Doce Triunfo

Judith McNaught · Capítulo 14 de 21

Páginas do PDF

Doce Triunfo

Capítulo 14

NA MANHA DE QUINTA-FEIRA Miguel estava revendo a declaração de bens que havia preparado com Ramon, quando Elise entrou no escritório de Ramon sem a habitual batida na porta.

— Desculpe — ela disse, o rosto pálido e abalado. Há um homem... um homem muito grosseiro... no telefone. Já lhe disse duas vezes que o senhor não pode ser interrompido, mas assim que eu desligo o telefone ele torna a ligar e começa a gritar comigo novamente.

— O que ele quer? — Ramon perguntou, impaciente. A secretária engoliu em seco, apreensiva.

— Ele... ele deseja falar com o ”bastardo que está tentando jogar a tinta dele pelo ralo”, segundo as suas próprias palavras. Essa pessoa... é o senhor?

Os lábios de Ramon curvaram-se num sorrisinho.

— Creio que sim. Pode passar a ligação.

Ansioso, Miguel inclinou-se para a frente. Ramon apertou o botão que conectava o telefone, relaxou em sua cadeira e continuou a analisar calmamente os documentos inanceiros que estivera lendo.

A voz de Sidney Garcia explodiu na sala, através do viva-voz:

— Galverra, seu desgraçado! Está perdendo o seu tempo, ouviu bem? Não importa o que você faça, não vou pagar nem um centavo daqueles três milhões. Entendeu bem? Não importa o que você faça! — Não houve resposta, então ele gritou: — Diga alguma coisa, maldição!

— Eu admiro a sua coragem — Ramon falou calmamente.

— Esta é a sua maneira de dizer-me que planeja outras táticas de guerrilha? Está me ameaçando, Galverra?

— Eu jamais cometeria a indelicadeza de ”ameaçá-lo”, Sidney — Ramon retrucou num tom grave, preocupado.

— Diabo, você está me ameaçando! Quem você pensa que é?

— Acho que sou o ”desgraçado” que vai lhe custar doze milhões de dólares — Ramon respondeu e, com isso, estendeu a mão e apertou o botão que desligava o telefone.

Katie assinou rapidamente o recibo do cartão no valor da metade do preço dos móveis que acabara de comprar, e depois pagou o restante com parte do dinheiro que Ramon lhe deixara. A vendedora lançou-lhe um olhar intrigado quando ela pediu dois recibos, um para cada metade do valor da compra. Katie ignorou-o com firmeza, mas Gabriella ruborizou-se e desviou o rosto.

Lá fora a temperatura era deliciosamente quente, e turistas passeavam pelas ruas ensolaradas da parte antiga de San Juan. O carro estava estacionado junto à calçada. Era um velho mas con iável veı́culo que pertencia ao marido de Gabriella, que permitira que elas o usassem nas expedições de compras.

— Estamos nos saindo muito bem — Katie suspirou, enquanto abria o vidro da janela a im de permitir que a brisa refrescasse o interior abafado. Já era quinta-feira, o quarto dia de sua frenética, mas bem-sucedida orgia de compras, e ela sentia-se feliz e exausta. — Só gostaria de não ter esta sensação de que estou me esquecendo de alguma coisa acrescentou, olhando por cima do ombro para os dois abajures e a mesa de canto que atulhavam o banco traseiro.

— Pois eu sei o que é. — O belo rosto de Gabriella tinha uma expressão preocupada quando girou a chave na ignição e lançou um breve sorriso para Katie. — Você está se esquecendo de contar a Ramon a verdade sobre quanto tudo isso está custando. — Manobrou o carro, entrando no luxo de veı́culos do centro da cidade. — Katie, ele vai icar muito zangado quando descobrir o que você está fazendo.

— Ele não vai descobrir — Katie anunciou alegremente.

— Eu não vou contar nada, e você prometeu fazer o mesmo.

— E claro que não vou contar! — Gabriella exclamou, com um ar ofendido. — Mas padre Gregório já falou muitas vezes na missa sobre a necessidade de sempre haver sinceridade entre marido e...

— Ah, não! — Katie gemeu em voz alta. — Foi isso que esqueci. — Recostou-se no assento e fechou os olhos. — Hoje é quinta-feira, e às duas da tarde teria de me encontrar com o padre Gregório. Ramon marcou o encontro na terça-feira e avisou-me hoje cedo, mas eu me esqueci completamente!

— Gostaria de ir falar com o padre agora? — Gabriella ofereceu uma hora mais tarde, quando o carro chocalhava ruidosamente pelas ruas do vilarejo. — São apenas quatro horas. O padre Gregório ainda deve estar na igreja.

