Doce Triunfo
Capítulo 19
ENQUANTO GARCIA CARREGAVA as duas últimas malas de Katie para o Rolls-Royce, ela virou-se para Gabriella, que se mantinha parada na porta da sala, observando a movimentação.
— Lamento tanto — Gabriella sussurrou, abraçando-a em despedida. — Lamento muito mesmo.
Eduardo deu um passo à frente e estendeu-lhe a mão, num gesto rígido.
— Faça uma boa viagem — disse, com mais frieza e desprezo do que nunca.
Garcia abriu a porta do carro e ela entrou. Olhou em volta do suntuoso interior revestido de couro branco, com a aparelhagem so isticada que tanto a divertira. Aquele era o carro de Ramon, naturalmente, Katie concluiu com uma renovada pontada de tristeza. Não era de admirar que ele icara tão irritado quando ela demonstrara a admiração pelo veı́culo — estava prestes a perdê-lo. Ramon estava perdendo tudo, incluindo ela mesma.
Percebendo que Garcia ainda não fechara a porta, Katie ergueu os olhos para ele. O motorista tirou um cheque do bolso do uniforme preto e entregou-lhe. Katie segurou-o nas mãos, olhando-o com um misto de atordoamento e infelicidade. Era um cheque de 3.500 dólares, 500 dólares a mais do que ela gastara. Aparentemente, Ramon não acreditara nem mesmo quando ela dissera a verdade.
Katie sentia-se doente. A maior parte das coisas pelas quais era acusada nem mesmo tinham sido culpa sua! Se ao menos Ramon não se tivesse feito passar por um simples fazendeiro, ela não teria icado tão descon iada e temerosa de casar-se com ele. Não teria se sentido na obrigação de pagar por metade de tudo que comprara. Nada disso teria acontecido. Mas acontecera. Ela o havia envergonhado e humilhado, e agora ele a mandava de volta para casa.
Ele a mandava de volta para casa, Katie pensou, enquanto o carro afastava-se da casa de Gabriella. O que estava acontecendo com ela, permitindo que Ramon a mandasse embora daquele jeito? Não era o momento de começar a ser obediente! Não era a hora de sentir-se amedrontada e intimidada, mas era assim que se sentia. Com um estremecimento de terror, lembrou-se da fúria estampada na expressão dele, no dia anterior, a raiva mortal em cada palavra que pronunciara cuidadosamente. Mas, acima de tudo, lembrava-se da ameaça: ”Minta para mim só mais uma vez e farei com que o seu primeiro marido pareça um santo!” Naquele momento, Ramon parecia enfurecido o bastante para cumprir tal promessa.
Katie mordeu o lábio, tentando desesperadamente criar coragem para pedir a Garcia que a levasse até Ramon, para que pudesse se explicar. Ela precisava vê-lo. Sentindo os nervos à lor da pele, disse a si mesma que Ramon jamais faria as coisas que David fizera com ela. Ramon não sabia do que a estava ameaçando, quando disse aquilo. De qualquer forma, não iria mentir para ele, portanto ele não teria motivos para...
Isso de nada adiantaria, ela concluiu. Queria poder encontrá-lo, explicar tudo, mas seria incapaz de enfrentar a raiva dele sozinha. Com ou sem motivos, tinha um medo irracional da violência física.
Precisava que alguém a acompanhasse, quando fosse confrontá-lo. As mãos de Katie começaram a tremer, num misto de pânico e determinação. Não havia ninguém ali para ajudá-la, e já era tarde demais. Ramon a odiava pelo que havia feito. Não, ele a amava. E se a amava de verdade, seria impossível deixar de amá-la com tanta facilidade.
Ele teria de escutá-la, Katie pensou febrilmente enquanto o Rolls-Royce deslizava pelas ruas do vilarejo e parava, a im de permitir que um grupo de turistas atravessasse a rua. Deus, alguém tinha de fazê-lo escutar!
