você não estar envergonhado de trazer sua noiva para cá e mostrar onde estão suas raı́zes, mesmo agora que...
— Katie — Ramon interrompeu-o abruptamente. — Você ainda não está acostumada com este sol. Talvez fosse melhor esperar dentro do carro, onde está mais fresco.
Surpresa com a maneira como ele a despachava educadamente, Katie despediu-se de Rafael e voltou para o ar condicionado do Rolls-Royce. Qualquer que fosse o assunto que Ramon tratava com o senhor Villegas, fez com que o homem se mostrasse quase comicamente admirado, depois assustado, e então muito preocupado. Katie icou aliviada quando por im se despediram, e ambos sorriam outra vez.
— Desculpe por ter pedido que você saı́sse daquela maneira — disse Ramon, entrando no carro. — Entre outras coisas, eu precisava discutir o serviço que deve ser feito na casa, e Rafael ficaria constrangido se você estivesse presente quando falássemos de dinheiro. — Pressionando o botão que abria a separação do motorista, Ramon deu as instruções em espanhol, depois tirou o paletó e a gravata, abriu o botão da camisa e estendeu as longas pernas. Parecia, Katie pensou, um homem que acabara de passar por uma terrı́vel provação, mas que estava relativamente satisfeito com os resultados.
Mil perguntas atropelavam-se em sua mente, e ela começou com a menos importante:
— Para onde vamos agora?
— Para o vilarejo, onde faremos uma refeição tranquila. — Ramon passou o braço pelos ombros dela, os dedos brincando com a pedrinha de turquesa em seu brinco. — Enquanto estivermos jantando, Rafael vai dizer à sua ilha casada que arrume o quarto de hóspedes para você. Eu pretendia levá-la para a minha casa, mas não está habitável. Além disso, não havia considerado a necessidade de uma acompanhante para você, até que Rafael me lembrou desse detalhe.
— Uma acompanhante? Você não pode estar falando sério — Katie disparou. — Isso é... é...
— Necessário — Ramon completou a frase.
— Pois eu ia dizer antiquado, arcaico e tolo.
— É verdade. Porém, em nosso caso, ainda é necessário. Katie franziu a testa.
— Em nosso caso?
— Katie, nesse vilarejo nada acontece, por isso todos observam o que os outros fazem e comentam a vida de todo mundo. Sou um homem solteiro e, portanto, um objeto de interesse.
— Foi o que percebi, pelo que o sr. Villegas disse Katie retrucou.
Ramon sorriu.
— Sendo minha noiva, você também é um objeto de interesse. E, mais importante, você é também norte-americana, o que a transforma num alvo de crı́ticas. Há muitas pessoas aqui que acreditam que as mulheres norte-americanas perderam todo o senso da moral.
Katie estava pronta para argumentar com veemência contra aquilo. Seus olhos reluziram perigosamente, as faces icaram rosadas. Ramon, interpretando com correção os sinais de perigo, puxou-a para perto de si e beijou-a na testa.
— Quando digo ”acompanhante” não estou me referindo a uma pessoa que vai segui-la por toda parte, Katie. Signi ica apenas que você não estará morando sozinha. Do contrário, no instante em que eu passar pela porta, as ”fofoqueiras” irão dizer que estamos dormindo juntos e, porque você é norte-americana, todos vão acreditar. Você pode achar que isso não importa, mas este será o seu lar. Não vai gostar se, passados até alguns anos, não puder andar pelo vilarejo sem que as pessoas cochichem sobre você.
— Ainda assim, faço objeções a essa ideia, por princípio
— ela falou, embora sem muita convicção, pois Ramon passara a beijar-lhe a orelha.
O riso abafado dele provocou-lhe um arrepio na espinha.
— Eu esperava que você izesse objeções por achar que uma acompanhante tornaria mais difícil para nós... ficarmos sozinhos.
— Isso também — ela admitiu com candura. O riso de Ramon foi rico, profundo.
— Eu vou icar com a famı́lia de Rafael. A casa de Gabriella, onde você será hospedada, ica a dois quilômetros de distância. — Alisando os cabelos dela, acrescentou, num tom rouco: — Nós vamos encontrar o lugar e o momento certos para compartilharmos um ao outro.
