Helmintologia
Capítulo 1919
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Em todos os casos pode-se afirmar que na esquistossomatose, como em muitas outras afecções verminosas, há um enorme desperdício de ovos, que aqui nem é compensado por uma grande produção. A verdadeira compensação é fornecida pela extraordinária multiplicação no organismo do caramujo infectado.
A eliminação de ovos maduros, intimamente misturados com as dejeções e não acompanhados de mucosidades e de sangue, é o que se observa na grande maioria dos casos. Essa eliminação (que é constante e assegura a conservação da espécie) indica que há um processo relativamente rápido e seguro que conduz os ovos por fora do organismo infectado, sem produzir lesões apreciáveis, e assim se explica como essa infecção facilmente passa despercebida.
Prognóstico, terapêutica e profilaxia de
esquistossomatose Das nossas observações anteriores já se pode deduzir que a esquistossomatose, observada entre nós, é de natureza bastante benigna. González Martínez estima em 45% a proporção de infectados que não apresentam sintomas acusados e creio que, entre nós, a proporção dos casos que passam completamente despercebidos seja antes maior do que menor. De outro lado não é certo que o processo parasitário possa ser curado ou melhorado por
meios terapêuticos16 e tenho observações que indicam que os vermes podem permanecer vivos no corpo humano durante muitos anos. Assim é a prevenção e não a cura que deve formar o objeto principal dos nossos cuidados.
A infecção sempre se produz por meio da água, seja que esta sirva para bebida ou que venha em contato com o tegumento externo. Sendo a existência de Planorbis nela a conditio sine qua non da infecciosidade, é claro que a profilaxia mais natural deverá, em primeiro lugar, ser dirigida contra esse hospedador intermediário. Limpando os reservatórios ou caixas d’água, quer dizer, retirando a lama e a vegetação aquática e apanhando os exemplares que vêm à tona, pode-se livrar as águas desses moluscos, mas, precisamente lá onde o perigo é maior, essas medidas serão impossíveis ou pouco práticas.
Há outras medidas que tendem a evitar a infecção dos caramujos; bem aplicadas fariam ao mesmo tempo desaparecer a opilação (que é mais generalizada e mais perigosa que a esquistossomatose). Consistem em evitar a contaminação do solo e das águas por excrementos humanos. É claro que esgotos despejados em rios usados para banhos e lavagem de roupa não correspondem a esse quesito.
Na necessidade de usar água suspeita, é suficiente que esta seja guardada durante 24 a 48 horas, para perder o poder infectante. De manhã cedo há pouca probabilidade de que a água contenha cercárias ativas, de modo que estas, tiradas pouco abaixo da superfície e guardadas mais algumas horas, certamente perderão o poder infeccioso. Este naturalmente é destruído também pelo aquecimento (que não precisa chegar ao ponto de ebulição) ou por desinfetantes. Segundo Leiper basta levar a água a 50oC ou juntar um grama de bisulfato de sódio para um litro de água.
Perigo dos banhos em águas estagnadas
Os Planorbis encontram-se em lagoas ou águas fluviais, mais ou menos estagnadas, não sujeitas à dessecação completa e geralmente caracterizadas por vegetação aquática fixa ou flutuante. Essas águas, quando ingeridas, são perigosas, mas por causa da natureza são menos usadas para beber. O contato com a pele nua dos braços e pernas, por exemplo, na ocasião de pescar ou lavar roupa, pode facilmente produzir infecções mais ou menos intensas, mas o perigo maior está na imersão completa do corpo na ocasião de banhos um tanto prolongados, porque as probabilidades de infecção crescem em relação com a superfície exposta e o tempo de exposição. Assim, o hábito de banhar-se diariamente nessas águas infecciosas poderá produzir infecções muito intensas.