Naquele instante Katie viu o padre Gregório atravessar a praça, indo da casa para a igreja, as vestes negras esvoaçando sob a brisa da tarde. Ele olhou rapidamente na direção do carro, avistou-a na janela e, devagar, desviou o rosto. O padre Gregório jamais a ajudaria... Ou será que sim?
O carro começou a ganhar velocidade. Katie não conseguia encontrar o botão que abria a janela de comunicação, então bateu no vidro, chamando:
— Pare! Pare-se!
Porém, apenas um breve relance dos olhos de Garcia no espelho retrovisor a fez saber que ele nem sequer a ouvira. Era óbvio que Ramon lhe dera instruções de levá-la para o aeroporto e colocá-la no avião, e Garcia pretendia fazer exatamente isso. Katie tentou abrir a porta, mas estavam todas travadas.
Inspirada pelo desespero, ela cobriu a boca com as mãos e gritou:
— Pare, por favor! Eu estou enjoada!
Deu certo! Em questão de segundos Garcia parou o carro, saiu e foi abrir a porta para ela.
Katie puxou o braço, afastando-se do atônito motorista que pensava estar ajudando-a.
— Já estou bem melhor agora! — ela disse, começando a correr através da praça, na direção da igreja e do homem que havia se oferecido para ajudá-la a explicar tudo a Ramon.
Lançou um rápido olhar por cima do ombro, mas Garcia continuava parado ao lado do carro, aparentemente imaginando que ela fora atacada por algum tipo de súbito fervor religioso.
No topo da escadaria de pedras, Katie hesitou, sentindo o estômago encolher-se de medo. Depois da última conversa que tiveram, o padre Gregório nutria apenas um profundo desprezo por ela, e talvez jamais a ajudasse. Ele mesmo lhe dissera, sem rodeios, que voltasse para os Estados Unidos. Mas, mesmo assim, Katie obrigou-se a abrir a pesada porta de carvalho e entrou na igreja sombria, iluminada apenas pela luz das velas.
Procurou no altar, e nas capelinhas laterais onde as velas reluziam em pequenos suportes vermelhos, mas o padre não estava por ali. Então avistou-o, não ocupado com alguma tarefa, como ela havia esperado, mas sim sentado sozinho num dos bancos de madeira, na ileira em frente ao altar. A cabeça branca estava baixada, bem como os ombros, numa postura de desespero ou de prece devota, ela não saberia dizer.
Katie hesitou, sentindo toda a coragem abandoná-la. O padre não iria ajudá-la. A sua maneira, o padre Gregório a desprezava tanto quanto Eduardo, e com maiores e melhores motivos. Virando-se, ela começou a sair da igreja.
— Señorita! — a voz rı́spida e imperativa cortou o silêncio como um raio, fazendo com que Katie se imobilizasse no lugar.
Devagar, ela virou-se para encará-lo. Ele estava parado no centro do corredor, agora, parecendo mais firme e imponente do que nunca.
Ela engoliu em seco, sentindo a garganta arder, e tentou respirar fundo.
— Padre. Gregório — disse, num tom rouco, suplicante.
— Imagino o que o senhor deve estar pensando a meu respeito, e não o culpo por isso, mas foi somente ontem à noite que descobri por que seria tão humilhante para Ramon o fato de eu estar pagando pelas coisas que comprei, sobretudo aos olhos dos moradores do vilarejo. Ontem Ramon descobriu o que estive fazendo, e icou furioso. Eu... eu nunca vi alguém tão furioso em toda minha vida. — A voz caiu para um sussurro sufocado. — Ele está me mandando de volta para casa.
Katie examinou o rosto austero, esperando encontrar algum sinal de simpatia ou compaixão, mas ele a fitava com os olhos fixos, aguçados.
— Eu... eu não quero ir embora — ela gaguejou. Ergueu as mãos num gesto de impotência, e, para seu supremo horror, as lágrimas começaram a correr livres de seus olhos. Humilhada demais para olhar para o padre, tentou em vão enxugar a torrente de lágrimas do rosto. — Quero ficar aqui, com ele...