Katie achou essa uma maneira linda de descrever o ato de amor; duas pessoas compartilhando seus corpos de forma que cada um obtivesse prazer do outro. Sorriu, perguntando-se se algum dia iria compreender Ramon. Ele possuı́a uma combinação única de gentileza e força; de rude e potente virilidade mesclada com uma evidente experiência sexual e terna contenção. Não era de admirar que se sentisse tão confusa desde o dia em que o conhecera. Jamais conhecera alguém nem sequer remotamente parecido com ele em toda sua vida
Ao chegarem perto da praça do vilarejo, Garcia diminuiu a velocidade do carro e parou.
— Achei que você iria preferir caminhar um pouco Ramon explicou, ajudando Katie a descer do veı́culo. Garcia deixará suas coisas na casa de Gabriella, depois voltará para Mayagúez, onde mora.
O sol começava a se pôr no horizonte, numa profusão de tons rosados e dourados contra o céu azul, enquanto Katie e Ramon caminhavam devagar pela praça, até chegarem à antiga e imponente igreja em estilo espanhol.
— É aqui que vamos nos casar — disse Ramon.
Katie observou com prazer a igreja e as pequenas construções que a cercavam dos quatro lados, formando a praça do vilarejo. A in luência espanhola era evidente nas portas e janelas em arco, e as grades de ferro nas lojas que vendiam de tudo, desde pães frescos até imagens de santos esculpidas em madeira. As lores cresciam em toda parte, pendendo dos balcões e janelas em enormes vasos na frente das lojas, acrescentando suas cores vibrantes à beleza da pitoresca pracinha. Turistas com as câmeras fotográ icas em punho vagavam pela praça, parando para espiar nas lojinhas ou nos cafés nas calçadas, bebericando coquetéis à base de rum, enquanto observavam os habitantes locais.
Katie olhou para Ramon, que caminhava ao seu lado levando o paletó pendurado no ombro. Apesar da aparência distraı́da, ela quase podia sentir a ansiedade dele, enquanto esperava para ver sua primeira reação ao vilarejo.
— É lindo — ela disse, sincera. — Muito pitoresco e charmoso.
Ele enviou-lhe um olhar desconfiado.
— Mas pequeno, e não era o que você esperava...?
— Mais bonito e mais conveniente do que eu esperava
— Katie o contradisse, obstinada. — Tem até mesmo um armazém geral. E — ela acrescentou com um sorriso brincalhão — tem dois hotéis! Estou muito impressionada!
Sua brincadeira obteve o resultado que os elogios sinceros não conseguiram. Sorrindo, Ramon passou o braço pela sua cintura e puxou-a para si, num abraço rápido e apertado.
— O Casa Grande — disse, apontando para o hotel de três andares com os balcões cercados por grades de ferro trabalhado — possui dez apartamentos para hóspedes. O outro hotel tem apenas sete, mas tem também um pequeno restaurante, onde a comida costumava ser muito boa. É lá que vamos jantar.
Havia cinco mesas no restaurante, quatro das quais estavam ocupadas por turistas que riam e conversavam. Katie e Ramon foram levados à que restara. O garçom acendeu a vela no centro da mesa coberta por uma toalha xadrez vermelho e branco, e anotou os pedidos. Ramon recostou-se na cadeira e sorriu para Katie, que o observava com uma expressão intrigada.
— Em que você está pensando? — ele perguntou.
— Estava me perguntando onde será que você morava antes, e o que esteve fazendo. Não poderia estar trabalhando na fazenda, pois, se assim fosse, não precisaria ficar hospedado na casa de Rafael.
Ramon respondeu devagar, quase cauteloso:
— Eu morava perto de Mayaguez, e até o momento estive trabalhando numa empresa cujos negócios estão sendo encerrados.
— Essa empresa é do ramo de produtos alimentícios?
— Katie perguntou.
Ele hesitou um pouco, depois assentiu.