Os observadores de hoje são quase unânimes em responsabilizar a infecção cutânea pelo maior número das infecções observadas. Já verifiquei a história de vários doentes que costumavam banhar-se em águas paradas com vegetação aquática onde havia aruás (Ampullaria). Esse molusco que, por seu maior tamanho e por ser comestível, chama mais a atenção, pode servir de indicador para águas suspeitas. Alguns doentes até haviam reparado na existência de numerosos Planorbis. Em alguns lugares, como em Aracaju, eles são tão abundantes que são usados para alimentação dos porcos, nas ocasiões em que as águas baixam. Tanto em Aracaju como em Laranjeira há uma lagoa chamada dá coceira, porque os que lá tomam banho sentem coceira depois. Ora, essa coceira (como se verifica em vários animais e principalmente no rato branco) é sintoma característico da penetração dos esquistossomos.
Para os banhos se tornarem perigosos, é preciso que sejam as águas contaminadas com ovos de Schistosomum, provenientes do intestino de homens ou animais infectados. Essa contaminação pode ser contínua ou apenas ocasional, devida a chuvas e enchentes. Também é preciso que nessas águas haja caramujos infectáveis. Dada uma temperatura bastante elevada, bastam então 4 a 5 semanas para que haja caramujos infectados e capazes de fornecerem cercárias durante dois a três meses, de modo que, com uma infecção bimensal, as águas seriam sempre suspeitas.
A experiência prova que as cercárias não saem a qualquer hora. De manhã cedo custa observar um exemplar em água que contém caramujos infectados, quando de tarde, depois de algumas horas de insolação ativa, são abundantíssimas. Assim um banho curto de manhã quase não oferecerá perigo, quando um banho demorado, durante ou depois das horas mais quentes, fornecerá extraordinariamente uma infecção múltipla. A estação seca, com a sua insolação muito maior, deve trazer diminuição de água, com aumento de sua temperatura, de modo que as infecções serão adquiridas principalmente nesse tempo.
Bibliografia
A literatura sobre os esquistossomos e os efeitos do seu parasitismo é muito extensa. Só o relatório de Leipper numera 562 trabalhos (alfabeticamente), sem incluir os mais recentes. Outros autores deram listas que incluem mais alguns títulos. Aqui só cito os trabalhos que mais estreitamente se referem a meu assunto, principalmente aqueles que foram citados ou estudados. Não menciono a maioria dos tratados de helmintologia, moléstias tropicais e de medicina geral por serem bastante conhecidos ou dispensáveis.
A bibliografia do Sch. japonicum é mais extensa porque se trata de um assunto moderno e estreitamente ligado ao nosso. De fato o Sch. mansoni e o japonicum produzem sintomas muito semelhantes, mas no caso do japonicum o estudo é mais fácil, por serem as infecções geralmente mais puras, mais agudas e mais intensas. Assim o seu estudo é de grande utilidade.
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VII - Bibliografia
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Explicação das estampas 37-43.
Estampa 37 (Figs. 1-8)
Fig. 1. Casal do Schistosomum haematobium. A fêmea mostra muitos ovos com espículo terminal. X28. Copiado de FRITSCH.
2. Casal de Schistosomum haematobium. A fêmea mostra o intestino ramificado até perto da extremidade caudal. Copiado de BILHARZ.
3. Casal de Schistosomum mansoni; preparado em bálsamo mostrando bem a ramificação do intestino, que nos dois sexos se une antes do meio do corpo. X40. Original.
4. Terço anterior de uma fêmea de Schistosomum mansoni com um ovo de espinho lateral. X40. Original. Preparação colorida com hematoxilina.
5. Macho de Schistosomum mansoni mostrando o aparelho testicu-lar. X20. Original.
6a, b e c. Macho de Schistosomum mansoni mostrando o aparelho testicu-larem três posições diferentes. Original.
7a e b. Mostram o mesmo de dois outros machos com a aparência comum de oito vesículas. Não se distingue uma vesícula seminal. X70. Original.
8. Macho de Sch. haematobium, copiado de Bilharz.
Estampa 38 (Figs. 9-38)
Fig. 9 - 14. Ovos anormais. 9-11: com a casca alongada no pólo anterior, podendo simular um espículo terminal; 12: ovo com 2 espículos; 13: com cristais na casca; 14: ovo calcificado. X150. Todos os ovos foram observados em fezes de homens infectados no Norte do Brasil.
