Doce Triunfo

Judith McNaught · Capítulo 20 de 21

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Doce Triunfo

Capítulo 20

EDUARDO PASSOU A MAO pelos cabelos revoltos e olhou para Katie, cujo rosto pálido refletia a tensão crescente.

— O segurança disse que Ramon saiu do prédio três horas atrás, por volta das nove. Garcia veio buscá-lo com o Rolls-Royce, mas eles não voltaram para a villa em Mayaguez, e Ramon também não está em sua casa em San Juan.

Kate mordeu o lábio, apreensiva.

— Você acha possı́vel que Garcia tenha dito a ele que eu não fui embora, e Ramon esteja apenas recusando-se a atender ao telefone?

A expressão de Eduardo foi zombeteira.

— Se Ramon soubesse que você ainda está aqui, não estaria se escondendo. Teria irrompido por esta casa como um batalhão de demônios, pode crer.

— Eduardo — Gabriella falou, com um suspiro exasperado —, você está deixando Katie aterrorizada, e ela já está bastante nervosa sem isso.

En iando as mãos nos bolsos, Eduardo parou de andar de um lado para outro e olhou diretamente para Katie.

— Escute, eu não sei onde ele pode estar. Ramon não se encontra em nenhuma das suas casas, nem com a famı́lia de Rafael. Não posso imaginar em que outro lugar ele iria para passar a noite.

Katie tentou ignorar a dolorosa pontada de ciúme que sentiu, diante da possibilidade de Ramon ter decidido passar a noite nos braços de alguma das belas mulheres com quem aparecia nos recortes de revistas locais.

— Eu tinha quase certeza de que ele iria para o chalé

— disse. — Ele não está lá mesmo?

Eduardo foi enfático:

— Já lhe disse, eu fui procurá-lo na casa. Eram dez e meia, cedo demais para que ele fosse dormir, mas não havia nenhuma luz acesa.

Katie baixou a cabeça com tristeza, torcendo as mãos sobre o colo.

— Se fosse comigo, eu teria ido para lá... para o lugar onde me sentisse mais próxima dele.

— Katie — Gabriella falou com delicada determinação —, eu sei o que você está imaginando, mas está enganada. Ramon jamais procuraria outra mulher esta noite.

Katie estava preocupada demais para reparar no olhar de dúvida que Eduardo lançou para a esposa.

— Você bateu na porta, quando foi ao chalé, não é? Katie perguntou.

Eduardo virou-se para ela.

— Por que iria bater, se a casa estava vazia e às escuras? Além disso, Ramon teria visto os faróis do meu carro chegando e sairia para ver quem era.

Katie franziu a testa.

— Acho que você deveria ter batido. — Levantou-se, movida mais pela inquietação do que por qualquer outra coisa, e disse: — Acho que vou até o chalé.

— Katie, ele não está lá, mas, se insiste em verificar, eu a acompanho.

— Não é necessário, eu estou bem — ela assegurou-lhe.

— Não quero que se confronte com Ramon sozinha Eduardo insistiu. — Eu vi quanto ele estava furioso ontem, eu estava com ele e...

— Eu também estava com ele — Katie interrompeu-o.

— E sei que vou ficar bem. Ramon não pode estar mais zangado do que estava ontem.

Eduardo pegou a chave do carro e entregou-lhe.

— Se, por um minuto que fosse, eu achasse que Ramon está na casa, iria com você. Mas sei que ele não está. Você terá de esperar até amanhã cedo para falar com ele.

— Meus pais estarão chegando amanhã — Katie disse, em desespero. Olhou para o relógio na parede, com seu tique taque agourento. -Já passa de meia-noite... Já estamos no sábado. Eu vou me casar no domingo, que é amanhã.

Lembrando-se do que Eduardo dissera a respeito de Ramon ver as luzes do carro aproximando-se, Katie desligou os faróis a alguns metros antes de chegar à frente da casa. Se Ramon estivesse ali, seria melhor apanhá-lo de surpresa. Sobretudo porque não gostava nada da ideia de confrontar a sua fúria, quando ele abrisse a porta.

Reparou que havia uma luz, visı́vel entre os galhos das árvores, e sentiu o coração dar um pulo de alegria quando parou o carro. Foi caminhando pela calçada de tijolos iluminada pela lua, as pernas trêmulas a cada passo que dava. Então, viu que a luz do quarto estava acesa!