Katie balançou a cabeça rapidamente, em negativa. Estivera o dia todo pensando no piquenique que ela e Ramon fariam no chalé, naquela noite. Ficara de levar a comida, pois ele estaria ali trabalhando com os outros homens. Quando estes saı́ssem, ela e Ramon teriam algumas horas sozinhos — as primeiras em quatro dias, desde que haviam chegado.

Quando pararam em frente à casa de Gabriella, Katie deslizou para o banco do motorista, acenou-lhe em despedida e virou o velho carro na direção do vilarejo, onde poderia parar no armazém geral para comprar comida e uma garrafa de vinho para o piquenique.

Aqueles quatro últimos dias continham uma atmosfera estranha e irreal para ela. Ramon estivera trabalhando na fazenda em Mayagúez de manhã e nas reformas do chalé à tarde, de forma que ela o via apenas à noite. Ela passara os dias fazendo compras e decidindo sobre detalhes decorativos para a casa de Ramon, tendo somente sua própria ideia do gosto dele para guiá-la. Sentia-se como se estivesse de férias ocupando-se em decorar a casa dele... em vez de estar planejando seu próprio lar. Talvez fosse porque Ramon estava tão ocupado e ela o via tão pouco, e, quando estavam juntos, havia sempre outras pessoas em volta.

Rafael e os ilhos também trabalhavam na reforma da casa, e todas as noites, durante o jantar, os quatro homens estavam exaustos, embora animados e contentes. Apesar de Ramon lhe dedicar toda sua atenção à noite, mantendo-a sempre perto de si quando sentavam-se na sala da casa de Rafael, rodeados pela atmosfera amigável de sua famı́lia, o ”momento e lugar para compartilharmos um ao outro” ainda não se apresentara.

Todas as noites Ramon a acompanhava de volta para a casa de Gabriella, onde sentavam-se no sofá da sala às escuras e ali ficavam abraçando-se por um longo tempo.

Durante o dia, Katie mal podia passar perto do sofá sem que sentisse o rosto afoguear-se. Por três noites seguidas, Ramon a despira quase totalmente, deixando-a num estado de excitação insuportável e, depois, tornara a vesti-la e despedira-se dela com um beijo longo e derradeiro. E, a cada noite, Katie arrastava-se para a sua cama temporária, invadida por um desejo doloroso e não saciado, começando a pensar que era precisamente o que Ramon pretendia que ela sentisse. Ainda assim, não havia dúvidas em sua mente de que ele sempre ia embora muito mais excitado do que ela própria, portanto não fazia sentido continuarem se torturando daquela maneira.

Na noite anterior, num assomo de confusão e desejo, Katie havia tomado uma decisão e oferecera-se para pegar o cobertor em sua cama, a im de que pudessem ir para fora onde teriam privacidade e nenhum perigo de serem interrompidos.

Ramon a fitara com os olhos repletos de desejo, o rosto nublado de paixão.

— A chuva vai nos interromper, Katie — ele dissera. Deve chover a qualquer minuto.

Mal ele acabara de falar, um relâmpago cruzou o céu escuro, iluminando toda a sala. Porém não choveu.

Mas aquela noite, sem dúvida, seria o ”momento e o lugar certos” que estiveram esperando, Katie decidiu, e sentia-se ardendo de antecipação. Parou o carro na frente do armazém e desceu. Puxando as pesadas portas, entrou no prédio antigo, piscando para acostumar os olhos à pouca luz.

Além de funcionar como a agência de correio local, o armazém geral vendia de tudo, desde farinha e alimentos enlatados até roupas e móveis baratos. Pilhas de produtos cobriam o piso de madeira, com apenas um estreito corredor para a passagem dos compradores. Os balcões também estavam repletos, bem como as prateleiras que se erguiam nas paredes altas. Sem a ajuda de alguém que trabalhasse ali, Katie e Gabriella levariam semanas para encontrar tudo do que precisavam.

A jovem a quem Gabriella já a apresentara como sendo a noiva de Ramon, avistou Katie e foi atendê-la com um largo sorriso. Com a ajuda dela, Katie descobrira, no inı́cio da semana, uma pilha de toalhas de banho felpudas e coloridas, escondidas sob uma montanha de calças de brim. Katie havia comprado meia dúzia de toalhas e encomendara mais uma dúzia, de cores diversas. Era evidente que a garota estava pensando que Katie voltara para buscar o restante das toalhas, pois pegou uma delas, abriu-a sobre o balcão e balançou a cabeça em negativa, comunicando-se por meio de mímica, pois não falava inglês.

Katie sorriu e apontou a prateleira de mantimentos, que se intercalava com equipamentos agrı́colas como pás e ancinhos, e foi pegar o que precisava. Escolheu algumas frutas frescas, pão e alguns tipos de frios e voltou para o balcão a im de pagar as compras. Depois de somar os itens, a jovem balconista entregou-lhe duas notas, uma para cada metade da compra. Parecia tão orgulhosa por ter se lembrado de que Katie sempre pedia dois recibos de pagamento que ela nem se deu ao trabalho de tentar explicar que isso não seria necessário para aquele tipo de compra.

