Histórias de africanos e seus descendentes no sul da Bahia

Cristiane Batista da Silva Santos · Capítulo 15 de 22

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Histórias de africanos e seus descendentes no sul da Bahia

3.2 Imaginário sobre o negro nos jornais no pós-abolição

As festas aparecem como essas frestas de observação, conforme sentenciou Cunha (2001). E delas surgem questionamentos que nascem da observância destes sujeitos, quando a roça de farinha cotidiana ou a missa esporádica e irmandades eram os únicos espaços permitidos.

Qual era a constituição desses espaços que precisaram ser negociados, divididos nos anos finais de década de 1910? Quais festas eram de negros, de brancos, e de negros e brancos concomitantemente? E mais, diante dos novos hábitos e valores do traçado urbano, como a população negra se encaixaria no concernente às sociabilidades? E as perseguições aos sambas, candomblés e outros ajuntamentos, como se desenhariam ao final desta década? E os carnavais onde os pretos já ensaiavam participação, continuariam a lhes absorver?

Além dessas festas, havia pelo menos quatro ocasiões em que não era o padre com a irmandade, nem o maestro da filarmônica e nem os mascarados no carnaval, e sim as festas cívicas que foram selecionadas pelo novo regime republicano, reunindo cores, classes e sentidos. Entrava em cena o novo governo, mas que, pelo visto, não esquecera os feitos do passado, e José Murilo de Carvalho (1990) destaca a difícil luta pela construção e divulgação de simbologias e heróis republicanos, como mecanismos de fortalecer o novo regime. O que não era nova era a postura racializada para lidar com os libertos. E nos jornais das elites cacaueiras, essa racialização tornar-se-ia um tema recorrente e curioso que vale a pena perscrutar a seguir.

 

3.2 Imaginário sobre o negro nos

 

jornais no pós-abolição

 

A ambivalência do papel do negro na região cacaueira nos pós-abolição dava-se por dois meandros: a necessidade de sua mão de obra para sustentar a ascendente lavoura cacaueira; e o tratamento de inferioridade baseado na cor e na certeza de serem descendentes de africanos escravizados. Esta última assertiva foi a escolhida pelas elites regionais para retratá-los nos jornais. Se a escravidão se restringiu ao século XIX, o modo como o negro era visto estava longe de ser diferente com a chegada do século XX. Mas como a sociedade lidou com as práticas culturais desses sujeitos? A via de acesso para responder a essa pergunta está nas notas de jornais. O público leitor do jornal, pelo menos em edições subsequentes, não se manifestou contrário, ou quiçá, se alguém o fez, não foi publicado.

As representações sobre o negro no imaginário da pós-abolição e sua inserção na sociedade racializada nascente com a república tornaram-se assunto recorrente. Os jornais dialogavam com notas oriundas da capital e das cidades circunvizinhas, e até mesmo de outros estados e países, selecionando as ideias e textos que representavam seus valores locais. O significativo era a seleção de quais assuntos seriam transcritos como lições que deveriam ser repassadas e que, ao mesmo tempo, refletissem o modo como o negro era visto nos lugares considerados mais civilizados. E o afã das elites regionais era justamente acompanhar esse modelo de ordem e progresso, civilizando os costumes, advertindo leitores, convocando-os a um comportamento possível e corroborando a manutenção de hierarquias sociais oriundas do sistema escravocrata e sedimentação do discurso da supremacia branca.

A abordagem dos jornais sobre escravizados e libertos já fora motivo de análise (SCHWARCZ, 2001a) acerca do modo como as elites brancas paulistas os representava nos jornais, em finais do século XIX. E Azevedo (2004) perscrutou o negro no imaginário das elites nos primeiros anos após a abolição. Nesta direção, o negro do sul baiano aparecia representado na região de muitas formas, mas sempre pejorativas. Foi sugerindo esses mesmos sentidos que nos chama à atenção uma frase irônica em meio a um anúncio de festas de gala que ocorreria em breve na cidade. O texto era jocoso, irônico, dirigido aos jovens casadoiros: “Moços, se quereis ser felizes, se quereis ir ao Céo dançai com a moreninha feiticeira uma

valsa 20 e tereis realizado o vosso ideal”. A nota nos revela a sagração da mulher negra chamada de “moreninha”, uma construção simbólica diferente da preta escrava, ambas, invariavelmente, desqualificadas, tal qual era depreciativo ser negra feiticeira. A intenção foi destacar o lado sensual, reforçar o estereótipo na construção do imaginário da mulher negra sensual,

feiticeira21, disponível, dada à diversão.

