Doce Triunfo
Capítulo 2
O AMPLO BAR DO HOTEL Canyon Inn, próximo ao subúrbio de Westport, estava lotado com a habitual multidão das noites de sexta-feira. Katie Connelly olhou disfarçadamente no relógio, depois deixou seu olhar divagar através dos grupos que riam, bebiam e conversavam, procurando um rosto conhecido entre eles. A visão da entrada principal era obscurecida por uma profusão de plantas suspensas por cordões de macramê e pelas luminárias de vidro colorido penduradas no teto.
Mantendo um luminoso sorriso ixo no rosto, voltou sua atenção para o grupo de homens e mulheres que se amontoavam à sua volta.
— Então eu disse a ele para nunca mais me ligar Karen Wilson estava falando.
Um homem pisou no pé de Katie quando se esticou ao lado dela para pegar a bebida no bar. No momento em que en iou a mão no bolso para retirar o dinheiro, ele deu-lhe uma cotovelada na cintura. O homem não lhe pediu desculpas, e Katie tampouco esperava que o izesse. Ali, tanto homens como mulheres tinham direitos iguais.
Ao virar-se do bar com a bebida na mão, o sujeito finalmente reparou em Katie.
— Olá — ele disse, fazendo uma pausa para lançar um olhar interessado pelo seu corpo esguio e curvilı́neo coberto por um colante vestido azul. — Bom — concluiu em voz alta, enquanto fazia uma análise completa, desde os brilhantes cabelos avermelhados que lhe caı́am pelos ombros, os olhos cor de sa ira azul que o encaravam com desprezo sob os cı́lios espessos e as sobrancelhas delicadamente arqueadas. — Muito bom — ele corrigiu-se, sem perceber que o motivo que a fazia ruborizar era irritação, e não prazer. Embora se ressentisse por ele estar olhando-a como se tivesse pago pelo privilégio, Katie não poderia realmente culpá-lo. A inal, ela estava ali, não estava? Naquele local que, a despeito do que os proprietários e frequentadores preferiam pensar, não passava de um enorme bar de solteiros ligado a uma minúscula sala de jantar, que servia apenas para lhe conferir um mínimo de dignidade.
— Onde está sua bebida? — ele perguntou, reexaminando-a preguiçosamente.
— Não tenho nenhuma bebida — Katie respondeu, confirmando o óbvio.
— Por que não?
— Já bebi dois copos.
— Bem, por que não pega mais um e me encontra naquele canto? Podemos nos conhecer melhor. Eu sou advogado — o homem acrescentou, como se aquela única informação pudesse deixá-la ansiosa para pegar uma bebida e correr atrás dele.
Katie mordeu o lábio e fingiu uma expressão desapontada.
— Ah...
— ”Ah” o quê?
— Eu não gosto de advogados — ela informou, encarando-o fixamente.
O homem ficou mais surpreso do que aborrecido.
— Azar seu.
Encolhendo os ombros, ele virou-se e foi abrindo caminho pela multidão. Katie viu-o parar perto de duas jovens muito bonitas, que retribuı́ram o seu olhar investigativo e analisaram-no com evidente interesse. Katie sentiu uma onda de envergonhado nojo por ele e por todos que estavam naquele lugar lotado, mas sobretudo por si mesma, por também estar ali. Sentia-se envergonhada da sua própria rispidez, mas locais como aquele faziam-na colocar-se imediatamente na defensiva, e seu calor e espontaneidade naturais pareciam atro iar-se no instante em que passava pela porta.
O advogado, claro, esquecera-se dela num segundo. Por que ele se daria ao trabalho de gastar 2 dólares para lhe pagar uma bebida e depois empenhar-se em se mostrar amigável e encantador? Por que se esforçaria sem necessidade? Se Katie, ou qualquer outra mulher naquele salão, desejasse conhecê-lo, ele se mostraria perfeitamente disposto a permitir que ela despertasse seu interesse. E, caso ela tivesse sucesso nisso, ele até poderia convidá-la para ir à sua casa — em carros separados, naturalmente — para que pudessem fazer uso de seus tão propalados direitos iguais à satisfação sexual. Após o quê, ele compartilharia de um drinque amigável — se não estivesse cansado demais —, a acompanharia até a porta e permitiria que ela dirigisse sozinha para onde quer que morasse.