— Entre outras coisas, sim, é uma empresa de enlatados e conservas. Em vez de ir trabalhar para uma outra companhia, eu já havia decidido, quando a conheci, que preferia trabalhar em minha própria fazenda, pois assim não precisaria mais pagar a alguém para fazer o que eu mesmo poderia estar fazendo. Nestas próximas duas semanas ainda terei de dedicar parte do meu tempo para essa empresa; o restante do tempo estarei trabalhando com os homens que vão reformar a nossa casa.
Nossa casa. A frase fez com que o estômago de Katie se contorcesse. Soava tão estranho, tão derradeiro. Desviando os olhos, icou brincando com o copo, girando-o lentamente entre os dedos.
— De que você tem medo, Katie? — Ramon perguntou, após uma pausa.
— De nada. Eu... eu só estava pensando em que vou icar fazendo, quando você for trabalhar.
— Enquanto eu estiver no trabalho você pode sair para comprar as coisas de que precisaremos para a nossa casa. Existem várias lojas de artigos domésticos e artesanato nos vilarejos, mas os móveis terão de ser comprados em San Juan. Gabriella vai levá-la às lojas e funcionará como intérprete, quando você precisar.
— Os móveis? — Katie encarou-o, surpresa. — Não vai trazer os móveis da sua casa em Mayaguez?
— Vou vendê-los todos. De qualquer forma, não seriam adequados para o chalé.
Katie, vendo a maneira como Ramon retesava os lábios, presumiu que ele envergonhava-se dos móveis que possuı́a e que, como acontecera com a casa, julgava que não eram bons o bastante para ela. Sabia perfeitamente que Ramon providenciara sua hospedagem na casa de Gabriella por não poder arcar com as despesas de um hotel por três semanas; a explicação dele a respeito de que querer evitar os boatos não a convencera nem um pouco. Ele não podia pagar um hotel e, com certeza, tampouco poderia arcar com as despesas de mobiliar uma casa. Ainda assim, estava disposto a comprar móveis novos para ela, a im de agradá-la. Saber disso a fazia sentir-se extremamente insegura.
E se algo acontecesse, a ponto de convencê-la de que não deveria casar-se com ele? Como poderia lhe dar uma notı́cia dessas, depois de deixá-lo gastar todo o seu dinheiro tentando lhe dar o que ele achava que ela queria? Katie sentiu-se como se estivesse presa numa armadilha, uma jaula em que ela própria se colocara, e à medida que as portas se fechavam, o pânico começava a se instalar. O casamento, com toda sua assustadora irrevogabilidade, subitamente agigantava-se à sua frente, e Katie sabia que, de alguma forma, teria de sentir-se livre para partir, se por acaso mudasse de ideia no decorrer das próximas semanas.
— Quero que uma parte dos móveis fique por minha conta — ela anunciou de repente.
Ramon esperou que o garçom se afastasse, antes de retrucar.
— Não — disse, sucinto.
— Mas...
— Eu não teria sugerido que comprássemos os móveis se não pudesse pagar por eles.
Ele esperava que isso encerrasse a discussão de uma vez por todas, mas Katie estava desesperada.
— Essa não é a questão!
— Não? — ele perguntou. — Então, qual é a questão?
— A questão é que você já vai gastar muito dinheiro na reforma da casa, e móveis são muito caros.
— Amanhã eu lhe darei três mil dólares para você gastar com as coisas da casa e...
— Três mil dólares? — Katie interrompeu-o, atônita. Como pode gastar tanto? Onde conseguiu esse dinheiro?
Houve uma imperceptível hesitação, antes que ele respondesse:
— Essa empresa que está encerrando as atividades pagou-me uma espécie de indenização. É daí que vem o dinheiro.
— Mas... — ela começou a argumentar.
A expressão de Ramon fechou-se imediatamente. Com fria determinação, ele disse:
— Como homem, é responsabilidade minha lhe dar uma casa e toda a mobı́lia. Você não vai usar seu dinheiro para isso.
Katie fechou os olhos por um instante, ocultando com cuidado o brilho de revolta do olhar penetrante que ele lhe enviava. Ramon, concluiu, estava prestes a descobrir que excelente negociante ela era. Todos os móveis da casa iriam lhe custar exatamente a metade do que valiam, porque ela iria pagar pela outra metade.
— Estou falando sério, Katie.