A voz do padre foi um murmúrio gentil:
— Por quê, Katherine?
Ela ergueu os olhos, espantada. Ele nunca a chamara de ”Katherine”, e a imensa ternura contida em sua voz deixou-a perplexa. Encarou-o através da cortina de lágrimas. O padre encaminhava-se para ela, com um sorriso lento iluminando todo seu rosto.
Parou à sua frente e insistiu suavemente:
— Diga-me por quê, Katherine.
O calor e a aprovação daquele sorriso começaram a derreter o gelo de infelicidade no coração de Katie.
— Quero icar porque quero me casar com Ramon... Não quero mais evitar o casamento — ela admitiu, com uma inocência quase infantil. Sua voz adquiriu mais força, quando continuou: — Prometo que vou fazê-lo feliz, padre. Eu sei que posso. E ele... ele me faz muito feliz.
O sorriso do padre Gregório alargou-se, e para alegria e alı́vio de Katie, ele começou a lhe fazer as mesmas perguntas que havia tentado dias antes:
— Você será capaz de colocar os desejos de Ramon à frente dos seus?
— Sim — ela sussurrou.
— Irá comprometer-se inteiramente com esse casamento, colocando o sucesso dele adiante de todas as outras prioridades de sua vida?
Katie assentiu, enfática.
— Você vai honrar Ramon e respeitar seus desejos? Ela tornou a assentir com vigor, e acrescentou:
— Serei a esposa mais perfeita que o senhor já conheceu. Os lábios do padre apertaram-se.
— Você vai lhe obedecer, Katherine? Ela fitou-o, acusadora.
— O senhor disse que eu não teria de fazer esta promessa.
— E se eu lhe pedisse para fazer?
Katie pesou brevemente as crenças de uma vida inteira com o futuro que teria pela frente. Olhou direto para o padre e respondeu:
— Sim, eu prometeria.
Os olhos dele iluminaram-se de riso.
— Na verdade, eu estava apenas especulando. Katie suspirou, aliviada.
— Ainda bem, pois duvido que eu conseguisse manter a promessa. — Novamente num tom de súplica, ela perguntou: — E agora, o senhor vai realizar o nosso casamento?
— Não.
A resposta veio num tom tão bondoso que, por um instante, Katie achou que não entendera direito.
— Não? — repetiu. — Por quê... Por que não?
— Porque você ainda não me disse a única coisa que preciso ouvi-la dizer.
Katie sentiu o coração encolher-se com uma intensa pontada no peito, e toda a cor desapareceu de seu rosto. Fechou os olhos, tentando afastar a lembrança de si mesma gritando aquelas palavras, obrigando-se a repeti-las agora.
— Eu... — A voz lhe falhou. — Eu não posso. Não consigo dizer. Bem que gostaria, mas...
— Katherine! — o padre exclamou, assustado. — Venha, sente-se aqui — disse rapidamente, levando-a para o banco mais próximo. Sentou ao lado dela, o rosto bondoso repleto de preocupação e ansiedade. — Você não precisa dizer que o ama, Katherine — apressou-se em assegurar-lhe. — Isso é perfeitamente visı́vel. Mas será que, pelo menos, poderia contar-me por que acha tão difícil pronunciar as palavras, tão impossível dizê-las?
Muito pálida, Katie virou-se para ele com um misto de consternação e tristeza, e estremeceu. Num sussurro enrouquecido, falou:
— Porque fico me lembrando da última vez que disse essas palavras.
— Minha ilha, seja lá o que tenha acontecido, você não pode icar guardando tudo dentro de si. Nunca desabafou com ninguém?
— Não — ela disse, a voz sufocada. — Ninguém. Meu pai teria tentado matar David... o meu marido. Quando meus pais retornaram da viagem à Europa, todas as marcas já haviam sido curadas, e Anne, a criada deles, prometeu que nunca lhes contaria sobre o estado em que eu me encontrava na noite em que voltei para a casa deles.