Tão e iciente, tão direto. Sem laços nem compromissos. Nenhuma promessa feita ou esperada. As mulheres atuais, naturalmente, também tinham direitos iguais à recusa; ela não precisaria ir para a cama com ele. Nem mesmo precisava preocupar-se com a possibilidade de sua recusa ferir os sentimentos dele. Porque ele não sentia nada por ela. Talvez icasse um pouco aborrecido por ela ter desperdiçado uma ou duas horas de seu tempo, mas depois simplesmente escolheria outra, dentre as inúmeras mulheres dispostas e disponíveis.
Katie ergueu os olhos azuis, de novo perscrutando a multidão à procura de Rob, desejando ter combinado o encontro em outro lugar. A música tocava alto demais, acrescentando seu clamor ao tumulto de vozes elevadas e risos forçados. Ela olhou para os rostos à sua volta, todos diferentes e, ainda assim, tão semelhantes em suas expressões de inquietude, ansiedade e tédio. Todos estavam em busca de alguma coisa. Nenhum deles ainda a havia encontrado.
— Seu nome é Katie, não é? — uma voz masculina, desconhecida, fez-se ouvir atrás dela.
Apanhada de surpresa, Katie virou-se e viu-se olhando para um rosto con iante e sorridente, surgindo do colarinho de uma impecável camisa listrada, com um blazer bem talhado e uma gravata combinando.
— Conheci você com Karen, no supermercado, várias semanas atrás.
Ele tinha um sorriso juvenil e olhos duros. Katie estava hesitante e seu sorriso não continha o brilho habitual.
— Ah, olá, Ken. É um prazer vê-lo novamente.
— Escute, Katie — ele disse, como se subitamente tivesse uma ideia muito original e brilhante. — Por que não saímos daqui e vamos para um lugar mais sossegado?
A casa dele o a dela. O que estivesse mais próximo. Katie conhecia o esquema e isso a enojava.
— O que você tem em mente?
Ele não respondeu à pergunta, e nem precisava. Em vez disso, fez outra:
— Onde você mora?
— Aqui perto... Num apartamento no condomínio Village Green.
— Alguma companheira de quarto?
— Sim, duas lésbicas — Katie mentiu descaradamente. Ele acreditou, e não ficou chocado.
— É mesmo? Isso não a incomoda?
Katie enviou-lhe um olhar de pura inocência.
— Eu adoro as duas.
Por uma fração de segundo ele pareceu bastante contrariado, e o sorriso de Katie transformou-se numa risada genuína.
Recuperando-se quase imediatamente, ele encolheu os ombros.
— Tudo bem. A gente se vê por aí.
Katie viu a atenção dele dirigir-se outra vez para o salão, até encontrar alguém que o interessasse, e depois ele se afastou, movendo-se lentamente pela multidão. Ela já tivera o bastante. Mais do que o bastante. Tocou o braço de Karen, distraindo-a da animada conversa com dois rapazes atraentes sobre a temporada de esqui no Colorado.
— Karen, vou passar no toalete e depois irei embora.
— Rob não apareceu? — Karen perguntou, distraı́da. Bem, dê uma volta por aı́... há muitos outros de onde ele veio. Faça sua escolha.
— Vou embora — Katie falou com firmeza.
Karen limitou-se a dar de ombros e retomou a conversa.
O toalete feminino icava num corredor estreito atrás do bar, e Katie foi abrindo caminho com esforço por entre os corpos agrupados, emitindo um suspiro de alı́vio ao esgueirar-se do último obstáculo humano e alcançar a relativa tranquilidade do corredor. Não tinha certeza se estava aliviada ou desapontada por Rob não ter aparecido. Oito meses atrás estivera louca e apaixonadamente deslumbrada por ele, pela sua inteligência e divertida ternura. Ele tinha tudo: uma aparência atraente, con iança, charme e um futuro promissor como herdeiro de uma das maiores corretoras de ações de St. Louis. Era bonito, inteligente e maravilhoso. E casado.
A expressão de Katie entristeceu ao lembrar-se da última vez que vira Rob... Depois de um jantar especial ao som de música, tinham voltado ao apartamento dela e estavam bebendo vinho. Naquela noite, pela primeira vez, ela decidira não impedi-lo quando ele tentasse fazer amor. Durante os últimos meses ele lhe dissera centenas de vezes, e demonstrara de centenas de formas, que a amava. Ela não precisava mais hesitar. Na verdade, estivera prestes a tomar a iniciativa quando Rob recostou a cabeça no sofá e suspirou.
