Doce Triunfo

Judith McNaught · Capítulo 5 de 21

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Doce Triunfo

Capítulo 5

KATIE PASSOU A MANHA seguinte esperando Ramon num estado de crescente apreensão, preocupada demais em aparecer com ele na casa de seus pais para nem sequer contemplar o problema mais grave da proposta que ele lhe fizera.

As possibilidades de um desastre naquela festa eram quase ilimitadas. Para ela, não era importante que sua famı́lia gostasse de Ramon, nem tampouco permitiria que a opinião deles interferisse na sua decisão de ir ou não para Porto Rico. Amava sua famı́lia, mas tinha idade suficiente para tomar suas próprias decisões. O que de fato temia era que um deles pudesse dizer alguma coisa que o humilhasse. Sua irmã Maureen era uma esnobe intragável, que se esquecera convenientemente de que os Connelly nem sempre tinham sido ricos. Se descobrisse que Ramon era um trabalhador rural que dirigia um caminhão, Maureen seria capaz de esnobá-lo diante de todos, como forma de enfatizar a sua própria superioridade social.

Seus pais, Katie sabia, tratariam Ramon com a mesma cortesia que demonstravam para todos os convidados, independentemente do que ele fazia... contanto que não tivessem a impressão de que existiria algo além de uma simples amizade entre ele e a ilha. Se chegassem a suspeitar de que Ramon queria casar-se com ela, ambos seriam capazes de tratá-lo com um desprezo tão frio que o reduziria ao nı́vel de um parasita social, e na frente dos outros convidados.

Ramon seria desquali icado como provável genro no instante em que eles descobrissem que era incapaz de sustentar Katie num estilo de vida e conforto a que ela estava acostumada, e não hesitariam em deixar sua posição bem clara se sentissem que fosse necessário.

Ramon chegou às 15.30 em ponto. Katie convidou-o para entrar, recebendo-o com seu sorriso mais animado e otimista, o que o confundiu por um ou dois segundos. Puxando-a para seus braços, ele segurou-lhe o queixo e disse, num misto de seriedade e humor:

— Nós não vamos enfrentar um pelotão de fuzilamento, Katie. É apenas a sua família.

O beijo que ele lhe deu foi quente e reconfortante e, de alguma forma, quando ele a soltou, Katie sentia-se muito mais con iante. Tal sensação continuava presente meia hora depois, quando o carro passou pelos portões do Clube de Campo de Forest Oaks e parou diante da casa de seus pais.

Afastada da estrada particular por 3 hectares de campos bem cuidados, a residência dos Connelly era uma imponente construção em estilo colonial. Katie observou a reação de Ramon, mas ele limitou-se a olhar distraidamente para a casa, como se já tivesse visto centenas como aquela, e fez a volta para ajudá-la a sair do carro.

Ele ainda não dissera nada, quando estavam a meio caminho da entrada revestida de tijolos vermelhos que dava acesso às maciças portas da frente. Algum impulso maldoso fez com que Katie lhe enviasse um sorrisinho e perguntasse:

— Então, o que acha?

En iando as mãos nos bolsos traseiros da calça jeans, ela deu alguns passos antes de perceber que não apenas Ramon não respondera, mas que também havia parado de andar.

Virando-se, Katie descobriu-se sendo o objeto de seu olhar aprovador. Com um lampejo de divertimento nos olhos, ele a analisava lentamente desde seus cabelos reluzentes, demorando-se em seus lábios cheios e nos seios, seguindo as curvas graciosas de sua cintura, quadris e coxas, passando pelas pernas longas e bem torneadas, e depois retornando ao rosto dela.

— Eu acho — ele disse, com tranquila solenidade —, que o seu sorriso é capaz de iluminar a escuridão, e que o seu riso é como música. Acho que os seus cabelos parecem um manto de seda, brilhando sob o sol.

Hipnotizada por aquela voz profunda, Katie icou parada ali, o calor penetrando em todo seu corpo.

— Acho que você tem os olhos mais azuis que já vi, e gosto do jeito como brilham quando você está contente, ou como escurecem de desejo quando está nos meus braços.

— Um sorriso provocante surgiu nos lábios dele quando tornou a olhar para os seios de Katie, enfatizados pela posição em que ela se encontrava. — E gosto de como você ica com essa calça jeans. Mas, se não tirar as mãos dos bolsos, vou levá-la de volta para o carro, para que possa pôr as minhas mãos em você.