Pousou a mão na maçaneta da porta, rezando baixinho para que não estivesse trancada, pois ela não tinha a chave, e suspirou aliviada quando esta abriu-se facilmente. Fechou-a devagar atrás de si, e virou-se. A sala estava escura, mas havia um suave feixe de luz surgindo por baixo da porta do quarto.

Ele estava ali. Katie tirou o suéter das costas e deixou-o cair no chão. Passou as mãos trêmulas pelo vestido justo que havia escolhido horas antes, com a intenção especı́ ica de deixá-lo excitado e, esperançosamente, minar toda sua resistência. O decote baixo na frente deixava à mostra o pequeno vale entre os seios, e as alças inas exibiam seus ombros e costas. Passou os dedos entre os longos cabelos e começou a andar, sem fazer nenhum barulho.

Ao chegar à porta do quarto, Katie parou para controlar o intenso nervosismo. Ramon encontrava-se deitado na cama, as mãos cruzadas sob a cabeça, olhando para o teto. A camisa branca estava aberta no peito, e ele nem se dera ao trabalho de tirar os sapatos. Seu per il era tão amargo e desolado que Katie encheu-se de remorso. Ficou olhando para aquele rosto belo e austero, a poderosa virilidade estampada em cada linha de seu corpo, sentindo o pulso acelerar-se de excitamento e trepidação. Mesmo em repouso, Ramon parecia um oponente formidável.

Deu um passo para dentro do quarto, e sua sombra surgiu no teto, no campo de visão dele.

Ramon virou a cabeça em sua direção, e Katie congelou no lugar.

Ele icou olhando-a, os olhos negros passando através dela, como se não estivesse realmente enxergando-a.

— Eu não fui embora — Katie murmurou, incerta.

Ao ouvir o som de sua voz, Ramon levantou-se e deu um pulo para fora da cama, num único movimento amedrontador.

Os traços de seu rosto eram uma máscara impenetrável, e Katie estava nervosa demais para perceber qualquer coisa nele, exceto que estava tenso, pronto para atacá-la.

— Eu... eu não quis partir — gaguejou. Ele deu um passo à frente, ela recuou um passo. —

O padre Gregório disse que fará o nosso casamento — acrescentou, falando rápido.

— Ah, é mesmo? — Ramon perguntou, num tom de ironia.

Começou a aproximar-se dela, e Katie continuou andando para trás.

— Eu vou... vou devolver tudo o que comprei — ela disse, enquanto seguia, de costas, da porta do quarto até a sala.

— Vai mesmo? — ele murmurou com suavidade. Katie assentiu com vigor, batendo de encontro ao sofá

e desviando-se dele.

— Eu... eu vi o álbum de recortes de Rafael — explicou, quase sem fôlego. — Se ao menos você tivesse me dito quem realmente é, eu teria compreendido por que não queria que eu usasse o meu dinheiro. Eu teria obede... — engasgou com a palavra. — Obedecido.

— Estou vendo que você aprendeu uma palavra nova

— ele zombou.

Katie trombou com o abajur e fez a volta pela mesinha.

— Vou encher esta casa de plantas, lores e crianças ela prometeu, em desespero. As pernas bateram na poltrona, bloqueando a passagem, e ela sentiu-se invadida por um pânico incontrolável. — Você precisa me ouvir! Eu tinha medo de me casar com você porque sabia que estava escondendo alguma coisa de mim, mas não sabia o que era. David já havia...

Ramon cobriu a distância que os separava, e Katie estendeu as mãos, tentando mantê-lo afastado.

— Por favor, me escute — pediu. — Eu amo você!

Ele estendeu as mãos e segurou-a pelos ombros, puxando-a para si com toda a força. Pela primeira vez ela estava próxima o bastante para perceber o que havia naqueles olhos negros... e não era raiva. Era amor. Um amor tão intenso que Katie sentiu-se humilde diante dele.

— Você me ama — Ramon repetiu, num tom sufocado.

— E suponho que achou que, se dissesse que me ama, eu esqueceria tudo e a perdoaria, não é?

— Sim — ela admitiu, num sussurro. — Achei que você poderia me perdoar... só desta vez.

— Só desta vez — ele murmurou, com divertida ternura, e suas mãos tremiam quando lhe tocou o rosto, os cabelos. Emitiu um som que era quase um gemido, quase um riso, enquanto mergulhava os dedos nos cabelos dela. — Só esta vez? — repetiu como se fosse uma grande revelação,. puxando seu rosto para si, beijou-a com uma paixão ardente.