O cenário com que Katie se deparou, enquanto o carro sacudia através da alameda cercada de árvores loridas que levava ao chalé, apanhou-a totalmente desprevenida. No gramado em frente à casa estavam estacionados três velhas caminhonetes, dois cavalos e um caminhão carregado de entulho, que obviamente havia sido removido da casa e seria transportado para outro lugar. Dois homens substituı́am as telhas, e outros dois lixavam a pintura antiga dos batentes das janelas. As venezianas tinham sido consertadas e estavam abertas, deixando à mostra as vidraças reluzentes como cristal. Aquela era a primeira vez que Katie via a casa, desde o domingo, e estava ansiosa para verificar os progressos das reformas. Espiou rapidamente no espelho retrovisor do carro, retocou o batom e ajeitou os cabelos revoltos.

Saiu do carro, alisando as pernas da calça jeans e arrumando a blusa por dentro da cintura. O ruído constante do bater de martelos no interior da casa cessou abruptamente. Os homens que estavam no telhado pararam e icaram olhando para baixo, enquanto Katie passava pela calçada, agora totalmente recuperada e revestida de tijolos novos. Ela olhou no relógio, vendo que eram 18.00 em ponto, e concluiu que os homens estavam encerrando o trabalho do dia.

A porta da frente, que Ramon derrubara com um chute no domingo, havia sido recolocada no lugar, e toda a pintura descascada fora lixada até que a madeira icasse lisa e com sua cor natural. Katie afastou-se para o lado quando oito homens passaram pela porta carregando as caixas de ferramentas. Rafael e os dois ilhos seguiam atrás deles. Havia um exército trabalhando ali, Katie pensou, divertida.

— Ramon está na cozinha com o encanador — Rafael avisou-a, com um de seus sorrisos afáveis e paternais. Os dois filhos também sorriram, ao passar por ela.

As paredes da sala, feitas de tábuas, haviam sido lixadas, bem como o piso. Katie levou um instante para entender por que a casa parecia tão alegre e ensolarada. Então, percebeu que todas as janelas estavam limpas e algumas delas, abertas, deixando a brisa agradável mesclar-se com o odor pungente de madeira recém-serrada. Um homem de certa idade, carregando um enorme cano em cada mão, saiu da cozinha e cumprimentou-a brevemente, antes de atravessar a sala e sair pela porta. O encanador, Katie adivinhou.

Com um último olhar apreciador para as melhorias à sua volta, Katie foi para a cozinha. Como todas as outras superfı́cies de madeira, os armários tinham sido raspados e lixados da velha pintura, e o horrı́vel linóleo descascado do piso fora retirado. O barulho de metal batendo contra metal chamou-lhe a atenção, e ela virou-se para onde se encontrava a pia. Um par de pernas longas estendia-se no chão, o tronco a que pertenciam estando oculto sob o armário. Katie sorriu, reconhecendo as pernas e os quadris estreitos sem nem mesmo ver a cabeça, cuja visão estava bloqueada pelo encanamento.

Ramon não percebera que o encanador havia saı́do, pois sua voz tão familiar disparou uma ordem rápida em espanhol.

Katie hesitou, incerta, mas sentindo-se como uma criança que prega uma peça num adulto, pegou a chave de fenda que estava no balcão e passou-a para ele. Quase riu alto quando a ferramenta foi-lhe devolvida com um gesto impaciente, e a mesma ordem foi repetida com irritação, dessa vez acompanhada de uma batida no fundo da pia de aço inoxidável.

Calculando que adivinhara o que ele queria, Katie inclinou-se para a frente e abriu as duas torneiras. O jato de água provocou uma torrente de imprecações, que emergiu de sob a pia ao mesmo tempo que Ramon, com a água escorrendo pelo rosto, pelos cabelos e o peito nu. Pegando a toalha no chão, ele levantou-se num único movimento ágil e furioso, enxugando o rosto, enquanto Katie apressava-se a fechar as torneiras. Com um misto de temor e fascinação, icou ouvindo os impropérios em espanhol que vinham de trás da toalha, depois deu um pulo de susto quando Ramon finalmente olhou para ela.

A expressão dele transformou-se de raiva em choque.

— Eu... eu queria lhe fazer uma surpresa — Katie explicou, mordendo o lábio para controlar o riso.

A água escorria dos cabelos crespos, das sobrancelhas e cı́lios, espalhando-se nos pelos escuros do peito. Os ombros de Katie começaram a sacudir.

Um brilho surgiu nos olhos dele.

— Pois acho que uma ”surpresa” merece outra — disse. Estendeu a mão direita e abriu a torneira de água fria.