A desqualificação do negro alcançava também o mundo poético. Um cidadão ilheense, em 22 de junho de 1903, resolveu colaborar com a Gazeta de Ilhéos, enviando um poema com o seu entendimento sobre a raça, inclusive que intitulava “Negro - A Alguém”: “A côr da Magua, a côr sombria”, assinava Raul do Vale. Raul concordava certamente com a elite intelectual, que via a população negra como empecilho ao progresso do Brasil (SCHWARCZ, 2001). Publicaram o poema por concordar que os negros, que sempre apareciam nos jornais como autores de crimes e desordens, tinham um fundo degenerativo e, de acordo com Gislene Santos (2002, p. 148), para as elites, “são criminosos e loucos, pois o crime é o mal gerado pelas e nas raças inferiores”.

As associações racializadas e depreciativas não paravam por aí. Na mesma folha que Raul do Vale lia, escreveu e, portanto, admirava, havia opiniões próximas às suas, alinhadas com o discurso racializado em voga. Em consonância com os acontecimentos mundiais, as folhas locais elogiavam ou criticavam posturas, delineando o lugar que a sociedade reservara para o negro, o trabalho braçal. Somente numa exceção por riqueza ou destaque intelectual, um negro poderia ser digno de notas positivas.

Isso fica evidente com um exemplo a seguir. Ao descrever uma reportagem sobre os Estados Unidos, a Gazeta de Ilheos prometia estar em consonância como os novos tempos do século XX, pois relataria um caso excepcional, “O negro de cara branca”, e destacava um episódio em que o presidente Roosevelt recebeu Booker Washington em seu palácio e o fez sentar à sua mesa, “como se fosse branco”, e termina explicando, de modo estupefato, que Booker foi escravizado antes da emancipação, mas esse negro,

“por tantos títulos illustres”, ali estava.22 Não era sem razão que a nota o destacava, visto que, ali, tratava-se de uma exceção sustentada pelo discurso cientificista racial, para estes considerados “incivilizáveis em geral como afirmava um artigo de 1891” (SCHWARCZ, 2001a, p. 111).

A imagem que o periódico queria imprimir do negro era de que eles representavam um exemplo de grupo incivilizável numa região que estava distante geograficamente da capital como o sul da Bahia, mas aproximada pela teorias raciais. Estas começaram a tomar corpo, tendo como pano de fundo as teorias sociais darwinistas, o evolucionismo social e o positivismo, reproduzindo discursos que reafirmavam a hierarquia das raças, homogeneizando o “ser negro” (idem). E o discurso jornalístico compreendeu que a melhor forma de coadunar essas teorias seria dando exemplos sobre o negro, teorizando a respeito de alguns fatos ilustrativos e com fins pedagógicos, reafirmando como, na sociedade cacaueira, um negro mereceria, mesmo após a liberdade, ser tratado.

As notas eram releituras de outras reportagens, o que permitia a supressão ou a ênfase num dado elemento do texto, ou seja, ali, seria o momento de concordar ou discordar e arregimentar valores. Assim, também na região, alguns negros eram branqueados pelo discurso regional. Como alguns coronéis, embora ricos, eram negros ou pardos, é raro encontrar menção a tal distinção de cor. Ribeiro (2001, p. 166), ao descrever a trajetória de Henrique Alves, destaca que, “negro de origem humilde, o coronel Alves representava o braço armado dos conservadores no Cachoeira, reduto político dos liberais”. A forma sutil e velada evitava colocar a cor do coronel, vez que era a mesma da maioria dos trabalhadores das fazendas. O cordelista Minelvino Silva (1979), em versos, destacou-o como grande, demonstrando o prestígio do coronel “branqueado” pelo poder. E assim,

 

Os Ilhéus era a rainha

Itabuna era a princesa

Conhecida do cacau

Por todos da redondesa

Onde o grande Henrique Alves

Mostrou sua prestesa (SILVA, 1979, p. 1).