15. Ovo normal de Schistosomum mansoni mostrando o embrião. X400.
16. Embrião observado algum depois da saída. Preparação colorida. X400.
17. Embrião que não conseguiu penetrar, muito tempo depois da saída. X400.
18. Penetração dos miracídios na antena. X20. 2 miracídios já penetraram.
19. Planorbis olivaceus com antenas normais; 20 e 21: com as antenas infectadas; os exemplares não são adultos. Tamanho anterior.
38-38. Aparência de antenas em vários degraus de infecção. As figuras 19 a 27 em tamanho natural; as outras (28 a 38), um tanto aumentadas. A figura 32 representa uma antena normal.
Todas as figuras destas estampa são originais e, com exceção da figura 16, tiradas de preparações observadas a fresco, sem coloração.
Estampa 39. (Figs.39-47)
Fig. 39a. Esporocisto novo dentro da antena, mostrando ainda os órgãos tubulares vibráteis e o epitélio vibrátil periférico, em vias de destacar-se; b: o mesmo desenvolvimento em vias de formar esporocistos secundários. X100.
40. Conteúdo de um esporocisto primário quase maduro escapando da antena comprida. X150.
41. Corte de antena contendo um esporocisto primário quase maduro. Preparação colorida por hematoxilina. X140.
42. Esporocisto secundário. X500.
45-45. Esporocistos secundários das vísceras de Planorbis. Iluminação lateral.
47-47. Os mesmos vistos por transparência.
Todas as figuras desta estampa são originais, tiradas de preparações e observadas em estado natural, com exceção de Fig. 41.
Estampa 40. (Figs.48-63)
Fig. 48. Corte de fígado de Planorbis infectado mostrando uma seção longitudinal de uma cercária quase madura. Preparação colorida. X250.
50-50. Seções de esporocistos secundárias do fígado de um Planorbis infectado. X700.
51. Cercárias vivas de Sch. mansoni. X30.
52 a 61. Cercárias do mesmo, tiradas de várias preparações. X120.
62. Cercária do mesmo. Desenho combinado de observações de cercárias vivas.
63. Corte colorido mostrando, na seção oblíqua de uma cercária, os dutos glandulares entortilhados e as células glandulares superiores. Estampa 41. (Figs.64-70)
Fig. 64. Dicranocercaria ocellifera, viva. X250.
65. A mesma colorida em glicerina. X250.
66. A mesma de um preparado não colorido. X250.
68-68. Dicranocercaria valdefissa. De um preparado não colorido. X250.
69. Corte de pele de porco mostrando um esquistossômulo penetrado. Preparado colorido. X600.
70. Alça intestinal de cobaia infectada mostrando as veias mesentéricas dilatadas e cheias de parasitos. Conservação em formol (10%). Tamanho natural.
Estampa 42.
Fig.1 e 2: Cortes de fígado de caramujos infectados.
3: Cortes do mesentério de uma cobaia infectada, mostrando os esquistossomos dentro das veias em seção longitudinal e transversal.
4 e 5: Corte do fígado de uma cobaia infectada, mostrando uma seção transversal de uma fêmea de Sch. mansoni.
As figuras são fotografias tiradas de preparações coloridas.
Estampa 43
Fig. 1a-d. Exemplar adulto de Planorbis olivaceus. - Casca de cima, de baixo, em perfil e em corte; exemplar adulto com a metade superior da casca removida, ficando todo o animal exposto (desenho combinado); e corte de um exemplar pequeno e aberrante. Tamanho normal.
2. Casca de Planorbis guadalupensis, a de cima, d de baixo, b em corte X2; c tamanho natural.
3. Casca de Planorbis centimetralis; a-d: como na Fig. 2.
4. Casca de Planorbis boissyi do Egito; a-d: como nas figs. 2 e 3.
Nesta estampa, os cortes das cascas, quando horizontais, mostram a boca à direita do espectador. Sendo a casca considerada sinistral, assim o lado ventral está por cima e o dorsal para baixo. Nos cortes em posição vertical a abertura da casca está em baixo.