— Katie, o jornal de amanhã vai publicar uma reportagem sobre mim, na coluna social. Não é apenas a meu respeito... mas também sobre minha mulher e meu filho. Eu sou casado.
Pálida e devastada, Katie lhe dissera para nunca mais telefonar ou tentar vê-la novamente. Ele fez as duas coisas, repetidas vezes. E, com a mesma obstinação, Katie recusou-se a atender às ligações que ele fazia para seu escritório, e desligava o telefone em casa, sempre que ouvia a voz dele.
Isso havia acontecido cinco meses antes, e apenas raramente, desde então, Katie se permitia o luxo doce e amargo de pensar nele, mesmo que por um instante. Até três dias antes, acreditara que havia superado o problema, mas quando atendeu ao telefone, na quarta-feira, o som profundo da voz de Rob provocou um tremor em seu corpo inteiro.
— Katie, não desligue. Tudo mudou. Preciso vê-la, falar com você.
Ele discordara com veemência da escolha de Katie para aquele local de encontro, mas ela icara irme. O Canyon Inn era um lugar público e barulhento o bastante para desencorajá-lo a usar de terna persuasão, caso esta fosse sua intenção. Além disso, Karen frequentava o bar todas as sextas-feiras, o que signi icava que Katie poderia contar com o apoio moral da amiga, se precisasse.
O toalete estava lotado e ela teve de esperar na ila. Saiu vários minutos depois, distraı́da em procurar a chave do carro dentro da bolsa, enquanto caminhava pelo corredor, depois parou diante da multidão que bloqueava sua passagem de volta para o bar. Ao seu lado, num dos telefones públicos na parede do corredor, um homem falou com um sotaque espanhol:
— Com licença... Poderia me dizer o endereço deste lugar? Prestes a atirar-se de encontro à massa humana que se compactava à sua frente, Katie virou-se a im de olhar para o homem alto e atraente que a encarava com uma leve expressão de impaciência, enquanto segurava o telefone junto ao ouvido.
— Está falando comigo? — ela perguntou.
O rosto dele era profundamente bronzeado, os cabelos espessos e tão negros quanto os olhos. Num lugar repleto de homens que sempre faziam-na lembrar de vendedores de computadores, aquele homem, usando calça jeans e camisa branca com as mangas dobradas, parecia definitivamente deslocado. Ele era... mundano demais.
— Eu perguntei — a voz com o sotaque espanhol repetiu,
— se você poderia me dizer o endereço deste lugar. Tive um problema com meu carro e estou tentando chamar um guincho.
Katie lhe passou o endereço do Canyon Inn, enquanto fazia um recuo mental daqueles olhos escuros e amendoados, do nariz proeminente no rosto estrangeiro e arrogante. Homens altos, morenos e exóticos, exalando uma masculinidade vulgar, poderiam ser atraentes para algumas mulheres, mas não para Katherine Connelly.
— Obrigado — ele falou, removendo a mão do bocal do telefone e repetindo o nome da rua que Katie informara.
Virando-se, Katie deu de frente com um suéter verde escuro que cobria o peito de um homem que bloqueava sua passagem para o salão. Sem erguer os olhos para ele, ela disse:
— Com licença, posso passar? O suéter afastou-se da porta.
— Para onde vai? — o dono do suéter perguntou, num tom amigável. — Ainda é cedo.
Katie finalmente encarou-o, e viu-o sorrir com franca admiração.
— Eu sei, mas preciso ir embora. Vou me transformar numa abóbora à meia-noite.
— E a sua carruagem que se transforma em abóbora ele corrigiu-a, sorrindo. — E o seu vestido se transforma em trapos.
— Obsolescência planejada e mão de obra de iciente, mesmo nos tempos da Cinderela — Katie suspirou com fingido desgosto.
— Uma garota espirituosa! — ele aplaudiu. Observou-a de cima a baixo e, estendendo a mão, deslizou os dedos pela seda da manga do vestido dela. — Gosto de mulheres inteligentes — disse, enviando-lhe um olhar significativo.
— Não me sinto ameaçado por elas.
