Espaço e lugar privilegiado para formação de professores
Prefácio
Como se formam pesquisadores sérios em História da Educação? Foi o que aprendi acompanhando a trajetória de mestrado da Aline de Novaes Conceição. O conhecimento, nas Humanidades, raramente está onde supostamente acreditamos que deveria estar. Então, como encontrá-lo? Foi o que a autora do livro aprendeu, entre outros aspectos, em seu avanço como historiadora. Para tanto, em parte, o mestrado é também um aprender fazendo. Aprende-se a conhecer o objeto almejado. Contudo, mais do que isso, aprende-se recompor-se mentalmente a cada percalço, a cada lacuna, a cada inexistência de fontes documentais iluminadoras do conhecimento sobre algo parcialmente novo, velado. A luz da compreensão clareia o que se quer compreender, mas simultaneamente ilumina quem está paulatinamente entendendo o inédito. Foi com grande prazer que compartilhei o percurso da discente nestas descobertas, nesses lampejos de compreensão da instituição escolar por ela pesquisada e em suas mudanças mentais, acompanhadas da satisfação pelo seu simultâneo crescimento intelectual. O que pode mais almejar um historiador que foi também seu orientador?
Rimos muito em nossos contatos. Não foi pouco frequente desafogarmos a ansiedade constante com a pesquisa histórica com gargalhadas sobre as mazelas dos arquivos, da burocracia, da má vontade alheia, da incompreensão frente o novo, enfim, rimos com os percalços que acompanham a boa pesquisa histórica. A discente estranhou inicialmente esse bom humor mútuo, pois rindo, nos fragilizamos em nossas carapaças individuais. Rindo juntos, nos irmanamos. Isso não é comum na Pós-Graduação universitária. Portanto, foi grande descoberta para mim também. É possível formar novos pesquisadores em Humanidades sem enlouquecê-los de ansiedade. Contudo, isso só ocorre se o jovem intelectual quer mesmo aprender a fazer algo bastante incompreensível à primeira vista. A autora aceitou essa possibilidade e esse desafio. O que isso proporciona? Confiança. Confiança em sua capacidade de compreensão. Confiança nas relações institucionais coletivas na universidade. Confiança em historiadores mais experientes. Confiança na vida. A autora confiou em muitas dessas coisas e não foi completamente desapontada. Quando isso ocorria, ríamos.
Quais foram meus principais conselhos a essa jovem pesquisadora? Ir mais devagar. Dar tempo de avanço às ideias. Ter paciência com as impossibilidades de pesquisa. Tirar férias. Como orientador, nunca pensei que tivesse que pedir isso a uma pesquisadora. Contudo, eram também sugestões utópicas dentro da linha de montagem intelectual da Pós-Graduação universitária, pois o que menos se tem no mestrado é tempo. Aline conseguiu um equilíbrio notável entre as múltiplas pressões temporais a impactá-la, que se constituiu em outra formação nova conquistada por ela, a de lidar com as multiplicidades de tempos. Um historiador que não sabe lidar com o tempo está no caminho errado. Foi estudando os tempos escolares da instituição por ela pesquisada, que também compreendeu as temporalidades contemporâneas de nossa atuação intelectual, profissional e social. Novamente, compreensão do objeto estudado e autoconhecimento.
Apresentar a história de uma instituição importante localizada no interior de um estado, nesse caso, do Estado de São Paulo, o denominado Instituto de Educação “Fernando Costa”, em Presidente Prudente/SP, foi o desafio proposto pela autora. Aline de Novaes Conceição como todo historiador na área educacional, teve muitíssimas dificuldades com a desorganização documental dessa instituição. Assim, após elaborar o arcabouço documental de forma sistematizada, a autora do atual livro teve que desvendar o que essas fontes informavam de maneira significativa sobre a vida dessa instituição. Isso pode parecer simples. Certamente não é. O que significava para os sujeitos envolvidos na socialização escolar do Instituto de Educação “Fernando Costa”? Como isso exemplificava os valores sociais e culturais do período pesquisado? A autora saiu-se muito bem em explicar ao leitor tais facetas históricas, a partir do funcionamento concreto de um Instituto de Educação. Este é o principal mérito do livro que aqui se apresenta. A contextualização legislativa, econômica, das normas administrativas da educação, da instituição do período, entre outros fatores, estão todos presentes no texto do livro, mas tendo os agentes internos da escola, seus professores, alunos e administradores como protagonistas dos acontecimentos narrados. Tal diálogo entre o interno e o externo à instituição escolar está bem tramado no presente livro. Essa maturidade é rara. Começou assim? Certamente não. Mas desabrochou, cresceu, na trajetória da pesquisa. Quem quiser entender como esses passos são dados, recomendo a leitura atenta deste livro. Aline além de analisar a educação no interior paulista na segunda metade do século passado, também apresenta como o conhecimento histórico pode ser significativo aos sujeitos envolvidos em processos educacionais. É, portanto, ótima referência de produção acadêmica em História da Educação. Constituir-se como autor de um livro é construir a si mesmo como um intelectual. A autora conseguiu as duas coisas de maneira brilhante. Coisa rara.
Espero que o leitor perceba no texto vislumbres do que aqui apresento, pois, esses bastidores quase nunca são destacados quando lemos um livro. Para tanto, não há segredo: boa leitura!
Macioniro Celeste Filho