Antes que Katie pudesse emitir algo mais do que um gritinho de protesto, sua cabeça estava sendo forçada para baixo da torneira, a centímetros do jato de água.

— Não se atreva! — ela gritou, rindo. A água estava correndo com mais força, e sua cabeça mais próxima da torneira. — Pare com isso! — ela pediu, a voz ecoando na pia de metal. — A água está se espalhando no chão!

Ramon soltou-a e fechou a torneira.

— Os canos estão vazando — disse, sem a menor sombra de preocupação. Arqueou a sobrancelha e acrescentou, ameaçador: — Terei de pensar numa ”surpresa” melhor para você.

Katie riu, ignorando a ameaça.

— Pensei que sua especialidade fosse a carpintaria provocou, pousando as mãos nos quadris.

— Não — ele corrigiu-a. — Eu disse que entendia de carpintaria tanto quanto você sabia fazer cortinas.

Katie sufocou um risinho e conseguiu esboçar uma expressão falsamente indignada.

— Pois as minhas cortinas estão tendo um progresso muito maior do que o seu encanamento. — Porque Gabriella e a sra. Villegas estão confeccionando-as — acrescentou em pensamento.

— Ah, acha mesmo? — ele zombou. — Então vá até o banheiro.

Katie icou surpresa quando Ramon não a seguiu e, em vez disso, pegou uma toalha seca e uma camisa que estavam pendurados num prego. Ela parou na porta do banheiro, preparando-se mentalmente para se deparar com o cenário desolador que havia visto no domingo. Quando abriu a porta devagar, seus olhos arregalaram-se.

Todas as peças tinham sido trocadas. Agora havia uma penteadeira moderna com a pia, e um boxe para o chuveiro, com portas de correr. Katie puxou uma das portas, a tı́tulo de experiência, e viu que deslizava maciamente. No entanto, a ducha estava pingando e Katie balançou a cabeça, divertindo-se com a ausência de preocupação de Ramon em relação a vazamentos. Com todo cuidado para não escorregar no piso molhado, entrou no boxe e estendeu a mão para fechar melhor a torneira. Sua boca abriu-se num grito silencioso quando um jato de água fria atingiu-a em cheio no rosto. Sem nada enxergar, virou-se para sair do boxe, mas acabou escorregando e caiu de quatro, bem embaixo da ducha vigorosa.

Engatinhou para fora do boxe, as roupas colando-se em seu corpo, a água escorrendo dos cabelos e do rosto. Tentou levantar-se desajeitadamente, enquanto afastava os cabelos molhados dos olhos. Ramon estava parado na porta, lutando para manter a expressão séria.

— Nem ouse rir — ela avisou em voz baixa.

— Quer um sabonete? — ele ofereceu, solı́cito. — Ou talvez uma toalha? — acrescentou com toda a seriedade, entregando-lhe a toalha que estivera segurando.

Puxou da cintura a camisa que acabara de vestir e começou a desabotoá-la, enquanto continuava falando:

— Permite que lhe ofereça a roupa do meu corpo, então? Katie, que estava prestes a cair na risada, preparou-se para dar-lhe uma resposta atravessada, quando ele acrescentou:

— É estranho, não acha, como uma ”surpresa” realmente leva a outra?

Uma onda de indignação invadiu-a, ao perceber que ele izera tudo aquilo de propósito. Com um tremor de frio, arrancou a camisa da mão dele e bateu a porta em sua cara sorridente. Com certeza ele icara ali olhando, quando ela entrara no boxe e abrira a torneira, em vez de fechá-la, pensou, furiosa, enquanto tirava a calça jeans ensopada. Então era assim que os homens latinos reagiam, quando vı́timas de uma brincadeirinha inocente! Esse era o tipo de retribuição que seus egos monstruosos exigiam! Escancarou a porta do banheiro, vestida apenas com a calcinha molhada e a camisa de Ramon, e marchou para fora da casa vazia.

Ramon encontrava-se no gramado da frente, estendendo calmamente sob uma árvore a manta que trouxera no carro. Mas era mesmo muita arrogância!, Katie pensou ao vê-lo. Ele achava mesmo que ela iria tolerar aquele tipo de tratamento e ainda icaria ali, para um aconchegante piquenique no campo!

Ramon ajoelhou-se na manta e olhou para ela, a expressão impassível.

— Nunca mais bata uma porta na minha cara — disse, num tom calmo.

Depois, como se isso encerrasse todo o episódio, seu rosto suavizou-se. Fervendo por dentro, Katie cruzou os braços no peito, recostou-se na soleira da porta e deixou que ele a olhasse por inteiro. Porque olhar era tudo o que ele faria. Dali a dois segundos ela iria pegar a manta, enrolá-la na cintura e voltaria para a casa de Gabriella!