Com a alegria e o alı́vio explodindo dentro do coração como fogos de artifı́cio, Katie deslizou as mãos pelo peito dele, em torno de seu pescoço, recebendo-o em sua boca.. Arqueou o corpo contra o dele, e Ramon estremeceu de prazer, as mãos acariciando-lhe as costas, descendo, fazendo com que seus quadris se tocassem.

Então, seus lábios se separaram e ele passou a beijá-la no rosto, na testa, nos olhos...

— Diga outra vez — pediu, a voz rouca.

— Eu amo você — Katie falou, trêmula. — Preciso de você, quero você... e...

Ramon tomou-lhe os lábios com uma ânsia enlouquecedora, silenciando suas palavras e levando-a para uma dimensão onde nada mais existia, exceto a exigência ardente de suas mãos, de sua boca e de seu corpo. Beijou-a vezes sem conta, até que Katie gemesse e movesse o corpo contra o dele, mergulhada num poço profundo de desejo e paixão.

Ramon afastou os lábios dos dela, fitando-a com um brilho ardente no olhar.

— Vamos para a cama, minha querida — murmurou, num tom quente e excitado.

Katie espalmou as mãos em seu peito nu, os dedos acariciando os pelos escuros, mas, para o desapontamento dele, a linda mulher em seus braços disse, com toda a meiguice:

— Não.

— Sim — ele sussurrou, inclinando-se novamente com intenção de beijá-la e afastar quaisquer objeções. Mas,

desta vez, ela balançou a cabeça.

— Não — Katie repetiu. Sorrindo com uma pontinha de tristeza, explicou: — Eduardo não queria que eu viesse aqui sozinha. Só concordou porque tinha certeza de que você não estava em casa. Se eu demorar muito para voltar, é bem capaz que ele decida vir aqui... talvez pensando em proteger-me da sua raiva.

Ramon franziu a testa, aborrecido, e Katie fez uma leve carı́cia em seu peito, com o sorriso alargando-se.

— Além disso, tenho dois outros motivos para querer esperar. Um deles é que precisamos conversar. Você pediu-me para ser sincera, insistiu muito nisso, mas então, deliberadamente, você mesmo me enganou. Eu gostaria de entender por que agiu assim.

— E o outro motivo? — Ramon perguntou, relaxando um pouco o abraço, embora com relutância.

Katie desviou os olhos dos dele.

— Amanhã é o dia do nosso casamento. Já esperamos até agora e, bem... O padre Gregório...

Ramon caiu na gargalhada, puxando-a novamente para seus braços.

— Quando Eduardo e eu éramos crianças acreditávamos que, se izéssemos algo errado, o padre Gregório seria capaz de saber de tudo, apenas olhando para nós. — Pegou-a nos braços e carregou-a para o sofá, fazendo-a sentar em seu colo.

— E isso impediu que vocês fizessem coisas erradas? Katie perguntou.

— Não — ele admitiu, sorrindo. — Mas impedia que nos divertíssemos com isso.

Na quietude da sala que ela havia arrumado para ele, Ramon explicou por que se izera passar pelo que não era, e depois, com a maior simplicidade possı́vel, contou como os acontecimentos daquele dia haviam alterado drasticamente as suas perspectivas para o futuro. Katie ouviu a história de Sidney Green, o rosto iluminado pelo riso, sua mente rápida e inteligente compreendendo com facilidade a pressão que Ramon izera a im de recuperar o seu dinheiro. No entanto, quando Ramon terminou o relato, a animação dela diminuiu sensivelmente.

— Katie, o que há de errado? — ele perguntou.

Ela olhou em volta da sala aconchegante e suspirou.

— Nada. Apenas acho que vou sentir falta desta casa. Nós teríamos sido muito felizes aqui.

Ramon tocou-lhe o queixo, fazendo com que ela o encarasse.

— Você vai gostar muito mais das outras casas. Ela franziu a testa, intrigada.

— Mas você disse que as suas outras casas, e também a ilha, seriam todas penhoradas pelos bancos.