O tom autoritário fez com que ela congelasse no ato de cortar um pedaço da carne.
— Proı́bo que você use o seu dinheiro, seja agora ou depois que nos casarmos. Ele deverá manter-se intocado em seu banco em St. Louis.
Ela estava tão determinada a convencê-lo que até se esqueceu de zangar-se com o uso que ele fizera do verbo ”proibir”.
— Você não entende, Ramon... O dinheiro não me faria falta alguma. Além de tudo o que economizei do meu salário, tenho um fundo de ações estabelecido por meu pai há muitos anos, e uma espécie de participação nos lucros da empresa dele. Os lucros que obtenho com isso são enormes. Eu nem mesmo teria de tocar no capital principal, visaria apenas os rendimentos e...
— Não — ele disse, implacável. — Não sou nenhum indigente. E, mesmo se fosse, não aceitaria o seu dinheiro. Desde o início você já sabia como me sinto a esse respeito, não é?
— é, sim — ela murmurou.
Ramon suspirou, um som áspero e repleto de uma raiva que, Katie pressentiu, era dirigida mais a ele mesmo do que a ela.
— Katie, eu nunca tentei viver apenas com os rendimentos da fazenda. Ainda não sei quanto dinheiro será necessário para se fazer as melhorias na propriedade, de forma que cada hectare se torne produtivo novamente. Uma vez que a fazenda esteja produtiva e dando lucros, poderá nos sustentar com um conforto razoável, mas até lá qualquer centavo que eu puder economizar deverá ir para a propriedade. Aquela fazenda é a única segurança que posso lhe oferecer, e suas necessidades devem vir em primeiro lugar. E muito humilhante para mim ter de explicar tudo isso a você, sobretudo agora, depois de tê-la trazido para cá. Achei que você havia compreendido o tipo de vida que eu poderia lhe oferecer, antes de ter concordado em acompanhar-me.
— Eu compreendi, e não estou preocupada em ter de privar-me de coisas supérfluas.
— Então, o que a preocupa?
— Nada — Katie mentiu, mais determinada do que nunca em usar seu dinheiro para pagar metade dos móveis.
Ramon estava levando aquela história de orgulho longe demais! Sua atitude era insensata, irracional e antiquada, especialmente se fossem se casar. Mas, desde que ele mostrava-se tão irredutível a respeito de seu dinheiro, ela nunca lhe diria o que havia feito.
A expressão dele suavizou-se.
— Se você quiser, podemos guardar seu dinheiro num fundo para nossos filhos.
Filhos? Katie pensou, sentindo o coração disparar num misto de prazer e pânico. Na velocidade em que Ramon estava conduzindo as coisas, sem dúvida ela acabaria tendo um ilho dentro de um ano. Por que tudo tinha de acontecer tão depressa? Lembrou-se do comentário de Rafael acerca dos proclamas que foram lidos na igreja naquela manhã, e sentiu o pânico crescer. Sabia que os proclamas tinham de ser lidos nos três domingos consecutivos antes do casamento. Tendo providenciado para que fossem iniciados naquele dia, Ramon havia sorrateiramente eliminado uma semana do precioso tempo que Katie contava ter, antes de tomar a decisão final. Ela tentou concentrar-se na comida, mas mal podia engolir.
— Ramon, como conseguiu providenciar para que os proclamas fossem lidos esta manhã, se nós só chegamos à tarde?
Algo em sua voz alertou-o para o con lito em que ela se debatia. Ramon afastou o prato para o lado, sem preocupar-se mais em ingir que comia. Fitando-a de maneira tão intensa que era quase irritante, disse:
— Na sexta-feira, enquanto você estava no trabalho, liguei para o padre Gregório e disse-lhe que desejava me casar aqui, o mais breve possı́vel. Padre Gregório me conhece desde que nasci e sabe que não existe obstáculo algum que me impeça de casar na igreja. Assegurei-lhe de que não haveria nenhum obstáculo de sua parte, também. Naquele encontro que tive com seu pai, ele deu-me o nome de seu pastor, que também a conhece. Passei a informação ao padre Gregório para que ele próprio confirmasse, caso achasse necessário. Foi muito simples.
Katie desviou os olhos dos dele, mas não a tempo.