Katie removeu as mãos devagar, tentando emergir do estado de transe sensual para o qual ele a levara com apenas algumas palavras.

— Eu quis dizer... — ela falou, a voz rouca. — O que você acha da casa.

Ramon ergueu os olhos e balançou a cabeça, indiferente.

— Parece tirada do filme...E o Vento Levou.

Katie tocou a campainha, que pôde ser ouvida soando majestosamente acima do barulho de vozes e risos lá dentro.

— Katie, meu bem! — sua mãe recebeu-a dando-lhe um abraço rápido. — Vamos entrar. Todos os convidados já chegaram. — Sorriu para Ramon, que estava parado ao lado de Katie, e estendeu-lhe a mão graciosa, enquanto a ilha fazia as apresentações. — E um grande prazer recebê-lo, sr. Galverra — disse, com perfeita cortesia.

Ramon respondeu com semelhante gentileza, confessando-se encantado por estar ali, e Katie, que estivera prendendo o fôlego, sentiu toda sua tensão desaparecer.

Quando sua mãe desculpou-se, dizendo que precisava resolver um problema na cozinha, Katie levou Ramon através da casa até o magnı́ ico gramado dos fundos, onde um bar havia sido montado para atender aos convidados que ali espalhavam-se em pequenos grupos, rindo e conversando.

O que Katie pensara ser um churrasco era, na verdade, um coquetel seguido por um jantar formal para trinta pessoas, e embora icasse imediatamente evidente que Ramon era o único homem presente que usava jeans, ela achou que ele estava fantástico.

Com um sorriso de orgulho, reparou que não era a única mulher que pensava assim. Muitas amigas de sua mãe olhavam com franca admiração para o homem alto e moreno que permanecia ao seu lado, enquanto passavam socialmente de um grupo para outro.

Katie apresentou-o àqueles amigos e vizinhos de seus pais que ela conhecia, observando como Ramon conquistava de imediato as mulheres com seu sorriso e charme. Isso já era esperado. O que ela não esperava era o fato de ele interagir tão bem com os homens presentes, todos eles prósperos empresários locais. Em algum momento de seu passado, Ramon aquele verniz social devia ter adquirido, que a deixava atônita. Ele mostrava-se perfeitamente à vontade entre aquelas pessoas, capaz de conversar sobre tudo, desde esportes até polı́tica. Sobretudo política internacional, fato em que ela não pôde deixar de reparar.

— Você é muito bem informado sobre os acontecimentos mundiais — Katie comentou quando ficaram sozinhos por um instante.

Ele sorriu, enigmático.

— Eu sei ler, Katie.

Ela desviou os olhos, envergonhada, mas como se pressentisse outra pergunta, Ramon foi logo dizendo:

— Esta festa não é diferente de qualquer outra. Onde quer que os homens se reúnam, costumam falar sobre negócios, se estão em ramos de trabalho semelhantes. Caso contrário, discutem sobre esportes, polı́tica ou assuntos internacionais. E sempre a mesma coisa, em qualquer país.

Katie não icou muito satisfeita com a resposta, mas deixou o assunto de lado, por enquanto.

— Acho que estou com ciúmes! — comentou rindo pouco depois, quando uma mulher de 45 anos, com duas filhas crescidas, monopolizou a atenção de Ramon por dez minutos.

— Não precisa icar com ciúmes — ele disse com um leve divertimento, o que fez Katie pensar que Ramon devia estar acostumado à constante atenção das mulheres. — Elas vão perder todo o interesse quando ficarem sabendo que sou um simples trabalhador rural.

Isso, infelizmente, era verdade, Katie descobriu duas horas depois, para seu imenso desconforto. Todos estavam sentados na elegante sala de jantar, desfrutando de uma excelente refeição, quando a irmã de Katie perguntou, do outro lado da mesa:

— Qual é o seu ramo de negócios, sr. Galverra? Katie sentiu que o tilintar dos talheres de prata contra os pratos de porcelana inglesa cessou no mesmo instante, juntamente com todas as conversas paralelas na mesa.

— Ele está no ramo de transportes... e de produção de alimentos — ela improvisou com rapidez, antes que Ramon tivesse tempo de responder.

— Transportes? De que tipo? — Maureen persistiu.

— Ora, de todos os tipos — Katie respondeu, lançando um olhar fulminante para a irmã.

— Alimentos, você disse? — o sr. Connelly intrometeu-se, arqueando as sobrancelhas com interesse. — Atacado ou varejo?