— Quer tentar me dizer o que aconteceu? — ele perguntou com suavidade.
Katie olhou para as mãos imóveis em seu colo. Se o fato de falar pudesse inalmente exorcizar David de sua mente, de sua vida, ela estaria disposta a tentar. Suas primeiras palavras foram vacilantes, hesitantes, mas logo todo o horror extravasou numa torrente de angústia e sofrimento.
Quando terminou, Katie recostou-se no banco, emocionalmente exausta, exaurida de tudo — até mesmo, percebeu com um lampejo de surpresa — da dor. Ouvir-se falar em voz alta sobre David a fez compreender que não havia semelhança alguma entre ele e Ramon; nenhuma. David fora um homem egoı́sta, um monstro sádico, enquanto Ramon queria amá-la, protegê-la, ampará-la. E, mesmo quando desa iara Ramon, humilhando-o e enfurecendo-o, ele não abusara fisicamente dela. O que acontecera no passado pertencia ao passado.
Katie olhou para o padre Gregório e deu-se conta de que ele parecia ter tomado toda a carga para seus próprios ombros. Parecia extremamente cansado.
— Sinto-me bem melhor agora — ela disse, esperando animá-lo.
O padre falou pela primeira vez desde que ela iniciara seu desabafo:
— Ramon sabe de tudo o que aconteceu com você naquela noite?
— Não. Não consegui falar sobre isso com ele. E, de qualquer forma, eu realmente não achava que isso estava me incomodando. Quase nem penso mais em David.
— Mas estava incomodando-a — o padre retrucou. E você esteve pensando nele, mesmo sem perceber. Do contrário, teria simplesmente confrontado Ramon com as suas suspeitas de que ele não era exatamente quem dizia ser. Você não o confrontou porque, em seu coração, tinha medo do que poderia saber. Por causa da sua terrı́vel experiência, automaticamente presumiu que qualquer segredo que Ramon tivesse seria tão aterrorizante quanto os segredos que acabou descobrindo em seu primeiro marido.
O padre mergulhou num silêncio pensativo por alguns minutos, depois pareceu emergir do estado de meditação.
— Acho que seria melhor se você contasse tudo a Ramon antes da noite de núpcias. Há sempre a possibilidade de que, devido às suas lembranças, você sinta alguma inexplicável repulsa quando se deparar com a intimidade entre marido e mulher. Ramon precisa estar preparado para isso.
Katie sorriu e balançou a cabeça, confiante.
— Não sinto qualquer repulsa em relação a Ramon, portanto isso não é motivo de preocupação.
— Talvez tenha razão. — Inesperadamente, a expressão do padre tornou-se quase zangada. — Mesmo se você reagir com receio às intimidades maritais, tenho certeza de que Ramon possui bastante experiência com as mulheres para lidar com problemas desse tipo.
— Estou absolutamente certa disto — Katie assegurou, rindo da expressão de censura do padre. Este franziu a testa, desconfiado, e ela apressou-se em corrigir: — Tenho quase certeza.
Ele assentiu, aprovando.
— E bom que você o tenha feito esperar. Morti icada, Katie sentiu o rosto arder. O padre percebeu que ela se ruborizava e, franzindo a testa, observou-a por cima dos óculos.
— Ou será que foi Ramon quem a fez esperar? — emendou com astúcia.
Ambos olharam para trás ao mesmo tempo, quando alguns turistas entraram na igreja.
— Venha, vamos continuar nossa conversa lá fora o padre sugeriu. Desceram a escadaria e foram para a praça na frente da igreja. — O que vai fazer agora? ele perguntou.
Katie mordeu o lábio e olhou na direção do armazém geral.
— Acho... — disse, com evidente relutância. — Acho que eu deveria devolver as coisas que comprei e dizer, diante de todos, que Ramon não... — engasgou com a palavra.
— Que Ramon não me permitiu ficar com elas.