Nota: As estampas 42 e 43 foram tiradas de fotografias feitas pelo Sr. J. Pinto, fotógrafo do Instituto.
Aditamento (jan. 1920).
Sobre o tratamento de doentes de Schistosomum pelo tartarato de antimônio. Christopherson fez várias publicações, das quais cito uma em colaboração com J. R. Newlove no Journ of Trop. Med., v.XXII, p.128, 1919, que se refere ao tratamento de 70 casos. Declara que os resultados, em parte conferidos durante dois anos, foram ótimos.
O autor refere-se principalmente ao Sch. haematobium e recomenda uma dose total de 25 a 30 grãos, aprox. dois gramas.
Começa com a injeção de meio grão em cerca de três gramas de soro fisiológico. As injeções que devem ser feitas nas veias são repetidas de 2 em 2 dias, aumentando de três centigramas cada vez, até alcançar 12 a 15 centigramas (5 grãos). Depois de alguns dias desaparece o sangue na urina. Duas semanas depois de se ter chegado a 20 grãos, os ovos eliminados são estéreis.
Esses resultados precisam ser confirmados em relação ao Sch. mansoni. De uma experiência, feita aqui em cobaia, resulta que não se pode obter cura com poucas doses, mesmo quando estas forem relativamente grandes. O tratamento há de ser forçosamente demorado, quando é feito pelo método indicado, e não poderá ser abreviado, visto que se trata de uma substância bb. que deve ser usada com muito cuidado. [N.A.]
* Trabalho de Adolpho Lutz publicado em 1919 com o título “O Schistosomum mansoni e a schistosomatose segundo observações feitas no Brasil” em Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, t.11, n.1, p.121-55, com 7 estampas (37-43). Foi publicado em inglês também (p.109-40) no mesmo periódico, com o título “Schistosomum mansoni and Schistosomatosis observed in Brazil”. [N.E.]
1 Para o meu estudo aproveitei a literatura helmintológica e malacozoológica que possuo ou encontrei nas bibliotecas do Instituto e do Museu Nacional. Grande parte desta só chegou a meu conhecimento no fim dos meus primeiros estudos, começados no segundo trimestre de 1916 e publicados no Brazil-Medico em comunicações preliminares. A parte histórica e geográfica foi compilada dessa literatura. Tudo o que se refere ao desenvolvimento do parasito foi verificado de modo completamente independente e geralmente muitas vezes, servindo essas observações pessoais, acompanhadas de desenhos originais, para base da minha exposição. Onde o caminho já era trilhado pela comissão chefiada por Leiper, as minhas observações concordam em todos os pontos essenciais; na parte que se refere exclusivamente às condições do Brasil, são originais.
Os cortes em série, usados neste trabalho, correspondem a mais de 50 peças e foram geralmente feitos e corados no laboratório de anatomia patológica dirigido pelo dr. Oscar D'Utra e alguns pelo dr. Travassos deste Instituto. Foram examinados por mim como todas as outras preparações que, não precisando de inclusão, foram feitas no meu laboratório. Os doentes que forneceram o material para as numerosas infecções artificiais de caramujos, feitas no meu laboratório, foram mandados pelo dr. Oswino Penna, que tinha verificado a infecção.
Os Planorbis olivaceus empregados nestes estudos foram buscados em Aracaju pelo empregado Theophilo Martins ou mandados da Bahia pelos drs. Pirajá e Octavio Torres. Dos moluscos daqui obtive alguns por intermédio do prof. Carlos Moreira; a maior parte foi colecionada por mim ou por empregados do Instituto. Para estudos sobre os moluscos de água doce comparei as coleções dos museus do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Os meus estudos ocuparam grande parte do meu tempo durante mais de dois anos sendo, todavia, muitas vezes interrompidos por falta de material. Foram facilitados pelo apoio dos diretores do Instituto, drs. Oswaldo Cruz e Carlos Chagas. A esses colegas e aos outros já citados agradeço cordialmente os serviços prestados.