Reprimindo irmemente o impulso de lhe sugerir que fosse ”passar uma cantada” na vovozinha, Katie falou com toda gentileza:
— Sinto muito, mas preciso mesmo ir embora. Vou encontrar uma pessoa.
— Sujeito de sorte — ele disse, desistindo.
Katie saiu para a noite escura e abafada de verão, sentindo-se perdida e deprimida. Parou por um instante sob o toldo branco da entrada, vendo, enquanto seu coração disparava, um conhecido Corvette branco passar direto pelo sinal vermelho da esquina e entrar no estacionamento, parando ao seu lado com um ranger dos freios.
— Desculpe pelo atraso. Entre, Katie, vamos para algum lugar onde possamos conversar.
Katie olhou para Rob através do vidro aberto do carro e sentiu um luxo de desejo tão intenso que chegava a doer. Ele ainda era insuportavelmente atraente, mas seu sorriso, sempre tão con iante e seguro de si, estava agora mesclado com uma fragilidade que lhe apertava o peito e enfraquecia sua decisão.
— É muito tarde, Rob. E não temos nada para conversar, se você ainda está casado.
— Katie, não podemos icar aqui, falando deste jeito. Não ique zangada com meu atraso. Tive um voo horrı́vel, que demorou mais do que o previsto. Agora, seja boazinha e entre no carro. Não quero perder tempo discutindo com você.
— Por que não quer perder tempo? — Katie persistiu.
— Sua mulher está à sua espera?
Rob praguejou baixinho e acelerou bruscamente, dirigindo o carro esporte até uma vaga atrás do prédio. Saiu do veı́culo e recostou-se na porta, esperando que Katie fosse até ele. Com a brisa desmanchando-lhe os cabelos, Katie aproximou-se dele relutante, no estacionamento escuro.
— Faz muito tempo, Katie — ele falou quando ela parou à sua frente. — Não vai me dar um beijo?
— Você ainda está casado?
Em resposta Rob puxou-a para seus braços e beijou-a num misto de ânsia feroz e desejo penitente. No entanto, ele a conhecia o bastante para perceber que Katie estava apenas aceitando o beijo passivamente e, ao evitar a pergunta, admitira que continuava casado.
— Não ique assim, Katie — sussurrou roucamente, o hálito quente em seu ouvido. — Há meses que só consigo pensar em você. Vamos sair daqui e ir para sua casa.
Katie respirou fundo, trêmula.
— Não.
— Katie, eu amo você. Estou louco por você. Não fique fugindo de mim.
Pela primeira vez ela reparou no cheiro de bebida no hálito dele, e, embora a contragosto, icou sensibilizada ao pensar que ele precisara beber para criar coragem antes de encontrá-la. Mas conseguiu manter a voz firme.
— Não quero ter um caso inconsequente com um homem casado.
— Antes de descobrir que eu era casado, você não achava que estar comigo era algo ”inconsequente”.
Agora ele tentaria a bajulação, e Katie não iria suportar.
— Por favor, Rob, não faça isso comigo. Eu não conseguiria viver com a ideia de ter destruído um casamento.
— O casamento já estava destruı́do há muito tempo, antes de eu conhecê-la. Eu tentei lhe dizer isso.
— Então se divorcie — ela falou, em desespero. Mesmo na escuridão, Katie pôde ver a amarga ironia no sorriso dele.
— Os sulistas não se divorciam, minha querida. Eles aprendem a ter vidas separadas. Pergunte ao meu pai e ao meu avô — Rob falou, com dolorosa raiva. Apesar do barulho das portas abrindo e fechando, enquanto pessoas entravam e saı́am do restaurante, a voz dele permanecia num tom baixo e normal, e suas mãos deslizavam pelas costas de Katie, até alcançarem seus quadris. Puxou-a para si, fazendo-a sentir a dureza de suas coxas. — Isto é para você, Katie. Somente para você. Você não estará destruindo meu casamento, ele estava acabado há tempos.
Katie não podia mais suportar. A sordidez daquela situação a fez sentir-se suja, e tentou afastar-se dele.
— Solte-me, Rob — pediu, por entre os dentes. — Ou você é um mentiroso, ou um covarde, ou então os dois e...
As mãos dele apertaram-se em torno dos seus braços, quando Katie tentou se desvencilhar.