 

O coronel representava a exceção, cujos títulos eram as propriedades produtoras de cacau com até 250 trabalhadores e, consequentemente, seu papel na política como intendente o branqueava. Na memória política da região, o enriquecimento suplantava a cor. Assim como no caso de Booker e do Coronel Henrique Alves, a outra grande exceção foi Odília Teixeira, que, em 1912, foi a quinta mulher a se graduar em Medicina na Bahia, a primeira de Ilhéus. Sim, era uma negra que conquistara um branco rico, Eusignio Gaston Lavigne, “descendente de franceses, louro de olhos azuis, intendente e prefeito de Ilhéus” (HEINE, 2010, p. 1). Fora essas exceções, o negro foi relegado ao silêncio, a não ser quando, em vez do tom elogioso, entrasse em cena a animosidade partidária. Mahony (1996) abordou a forma como as elites tradicionais se enfrentavam nos jornais, trocando acusações que extrapolavam o plano político. Entre as notas, depois de todas as desqualificações possíveis, utilizavam-se da cor como ofensa máxima. Neste sentido, os Tavares e os Berbert não passariam de “caboclos ou mulatos camponeses” (MAHONY, 1996, p. 488). Associá-los a mulatos seria imediatamente remetê-los para o que se acreditava haver de pior na escala social. Pessoas e Adamistas não cessavam as acusações. Sobre Misael Tavares, na sua trajetória, destacava-se a ressalva de que era filho natural de uma camponesa cabocla e de um membro da aristocracia colonial de Ilhéus e que, na década de 1890, aproximadamente, casou-se com a sobrinha mulata do colono alemão, Henrique Berbert, Efrosina. Já Pessoa chamou seu inimigo Adami de ex-escravista, imperador negro, possuidor de escravizados ilegais. A confusão se estendeu na Gazeta de Ilhéus, em 9 de abril de 1905.

 

Em uma carta para a Gazeta de Ilhéus em 1905, o fazendeiro Leocadio B.

Rodriques da Bom Gosto reclamou que Sá aliado do fazendeiro Nicolao

Siuffo o havia chamado de moleque. Enquanto estas palavras podem ser

termos para pessoas não confiáveis, ou vigaristas, a palavra também

Moleque refere a uma criança escrava do sexo masculino ou um pequeno

menino negro. Rodrigues ficou indignado e insistiu na Gazeta que ele nunca

tinha sido um moleque, que ele era o filho de um casal, e que ele tinha

apreciado o respeito da sociedade, uma vez que ele tinha vindo para a área

de cacau para começar a crescer de cacau, e que ele sempre tinha vivido de

uma forma digna e independente. “Se”, escreveu ele, “porque eu sou pardo

ou mulato, Sr. Nicolao me chama de moleque, deixe-me lembrá-lo que em

seu próprio grupo político há pessoas muito acima dele, cuja cor é mais

escura do que a minha, e um grande número de moleques, que ele abraça”

(MAHONY, 1996, p. 490).

O incômodo em ser chamado de pardo ou mulato é nítido. A resposta enviada via nota de jornal não era só a desforra, mas um momento em que se publicizavam, supostamente, os defeitos dos adversários. Neste caso, o designativo cor foi o elemento de acirrar as divergências.

Na sociedade local, chama a atenção a figura do Dr. João Batista Soares Lopes, o único negro sentado entre os mais ilustres da sociedade, certamente, pela distinção que sua profissão lhe proporcionara. Entretanto, a preocupação das elites locais com o branqueamento da nação continuava. Numa elogiosa notícia transcrita de um jornal de Lisboa, estava ali uma nota a provocar o imaginário dos leitores:

 

Pretos e brancos – Qual será a suprema felicidade de um preto? Se é, a sciencia moderna parece ter descoberto o modo de satisfazer o anhelo dos negros. O professor Jonhston affirma que, inoculando em negros o soro do

albinismo, pode, em pouco tempo, torna-los brancos. 23

 

O discurso branco reafirmava o estigma de que apenas a cor branca era ideal de felicidade, neste sentido, o negro estava sumariamente excluído, em virtude da cor, do lugar social. E a crença na ciência moderna – palavras de ordem que agora deveriam ocupar o pensamento de uma sociedade que se pretendia civilizada – seria a única via possível para a melhora de vida.

O branqueamento, as discussões científicas, o imaginário sobre o negro, tudo isso aparecia, reiteradamente, nas notas que exibiam a questão da cor como um problema mundial. Exemplos não faltavam, como no caso em que existia em Springfield uma rapariga cuja pele tinha a capacidade de mudar de cor: uma mulata cuja natural tez era bronzeada, que, por vezes, ficava rosa, outras vezes, “negra

retinta”. 24 É bom lembrar que o texto já era uma releitura e, portanto, acrescida de juízos de valor. As elites afirmaram que o sonho do preto era ficar branco, já a rapariga, sortuda, mudava de cor, ou melhor, não era somente preta retinta, isto porque “certos traços físicos como formato de rosto, tipo de cabelo e coloração de pele se transformassem nas principais variáveis de discriminação” (SCHWARCZ, 2001b p. 226).