— Há alguma coisa incomodando-a, Katie — Ramon concluiu. — O que é?
Após um silêncio tenso, ela balançou a cabeça.
— Nada, de verdade. Apenas estou um pouco surpresa com o fato de que tudo foi arranjado sem o meu conhecimento.
— Não foi intencional. Presumi que seu pai havia mencionado nossa conversa e, evidentemente, ele deve ter presumido que você já sabia de tudo.
Katie estava com a mão trêmula, quando afastou seu prato.
— O padre Gregório não terá de falar comigo... isto é, conosco... antes de concordar em realizar o casamento? perguntou.
— Sim.
Ramon acendeu um charuto ino, depois recostou-se na cadeira, observando-a com atenção.
Katie passou a mão pelos cabelos, ajeitando os inexistentes fios soltos.
— Por favor, pare de me olhar desse jeito — sussurrou, num tom de súplica.
Com um gesto rápido, Ramon virou-se e fez um sinal para o garçom, pedindo a conta.
— É muito difícil não olhar para você, Katie. Você é linda. E está muito assustada.
Tais palavras foram ditas com tanta frieza, sem qualquer emoção, que Katie levou um instante antes de ter certeza de que ouvira corretamente. Mas, então, já era tarde demais para reagir; Ramon já deixava o dinheiro sobre a mesa e, levantando-se, fez a volta para ajudá-la a sair da cadeira.
Em silêncio, saı́ram para a noite escura e acetinada, com o céu revestido de estrelas reluzentes, e atravessaram a praça deserta. Depois do calor da tarde, a brisa noturna era surpreendentemente fresca, brincando com as pregas do vestido de seda de Katie. Ela estremeceu, mais devido às suas emoções con litantes do que ao frio. Ramon tirou o paletó que levava no ombro e colocou-o em suas costas.
Ao passarem pela linda igreja, as palavras dele ecoaram na mente de Katie: ”E aqui que vamos nos casar”.
Certa vez ela já havia saı́do de uma igreja, vestida de noiva... exceto que fora de uma enorme construção em estilo gótico, com limusines en ileiradas na calçada atrapalhando o tráfego do sábado, à espera de saı́da dos noivos. David icara ao seu lado nos degraus da igreja, enquanto os fotógrafos tiravam fotogra ia de todos os ângulos. Ele estava esplêndido em seu smoking preto, e ela estava linda com o vestido branco e o véu. Depois, foram atirados num alvoroço de cumprimentos e abraços, rindo sob a chuva de arroz. David estava tão bonito, e ela o amara tanto naquele dia... Ela o amara tanto!
As luzes nas janelas das casas iluminavam o caminho por onde Katie e Ramon passavam. De repente ela foi assaltada pelas lembranças que julgara enterradas.
David.
Durante os seis meses do casamento, ele a mantivera num estado de perplexa humilhação e, depois, de medo. Mesmo durante o breve noivado, Katie às vezes reparava nos olhares interessados que ele enviava a outras mulheres. Mas conseguira conter o ciúme doloroso dizendo a si mesma que David era um homem de trinta anos e que pensaria que ela estava agindo como uma criança possessiva. Além disso, ele apenas olhava para elas. Nunca fora realmente infiel.
Estavam casados havia dois meses quando Katie inalmente criticou-o, e apenas porque sentia-se tão magoada e envergonhada que fora incapaz de se conter. Eles haviam ido a um jantar formal para os membros da Associação de Advogados do Missouri, onde a bela esposa de um famoso advogado de Kansas City capturou o interesse de David. O flerte iniciou-se durante os coquetéis, ganhou forças quando sentaram-se juntos no jantar, e loresceu completamente na pista de dança. Pouco depois disso, ambos desapareceram por quase uma hora e meia, e Katie fora deixada sozinha no salão, suportando não apenas a piedade das pessoas que conhecia como também a fúria incontida do marido traído.
Ao voltarem para o apartamento, Katie estava prestes a explodir. David ouviu seu desabafo indignado e lacrimoso enquanto lexionava as mãos nervosamente. Outros quatro meses iriam passar antes que Katie descobrisse o que tal gesto convulsivo de fato signi icava. Quando terminou, ela esperava que ele negasse ter feito qualquer coisa de errado, ou então que se desculpasse pelo seu comportamento. Em vez disso, David se levantou, enviou-lhe um olhar de desprezo e foi para a cama.