— Odeio você por estar agindo desta maneira! — ela soluçou. — Solte-me agora mesmo!
— Faça o que ela está dizendo — uma voz contendo um leve sotaque fez-se ouvir na escuridão.
Rob ergueu a cabeça de imediato.
— Quem diabo você pensa que é? — perguntou à igura de camisa branca que se materializava nas sombras atrás do prédio. Pressionando os braços de Katie com mais força, Rob lançou um olhar ameaçador para o intruso, depois voltou-se para ela. — Você conhece este sujeito?
A voz dela estava rouca de vergonha e raiva.
— Não, mas me solte. Quero ir embora.
— Você vai icar aqui mesmo — Rob disse, num tom baixo e perigoso. Erguendo a cabeça para o homem, disse:
— E você vai embora. Agora, vá andando, a não ser que queira que eu o ajude a encontrar o seu rumo.
A voz com sotaque tornou-se extremamente gentil, adquirindo porém um tom quase assustador.
— Você pode tentar, se quiser. Mas solte a moça. Levado ao extremo pela implacável obstinação de Katie,
e agora por aquela intromissão indesejada, Rob deu vazão a toda sua raiva e frustração no intruso. Soltou o braço de Katie e, com um único movimento contı́nuo, lançou o punho fechado na direção da mandı́bula de seu oponente. Um instante de silêncio foi seguido pelo terrı́vel estalar de ossos contra ossos, e depois o ruı́do de um baque surdo. Katie abriu os olhos lacrimejantes e deparou com Rob caído aos seus pés.
— Abra a porta do carro — o estrangeiro ordenou, num tom que não dava margem a discussões.
Katie obedeceu automaticamente e abriu a porta do Corvette. O homem atirou Rob para dentro, sem o menor cuidado, deixando a cabeça tombada sobre o volante, como se ele tivesse desmaiado por excesso de bebida.
— Onde está o seu carro? — perguntou. Katie fitou-o como se não entendesse.
— Não podemos deixá-lo aqui — disse. — Ele pode estar precisando de um médico.
— Qual é o seu carro? — o homem repetiu, impaciente.
— Não tenho a menor vontade de estar aqui, no caso de alguém ter visto o que aconteceu e ter chamado a polícia.
— Ah, mas... — Katie protestou, olhando por cima do ombro para o Corvette de Rob, enquanto corria na direção do seu próprio carro. Parou quando o alcançou. — Você pode ir embora. Vou ficar aqui.
— Eu não o matei, só deixei-o meio zonzo. Ele vai acordar em poucos minutos com o rosto inchado e um dente solto, só isso. Eu dirijo — ele disse, obrigando-a a dar a volta e entrar no lado do passageiro. — Você não está em condições.
Entrando no carro, ele bateu o joelho no volante e resmungou algo que Katie julgou ser um palavrão em espanhol.
— Dê-me as chaves — ele disse, empurrando o assento na posição mais distante, a im de acomodar as longas pernas.
Katie entregou-lhe as chaves. Diversos carros entravam e saı́am do estacionamento, e tiveram de esperar algum tempo antes de inalmente sair da vaga. Passaram pelas ileiras de veı́culos estacionados e por um velho caminhão de entregas com um pneu furado, que estava parado nos fundos do restaurante.
— Esse caminhão é seu? — Katie perguntou vagamente, sentindo que deveria dizer alguma coisa.
O homem olhou de relance para o caminhão parado, depois enviou-lhe um sorrisinho irônico.
— Como adivinhou?
Katie ruborizou de vergonha. Sabia, como ele também sabia, que presumira que ele fosse motorista de um caminhão de entregas simplesmente pelo seu sotaque espanhol. Numa tentativa de salvar o orgulho dele, disse:
— Quando você estava no telefone mencionou que precisava de um guincho... Por isso deduzi.
Saíram do estacionamento e seguiram pelo fluxo do tráfego, enquanto Katie o instruía sobre como chegar ao seu apartamento, que ficava a apenas alguns quarteirões de distância.
— Quero lhe agradecer... Ha...
— Ramon.
Com gestos nervosos, Katie pegou a bolsa e procurou a carteira. Morava tão perto que, quando retirou da carteira uma nota de 5 dólares, já estavam entrando no estacionamento do seu condomínio.
