Espaço e lugar privilegiado para formação de professores

Aline de Novaes Conceição · Capítulo 3 de 23

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Espaço e lugar privilegiado para formação de professores

Introdução

 

No Brasil, a primeira instituição denominada de Instituto de Educação, teve a instalação em 1932 no Distrito Federal e, no ano seguinte, em 1933, iniciaram as atividades no primeiro Instituto de Educação do estado de São Paulo. Os Institutos de Educação, eram instituições escolares complexas, cujo principal eixo, era a formação docente articulada com vários níveis de ensino.

Assim, havia a Escola Normal (Curso Normal e Curso de Aperfeiçoamento), o Curso Colegial que se dividia em científico (formava na área das Ciências Exatas) e clássico (formava na área das Ciências Humanas e Línguas), o Curso Ginasial e a Escola Primária Anexa.

A pesquisa bibliográfica, previamente realizada, indicou que há uma baixa quantidade de pesquisas sobre os Institutos de Educação e essas abrangem aspectos diversos como: Filosofia Pedagógica, patrono, formação do professor primário e secundário, trajetória do Instituto de Educação à Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, práticas pedagógicas, descrição do acervo de uma biblioteca, educação feminina, educação do movimento dos sem-terra, escola de professores, gênero, curso de Pedagogia e Curso Normal, curso de Administração Escolar, memórias e narrativas de professoras normalistas e História da Disciplina Didática.

Essas pesquisas foram realizadas sobre os institutos do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Amapá, Paraíba Pernambuco e São Paulo. Os resultados foram apresentados em dissertações de mestrado, livros, artigos, teses de doutorado e Trabalhos de Conclusão de Curso.

No estado de São Paulo, foram pesquisadas; as seguintes cidades: São Paulo (seis pesquisas), Piracicaba (duas), Rio Claro (duas), Adamantina (uma), Birigui (uma), Itapetininga (uma), Presidente Prudente (uma), Santa Cruz do Rio Pardo (uma), São Carlos (uma), além de uma pesquisa realizada no âmbito geral dos Institutos de Educação do estado.

Dentre essas pesquisas sobre os Institutos de Educação do estado de São Paulo, destacam-se: Nadai (1994), Camargo (1997), Pirolla (1988), Ribeiro (1999), Pinheiro (2000), Evangelista (1997, 2002), Tofoli (2003), Serra (2004), Bontempi Júnior (2011), Reis (2015) e Labegalini (2005). Nessas pesquisas foram utilizadas como fonte, principalmente: números de jornais (oito pesquisas), entrevistas (cinco), periódicos (cinco), legislação (três), fontes localizas no arquivo permanente da instituição (três) e fontes localizadas com ex-professores e ex-alunos da instituição (duas).

No âmbito das pesquisas sobre Instituições Escolares1, parece relevante considerar a cultura de cada instituição para buscar a sua identidade, realizando uma pesquisa com abordagem histórica que se inicie na própria instituição, utilizando, principalmente, as fontes primárias do arquivo permanente do local pesquisado.

Dos autores que trabalham com o tema Instituições Escolares têm-se recorrentes textos, de Paolo Nosella e Ester Buffa, que trabalham na perspectiva do método dialético marxista. Apesar disso, Magalhães (2004) é um autor citado recorrentemente nos textos sobre Instituições Escolares e aproxima as suas reflexões com as influências da História Cultural, compreendendo que a História das Instituições Educativas é uma história social/cultural; institucional/pedagógica e antropológica, centrada no local relacionando com o universal representado e substantivado na fundamentação, legitimação e projeção da ação educacional. Inclui a materialidade e a ação; a explicação das decisões; as relações de comunicação e o enquadramento da comunidade envolvente.

Há várias possibilidades para realização de uma pesquisa sobre as Instituições Escolares. Entretanto, atualmente, nas diversas tendências há a valorização da preservação do patrimônio escolar e a preservação do arquivo permanente da instituição, além da defesa da utilização de diversas fontes (não somente as legislativas) e da realização de uma pesquisa que seja interpretativa e não somente descritiva.

A pesquisa, cujos resultados estão apresentados neste livro, está no âmbito das Instituições Escolares, especificamente dos Institutos de Educação, tendo como problema norteador: como o Instituto de Educação “Fernando Costa”, instalado em Presidente Prudente/SP, desenvolveu suas atividades, sobretudo, as finalidades previstas no Código de Educação do Estado de São Paulo?