Porém, a retaliação iniciara-se no dia seguinte. Seu castigo foi aplicado com a crueldade re inada de um homem que, na superfı́cie, parecia estar apenas tolerando a presença indesejada dela em sua vida, mas que na verdade se comprazia em torturá-la mentalmente.
Nenhuma falha, fosse real ou imaginária, em seu rosto, em sua aparência, em sua postura ou personalidade, passava despercebida a David, ou icava sem receber algum tipo de comentário. ”Saias pregueadas deixam seus quadris ainda mais largos”, ele comentava com indiferença. Katie protestava, dizendo que não tinha quadris largos, mas, assim mesmo, começou a frequentar uma academia de ginástica. ”Se você cortasse os cabelos bem curtos, seu queixo não pareceria tão grande”. Katie jurava que seu queixo não era ”grande”, mas cortou os cabelos. ”Se você corrigisse sua postura, não rebolaria tanto quando anda.” Katie corrigiu a postura, perguntando-se se ainda estaria ”rebolando”.
Os olhos de David jamais paravam, seguindo-a por toda parte até que Katie se sentisse tão insegura que não conseguia mais atravessar uma sala sem bater numa mesa, ou trombar numa cadeira. E isso, também, não passava despercebido. Nem a comida que ela deixava queimar, ou as roupas que esquecia de levar à lavanderia, ou a poeira que deixava de tirar das estantes. ”Algumas mulheres são capazes de cuidar da casa e ter uma carreira”, David comentara certa noite, enquanto ela dava brilho nos móveis. ”E óbvio que você não é uma delas. Terá de desistir do seu trabalho.”
Olhando para trás, Katie não podia acreditar na facilidade com que ele a manipulara. Por duas semanas consecutivas David havia feito ”serão no escritório”. Quando estava em casa, ignorava-a completamente. E, quando se dignava a falar com ela, era sempre para ridicularizá-la, ou num tom de frio sarcasmo. Katie tentava, de todas as maneiras, evitar as crı́ticas e agradá-lo, mas David encarava seus esforços com um gélido desprezo. Em apenas duas semanas, conseguira reduzi-la a um triste estado de tensão e lágrimas, fazendo-a acreditar que era desajeitada, estúpida e inepta. Mas, na época, Kátia tinha somente 21 anos, recém-saı́da da faculdade, enquanto David era nove anos mais velho, sofisticado e autoritário.
A ideia de abandonar seu emprego a deixara em pânico.
— Eu adoro meu trabalho — ela dissera, as lágrimas correndo pelo rosto.
— Pois achei que você ”adorava” o seu marido — David retrucara com frieza. Olhara para as mãos dela, que lustravam febrilmente a madeira da mesa. — Tenho um carinho especial por esse vaso de porcelana — dissera, insolente. — Afaste-o, antes que o derrube no chão.
— Não vou derrubá-lo! — Katie havia gritado, virando-se para ele com raiva e lágrimas nos olhos, e derrubando o valioso vaso da mesa. Este caı́ra e se quebrara em vários pedaços. Ela atirou-se nos braços de David, desmanchando-se em soluços incontidos. — Eu amo você, David... Não sei o que há de errado comigo ultimamente. Desculpe-me, por favor. Vou desistir do meu emprego e...
David estava vingado. Tudo foi esquecido. Ele a consolara com algumas palmadinhas nas costas, dizendo que, se ela o amava, era tudo o que importava e que não precisava desistir do emprego. O sol despontara novamente em seu casamento e David era de novo aquele homem gentil, encantador e prestativo de sempre.
Quatro meses depois, Katie saı́ra do escritório mais cedo, com a intenção de surpreender David com um jantar especial para comemorar seis meses de casamento. E de fato o surpreendera. Ele estava na cama com a mulher do sócio principal da irma de advogados onde trabalhava, recostado na cabeceira da cama, fumando um cigarro, enquanto a mulher, nua, aninhava-se ao seu lado. Uma calma mortal invadira Katie, embora sentisse o estômago revirando.