— Eu moro bem ali... na primeira porta à direita, onde está aquele poste.
Ramon manobrou o carro para uma vaga mais próxima à porta de entrada, desligou o motor, saiu e fez a volta para o lado dela. Katie apressou-se em abrir sua porta e sair do veı́culo. Um tanto incerta, ergueu os olhos para aquele rosto moreno, orgulhoso e enigmático, calculando que ele devia ter uns 35 anos. Mas havia algo nele, talvez pelo fato de ser estrangeiro, que a fazia sentir-se insegura.
Estendeu a mão, oferecendo-lhe a nota de 5 dólares.
— Muito obrigada, Ramon. Por favor, aceite isto. — Ele olhou para o dinheiro, e depois para ela. — Por favor Katie insistiu educadamente. — Tenho certeza de que você fará bom uso.
— E claro — ele falou, após uma breve pausa. Aceitou o dinheiro e en iou-o no bolso traseiro da calça. — Vou acompanhá-la até a porta — acrescentou.
Katie virou-se e começou a subir a escada, um tanto chocada quando ele amparou-a pelo braço, leve mas irmemente. Era um gesto tão antiquado e galante... sobretudo depois que, mesmo sem querer, ela ofendera o orgulho dele.
Ramon inseriu a chave na fechadura e abriu a porta para ela. Katie entrou e, quando se virou para agradecer, ele disse:
— Eu gostaria de usar seu telefone. Preciso saber se o carro-reboque já foi enviado conforme me prometeram.
Ele a salvara de uma situação crı́tica e até arriscara-se a ser preso por sua causa. Katie sabia que a boa educação exigia que lhe permitisse usar o telefone. Disfarçando cuidadosamente sua relutância em deixá-lo entrar, afastou-se e deu-lhe passagem para dentro de seu luxuoso apartamento.
— O telefone fica ali naquela mesinha — informou.
— Depois que telefonar, vou esperar um pouco para certi icar-me de que seu amigo — ele enfatizou a palavra com um tom de desprezo — não acorde e decida aparecer por aqui. Acho que até lá o guincho já deve ter chegado e posso ir andando de volta para o restaurante... Não é muito longe.
Katie, que nem sequer considerara a possibilidade de Rob ir procurá-la em casa, congelou no ato de tirar as sandálias de salto alto. Sem dúvida Rob nunca mais se aproximaria dela, não depois de ser rejeitado por ela, e fisicamente desencorajado por Ramon.
— Tenho certeza de que ele não virá para cá — disse com franqueza. Mas, ainda assim, percebeu que tremia, numa reação retardada de choque. — Eu... acho que vou fazer um café — acrescentou, já encaminhando-se para a cozinha. Sem ter outra opção, perguntou: — Você aceita uma xícara?
Ramon aceitou o oferecimento com tal ambivalência que a maioria das dúvidas de Katie acerca de sua con iabilidade foram de novo despertadas. Desde que o encontrara, ele não agira ou dissera qualquer coisa direta.
Quando estava na cozinha, Katie deu-se conta de que, em toda sua ansiedade pelo encontro com Rob naquela noite, esquecera-se de comprar café, que acabara no dia anterior. Mas não se incomodou, pois, de repente, sentiu necessidade de beber algo mais forte. Abriu o armário em cima da geladeira e tirou a garrafa de brandy que Rob deixara ali.
— Acho que terei de oferecer-lhe água ou brandy — ela disse para Ramon. — Não tenho nem mesmo um refrigerante.
— Brandi está ótimo — ele respondeu. Katie serviu o conhaque em dois cálices e voltou para a sala no instante em que Ramon desligava o telefone.
— O caminhão-guincho já chegou? — ela perguntou.
— Sim, e o mecânico está providenciando um conserto temporário, portanto nem vou precisar do reboque. — Ramon pegou o cálice que ela lhe estendia e olhou em torno do apartamento com uma expressão de curiosidade. — Onde estão suas amigas? — perguntou.
— Que amigas? — Katie retrucou sem entender, sentando-se numa poltrona forrada com veludo bege.
— As lésbicas.
Ela começou a rir e quase engasgou.
— Você estava perto o bastante para me ouvir, quando falei isso?
Baixando os olhos para ela, Ramon assentiu, mas não havia divertimento no leve sorriso que lhe curvou os lábios.