Em 1917 o trabalho já estava quase completo, mas a publicação foi demorada, a fim de apresentar o trabalho com as ilustrações em conferência no Congresso Médico que teve lugar no Rio de Janeiro em outubro de 1918. Essa conferência, acompanhada de projeções, foi realizada diante de um auditório já bastante reduzido pela explosão de uma epidemia de influenza.
Depois desse período, houve somente algumas adições em relação à literatura, sendo as estampas já concluídas. [N.A.]
2 Palavra composta de (fendido) e (corpo). [N.A.]
3 De Schistosomun derivo a palavra portuguesa Schistosomo (com o mesmo direito como quando se diz schisto e schisma) em vez de esquistosomo. Quanto à pronúncia, prefiro usar a que se usa nas línguas mais importantes dando a sch a pronúncia que se dá em alemão e que corresponde ao ch francês e a sh inglês. Também acho desnecessário dizer esporocystos e esporozoários, em vez de sporocysto (em analogia ao nome geográfico Sporadas) conformando-me à etimologia e ao uso das outras línguas.
De Schistosoma deriva-se naturalmente Schistosomatose e Schistosomatiasis. Schistosomose e Schistosomiasis são certamente termos incorretos, porque a palavra com terminação grega deve ser formada pelas regras do grego. O termo mais curto em analogia a trypanosomiasis pode ser desculpado por motivos de brevidade e por ser vulgarizado, mas nunca será o correto como parece pensar o dr. Elpídio de Almeida, o autor de uma tese publicada em 1919. [N.A.] A despeito dos comentários de Adolpho Lutz, nesta edição de seu trabalho, para sermos coerentes com o critério adotado em toda a sua Obra Completa, atualizamos a grafia dos termos vernaculares; desta forma, optamos por esquistossomatose em lugar de Schistosomatose, e esquistossomos ao invés de schistosomos. [N.E.]
4 O parasito denominado por Sambon Schistosomum mansoni é um bom exemplo das dificuldades da nomenclatura: o nome genérico de Diesing não somente parece melhor do que Schistosomum, como na verdade é anterior, posto que o protocolo da sessão em que foi anunciado tenha sido publicado depois do primeiro trabalho de Weinland. O nome de haematobium compreendeu duas espécies, das quais uma foi primeiramente distinguida por Harley como nova espécie pelo nome capense. Parece que este nome devia ficar. Se o autor não percebeu que sua espécie fazia parte do haematobium, tinha por desculpa que a duplicidade dos ovos no mesmo exemplar da forma do Egito era considerada demonstrada por uma observação de Bilharz. Essa observação, na qual muito provavelmente houve um engano, aliás, fácil de explicar-se, tem sido o cavalo de batalha de todos os unitários; nunca foi confirmada e um enorme número de novas observações invalida a sua interpretação. No caso de prevalecer o nome de Harley, o Mansoni ficaria com o nome de haematobium, que assim terá sido usado para as duas espécies e para cada uma separada. O remédio seria suprimir o nome haematobium e distinguir entre capense e mansoni, mas esse procedimento talvez não seja completamente correto e substitui um nome pouco conhecido por outro muito usado. Nessa dificuldade continuarei a usar o nome Sch. mansoni, ficando o de espinha terminal o haematobium (forma capensis). [N.A.]
5 Schistosomum e gêneros aliados em mamíferos e aves. Conhece-se hoje um número considerável de espécies que enumeramos segundo o tempo da descoberta (ou denominação) e com os sinónimos. 1851 Schistosomum haematobium do homem e outros mamíferos.
1854 Distomum canaliculatum Rud. Espécies de Larus e Sterna, gênero Ornithobilharzia de Odhner. Encontrado no Brasil por Natterer, reencontrado por Lutz em Santos há uns 20 anos, observado também no Rio por Faria e Travassos.