Segundo esse código, em relação aos objetivos de um Instituto de Educação, havia elementos relacionados com o ato de formar docentes que atendiam os cursos primários, formar inspetores e diretores, oferecer cursos que eram de divulgação, aperfeiçoamento e oferecer cursos secundário e primário, sendo que esses cursos deveriam possibilitar aos professorandos a prática do ensino e também o ato de experimentar o magistério (SÃO PAULO, 1933).

A escolha do Instituto de Educação de Presidente Prudente/SP ocorreu por ter sido um dos primeiros instalados no interior de São Paulo, especificamente o 17º de um total de 120 e a sua instalação teve um sentido “desbravador” para os habitantes da cidade como afirmou o paraninfo Mário Junqueira da Silva, na formatura do Curso de Administração Escolar do Instituto de Educação “Fernando Costa” (SOLENIDADE..., 1955).

Com isso, os objetivos da pesquisa que estão apresentadas neste livro, consistem em reconstituir elementos de uma história do Instituto de Educação “Fernando Costa” de Presidente Prudente/SP, que funcionou entre 1953 e 1975. Especificamente elementos referentes a instalação e encerramento dessa instituição e elementos das vivências dos sujeitos na instituição.

O ano de 1953 é o ano de início do funcionamento do Instituto de Educação “Fernando Costa” e 1975, consiste no ano que antecede a implementação da Reforma do Ensino que envolveu os 1º e 2º Graus em todo o estado de São Paulo. Essa reforma foi baseada na Lei n. 5692/71 e, a partir dessa legislação, os Institutos de Educação foram extintos.

Para a pergunta inicialmente levantada sobre o modo que, naquele período histórico, o Instituto de Educação “Fernando Costa” desenvolveu suas atividades, sobretudo, as finalidades previstas no Código de Educação do Estado de São Paulo, a hipótese que conduziu a pesquisa é a de que o Instituto de Educação “Fernando Costa” buscava um diálogo com a comunidade.

Com a opção pela abordagem histórica do tema, consultou-se o arquivo permanente da Escola Estadual em que no passado abrigou o funcionamento o Instituto de Educação “Fernando Costa”, ou seja, atualmente, uma escola que atende do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio.

Foram localizadas fontes primárias sobre o tema, especificamente atas, diplomas, certificados, inscrições (em exames de admissão, em órgãos do instituto, entre outras), inventários, livros caixa, livros ponto, livros de chamada, atestado de frequência, livros de matrícula, mapas de movimento, livro de correspondência, livro de compromisso, registro de punições, recibos de transferências, termo de visita do Inspetor Estadual, papeletas de notas, exames, dicionários, enciclopédias, dicionários, enciclopédias, livros entre outras.

As referências; fotografias das capas e informações das fontes localizadas estão contidas no instrumento de pesquisa intitulado Instituto de Educação “Fernando Costa” (1953-1975): um instrumento de pesquisa (CONCEIÇÃO, 2014).

Integraram o 2 corpus documental da investigação, as atas; exames realizados pelos alunos; livro de correspondência; livro de compromisso; registro de punições; termo de visita do Inspetor Estadual; inventário; livros de matrícula e planta da instituição. Além dessas fontes do arquivo permanente da instituição, foram utilizadas figuras do Instituto de Educação “Fernando Costa”; legislação educacional orientadora e normatizadora desse instituto e números de jornais prudentinos.

Ao tratar dos jornais, é importante considerar o mencionado por Farge (2009) ao registrar que o impresso tem uma intenção, sendo publicado para que seja lido pelo maior número de pessoas, buscando a divulgação de notícias e a criação e/ou modificação de um pensamento.

Há necessidade de pesquisas sobre Instituições Escolares em que há o cruzamento das fontes internas e externas da instituição com a legislação, a fim de reconstituir reais indícios das histórias dessas instituições. Dessa forma, essas pesquisas com abordagem histórica devem ser realizadas como “[...] história problematizante, integrando as dimensões normativas e teóricas e as práticas educativas, focalizada na relação entre cada instituição educativa [...]” (MAGALHÃES, 2004, p. 152).

Ressalto que, para a realização da pesquisa cujos resultados estão sintetizados neste livro, considerou-se a História Cultural que, segundo Diniz (2012), esse tipo de investigação se utiliza da cultura como significados construídos pela humanidade, buscando explicar o mundo, tendo como base, fontes diversas, representações, simbolismos, práticas, mentalidades, entre outros aspectos. Realidade que se relaciona com o interior da instituição.