— Estava atrás de você, trocando as moedas com o barman para dar o telefonema.
— Ah... — Os eventos desastrosos daquela noite ameaçaram puxá-la para baixo, mas Katie empurrou-os irmemente para o fundo da mente. Pensaria nisso amanhã, quando estivesse em condições de pensar. Encolheu os ombros, distraı́da. — Eu inventei as lésbicas. Não estava com disposição para...
— Por que não gosta de advogados? — ele interrompeu-a. Katie sufocou mais um ataque de riso.
— E uma longa história, que pre iro não discutir. Mas; imagino que disse isso a ele porque achei que estava sendo vaidoso demais ao me dizer que era advogado.
— Você não é vaidosa?
Katie itou-o, surpresa. Havia uma inocência quase infantil no modo como se sentava na poltrona, com os pés descalços presos sob seu corpo; uma doce vulnerabilidade na pureza de seus traços e na luminosidade de seus olhos azuis.
— Eu... não sei.
— Você não teria sido rude comigo se eu a abordasse naquele bar e lhe dissesse que sou motorista de caminhão?
Katie esboçou seu primeiro sorriso genuı́no daquela noite, os lábios macios curvando-se com um humor sincero que fez seus olhos reluzirem.
— Provavelmente eu teria icado atônita demais para falar. Em primeiro lugar, ninguém que frequenta o Canyon Inn dirige um caminhão, e, em segundo, se alguém dirigisse, jamais admitiria.
— Por quê? Não há vergonha alguma nisso.
— Não, é claro. Mas o sujeito diria que trabalha no ramo de transportes ou de entregas a domicı́lio, algo assim, de forma a soar como se fosse dono de uma transportadora ou de uma enorme frota de caminhões.
Ramon encarou-a como se suas palavras fossem um obstáculo, e não uma ajuda, para que a compreendesse. Seus olhos deslizaram pelos cabelos ruivos que lhe caı́am pelos ombros e depois afastaram-se abruptamente. Erguendo o cálice, bebeu metade do conhaque de uma só vez.
— O brandy deve ser tomado aos poucos, para ser apreciado — Katie falou, mas logo deu-se conta de que, embora pretendesse fazer uma sugestão, aquilo soara como uma repreensão. — Isto é — acrescentou, desajeitada —, você pode beber de uma vez, mas as pessoas acostumadas ao brandy preferem beber devagar.
Ramon baixou o cálice e olhou-a com uma expressão absolutamente indefinível.
— Obrigado — disse com uma cortesia impecável. Vou tentar lembrar-me disso, se algum dia tiver a sorte de tomar um brandy de novo.
Encolhendo-se com a certeza de que agora o ofendera de verdade, Katie observou-o encaminhar-se para a janela da sala e entreabrir a cortina.
Seu apartamento oferecia uma vista bem pouco inspiradora para o estacionamento e, mais adiante, para a movimentada avenida que passava na frente do condomı́nio. Recostando-se no batente da janela, ele aparentemente seguiu o conselho dela e passou a beber o conhaque em pequenos goles, enquanto olhava para o estacionamento.
Distraı́da, Katie reparou na maneira como a camisa dele colava-se em seu tronco largo e musculoso, esticando-se sempre que ele movimentava o braço, e depois desviou os olhos. quisera apenas mostrar-se prestativa e, em vez disso, parecera condescendente e superior. Queria que ele fosse embora. Estava fı́sica e mentalmente exausta, e não havia motivo algum para ele ficar ali de plantão. Rob não iria procurá-la naquela noite.
— Quantos anos você tem? — ele perguntou de repente. O olhar de Katie disparou em sua direção.
— Vinte e três.
— Então já deveria ter desenvolvido um melhor senso de prioridades.
Katie estava mais perplexa do que ofendida.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que você acha importante que o brandy seja apreciado da maneira ”adequada”, no entanto não se preocupa se é ”apropriado” convidar para seu apartamento qualquer homem que acabou de conhecer. Arrisca-se a destruir sua reputação e...
— Qualquer homem que conheço! — Katie interrompeu-o indignada, não mais sentindo a menor obrigação de ser gentil. — Em primeiro lugar, convidei-o para entrar porque você pediu para usar o telefone, e achei que deveria ser educada depois de você ter-me ajudado. Em segundo lugar, não sei como são as coisas no México, ou seja lá o país de onde você veio, mas...