— Atacado — Katie afirmou quase ríspida, de novo impedindo a resposta de Ramon.

Ao seu lado, ele inclinou-se disfarçadamente e, com um sorriso encantador, sussurrou-lhe no ouvido, num tom de aviso:

— Fique quieta, Katie, ou vão pensar que eu não sei falar.

— Atacado? — o sr. Connelly repetiu, pensativo, de seu lugar na ponta da mesa. Estava sempre ansioso em conversar sobre aquele tipo de negócios. — Quer dizer que está no ramo da distribuição?

— Não, da produção — Ramon respondeu com tranquilidade, apertando a mão gelada de Katie por baixo da mesa, num silencioso pedido de desculpas pela maneira como falara com ela.

— Ah, uma empresa operacional, imagino — disse o pai dela. — De que porte?

Cortando calmamente um pedaço de sua vitela ao molho de vinho, Ramon respondeu:

— É uma fazenda pequena, que mal se sustenta.

— Está dizendo que você é um pequeno fazendeiro? Maureen indagou, com mal disfarçado desprezo. — Aqui no Estado de Missouri?

— Não, em Porto Rico.

Mark, o irmão de Katie, aproveitou rapidamente aquela deixa, tentando mudar o rumo da conversa:

— Eu estava conversando com Jake Masters outro dia, e ele me disse que certa vez encontroo, num carregamento de abacaxis vindo de Porto Rico, uma aranha do tamanho de...

Um dos convidados, que aparentemente não estava interessado em aranhas, interrompeu o monólogo desesperado de Mark e voltou-se para Ramon:

— ”Galverra” é um sobrenome hispânico comum? Já ouvi falar muito sobre um ”Galverra”, mas não consigo lembrar-me do primeiro nome.

Katie pressentiu, mais do que observou, a tensão imediata em Ramon.

— Não é um sobrenome raro — ele disse. — E o meu primeiro nome é bastante comum.

No instante em que se virou para enviar a Ramon um sorriso encorajador, Katie interceptou o olhar de sua mãe, que só poderia ser descrito como de desagrado, e sentiu um nó formar-se em seu estômago.

Quando, por im, foram embora, o estômago de Katie já estava se contorcendo inteiro. Seus pais despediram-se educadamente de Ramon no vestı́bulo, mas Katie percebeu a maneira especulativa com que sua mãe o observava, e embora nada dissesse, conseguiu comunicar a Katie, e sem dúvida para Ramon, que não aprovava aquele relacionamento e tampouco a presença dele.

Para piorar as coisas, quando Katie e Ramon estavam saindo, a ilha de Maureen, de sete anos, puxou a saia da mãe e anunciou em alto e bom som:

— Mamãe, este homem fala de um jeito engraçado! No carro, Ramon foi dirigindo mergulhado num silêncio pensativo.

— Desculpe por ter-lhe dito para usar jeans. Katie falou inalmente, quando se aproximavam do condomínio.

— Eu poderia jurar que mamãe me disse, duas semanas atrás, que iria fazer um churrasco ao ar livre.

— Isso não tem importância — ele disse. — O que as pessoas vestem não modi ica o que realmente são.

Katie não sabia se ele queria dizer que roupas melhores não teriam modi icado a sua imagem, ou se sentia que sua imagem era apropriada, independentemente do que vestia.

— Desculpe pela maneira como Maureen se comportou

— tentou de novo.

— Pare de se desculpar, Katie. Ninguém pode pedir desculpas pelo comportamento dos outros. É inútil tentar.

— Eu sei, mas minha irmã é mesmo um osso duro de roer, e meus pais...

— Eles a amam muito — Ramon inalizou a frase para ela. — Querem vê-la feliz, com um futuro garantido e possuindo tudo o que o dinheiro pode comprar. Infelizmente, como a maioria dos pais, acreditam que se seu futuro for seguro, você será feliz. Do contrário, não será.

Katie icou admirada por ele estar defendendo seus pais. Dentro do apartamento, virou-se para ele, seu olhar perscrutando o rosto sombrio e inescrutável.

— Que tipo de homem é você, Ramon? — perguntou.

— Quem é você? Defende meus pais, sabendo que se eu decidisse acompanhá-lo a Porto Rico, eles fariam de tudo para me impedir. E reparei que, em vez de icar impressionado, você até se divertiu com as pessoas que conheceu hoje, e com o tamanho da casa dos meus pais. Você fala com um leve sotaque, mas o seu vocabulário é melhor do que o de muitos universitários que já conheci. Afinal, quem é você?