Depois de abordar o branqueamento, a questão deu-se em torno do sentido do termo “raça”, cujo exemplo era a “raça africana”. O texto Valor da raça negra foi o motivo de embates, discussões e ofensas por partes de dois jornais em Ilhéus, O Santelmo versus o Nova Religião. O Santelmo estava imbuído de “degradar a raça negra”, atribuindo-lhe tudo de ruim, referente a atraso, barbárie e preguiça. O Nova Religião focava suas matérias nos aspectos culturais da cidade. Seu único exemplar disponível defende que “a raça africana não era degradada nem boçal” e faz um relato histórico da vinda dos africanos, dando informes sobre o continente. Em contrapartida, O Santelmo defendia veementemente o modo como a “raça africana” era motivo de atraso que sujou a cultura brasileira na época da escravidão. E o Santelmo defendia tenazmente tais ideias. Desta troca acalorada de opiniões, emergem representações sobre a África, a escravidão, a abolição e o destino dos negros. Só não divergiam na existência de raças diferentes e na crença de uma natural hierarquia entre estas.

A Gazeta de Ilhéus, O Monitor do Sul, A Razão e A Democracia focavam suas notas na maior parte dos municípios circunvizinhos. Essa “cobertura” acabava por mapear os acontecimentos políticos mais evidentes, registrando sobre a vida religiosa, social e cultural das elites, suposto público leitor. Formando opiniões, os jornais sabiam que o poder do escrito era respeitado e, também, constituía-se como fala oficializada sobre a cidade e suas práticas culturais. Estavam sempre envoltos em narrativas de prisões, distúrbios, conflitos, brigas, desordens, crimes, assassinatos, entre outros acontecimentos que envolviam violências e ações repressivas das forças policiais e evitavam utilizar o termo “negro”, preferindo usar “o popular” ou “povo em geral” para abarcar pobres e pretos.

Expurgar da cidade as heranças africanas era uma incansável prática em curso na capital e repetida pelo sul, atrelada à ideia de ciência americana e, sobretudo, europeia e, portanto, comprovável, a tal ponto que crime, desordem e cor eram sinônimos. Os autores seriam africanos, crioulos e mestiços e teriam de se adaptar aos novos modos de ser e viver, condizentes com o que preconizavam os “homens de ciência”, como os definiu Schwarcz (2001b). Não é sem razão que, para quem estuda as festas e práticas culturais negras no período, um termo clássico é a expressão “desafricanizar”, de Alberto Heráclito Ferreira Filho (1998-1999), referindo-se às ruas da capital, mas que bem servia no contexto sul baiano. E todas as expressões culturais de origem africana – entre as quais, podemos incluir o samba, o candomblé, a capoeira e outras festas sofreriam uma “repressão racial” pela polícia. Palavras como “ordem”, “civilização”, “modernização” e “saneamento” estavam constantemente no discurso da imprensa. Edmar Ferreira Santos (2009) fez análise semelhante em Cachoeira, com a perseguição aos candomblés, batuques e sambas.

Em 20 de março de 1909, um jornalista sul baiano, para expressar a que ponto os problemas locais chegaram, questiona: “Onde

estamos? Num centro inhospito d’Africa!!”25 No imaginário das elites, África, escravidão, escravizado e negro eram associados à barbárie. As ideias postas em circulação por variados jornais e memorialistas assumem um caráter racializado, sobretudo, em situações de conflitos mais explícitos. Se não era textualmente publicado na prática, no tratamento, jamais era esquecido.

Nos dois primeiros decênios após o advento da República, a sociedade sul baiana conjugou esforços civilizados com as autoridades locais. Atentos aos telegramas e discursos na capital, liam tais publicações, e isso incidia sobre os temas das edições de jornais locais, em sua formatação e ideologias. Eram algumas das primeiras manifestações da ligação do sul com o que era moderno e como se tratava o negro na capital. Muitos negros estavam determinados a ignorar tais manifestações, salvo nas ocasiões em que os expunham com qualificações racistas, a exemplo de lhe atribuirem mau comportamento, que não deveria ser tolerado.