— Eu nasci em Porto Rico — ele informou. Katie ignorou a interrupção.
— Bem, aqui nos Estados Unidos não temos essas ideias absurdas e antiquadas a respeito da reputação das mulheres. Os homens nunca se preocuparam com suas reputações, e nós também não nos preocupamos mais com as nossas. Fazemos o que bem entendemos!
Katie não podia acreditar no que via. Agora, quando realmente queria insultá-lo, ele parecia prestes a cair na risada.
Os olhos negros suavizaram-se de divertimento e um sorriso pairava em seus lábios.
— Você faz o que bem entende?
— É claro que sim! — ela respondeu, enfática.
— E o que você faz?
— O quê?
— Quero saber o que é que lhe agrada fazer?
— Qualquer coisa que eu quiser. A voz dele aprofundou-se.
— E o que você quer fazer... agora?
O tom sugestivo fez com que Katie de repente percebesse a crua sensualidade que emanava daquela silhueta musculosa, destacada pela reveladora calça jeans e pela camisa branca. Um estremecimento perpassou-a quando o olhar dele moveu-se pelo seu rosto, demorando-se em seus lábios antes de caı́rem preguiçosamente para as curvas de seus seios sob o tecido ino do vestido. Ela sentia vontade de gritar, de rir, ou de chorar... ou uma combinação dos três. Depois de tudo o que lhe acontecera naquela noite, ela ainda conseguira dar de encontro com um Casanova porto-riquenho que agora julgava ser a resposta a todas as suas necessidades sexuais!
Obrigando-se a soar ríspida, ela por fim respondeu:
— O que quero fazer agora? Quero ser feliz com minha vida e comigo mesma. Quero ser... livre — acrescentou vagamente, distraı́da demais pelo olhar ixo e sensual dele para ser capaz de pensar com clareza.
— De que deseja se libertar? Katie levantou-se de um salto.
— Dos homens!
Quando ela ficou de pé, Ramon aproximou-se com movimentos deliberadamente lentos.
— Você quer libertar-se de tanta liberdade, mas não dos homens.
Katie foi se afastando na direção da porta, enquanto ele avançava para ela. Havia sido louca em convidá-lo para entrar, e agora ele deturpava suas intenções em proveito próprio. Ofegou, quando bateu de costas na porta.
Ramon parou a centímetros dela.
— Se você quisesse livrar-se dos homens, como diz, não teria ido àquele bar esta noite. Não teria encontrado aquele sujeito no estacionamento. Você não sabe o que quer.
— Eu sei que já é muito tarde — Katie falou, com a voz trêmula. — E quero que você vá embora.
Os olhos dele estreitaram-se, mas a voz era gentil quando perguntou:
— Está com medo de mim?
— Não — ela mentiu. Ramon assentiu, satisfeito.
— Ótimo. Neste caso, não vai recusar-se a ir comigo ao Zoológico amanhã.
Katie podia jurar que ele sabia que ela sentia-se extremamente insegura com ele, e que não tinha vontade alguma de ir a lugar nenhum em sua companhia. Pensou em dizer que tinha outros planos para o dia seguinte, mas estava certa de que ele insistiria para que marcassem um outro dia. Todos seus instintos alertavam-na de que Ramon poderia mostrar-se muito insistente, se quisesse. E, cansada e exaurida como estava, pareceu-lhe mais fácil marcar o encontro e, depois, simplesmente não aparecer. Até ele seria capaz de aceitar tal rejeição como definitiva.
— Está bem — ela mentiu. — A que horas?
— Venho buscá-la às dez da manhã.
Quando a porta fechou-se atrás dele, Katie sentiu-se como um io esticado ao máximo por alguém que desejava ver quanto ela suportaria antes de se romper. Arrastou-se para a cama, deitou-se e icou olhando para o teto. Tinha problemas su icientes sem ter de lidar com algum latino ardoroso que a convidara para um passeio no Zoológico!
Virando-se, Katie pensou na cena sórdida com Rob e fechou os olhos com força, tentando fugir de sua cansada infelicidade. Passaria o dia seguinte na casa de seus pais, decidiu. Na verdade, iria passar todo o im de semana prolongado com eles. A inal, seus pais sempre se queixavam de que ela não os visitava tanto quanto gostariam.