— Bem, isso ainda é possı́vel — Ramon concordou. Mas muito pouco provável. Os bancos são como aves de rapina, Katie. Quando sentem o cheiro do fracasso, atacam rapidamente para se assegurarem de que vão obter os melhores bocados do que restou. No entanto, se o ”fracasso” de repente demonstra sinais de recuperação, eles se afastam com a mesma rapidez. Esperam e observam. E o que estão fazendo agora, enquanto consideram quanto terão a ganhar caso eu prospere novamente, como iz no passado. Meus advogados em St. Louis disseram-me que Sidney Green anda espalhando aos quatro ventos que eu manipulei as suas ações e que o levei à bancarrota. Os bancos também vão ouvir isso, e se perguntarão se talvez não subestimaram minha in luência. Continuarão andando em cı́rculos, observando, mas vão começar a recuar. Quando eu concluir a construção do edifı́cio em St. Louis, o banco de Chicago vai sentir o cheiro de lucros, e com certeza me emprestará o dinheiro necessário para terminar a construção do outro prédio.

Ramon fez uma pausa, e concluiu:

— Como pode ver, você terá suas casas, seus criados e...

— E nada o que fazer — Katie completou, com um sorriso desolado. — Porque você acha que o lugar da mulher é dentro de casa.

Os olhos dele estreitaram-se.

— Minutos atrás você disse que poderia viver bem feliz aqui mesmo. Por que não pode ser feliz numa casa mais luxuosa?

Katie, preparando-se para uma discussão, saiu do colo de Ramon e aproximou-se das janelas. Podia sentir os olhos dele em suas costas, enquanto abria as cortinas e olhava para a escuridão lá fora, tentando encontrar um meio de fazê-lo entender.

— Eu disse que poderia ser feliz morando aqui — começou calmamente —, porque estarı́amos trabalhando juntos para construir uma vida nova. Eu me sentiria útil, necessária. E ainda poderia sentir-me assim, mas você não permitiria.

Atrás de si, ouviu Ramon levantar-se e aproximar-se, e sua voz adquiriu um tom mais determinado:

— Você vai começar a reconstruir a Galverra International, e eu sempre trabalhei com recursos humanos. Tenho muita prática na contratação de pessoal, com faixas salariais, regulamentos do governo e procedimentos legais... Eu poderia ajudá-lo, mas você não me deixaria.

As mãos dele pousaram em seus ombros, mas Katie recusou-se a se virar, enquanto prosseguia:

— Sei como se sente em relação a mulheres que trabalham fora de casa... Você deixou isso bem claro naquele dia do nosso piquenique. Disse que quando uma mulher tem um emprego, está mostrando ao mundo que o marido não consegue sustentá-la como ela gostaria. Disse que ofende seu orgulho e...

Ramon pressionou-lhe os ombros.

— Vire-se e olhe para mim, Katie — ele interrompeu-a com delicadeza.

Ela obedeceu, quase esperando que ele fosse silenciá-la com um beijo. Em vez disso, Ramon encarou-a com seriedade.

— Katie, um homem sempre é sensı́vel demais em relação ao seu orgulho quando sabe, no fundo do coração, que tem muito pouco do que se orgulhar. — Segurou-lhe o rosto, itando-a profundamente. — Dizer a uma mulher onde é o seu ”lugar” é uma forma que os homens encontraram de tentar fazer com que ela se contente com menos do que tem o direito de esperar. Eu tinha vergonha do pouco que podia lhe oferecer naquela época, mas acreditava que poderia fazê-la sentir-se feliz e satisfeita aqui, vivendo simplesmente como minha esposa. Estava tentando convencê-la de que isso era o certo, porque era o único futuro que poderia lhe oferecer. Porém, eu icaria muito orgulhoso, e muito contente, de tê-la trabalhando comigo, a partir de agora.

Ramon virou a cabeça abruptamente, e Katie seguiu seu olhar. Um facho de luz abria uma trilha vagarosa colina acima, na direção da casa. Eduardo, com uma lanterna de mão, vinha caminhando para ”resgatá-la”.

Katie olhou para Ramon, mas, em vez de mostrar-se irritado pelo inesperado aparecimento de Eduardo, ele sorria, pensativo.

— Em que está pensando? — ela perguntou, intrigada. Ramon itou-a com doçura, os olhos repletos de amor.

— Estou decidindo o que lhe dar como presente de casamento.

Katie abraçou-o com força. Você é o meu presente, pensou, com uma ternura quase dolorosa.

— Será que posso escolher? — indagou, em tom de brincadeira.

— Sim, entre um bebê e uma Ferrari — ele respondeu sorrindo, enlaçando-a pela cintura. — Certa vez você disse que uma Ferrari tornaria sua vida ”absolutamente fantástica”.

— Pois acho que pre iro ter um bebê — Katie riu. Ramon riu também, mas tinha toda a intenção de lhe dar os dois presentes.