O padre Gregório atirou a cabeça para trás, sacudindo-se com uma sonora gargalhada. Do outro lado da rua, várias pessoas pararam para ver o que estava acontecendo.
— Isso é bastante encorajador! — ele riu. Depois, balançou a cabeça em negativa, diante de tal sugestão: — Não creio que Ramon gostaria que você izesse isso. Ele não iria querer comprar o seu orgulho de volta à custa do seu próprio orgulho. No entanto, você poderia oferecer-se para fazer isso. Talvez ajudasse a convencê-lo de que está realmente arrependida.
Katie enviou-lhe um olhar impaciente.
— O senhor ainda acha que me faltam docilidade e respeito pela autoridade?
— Sinceramente, espero que sim — ele disse, com um sorriso caloroso. — Conforme Ramon informou-me um tanto rispidamente, ele não quer se casar com um cachorrinho de estimação.
O sorriso de Katie desapareceu.
— Agora ele não quer casar-se comigo, tampouco.
— Gostaria que eu a acompanhasse, quando for falar com ele?
Katie pensou um pouco e balançou a cabeça, em negativa.
— Quando entrei na igreja, era isso que pretendia lhe pedir para fazer. Eu estava aterrorizada pela raiva que ele demonstrou ontem, e até ameaçou fazer com que David parecesse um santo.
— Ramon levantou a mão para você?
— Não.
O padre Gregório pressionou os lábios.
— Se ele não a agrediu depois de toda a provocação de ontem, tenho certeza de que jamais o fará.
— Acho que eu sempre soube disso — Katie admitiu.
— Provavelmente, foi apenas por pensar em David que iquei com tanto medo de Ramon, ontem e hoje.
Cruzando as mãos por trás das costas, o padre olhou em volta, demonstrando sua aprovação pelas montanhas, o céu, o vilarejo e os moradores.
— A vida pode ser muito boa quando se permite que ela seja, Katherine. Mas você deve negociar com a vida. Precisa dar algo de si, para receber algo em troca. A vida não dá certo quando as pessoas tentam apenas tirar, sem nada entregar. Então, acabam de mãos vazias e tentam agarrar-se à vida com mais força, tornando-se cada vez mais desapontadas e desiludidas. — O padre sorriu para ela. Desde que você não tem medo de que Ramon possa agredi-la fisicamente, presumo que não precise de mim, estou certo?
— Na verdade, eu preciso, sim — Katie falou, olhando rapidamente para Garcia, que continuava parado ao lado do Rolls-Royce, os braços cruzados no peito, os olhos seguindo cada movimento seu. — Acho que Ramon deu instruções a Garcia para levar-me para fora desta ilha e, se eu perder o avião, aquele homem será capaz de colocar-me num barco, numa caixa ou até numa garrafa, mas fará o que lhe foi mandado. O senhor acha que poderia convencê-lo a levar-me de volta para a casa de Gabriella, e também lhe dizer que quero fazer uma surpresa a Ramon, e que, portanto, ele não deverá contar-lhe que eu não parti?
— Acho que posso fazer isso — o padre falou, segurando-a pelo braço e andando com ela na direção do carro.
— Um homem que se julga tão ”importante” quanto eu deve ser capaz de convencer um motorista.
— Por favor, me desculpe pelas coisas que eu disse Katie pediu, arrependida.
O padre fitou-a sorrindo.
— Depois de usar estes trajes por cerca de quarenta anos, creio que desenvolvi uma tendência a agir de forma um tanto autoritária. Confesso que, desde que você me disse aquelas coisas, fiz um profundo exame de consciência, tentando descobrir se você tinha razão.
— Era isso que o senhor estava fazendo, quando entrei na igreja agora há pouco?
O rosto dele ficou sombrio.
— Foi um momento de grande tristeza, Katherine. Eu a vi passando pela igreja no carro de Ramon, e soube que estava partindo. Sentei-me ali por um momento e rezei para que você reconhecesse o que estava guardado em seu coração. Apesar de tudo o que disse e fez, eu sentia que você o amava. Agora, vamos ver se consigo convencer o iel Garcia de que será melhor para Ramon se ele desobedecer às suas ordens?