O olhar de Ramon deslizou pela cascata de cabelos avermelhados, que caı́a em ondas úmidas pelos seus ombros, para a saliência dos seios sob a camisa, fez uma pausa no lugar onde a camisa terminava, no meio das coxas, depois seguiu pelas pernas firmes e bem torneadas.

— Já viu o bastante? — Kate perguntou, sem esconder a hostilidade. — Está satisfeito?

Ramon ergueu a cabeça, os olhos perscrutando-lhe o rosto como se não pudessem desvendar o seu humor. — E apenas em me ”satisfazer” que você pensa, Katie? Ignorando a insinuação sexual, Katie endireitou-se e marchou até a manta onde ele estava ajoelhado.

— Vou embora — ela disse, olhando-o com uma altivez impassível.

— Não precisa ir buscar mais roupas. As suas irão secar logo e, além disso, eu já a vi usando menos do que isso.

— Não vou buscar outras roupas. Não tenho a menor intenção de icar aqui para um piquenique depois que você me molhou de propósito, apenas para se vingar.

Ramon levantou-se devagar, encarando-a, e Katie manteve os olhos ixos em seu peito bronzeado.

— Preciso da manta para enrolar na cintura, para voltar à casa de Gabriella. Você está em cima dela.

— Estou mesmo — ele disse com suavidade, saindo de cima da manta.

Katie pegou-a rapidamente, enrolou-a na cintura e foi na direção do carro, ciente de que Ramon recostara-se tranquilamente numa árvore, observando cada movimento seu. Sentou atrás do volante e, num gesto automático, estendeu a mão para a chave do contato, sabendo que a deixara no lugar. Mas não estava mais ali. Nem precisava procurá-la no assento, pois sabia quem a pegara.

Katie lançou um olhar fulminante para Ramon, através da janela do carro, e ele en iou a mão no bolso, tirou a chave e exibiu-a na palma da mão aberta.

— Você vai precisar disto.

Katie saiu do carro e foi até ele com passos duros, tentando demonstrar o máximo de dignidade que aquela manta enrolada na cintura lhe permitia. Aproximando-se dele, itou-o sem piscar.

— Dê-me a chave — disse, estendendo a mão.

— Pode pegar — ele tornou, indiferente.

— Você jura que não vai me tocar?

— Nem sonharia com isso — ele respondeu, com uma calma enfurecedora. — Mas não vejo motivos para que você não me toque. — Num misto de surpresa e raiva, Katie viu-o guardar a chave no bolso da frente da calça jeans e depois cruzar os braços. — Fique à vontade para pegar a chave.

— Está se divertindo com isso, Ramon? — ela sibilou, furiosa.

— É a minha intenção.

Katie estava com tanta raiva que seria capaz de nocauteá-lo e arrancar-lhe a maldita chave à força. Deu dois passos na direção dele, afundou a mão no bolso, ignorando a intimidade do gesto, e puxou a chave para fora.

— Obrigada — disse, sarcástica.

— O prazer foi meu — ele tornou, sugestivo.

Ela girou nos calcanhares e deu um passo, mas com o movimento súbito a manta soltou-se e caiu no chão, com a ajuda do pé de Ramon, que estava irmemente plantado numa das pontas da coberta. Com os punhos cerrados de ódio, Katie virou-se de novo para ele.

— Como pode pensar que eu faria uma coisa como aquela de propósito? — ele perguntou calmamente.

Katie perscrutou o rosto tranquilo e inalterado, e aos poucos a raiva foi desaparecendo, deixando-a exaurida.

— Você não fez?

— O que acha?

Ela mordeu o lábio, sentindo-se tola e ridícula.

— Eu... acho que não — admitiu, baixando a cabeça para os pés descalços.

A voz de Ramon continha um tom divertido.

— E agora, o que vai fazer?

Os olhos azuis de Katie aqueceram-se de riso, quando se ergueram para ele.

— Vou lhe mostrar quanto lamento ter pensado o pior de você servindo-o pelo restante da noite!

— Entendo... — ele disse, com um sorriso. — Nesse caso, o que devo fazer?

— Apenas fique aqui, enquanto arrumo a manta, depois vou lhe servir o vinho e sanduíches.

Com divertida satisfação, Ramon deixou que ela lhe preparasse três sanduı́ches de rosbife, mantivesse seu copo de vinho cheio e lhe cortasse fatias de queijo sempre que ele pedia.

— Vou acabar me acostumando com isso — ele brincou quando Katie insistiu em não apenas descascar a maçã, mas também em cortá-la em pedaços e levá-los à sua boca.

Katie olhou para ele sob a luz do crepúsculo, os sentidos despertados pela sua proximidade. Ramon estava estendido na manta, as mãos cruzadas sob a cabeça, parecendo um felino ágil e poderoso, que sabe que sua presa está ao alcance e sem chances de escapar.

— Katie — ele murmurou, num tom sensual. — Sabe o que eu queria agora?