— Sendo óbvio que vocês já terminaram — ela dissera em voz baixa, parada na soleira da porta —, eu gostaria que saíssem daqui. Os dois.
Sentindo-se envolta numa bruma, fora para a cozinha e começara a cortar os cogumelos que havia comprado para o jantar. Cortou o dedo duas vezes, sem perceber que sangrava. Minutos depois, a voz baixa e ciciante de David sibilou em seu ouvido:
— Sua cadela vadia, antes que esta noite termine eu vou ensinar-lhe os bons modos. Sylvia Conner é a mulher do meu patrão. Agora, saia daqui e vá pedir desculpas a ela.
— Vá para o inferno! — Katie disse, numa voz sufocada pela dor e a humilhação.
As mãos dele agarraram seus cabelos, puxando sua cabeça para trás.
— Estou avisando, faça o que eu mandei ou irá arrepender-se depois que ela sair.
Lágrimas de tormento e angústia encheram os olhos de Katie, mas ela encarou-o sem piscar.
— Não.
Soltando-a, David foi para a sala.
— Sylvia — ela o ouviu dizer —, Katie lamenta muito por tê-la aborrecido e amanhã irá lhe pedir desculpas pessoalmente por sua falta de educação. Venha, vou acompanhá-la até o carro.
Quando os dois saı́ram do apartamento, Katie encaminhara-se para o quarto que compartilhava com David e tirou as malas do armário. Estava abrindo as gavetas e removendo as roupas quando o ouviu entrar.
— Sabe de uma coisa, querida? — ele disse num tom suave, parado na porta. — Quatro meses atrás eu achei que você havia aprendido a nunca mais me deixar contrariado. Tentei ensinar-lhe da maneira mais fácil mas, pelo visto, não funcionou. Receio que, desta vez, a lição tenha de ser um pouco mais memorável.
Katie erguera os olhos e o vira tirar calmamente o cinto da calça, enrolando-o na mão. Até mesmo suas cordas vocais congelaram de terror.
— Se você se atrever a me tocar — disse, com a voz sufocada —, eu chamo a polícia.
— Não vai, não. Você vai chorar muito, pedir desculpas e dizer que me ama.
E ele estava certo. Meia hora depois, Katie ainda gritava ”eu amo você”, com o rosto escondido no travesseiro, quando a porta do apartamento fechou-se atrás dele.
Ela não fazia ideia de quanto tempo se passara antes que se obrigasse a sair da cama, vestisse um casaco, pegasse a bolsa e saı́sse do apartamento. Não se lembrava de ter dirigido para a casa de seus pais naquela noite, e nunca mais retornou ao apartamento.
David havia ligado para ela noite e dia, tentando, convencê-la a voltar, e também ameaçando-a. Estava profundamente arrependido; estivera sob muita pressão no trabalho, com o fechamento de um caso; aquilo nunca mais tornaria a acontecer.
Quando Katie tornara a vê-lo, estava acompanhada de seu advogado, numa audiência de divórcio.
Agora, Katie olhou para cima quando Ramon virou para uma estreita trilha de terra. Logo adiante, a distância, ela viu luzes brilhando contra a encosta da colina. Devia ser a casa de Gabriella, pensou. Olhou para as colinas que rodeavam o vale, todas salpicadas de luzes de outras casas, algumas mais altas, outras mais baixas, outras ainda mais distantes. O reluzir das luzes dava a impressão de que as colinas recebiam-na com alegria, parecendo um porto seguro na noite escura. Katie tentou saborear aquela vista, concentrar-se no presente e no futuro, mas o passado recusava-se a deixá-la em paz. Agarrava-se a ela, alertando-a...
Na verdade, David não a enganara completamente; fora ela quem deixara-se enganar. Mesmo sendo uma virgem ingênua de 21 anos, ela pressentira que, na verdade, ele não era o homem encantador que parecia ser. Seu subconsciente registrara a raiva controlada nos olhos dele, quando um garçom não o atendia depressa o bastante num restaurante; o flexionar nervoso das mãos no volante, quando outro motorista não saı́a da sua frente; havia visto o interesse velado na expressão dele, quando olhava para outras mulheres. Katie suspeitara de que David não era o homem que queria fazê-la acreditar ser, mas estava apaixonada e casara-se com ele assim mesmo.