Quando o Rolls-Royce parou na frente da casa de Gabriella, Katie ainda perguntava-se se não seria melhor ir direto para a casa de Ramon. O problema era que Ramon talvez não voltasse mais ao chalé, e Katie não tinha ideia de onde o encontraria. Gabriella poderia ajudá-la nisso, contanto que Eduardo não ficasse sabendo.
Ergueu a mão para bater na porta, mas esta se abriu de repente. Em vez de Gabriella, foi o próprio Eduardo quem atendeu, a expressão fechada e sombria.
— Você não foi embora?
— Não, eu... — Katie começou, num tom de desculpas, mas o resto da frase foi interrompido pelo súbito abraço apertado de Eduardo.
— Gabriella me disse que eu estava enganado a seu respeito — Eduardo confessou, um tanto envergonhado. Passando o braço em torno dos ombros dela, levou-a para a sala de estar, onde Gabriella os recebeu com um sorriso radiante. — Ela me falou sobre a sua coragem. — Ficando subitamente sério, ele acrescentou: — E vai precisar muito dessa coragem para enfrentar Ramon... Ele ficará duplamente furioso por ter sido duplamente desafiado.
— Onde você acha que ele estará esta noite? — Katie perguntou, com bravura.
Ramon recostou o quadril na beirada da escrivaninha, os braços cruzados. Sua expressão não traı́a nenhuma emoção, enquanto ouvia Miguel e os quatro auditores, que estavam sentados no luxuoso sofá em seu escritório, discutindo os termos do pedido de falência que se preparavam para apresentar.
Ele desviou os olhos para as janelas do escritório em San Juan, num dos andares mais altos do edifı́cio, e viu um jato subindo e formando um amplo arco no céu azul da tarde. Calculando o horário, soube que era o avião de Katie. Seus olhos seguiram-no por alguns instantes, até que se tornasse apenas um ponto prateado no horizonte.
— No que se refere a você como pessoa física, Ramon
— Miguel estava dizendo —, não há necessidade de entrar com o pedido de falência. Você tem o bastante para cobrir os débitos pendentes. Os bancos que lhe emprestaram o dinheiro, que depois você emprestou para a corporação, vão penhorar a ilha, as casas, o avião, o iate, a coleção de arte e tudo o mais, e irão recuperar o empréstimo com a revenda dos bens. Os únicos outros débitos pessoais que você tem referem-se aos dois edifı́cios que está construindo em Chicago e St. Louis.
Miguel inclinou-se para a mesa de centro à sua frente e pegou uma folha de papel de uma das pilhas.
— Os bancos que lhe emprestaram parte do dinheiro para a construção estão dispostos a vender os edifı́cios a outros investidores. E claro que esses investidores só terão lucro quando terminarem a construção e os venderem. Infelizmente, também icarão com a maior parte dos vinte milhões de dólares do dinheiro que você investiu em cada um dos edifı́cios. — Miguel olhou para Ramon, com um ar de desculpas. — Provavelmente, você já sabe de tudo isso.
Ramon assentiu, impassível.
Atrás dele, o interfone tocou na escrivaninha e a voz agitada de Elise soou pelo viva-voz:
— O sr. Sidney Green está ligando novamente de St. Louis. Ele está insistindo muito em lhe falar, sr. Galverra. Está me ofendendo — ela acrescentou, tensa. — E gritando comigo.
— Pois diga-lhe que dei instruções para que ele ligue mais tarde, quando estiver mais controlado, e depois desligue o telefone — Ramon falou brevemente.
Miguel sorriu.
— Não há dúvida de que ele está nervoso com os rumores que seus concorrentes andam espalhando sobre a notı́cia de que a tinta que fabrica está apresentando problemas. Aliás, a notı́cia já foi publicada no Wall Street Journal e na seção de negócios de todos os jornais importantes.