A mão dela ficou paralisada no ar, no ato de levar o copo de vinho aos lábios.

— O quê? — perguntou.

— Uma de suas massagens nas costas — ele anunciou, virando-se de bruços e deixando as costas à mostra.

Katie deixou o copo de lado e ajoelhou-se perto dele. Os ombros largos e musculosos, as costas lisas, pareciam revestidos de cetim, macios e quentes sob seus dedos. Ela continuou massageando até que as mãos icassem cansadas, depois sentou e tornou a pegar o copo de vinho.

— Katie? — Ramon falou novamente, virando-se de frente para ela.

— Humm?

— Eu fiz de propósito.

Rápida como um raio, Katie atirou o vinho nas costas dele, levantou-se e disparou na direção da casa. Ramon agarrou-a pela cintura no instante em que ela estava cruzando a sala escura, o corpo sacudindo-se de riso quando ela tentava desvencilhar-se.

— Seu estúpido! — ela ofegou, num misto de hostilidade e riso. — Você é o homem mais traiçoeiro, mais arrogante...

— E mais inocente que você conhece — ele riu. — Dou-lhe minha palavra.

— Eu poderia matá-lo! — ela riu também, enquanto tentava soltar-se.

— Se você continuar fazendo isso, eu vou precisar de um banho frio.

Katie imobilizou-se, consciente da pressão que a ereção dele fazia em seu traseiro, enquanto uma onda de desejo intenso a invadia. Os lábios de Ramon roçaram em sua orelha, deslizando sensuais pela curva de seu pescoço, provando e explorando cada centı́metro de sua pele. As mãos acariciavam-lhe os seios com a mesma possessividade, que sempre a deixava zonza de prazer.

— Seus mamilos estão rı́gidos — ele disse num tom baixo, quente, enquanto os dedos acariciavam os mamilos sensíveis. — E seus seios estão inchados, prontos para encher as minhas mãos. Vire-se, querida — murmurou. — Quero senti-la contra o meu peito.

Estremecendo de antecipação, Katie virou-se nos braços dele. Ramon olhou para a curva suave de seus seios, depois para os olhos dela. Hipnotizada, Katie viu os lábios dele descendo lentamente até os seus, as mãos deslizando pela sua nuca e mergulhando em seus cabelos.

No instante em que seus lábios se tocaram, tudo o mais deixou de existir. Ramon penetrou a lı́ngua em sua boca, ávido, com uma urgência que a deixou em chamas. A mão livre deslizava em suas costas, colando-a contra si, fazendo-a sentir a dureza de seus quadris. Depois, ele se afastou.

— Vamos lá fora, Katie — ele disse com voz rouca, e quando ela assentiu, concordando, gemeu baixinho, tomando-lhe os lábios para mais um beijo devastador.

Um facho de luz atordoante explodiu por trás dos olhos fechados de Katie, no mesmo instante em que uma voz indagava:

— Posso perguntar quem realizou o casamento que precipitou essa lua de mel, Ramon?

Katie abriu os olhos de imediato e deparou-se com um homem estranhamente trajado, parado na sala que, agora, estava iluminada. Depois ele olhou para Ramon, cuja cabeça estava atirada para trás, os olhos fechados e a expressão com um misto de incredulidade e irritação. Suspirando, ele por fim abriu os olhos e virou a cabeça para o intruso.

— Padre Gregório, eu...

Katie sentiu os joelhos dobrarem.

Ramon segurou-a com mais força, desviando os olhos para o seu rosto pálido e transtornado.

— Katie, você está bem? — perguntou, ansioso.

— Tenho certeza de que a srta. Connelly não está nada bem — o padre disparou. — Não há dúvida de que ela deseja se retirar e vestir-se.

Um antagonismo envergonhado fez com que o rosto pálido de Katie se ruborizasse.

— Minhas roupas estão ensopadas — ela disse. Infelizmente, naquele instante deu-se conta de que, com os braços de Ramon em torno de si, a camisa subira até a cintura, deixando a calcinha de renda à mostra. Mais que depressa, ajeitou a camisa e afastou-se de Ramon.

— Nesse caso, talvez você queira usar aquela manta que vi lá fora para cobrir-se. Aliás, é para isso que ela serve.

Ramon falou alguma coisa num rápido espanhol e adiantou-se para impedir Katie de sair, mas ela desviou-se e correu para fora. Estava humilhada, envergonhada e furiosa consigo mesma por sentir-se como uma ingênua garota de quinze anos. Aquele homem odioso e dominador era o padre cuja aprovação ela teria de conquistar, antes que ele concordasse em realizar o casamento, pensou com raiva. Nunca, nunca em toda sua vida ela desprezara alguém daquela maneira! Em dez segundos, ele a izera sentir-se suja e vulgar. Ela, que era praticamente uma virgem pelos padrões atuais!