Agora, estava prestes a se casar com Ramon e não conseguia afastar a terrı́vel suspeita de que ele também não era o homem que ingia ser. Ramon era como um quebra cabeça cujas peças não se encaixavam muito bem. E ele parecera tão hesitante, tão pouco disposto a falar, quando ela lhe izera perguntas sobre sua vida e seu passado. Se não tinha nada a esconder, por que se mostrava tão relutante a falar sobre si mesmo?
Isso provocou uma tempestade de respostas no coração de Katie. Apenas porque Ramon não gostava de falar sobre si mesmo não signi icava que estava lhe escondendo alguma caracterı́stica sinistra de sua personalidade. David adorava falar sobre si e, portanto, nesse aspecto os dois homens eram bem diferentes.
Eles eram diferentes em todos os aspectos, disse a si mesma com firmeza. Ou não?
Ela só precisava de mais tempo para acostumar-se com a ideia de tornar a se casar, concluiu. Tudo acontecera tão depressa que, agora, ela estava entrando em pânico. Nas próximas duas semanas, aquele medo irracional acabaria desaparecendo. Ou não?
A casa de Gabriella já estava bem à vista quando Ramon parou abruptamente na frente de Katie, bloqueando-lhe a passagem.
— Por quê? — ele indagou, num tom tenso, demonstrando frustração. — Por que você está com tanto medo?
— Eu... eu não estou com medo — ela negou, assustada.
— Está, sim — ele afirmou, intenso.
Katie ergueu os olhos para o rosto de Ramon iluminado pela lua. Apesar do tom rı́spido, havia suavidade em seus olhos e uma força tranquila em seus traços. David jamais fora suave ou forte. Havia sido violento e covarde.
— Acho que é porque tudo está acontecendo tão rápido
— ela respondeu, sendo parcialmente sincera. Ele franziu a testa.
— É apenas isso que a preocupa?
Katie hesitou. Não poderia explicar-lhe a fonte de seus temores. Nem mesmo ela os compreendia por inteiro, ao menos naquele momento.
— Há tanto a ser feito, em tão pouco tempo — disse, desviando-se da questão principal.
Ramon suspirou de alívio, enquanto a tomava em seus braços, puxando-a contra seu peito.
— Katie, minha intenção sempre foi casar-me com você daqui a duas semanas. Seus pais estarão aqui para a cerimônia, e vou cuidar de todos os detalhes. Tudo o que você precisa fazer, nesse meio tempo, é conversar com o padre Gregório.
A voz aveludada, a respiração em seus cabelos, o perfume másculo do corpo dele, tudo contribuía para exercer a magia em Katie.
— Conversar com o padre Gregório sobre a cerimônia?
— ela perguntou, recostando a cabeça em seu peito firme.
— Não, para convencê-lo de que você é a mulher certa para mim — Ramon corrigiu-a.
— Sério? — Katie perguntou num sussurro, a atenção absorvida nos lábios sensuais que se aproximavam dos seus.
O desejo começou a percorrer-lhe as veias, sufocando todas as suas dúvidas e temores.
— Se sou sério a seu respeito? Você sabe que sim — ele murmurou, os lábios tão próximos agora que seu hálito quente mesclava-se com o dela.
— Quero saber se está falando sério sobre eu ter de convencer o padre Gregório de que serei uma boa esposa para você — ela disse, a boca quase colada na dele.
— Estou, sim — Ramon sussurrou. — Agora, convença-me. Um leve sorriso tocou os lábios dela, enquanto ele enlaçava-lhe a nuca, puxando-o para si.
— Você é do tipo difícil de convencer? — brincou. A voz de Ramon estava rouca de paixão.
— Vou tentar ser.
Katie acariciou-lhe a nuca, com movimentos lentos e provocantes, fazendo-o ofegar.
— Quanto tempo acha que vou levar para convencê-lo?
— murmurou, sedutora.
— Uns três segundos — ele respondeu, beijando-a com ardor.