Um dos auditores olhou para Miguel com uma expressão de divertimento diante de tal ingenuidade.
— Imagino que ele esteja muito mais nervoso por causa da queda de suas ações. As ações da Green Paint and Chemical estavam sendo vendidas a vinte e cinco dólares cada uma, duas semanas atrás. O preço baixou para treze dólares hoje cedo. Parece que há um certo pânico no ar.
Miguel recostou-se no sofá e cruzou os braços, complacente.
— O que será que aconteceu de errado? — ironizou. No entanto, endireitou-se imediatamente ao perceber o olhar aguçado que Ramon lhe enviava.
— Vocês estão falando de Sidney Garcia, de St. Louis?
— perguntou um dos auditores, um homem magro e de óculos sentado na ponta do sofá, que erguia os olhos da papelada pela primeira vez. — Esse é o nome do sujeito que está encabeçando o grupo que planeja comprar os edifı́cios que você estava construindo em St. Louis, Ramon. Já fizeram uma oferta ao banco para comprá-los e concluírem a construção.
— Aquele abutre! — Miguel sibilou, lançando em seguida uma torrente de palavrões.
Ramon nem mesmo o ouvia. Toda a turbulência de dor e fúria que sentia pela perda de Katie emergia de dentro dele como uma explosão vulcânica de puro ódio que, agora, tinha um alvo que ele poderia atingir: Sidney Green.
— Ele também faz parte da diretoria desse mesmo banco que se recusou a prolongar o prazo do meu empréstimo, para que eu pudesse concluir a construção dos edifı́cios Ramon falou, num tom baixo, ameaçador.
O interfone tocou novamente. Ramon respondeu com um gesto automático, enquanto os auditores juntavam seus papéis, preparando-se para sair.
— Sr. Galverra — Elise falou. — O sr. Green está na linha. Disse que agora está mais controlado.
— Passe a ligação.
A voz de Green explodiu no sistema viva-voz:
— Desgraçado! — ele gritou. Ramon assentiu para que os auditores saı́ssem e enviou um rápido olhar para Miguel, convidando-o a permanecer na sala. — Seu bastardo desgraçado, está me ouvindo?
A voz de Ramon era calma, contida, e muito perigosa.
— Agora que já esgotamos o tópico da minha legitimidade, que tal falarmos de negócios?
— Não tenho negócio algum com você, seu... seu...
— Sidney — Ramon o interrompeu, num tom sedoso.
— Você está começando a me irritar, e eu ico muito pouco razoável quando me irrito. Você me deve doze milhões de dólares.
— Eu lhe devo três milhões! — o outro trovejou.
— Com os juros, agora são doze milhões. Você tem obtido lucros com o meu dinheiro há nove anos, agora quero tudo de volta.
— Vá para o inferno! — Green sibilou.
— Já estou no inferno — Ramon retrucou, a voz inexpressiva. — E quero que você esteja aqui comigo. A partir de hoje, cada dia que passar sem você me pagar, vai custar-lhe um milhão de dólares.
— Você não pode fazer isso, não tem influência para tanto, seu filho da...
— Pois espere para ver — Ramon disparou, antes de desligar o telefone.
Miguel inclinou-se para a frente, ansioso.
— Você tem poder para fazer isso, Ramon?
— Não.
— Mas se ele acreditar que sim...
— Se ele acreditar que sim, é um idiota. E, se for um idiota, não vai querer arriscar-se a ”perder” mais um milhão de dólares hoje e, por isso, tornará a ligar daqui a três horas, para fazer um acordo e depositar o dinheiro no meu banco em St. Louis antes do final do expediente.
Três horas e quinze minutos depois, Miguel estava escarrapachado em sua poltrona, o nó da gravata desfeito, o paletó aberto. Ramon ergueu os olhos da papelada que estava assinando e disse:
— Sei que você não saiu para o almoço, e está quase na hora do jantar. E melhor ligar para o restaurante e pedir que tragam alguma coisa. Se vamos icar trabalhando até tarde, você precisa comer.