Ramon estava conversando com o padre num tom calmo, quando Katie entrou no chalé enrolada na manta. Ele estendeu-lhe o braço e puxou-a para perto de si, reconfortando-a, mas suas primeiras palavras estavam mescladas com reprovação:

— Por que não foi ao encontro marcado com o padre Gregório, Katie?

Ela empinou o queixo, na defensiva, enquanto olhava para o padre. Ele tinha uma espécie de coroa de cabelos brancos em torno da cabeça calva. As sobrancelhas espessas e brancas arqueavam-se nas extremidades, dando-lhe um ar satânico que, Katie pensou, parecia totalmente apropriado para um velho demônio. Ainda assim, seus olhos vacilaram ao deparar com os dele, muito azuis.

— Eu me esqueci.

Katie sentia o olhar aguçado de Ramon sobre si.

— Nesse caso — o padre Gregório falou, num tom frio e indiferente —, talvez você queira marcar outra hora. Às quatro da tarde, amanhã.

Katie aceitou a sugestão murmurando:

— Está bem.

— Vou levá-lo de volta ao vilarejo, padre — Ramon ofereceu.

Katie queria que um buraco se abrisse na sala quando, depois de assentir concordando, o padre enviou-lhe um olhar significativo por sobre os aros dos óculos.

— Tenho certeza de que a srta. Connelly desejava voltar para a casa de Gabriella agora mesmo. Está ficando tarde.

Sem esperar a resposta de Ramon, ela virou-se abruptamente e foi para o banheiro, fechando a porta com irmeza. Num estado de sufocante humilhação, vestiu as roupas úmidas e penteou os cabelos.

Tornando a abrir a porta, encaminhou-se direto para Ramon, que estava parado na soleira da porta, apoiando os braços no batente. O leve ar de divertimento na expressão dele colidiu com suas emoções desencontradas.

— Katie, ele acha que está protegendo a sua virtude das minhas más intenções.

Katie, que se encontrava à beira das lágrimas, fixou os olhos na covinha do queixo dele.

— Ele não acredita, nem por um minuto, que eu tenha qualquer virtude! Agora, vamos embora, por favor. Preciso sair daqui. Eu... estou muito cansada.

Enquanto ia andando na direção do carro, onde o padre Gregório os esperava, seus sapatos ensopados produziam um ruı́do engraçado, e a calça jeans úmida colava-se em suas pernas. Aquela prova irrefutável de que suas roupas realmente estavam molhadas levou um leve sorriso de aprovação aos lábios do padre, mas Katie limitou-se a enviar-lhe um olhar gelado, antes de entrar no veı́culo. A caminho do vilarejo, ele fez duas tentativas de conversar com ela, mas Katie logo o desencorajou, respondendo com monossílabos.

Após deixar o padre no vilarejo, foram para a casa de Gabriella. Quinze minutos depois, quando Katie saiu do quarto após ter trocado de roupa, Ramon estava na sala, conversando com Eduardo, o marido de Gabriella. No instante em que a viu, Ramon desculpou-se e pediu que Katie o acompanhasse até lá fora. Os efeitos negativos de seu encontro com o padre Gregório já haviam quase se evaporado, mas ela ainda sentia-se vagamente insegura em relação ao humor de Ramon.

Num silêncio pesado, caminharam até o quintalzinho dos fundos. Katie parou, então, recostando-se no tronco de uma árvore. Ramon estendeu os braços e apoiou-os em cada lado, aprisionando-a. Katie viu a determinação em seus traços e a fria especulação em seu olhar intenso.

— Por que não foi falar com o padre Gregório hoje à tarde, Katie?

Apanhada de surpresa pela pergunta, ela gaguejou:

— Eu... eu já disse, Ramon. Esqueci.

— Eu ainda a lembrei disso esta manhã, quando vim vê-la antes de ir para o trabalho. Como pôde se esquecer poucas horas depois?

— Pois me esqueci — ela retrucou, na defensiva. — Estava ocupada demais fazendo o que tenho feito há quatro dias... tentando comprar tudo o que é necessário para a sua casa.

— Por que você sempre se refere à casa como sendo ”minha”, em vez de ”nossa”? — ele persistiu, incansável.

— Por que você está me perguntando essas coisas, de repente?

— Porque, quando me faço tais perguntas, não gosto das respostas que me ocorrem.

Dando um passo para trás, ele tirou uma cigarrilha e um isqueiro do bolso. Protegendo a chama com a mão, acendeu o ino charuto, enquanto observava o desconforto de Katie através da fumaça aromática.

— O padre Gregório é o único obstáculo possı́vel ao nosso casamento daqui a dez dias, não é? — perguntou.

Katie sentiu que ele a acuava, empurrando-a para um canto do qual não poderia escapar.

— Sim, suponho que sim.