1864 Distomum capense Harley. - Sch. haematobim ex parte.
1876 Schistosomum crassum Sonsino. Em bovinos. África, Itália (Sardenha e Sicília).
1895 Bilharziella polonica Kowalewsky. Em marrecas. Europa.
1905 Schistosomum japonicum Katsurada. No homem e em outros mamíferos.
1907 Schistosomum mansoni Sambon. - Sch. haematobium ex parte.
1906 Schistosomum spindale Montgomery. Em bovinos, Índia, Sumatra.
1906 Schistosomum indicum Montgomery. Em bovinos, Índia, Sumatra.
1913 Schistosomum bomfordi Montgomery. Em bovinos, Índia, França.
1913 Schistosomum turkestanicum Skrjabin. Em bovinos, Turquestão.
Além dessas, há mais algumas espécies em pássaros, como Gigantobilharzia acotyla Odhner 1910, Ornithobilharzia intermédia Odhner de Laridas (Europa) e kowaleskii Parona 1896 de Larus melanocephalus (Europa).
Essas espécies formam um grupo dos trematódeos digêneos que por alguns autores é considerado família sob o nome de Schistosomidae ou Bilharziidae. Debaixo do último nome Odhner trata dessa família no Zoolog. Anzeiger de 1913 (p.58). [N.A.] No original, as notas são posicionadas no fim do texto, indicando-se a inserção desta como p.123, col. 2, linha 23; houve certamente um erro tipográfico, pois o conteúdo da nota é condizente com a mesma linha na coluna 1. [N.E.]
6 Veja Holcomb 1907. Uma explicação que parece bastante satisfatória é que as fêmeas de uma espécie possam ser levadas pelos machos da outra ao ponto de destino destes, produzindo assim a heteropia daquelas. [N.A.]
Também o prolongamento observado em certos ovos de Sch. m. (Fig. 11) pode erroneamente ser interpretado como representando o espinho. [N.A.]
7 Vi esta lagoa perto de Óbidos no seu estado natural, que parecia favorável para moluscos aquáticos. O dr. Costa Lima, que dirigiu a drenagem, afirmou-me que os trabalhadores ocupados no serviço acusavam coceira depois de ter entrado na água. [N.A.]
8 Depois de terminar meu trabalho, apareceram dois interessantes trabalhos de William W. Cort (Univers. of. California Publ. in Zoology, v.18, n.17 & 18, Jan. 4, 1919) que tratam da cercária do Sch. japonicum e dos ovos e miracídios dos esquistossomos humanos. No primeiro trabalho, o autor representa o sistema excretório com todas as ramificações, o sistema nervoso, uma glândula cefálica dentro da ventosa oral e o tubo intestinal rudimentar em desenhos muito claros, mas evidentemente muito esquemáticos, o que torna difícil uma comparação com a cercária do Sch. mansoni. O segundo trabalho contém duas microfotografias e cinco desenhos dos ovos e miracídios do Sch. m. e do Sch. j. É interessante comparar a falta de detalhes nas fotografias com a nitidez dos desenhos, que são uma representação gráfica da interpretação do autor, mas pouco se assemelham com o aspecto das preparações microscópicas. Convém salientar que nos dois primeiros casos por ele estudados, Cort não encontrou vestígio do espinho rudimentar dos ovos de Sch. jap. Num terceiro caso foi encontrado em vários degraus de desenvolvimento, mas somente na metade dos ovos examinados. O autor dá também listas bibliográficas e notas históricas. [N.A.]
9 Leiper, R. T. “On the relation between the terminal-spined and lateral-spined eggs of Bilharzia,” Brit. Med. Journ., march 18th, 1916, p.411.