Ramon pousou as mãos em seus ombros tensos e disse calmamente:

— Sou o homem que quer levá-la para longe de tudo que você conhece e das pessoas que a amam. Sou o homem que quer levá-la para um paı́s desconhecido onde você, e não eu, terá di iculdades em falar o idioma. Sou aquele que deseja levá-la para morar na casa onde nasci, um chalé de quatro cômodos que são limpos e espaçosos, mas nada além disso. Sou o homem que sabe que é egoísta em fazer isso, mas ainda assim deseja tentar.

— Por quê? — ela murmurou.

Ramon inclinou a cabeça e roçou os lábios nos dela.

— Porque acredito que posso fazê-la mais feliz do que você jamais sonhou em ser.

Incrivelmente afetada pelo suave toque daqueles lábios, Katie tentou seguir a lógica dele.

— Mas como eu poderia ser feliz morando num chalé primitivo, onde não conheço ninguém e não poderia falar com ninguém, mesmo se tentasse?

— Isso eu lhe digo mais tarde. — Ele sorriu de repente.

— Por enquanto, posso apenas dizer que trouxe o meu próprio calção de banho.

— Você... você quer nadar? — ela gaguejou, incrédula. O sorriso dele era positivamente perigoso.

— Quero vê-la com o mı́nimo de roupas possı́vel, e o lugar mais seguro para isso, para nós dois, é a piscina.

O alı́vio sobrepujou o desapontamento, quando Katie foi para o quarto, tirou as roupas e vestiu um biquíni amarelo escandalosamente vivo. Olhou-se no espelho com um leve sorriso. Era o traje de banho mais exı́guo que já tivera coragem de comprar; duas minúsculas tirinhas de tecido que revelavam cada curva de seu corpo. Na verdade, nunca tivera coragem de vesti-lo antes, mas aquele dia parecia perfeito para isso. Tudo bem que Ramon decidisse, arbitrariamente, que iria manter a distância, mas, com uma pontinha de perversidade, ela queria di icultar-lhe isso o mais possı́vel. Escovou os cabelos até que estivessem brilhando e saiu do quarto no instante em que ele saı́a do banheiro. Ramon vestira um calção preto colado ao corpo, exibindo seu físico magnífico de tal forma que Katie sentiu a boca seca.

A reação dele ao vê-la, no entanto, estava longe do entusiasmo que ela imaginara. Os olhos negros perpassaram-lhe o corpo quase despido da cabeça aos pés.

— Vá trocar — ele disse num tom rı́spido que ela nunca ouvira antes. Com um certo atraso, acrescentou: — Por favor.

— Não — Katie retrucou com firmeza. — Não vou trocar de biquíni. Por que deveria?

— Porque eu pedi.

— Você me ordenou que o fizesse, e não gostei disso.

— Agora estou pedindo — Ramon insistiu, implacável.

— Por favor, vá trocar de biquíni.

Katie lançou-lhe um olhar fulminante.

— Eu vou à piscina com este biquíni, e ponto final.

— Então eu não vou com você.

De repente, Katie percebeu-se despida e vulgar, e culpou-o pela humilhação que estava sentindo. Foi para o quarto, tirou o biquíni amarelo e substituiu-o por um verde, mais discreto.

— Obrigado — Ramon disse em voz baixa, quando ela retornou à sala.

Mas Katie estava furiosa demais para falar. Escancarou a porta envidraçada, empurrou o portão da varanda e marchou na direção da piscina, que estava quase deserta. Ao que parecia, a maioria dos moradores fora passar o feriado com as famı́lias. Katie afundou graciosamente na espreguiçadeira mais próxima da piscina, ignorando Ramon, que icou parado, olhando-a com as mãos pousadas nos quadris.

— Não vai nadar? — ele perguntou.

Katie balançou a cabeça, os dentes cerrados.

Sentando numa cadeira diante dela, ele acendeu uma das cigarrilhas das quais tanto parecia gostar e inclinou-se para a frente.

— Katie, me escute.

— Não quero escutar nada. Não gosto de muitas coisas que você diz.

— Mas vai ouvir, de qualquer forma.

Ela ergueu a cabeça rapidamente, fazendo com que os cabelos se espalhassem pelos seus ombros.