Nesses casos, valia a pena ocupar grande espaço nas edições com extensos relatos. Cada nota ali escrita era a seleção de um discurso, de uma relação de poder, de uma representação sobre a região, dos valores, das ideologias e daquilo que era “digno ou não de virar notícia”. Depreendo, assim, que o que é dito tem tanto valor quanto o não dito. Ambos são intencionais e portadores de crédito pelos demais, de atribuição de representação e de poder ou desmerecimento. Recorro aos exemplos: Juvenal Jorge dos Passos

era um ingênuo 26 e seus últimos parentes africanos morreram em Barcelos, vila vizinha a Maraú. O povoado foi um dos lugares articulares e produtores de farinha e de grande mão de obra escravizada, e os ex-escravizados de lá também tentaram a sorte na região do cacau. Com a abolição, o “naturalmente ingênuo, pobre, sem costume de viagens e em cidades movimentadas [...]

procurando colocação ou trabalho para manter-se”27 sofreu uma série de infortúnios e acabou por se tornar o personagem principal de uma narrativa um tanto estranha, estampada no jornal, intitulada Espancado a facão. Sua história traduz, certamente, o olhar dessa sociedade, as vicissitudes e o tratamento dispensado a muitos outros negros na mesma condição de Juvenal. Este, depois de vagar pela cidade sem trabalho e sem sucesso, teve a infelicidade de fazer suas necessidades fisiológicas em um lugar escondido, porém público, sendo preso por esse motivo e sofrendo

espancamentos “cujos signaes estão bem vivos no seu corpo”.28 O jornalista afirmou que o caso era feio de se ver.

Não foi só para Juvenal que o desfecho foi terrível. Por meio do caso dele, deduzimos o quão difícil e complexo foi o processo de moralização do trabalhador e cidadão, oriundo de família de ex-escravizados. Desse modo, caso não quisesse se sujeitar aos contratos de trabalho, o ex-escravizado seria enquadrado criminalmente como vagabundo, na vadiagem, como bem observou Bacelar (1994, p. 130) na capital. E nessas brechas, as elites do sul se orientavam. O interesse destas de sugerir que lugar de negro era no trabalho não parava por aí. Violência, força para trabalho pesado, gestos grosseiros, gosto por cachaça, frequentador de samba, cor mestiça, aspecto soturno, festividades atrasadas, tais características eram as mais destacadas sobre os negros trabalhadores.

Analiso aqui, com mais vagar, uma tradução dessa mentalidade: a narrativa sobre um negro que imprimia medo. Ele era caboclo, corpulento, forte, chegado ao trabalho e tinha “gênio exquisito”, que deitava suas roças de farinhas e o rancho para sua família. Chamava-se João Narciso e tinha um único amigo, Xico da Ribeira, um mulatão “capaz de sangrar” qualquer “mardito”. Sua vida social era assim resumida: bebia “um pedacinho de pura” aos domingos e tinha horror ao samba e sentinela. Do passado escravista recente, João tinha outros camaradas como Totonho Mutum “dos bons

tempos do corte da piassava”, o “que era obrigado a fazê-lo” 29. João da Silva Campos (2006, p. 205) elucida esse trabalho anterior na piaçava quando relata:

“Era uma fazenda”. Negros, vigiados pelo feitor de chapéu pontudo de abas largas, e chicote em punho, colhiam algodão cantando. A principal indústria da região vinha a ser a exploração da piassava. Todas as fazendas dos arredores eram estabelecidas sobre o rio de Ilhéus, transportando-se os seus produtos por água. Donde não haver quase caminhos terrestres, Campos (2006, p. 205).

Aos sábados, Xico da Ribeira tinha como programação despachar a produção em canoas, juntar-se a Totonho e, depois, “tocar p’ra

villa como, pelo hábito, ainda chamavam a cidade” 30. Lá, além de vender os produtos, “na cidade, demorava-se pouco, tempo suficiente para a vendagem dos produtos da sua lavoura e compra

necessária para subsistência de uma quinzena”.31

O autor da nota tipifica com a história de João o comportamento ideal para outros ex-escravizados e seus filhos. Muito trabalho, pouca farra e algazarra e limitada circulação pela cidade, pois não combinava com seus tipos sociais. João, Xico e Juvenal representam outros negros não citados pelo articulista, Elias Alberto, autor da nota intitulada “Assombramento”. Nela, as vicissitudes dos ex-escravizados, seus filhos e netos na região eram assombrosamente descritas da forma que os brancos acreditavam que deveriam ser os negros.