In the worms derived from Bullinus sp. the males have four or five large testes and the two lateral gut branches are late in uniting, so that, even when mature, the worms have a short intestinal caecum. In the female the ovary lies in the latter half of the body. The uterus is very long, voluminous and contains many terminal-spined eggs some of which lie in pairs. The yolk glands have a limited range in the posterior fourth of the body. These worms belong to the species Schistosomum haematobium (sensu stricto). In the worms derived from Planorbis boissyi the males are small, and have eight small round testes. The two lateral gut branches unite very early. In some of the smallest specimens found, this union had already taken place. The intestinal caecum is correspondingly very long. The female has the ovary in the anterior half of the body.
The uterus is very short, and almost invariably there is one egg only at a time in each specimen when a number has already been laid. The yolk glands are extensive ranging through the posterior two-thirds of the body along the whole length of the caecum.
The eggs always have a lateral spine, the first laid is usually smaller than those succeeding, and the spine is then set almost at right angles to the long axis. Pending a consideration of the claims of other names to priority the specific name Schistosomum mansoni may be adopted rightly for these worms. They differ in their adult structure from Schistosoma haematobium (sensu strito) more markedly than does Schistosomum bovis.
Vesical bilharziosis and Manson's intestinal bilharziosis are therefore etiologically properly regarded as entirely distinct diseases. [N.A.]
10 O estudo dos trabalhos que tratam do Sch. japonicum mostra que a moléstia produzida por esse parasito é geralmente mais aguda, intensa e grave. Isso se explica por ser nessa espécie a produção de ovos muito maior. Também o uso de excrementos humanos para adubos, a cultura debaixo da água e o tempo prolongado de exposição, devido ao trabalho nos arrozais inundados, favorecem as infecções intensas, sem que haja necessidade de recorrer a uma virulência maior do parasito.
11 Os resíduos do sangue digerido devem ser rejeitados pela boca como em todos os trematódeos que não têm ânus. De fato, reconhecem-se principalmente nos animais com forte infecção experimental, tanto no sangue como em leucócitos e fagócitos dos tecidos de massas pretas. As mesmas vêem-se também na infecção humana em que, todavia, podiam ser atribuídas a infecções palustres que se podem excluir nos animais de laboratório. [N.A.]
12 Ultimamente (1918), Lawton descreveu uma epidemia de pirexias observada entre soldados australianos, infectados no Egito. A sintomatologia lembrou completamente a que se costuma observar nas infecções agudas por Sch. japonicum. [N.A.]
13 O Instituto possui uma fita cinematográfica mostrando um rato branco depois de uma imersão prolongada da parte posterior do corpo em água, contendo muitas cercárias vivas. Os sinais de comichão manifestam-se principalmente na cauda e nos pés posteriores, como resulta claramente pela aplicação dos dentes a estas partes. [N.A.]
14 Convém citar aqui que nas infecções agudas a que se refere a penúltima nota, houve tosse, acompanhada de sinais claros de bronquite e congestão pulmonar. Os escarros às vezes continham sangue. Trata-se aqui de sintomas precoces; outros mais tardios são provocados pelos ovos. [N.A.]
15 Os estados ulteriores da cirrose e as alterações vasculares manifestam-se distintamente nas infecções espontâneas por Sch. japonicum que se observam nos grandes animais domésticos. [N.A.]
16 Visto que os anti-helmínticos não podem alcançar os parasitos na circulação portal, senão em diluição extrema, experimentaram-se outros preparados arsenicais e antimoniais, emetina e azul de metileno. Todavia, essas substâncias, ativas em infecções por protozoários, espirilos e outros organismos da mesma categoria, não parecem prometer muito resultado, usados contra vermes sanguícolas. Mesmo que matassem os esquistossomos, sem produzir sintomas novos e talvez mais graves, ainda ficariam os ovos e os sintomas por eles produzidos, a menos que se tratasse de uma infecção completamente recente, dificilmente diagnosticável. Alguns autores alegam bons resultados, mas estes deviam ser comprovados por experiências em animais, as quais não oferecem grandes dificuldades. Nessas condições, Leiper não obteve resultados favoráveis. Para bibliografia sobre o assunto, pode-se conferir a tese de Elpídio de Almeida (1919).