— Diga-me uma coisa, Katie — ele falou, com uma curiosidade desinteressada. — Você pretende cumprir o compromisso marcado com ele para amanhã?

Ela afastou os cabelos do rosto, num gesto agitado.

— Sim, é claro. Mas é bom que você saiba, desde já, que ele não gosta de mim. E eu acho que ele não passa de um brutamontes tirânico.

Ramon descartou o comentário com um encolher de ombros.

— Creio que é o costume, mesmo nos Estados Unidos, que um padre se assegure de que o casal de noivos seja razoavelmente compatível e tenha uma boa chance de fazer um casamento bem-sucedido. É só isso que ele deseja fazer.

— Mas ele não terá essa opinião a nosso respeito! Ele já se decidiu pelo contrário!

— Não, Katie, isso não é verdade — Ramon a irmou, implacável. Aproximou-se dela e pressionou-a contra o tronco áspero da árvore. Seu olhar perpassou-lhe o rosto, calculando sua resposta para a próxima pergunta que faria.

— Você quer que ele decida que não somos compatíveis?

— Não! — ela sussurrou.

— Fale-me sobre o seu primeiro casamento — Ramon ordenou, abrupto.

— Não quero falar nesse assunto! — Katie enrijeceu, furiosa. — Nem tente me perguntar sobre isso, pois não vou falar. Nunca penso naquele assunto.

— Se as suas feridas realmente estivessem curadas Ramon continuou —, você seria capaz de falar a respeito dele sem sofrer.

— Falar a respeito?! — Katie explodiu, num misto de raiva e perplexidade. — Falar?

A violência da sua própria reação a fez silenciar-se por um instante, chocada. Respirando fundo, recuperou o controle das emoções. Com um sorriso de desculpas para Ramon, que a observava com uma expressão intrigada, ela disse:

— Apenas não quero que as coisas desagradáveis que aconteceram no passado estraguem o presente, e é isso que aconteceria. Será que não entende?

A sombra de um sorriso relutante tocou o rosto de Ramon, quando olhou para a suave perfeição dos traços dela.

— Eu entendo — respondeu, com um leve suspiro de resignação. As mãos deslizaram pelos braços dela, numa carı́cia delicada, e puxou-a para si. — Entendo que você tem um sorriso lindo, e que parece muito cansada.

Katie enlaçou os braços em torno do pescoço dele. Sabia que Ramon não icara satisfeito com sua explicação e estava mais do que grata por ele não insistir no assunto.

— Estou mesmo um pouco cansada. Acho que vou me deitar.

— E quando está deitada em sua cama, em que você pensa, Katie? — ele perguntou, num tom quente e provocante.

Os olhos dela continham um brilho, em resposta.

— Nas cores que vou usar na cozinha — mentiu.

— Ah, é mesmo? — ele sussurrou.

Katie assentiu, com um leve sorriso nos lábios.

— E você, no que pensa?

— No preço dos abacaxis no atacado.

— Mentiroso — ela murmurou, os olhos ixos nos lábios sensuais que se aproximavam dos seus.

— Amarelo — ele disse, de encontro à sua boca.

— Está falando dos abacaxis? — Katie murmurou, distraída.

— Não, da cozinha.

— Eu estava pensando em verde — ela disse, o coração disparando de antecipação.

Ramon afastou-se abruptamente, com uma expressão amigável e pensativa.

— Talvez tenha razão. Verde é uma cor agradável e não cansa. — Ele a fez virar-se, encaminhando-a na direção da casa com uma leve palmadinha em seu traseiro. — Pense nisso esta noite.

Katie deu alguns passos, surpresa, depois virou-se para ele com evidente desapontamento.

Ramon esboçou um sorriso lento, preguiçoso, arqueando a sobrancelha.

— Por acaso queria algo mais? Alguma coisa melhor para pensar na cama, talvez?

Katie sentiu o magnetismo sexual que emanava dele como se fosse uma força primitiva contra a qual seria impossível lutar. A voz aveludada parecia envolvê-la, tocá-la.

— Venha aqui, Katie, e eu lhe darei algo em que pensar. Todo seu corpo aqueceu-se, quando ela mergulhou no abraço apertado. O turbilhão emocional daquela última hora, as loucas lutuações que foram desde o desejo até a humilhação, desde a raiva até o prazer, explodiam todas no instante em que Ramon a abraçou.

Levada por uma necessidade desesperada de certificar a ele — e a si mesma — de que tudo icaria bem, Katie beijou-o com uma urgência sem limites, com uma paixão tão profunda que provocou um tremor no corpo dele e fez com que seus braços a apertassem convulsivamente.

Ramon afastou os lábios dos dela, beijando-lhe o rosto, a testa, os olhos. E, antes que procurasse de novo sua boca, para um último beijo devastador, Katie pensou tê-lo ouvido murmurar:

— Katie, eu amo você.