— Ramon, esta é a segunda vez nesta noite que você me diz o que devo fazer, e não gosto disso. Se eu de fato estivesse disposta a casar com você, o que não estou, estes últimos vinte minutos teriam feito com que mudasse de ideia. — Levantou-se, adorando a sensação de estar mais alta do que ele, para variar. — Pelo bem do que restou desta noite, a nossa última noite juntos, eu vou nadar. Porque tenho certeza de que você vai acabar me ordenando para fazer isso.

Com largas braçadas, ela fez a volta pela piscina. Segundos depois, sentiu o impacto do corpo de Ramon mergulhando atrás dela. Katie nadou o mais depressa que podia, mas não icou surpresa quando ele a alcançou sem a menor di iculdade, nem quando puxou seu corpo tenso e relutante contra si.

— Há mais quatro pessoas nesta piscina, Ramon. Solte-me, antes que eu seja obrigada a gritar por socorro.

— Katie, será que pode se calar e deixar-me...

— Pronto, esta foi a terceira ordem que você me deu ela disparou, furiosa. — Já chega!

— Diabo — ele murmurou com raiva, segurando-a pela nuca e inclinando sua cabeça para trás, enquanto os lábios tomavam posse dos dela.

Mais furiosa do que nunca, Katie desvencilhou-se dele e passou a mão pela boca.

— Não gostei nada disso!

— Nem eu — ele retrucou. — Por favor, Katie, me escute.

— Estou vendo que não tenho outra escolha. Meus pés nem estão tocando o fundo da piscina.

Ramon ignorou-a.

— Katie, o seu biquı́ni era maravilhoso e iquei sem fôlego só de olhar para você. Se me escutar, posso explicar porque eu não quis que você icasse com ele. Ontem à noite, vários homens que moram aqui perguntaram-me se eu iria conseguir alguma coisa com a ”virgem vestal”. É assim que eles a chamam.

— O quê? — ela sibilou com imenso desgosto.

— Eles a chamam assim porque todos quiseram conquistá-la, mas nenhum deles conseguiu.

— Aposto que você se divertiu com isso — ela disse com amargor. — Não há dúvida de que pensou que alguém capaz de usar um traje de banho tão vulgar...

— Eu fiquei muito orgulhoso — ele interrompeu-a calmamente.

Katie já ouvira mais do que poderia suportar. Empurrou-lhe o peito imóvel.

— Bem, detesto desapontá-lo, sobretudo sabendo quanto você icou ”orgulhoso”, mas acontece que não sou virgem.

Ela viu o efeito que sua revelação provocou, pelo enrijecimento das linhas do rosto dele, mas Ramon não fez qualquer comentário. Em vez disso, falou:

— Até agora, eles a trataram com todo respeito, como se você fosse uma linda irmã mais nova. Mas se você aparecer por aqui usando aquele biquı́ni minúsculo, que deixa seu corpo inteiro à mostra, começarão a segui-la como um bando de cachorros atrás de uma cadela no cio.

— Não dou a mı́nima para o que eles pensam! Além disso — ela avisou quando ele abriu a boca para falar —, se você se atrever a me dizer o que devo fazer, sou capaz de lhe dar um soco!

Ele baixou os braços e Katie nadou até a escada, parou na espreguiçadeira apenas o bastante para pegar a toalha, e voltou sozinha para o apartamento. Depois de entrar, pensou em trancar a porta, mas ao lembrar-se de que as roupas de Ramon estavam lá, foi para o quarto e trancou-se.

Trinta minutos depois, quando já havia tomado um banho e se deitado, Ramon bateu na porta.

Ela sabia que, se abrisse, lhe daria a oportunidade de tomá-la em seus braços. E, no que se referia a Ramon, seu corpo recusava-se a ouvir a razão e em poucos minutos ela acabaria se entregando.

— Katie, deixe de ser teimosa e abra esta porta.

— Tenho certeza de que você sabe o caminho da saída

— ela falou com frieza. — Eu vou dormir. — Para dar mais ênfase, apagou o abajur na mesa de cabeceira.

— Katie, pelo amor de Deus, não faça isso a nós dois.

— Não existe ”nós dois”. Nunca existiu — ela retrucou. E, porque lhe doı́a tanto dizer tais palavras em voz alta, acrescentou: — Não sei por que você quer se casar comigo, mas sei muito bem de todos os motivos por que não posso me casar com você. Falar sobre eles não irá mudar nada. Vá embora, por favor. Acho que será melhor assim para nós dois.