Miguel parou com a mão no telefone.
— Você não quer nada, Ramon?
A pergunta fez surgir a imagem de Katie na mente de Ramon, e ele fechou os olhos, tentando aplacar a dor angustiante.
— Não, obrigado.
Miguel ligou para o restaurante e encomendou sanduı́ches. Assim que desligou o telefone, este começou a tocar.
— Elise já foi embora — disse Ramon, atendendo. Por um instante, icou imóvel, depois pressionou o botão que acionava o viva-voz.
A voz estrangulada de Sidney Green ressoou pelo elegante escritório:
— É preciso saber qual é o banco.
— Nada de bancos — Ramon respondeu rispidamente.
— Envie o dinheiro aos meus advogados em St. Louis. Forneceu o nome e endereço da irma, e acrescentou: Diga para me ligarem neste número assim que estiverem com o cheque em mãos.
Trinta minutos depois, o advogado de Ramon ligou. Quando Ramon desligou o telefone, olhou para Miguel, cujos olhos estavam febris de excitação.
— Como pode icar sentado aı́ com toda essa calma, Ramon? Você acabou de ganhar doze milhões de dólares!
O sorriso de Ramon era irônico.
— Na verdade, acabei de ganhar quarenta milhões. Vou usar esses doze para comprar ações da Green Paint and Chemical. Daqui a duas semanas, poderei vendê-las por vinte milhões. Aplicarei os vinte milhões na construção do edifı́cio em St. Louis e, quando vendê-lo, daqui a seis meses, receberei de volta os vinte milhões investidos logo no início, e mais esses vinte.
— Mais os lucros que conseguir nas vendas.
— Sim, mais os lucros — Ramon concordou, sem se alterar.
Miguel começou a vestir o paletó, todo animado.
— Vamos sair e comemorar — disse, ajeitando a gravata.
— Faremos uma combinação de despedida de solteiro e comemoração pelo sucesso da empreitada!
Os olhos de Ramon adquiriram um brilho enigmático.
— Não vou precisar de nenhuma ”despedida de solteiro”, Miguel. Esqueci de mencionar que não vou mais me casar no domingo. Katie... mudou de ideia. — Ramon abriu a gaveta da escrivaninha, evitando cuidadosamente o olhar de pena que sabia que veria na expressão do amigo. Mas vá você, e comemore o meu ”sucesso” por nós dois. Quero dar uma olhada nos arquivos sobre aquele edifício.
Pouco depois, Ramon ergueu os olhos e viu um rapaz parado diante da sua mesa, segurando dois saquinhos de papel nas mãos.
— Alguém ligou encomendando sanduíches, senhor ele disse, olhando em volta do escritório com evidente admiração.
— Deixe-os aı́ mesmo. — Ramon indicou a mesa de centro e, distraidamente, pegou a carteira no bolso do paletó.
Abriu a carteira, procurando um trocado para dar de gorjeta ao rapaz. Porém, a nota mais baixa que tinha era uma de 5 dólares — aquela que Katie lhe dera no dia em que se conheceram. Ramon nunca tivera intenção de desfazer-se dela, e a dobrara em quatro a im de distingui-la das outras notas na carteira: uma lembrança, que guardava como um tesouro, recebida de um anjo de olhos azuis.
Ramon sentiu como se estivesse se estilhaçando em centenas de pedaços, quando pegou a nota na carteira. Seus dedos apertaram-na convulsivamente, e então obrigou-se a soltá-la. Exatamente como obrigara-se a libertar Katie. Abriu a mão e entregou a nota amassada ao garoto.
Depois que o entregador saiu, ele olhou para a carteira. A nota de Katie se fora. Katie se fora. Ele era novamente um homem muito rico. Uma raiva amarga ardia dentro dele, e seus punhos cerraram-se com força como se tomados pela necessidade urgente de esmurrar alguma coisa.