Por cultura escolar, compreende-se a definição emitida por António Viñao Frago, considerando que “[...] recobre as diferentes manifestações das práticas instauradas no interior das escolas, transitando de alunos a professores, de normas a teorias. [englobando] [...] tudo o que acontecia no interior da escola.” (FARIA FILHO; VIDAL, 2004, p. 147). Para o autor, em cada instituição há uma cultura o que ressalta a singularidade de cada instituição e a existência de culturas escolares.

Assim,

 

Olhar a escola pelas lentes da cultura escolar permite não apenas ampliar nosso entendimento sobre o funcionamento interno da instituição como nos provoca a rever as relações estabelecidas historicamente entre escola, sociedade e cultura [...] Nessa medida, a cultura escolar não deixa de ser uma importante ferramenta teórica para explorar o passado e o presente da escola na sua relação com a sociedade e a cultura, no jogo tenso das lutas de poder que perpassam o escolar e expressam nele as contradições sociais. (VIDAL, 2009, p. 39).

 

Com a busca da realização de pesquisas sobre cultura escolar houve uma renovação da história que emergiu em novos temas, dentre eles, a história das instituições

 

[...] mobilizada tanto pelo estudo da cultura escolar quanto pela exigência metodológica de uma historiografia comprometida com a evidência documental, ancorada na exploração rigorosa de fontes de pesquisa e no escrutínio dos arquivos, propiciando, assim, a redescoberta dos arquivos escolares. (SOUZA, 2014, p. 5).

 

A história das instituições pode ser considerada como vertente da denominada História Cultural, que possibilita a compreensão de várias temáticas a partir das vivências escolares, relacionando as interações no espaço com as relações entre escola e sociedade (DINIZ, 2012).

Por sua vez, cabe ressaltar que, na História da Educação, é importante buscar compreender os elementos internos da Instituição Escolar e não somente a legislação educacional, pois na busca de execução das normas encontram-se resistências, tensões e apoios, assim é necessário voltar-se para o que ocorreu no interior da escola não nos deixando “[...] enganar inteiramente pelas fontes, mais freqüentemente normativas, que lemos.” (JULIA, 2001, p. 15).

Além disso, é importante compreender que nas pesquisas e estudos baseados na História da Educação, a “[...] incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Mas talvez não seja menos vão esgotar-se em compreender o passado se nada se sabe do presente.” (BLOCH, 2001, p. 65). Assim, para interpretar as fontes “[...] uma primeira condição deve ser cumprida: observar, analisar a paisagem de hoje [...]” (BLOCH, 2001, p. 67).

As Histórias das Instituições Escolares não se confinam às análises por setores e nem a uma abordagem estritamente interna, mas a “[...] proposta de uma abordagem simultaneamente interna e de relação com a comunidade envolvente confere uma identidade histórica, de construção, à ação educativa. Toda a relação educativa é de natureza instituinte e reflexiva.” (MAGALHÃES, 2004, p. 165), pois a instituição é afetada pela sociedade e também pela cultura.

Além disso, a história, como afirmou Dióres S. Abreu3 (1997, p. 86) contribui

 

[...] para resolvermos os problemas que nos cercam [...]. Para entendermos o que está acontecendo à nossa volta, para sermos lúcidos diante da complexidade da sociedade atual, para nos posicionarmos diante das exigências do momento atual brasileiro e internacional é que precisamos conhecer História. [...] Porque os problemas têm suas raízes presas em acontecimentos ocorridos no passado. [...] o estudo do passado deve ser um instrumento para superá-lo e não perpetuá-lo. Assim, História não é saudosismo, conservantismo, simples passatempo ou curiosidade, mas instrumento de conscientização [...]

 

Ao mencionar todos esses aspectos, justifica-se a importância de um livro cuja pesquisa foi realizada com abordagem histórica sobre o Instituto de Educação “Fernando Costa”, que funcionou de 1953 a 1975, considerando que era uma instituição em que se privilegiava a formação de professores, tendo para isso, vários níveis de ensino.

Assim, este livro está organizado em 3 partes: no Capítulo 1, são apresentados elementos do encerramento e, também, da instalação

do Instituto de Educação “Fernando Costa”. No Capítulo 2, são descritos elementos arquitetônicos e suas relações com os espaços

internos e externos desse instituto. No Capítulo 3, são apresentados fragmentos das vivências dos membros da instituição em questão, especificamente dos diretores, professores, alunos e pais; e também elementos do Clube de Química e das excursões que realizava. Em

seguida, nas considerações finais é encerrado o estudo apresentado neste texto com algumas relevantes conclusões para a compreensão do diferencial desse instituto para os estudos de História da Educação e formação de professores. Após as

considerações finais, há as referências dos textos citados, as fontes

utilizadas e os locais consultados.