Seguiu-se um silêncio agourento, depois disso. Katie esperou, olhando no relógio até que 45 minutos se passassem e então, com todo o cuidado e silêncio, destrancou a porta e espiou pelo apartamento às escuras. Ramon havia partido, apagando as luzes e trancando a porta atrás de si. Ela voltou para a cama e arrastou-se para baixo dos lençóis frios, ajeitando o travesseiro na cabeceira e acendendo novamente o abajur.

Escapara por pouco!, pensou. Bem, não tão pouco — na verdade, nunca levara a sério a ideia de casar-se com Ramon. Nos braços dele, tinha sido levada aos limites do desespero sexual, mas isso fora tudo. Felizmente, nenhuma mulher nos dias atuais casava-se apenas para saciar suas necessidades sexuais, incluindo Katherine Connelly! Acontecera apenas de ela desejar Ramon mais do que desejara qualquer outro homem — até mesmo Rob.

Tal pensamento fez com que sua mente mergulhasse numa espécie de caos. Talvez estivesse mais próxima da capitulação do que imaginara. A inal, seu trabalho não era assim tão recompensador; os homens que conhecia pareciam fúteis e egoı́stas. E Ramon era a antı́tese de todos eles. Ele satisfazia cada mı́nimo desejo seu. No Zoológico, fora para onde ela quisera ir. Se ela parecia cansada, insistia para que se sentassem e descansassem. Se ela lançasse um rápido olhar para uma barraca de refrigerantes, ele apressava-se em perguntar se estava com sede ou com fome. Se ela queria nadar, ele nadava. Se queria dançar, ele dançava

— contanto que pudesse prendê-la em seus braços, lembrou a si mesma com uma pontinha de ironia.

Ele jamais permitiria que ela carregasse um saquinho de supermercado ou uma valise de viagem. Não abria a porta, entrava e a fechava na cara dela, como muitos homens costumavam fazer, nem depois enviava-lhe um olhar que dizia: ”Bem, vocês, mulheres, querem igualdade, portanto abram suas portas sozinhas”.

Katie balançou a cabeça. O que havia com ela, pensando em casar com um homem somente porque ele lhe carregava as sacolas e abria-lhe as portas? Mas havia mais do que isso em Ramon. Ele era tão con iante em sua própria masculinidade que não tinha medo de ser gentil. Era seguro de si, orgulhoso e, no que se referia a ela, estranhamente vulnerável.

Os pensamentos de Katie seguiram um outro rumo. Como, pensou, se ele de fato vivia quase na pobreza, mostrara-se tão familiarizado com as formalidades observadas durante o jantar de seus pais? Nem uma vez ele demonstrara a menor incerteza sobre o que deveria fazer, que talheres usar, que vinho beber acompanhando cada prato. Nem se sentira minimamente deslocado na companhia dos influentes amigos de seu pai.

Por que ele estaria querendo casar-se, e não apenas levá-la para a cama? Na noite anterior, no sofá, icara bem claro que ela não lhe negaria nada. ”Deseje-me tanto quanto desejo você”, Ramon insistira e implorara. E quando ela realmente demonstrara que o desejava, ele havia se afastado, fechado os olhos e, sem exibir qualquer emoção, a pedira em casamento. Será que izera isso por pensar que ela era virgem? Os latinos ainda valorizavam a virgindade, mesmo nesses tempos de emancipação sexual. Ele ainda iria querer casar-se com ela sobretudo que não era mais virgem? Katie duvidava disso seriamente, e sentiu-se humilhada e indignada. Ramon Galverra soubera exatamente como excitá-la, levando-a aos limites do desejo na noite anterior, e com certeza não aprendera isso nos livros! Quem ele pensava que era, a inal? Ele não era virgem!

Katie apagou a luz e afundou nos travesseiros. Graças a Deus que nem chegara perto de partir para Porto Rico com ele! Ramon insistiria para que ela passasse a cuidar de sua casa, algo que praticamente lhe dissera durante o piquenique. Esperaria que sua esposa cozinhasse, limpasse, que cuidasse dele. Sem dúvida, a manteria o tempo todo ”descalça e grávida”, também.

Ora, nenhuma mulher liberada, em seu juı́zo perfeito, pensaria em se casar com um exemplo tão tı́pico de macho chauvinista... um macho chauvinista que estaria disposto a protegê-la contra tudo e contra todos... que trataria a esposa como se fosse feita de cristal... que com certeza trabalharia até a exaustão para lhe dar tudo o que ela quisesse... que sabia mostrar-se intensamente apaixonado... e tão delicado...