A cidade, para eles, seria lugar de pouca demora, oposta da vida dura na zona rural. Tudo sugere, inclusive, que boa parte dos ex-escravizados e seus descendentes permaneceu nas fazendas da região após a abolição, negociando suas novas relações de trabalho. João e Xico eram dos que faziam com que as zonas rural e urbana estivessem em permanente trânsito e complementariedade. Principalmente pelo transporte do cacau, muitas vezes, em carro de boi de uma fazenda para a cidade.

Necessários, mas longe da praça e circunscritos à fazenda de cacau, esse era para as elites o lugar preferencial dos negros. No discurso jornalístico até 1919, cristalizavam-se as ideias racistas. Algumas ideias eram reforçadas, repetindo discursos ideologizantes com depreciação e exotismo. O sul tornara-se um ambíguo terreno, no qual os ex-escravizados e demais livres de cor tornaram-se cidadãos em estado contingente: quase-cidadãos. Olívia Cunha e Flávio Gomes (2007, p. 13) questionam “o que fazer então com as marcas físicas e simbólicas desse passado, inalteráveis mesmo diante de operações jurídicas, institucionais e simbólicas diversas?”. Nesse contexto, as sociabilidades, em suas diversas facetas, constituíam-se num terreno permeado de tensões nos raros casos em que o negro destoava da vida de trabalho levada por João e Xico, à qual Juvenal nem conseguiu ingressar. A riqueza seria uma distinção para ter branqueada sua figura, a ponto de ser publicada pelos mesmos jornais como ocorrera com o Coronel Henrique Alves e a médica Odília Teixeira. Noutros casos, não restam dúvidas, a meu ver, havia um tom de exotismo velado nas raras ocasiões em que a foto do negro era estampada, em atípica situação em que brancos tinham lugar comumente.

O Progressista e O Comércio narravam feitos espetaculares de outro João e de uma Maria, surpreendentemente, uma mulher negra, Maria da Conceição Lopes. João Maurício Ferreira, em vez de relacionado a um crime, como era costume, encabeçava a nota como responsável pela inauguração de uma casa de diversão e festas, considerada a mais chic do sul, o Palace Bilhar, que, nas palavras do articulista, era uma casa moderna, com acurado gosto de arte, servindo champagne aos habitués, licores e doces finos. No entanto, a nota destacava que o proprietário era “sympathizado, esforçado em servir” – não há como não ler, nas entrelinhas, o tom piedoso do articulista – e que merecia, portanto, ter sua foto no

jornal. 32

A segunda retratada aumentava o nível da exceção, única negra a ter sua foto nos jornais entre 1901 e 1919. Se, à primeira vista, Maria Conceição Lopes parecia ter vivenciado um avanço ou gozado de sorte, ao lançar sobre tal caso um olhar mais atento, tem-se outra explicação. A moça fora indicada como professora da escola de Água Preta, num lugar chamado Corte Obrigado. Era filha

do clínico Dr. J. B. Soares Lopes.33 A cor e o lugar excepcionalmente ocupado reforçam a ideia de Albuquerque (2009), de que a noção de raça pautou a construção de lugares sociais, tanto para negros quanto para brancos. Cumpre atentar, ainda, que, no caso de João, não foi a casa de diversão que estampou a nota, mas o exótico proprietário. Um leitor mais atento logo entendeu a mensagem, afinal um negro era o dono e, por isso, optou-se por exibi-lo. Para um possível cliente, uma fotografia do Hotel Palace Bilhar não seria mais adequada? Certamente. Nem todos os negros conseguiram ser bem-vistos numa sociedade sequiosa em imitar a capital em modernidade e “desafricanização”.

É o que podemos constatar. Uma semana depois, o jornal lamentava ter sido impedido de publicar a “psychologia tenebrosa do negroide Jacinto Costa”, pois um tal Sr. Cel. João pediu delicada e insistentemente a retirada do artigo. O jornal lamentava que, infelizmente, a sociedade não iria ter o prazer da leitura e que “o negroide tem sorte ou sabe procurar, tel-a o que vem a ser o

mesmo”.34 Certamente, os que não leram imaginaram o quão depreciativo seria o texto não publicado. Não podemos deixar de notar que muitos se utilizavam da ciência da psicologia para tentar, com legitimidade, depreciar os negros.

Mas e os que não eram proprietários nem professores nem médicos, ou seja, a maioria, assim como João, Xico e Juvenal? Creio que esses caminhos sejam interessantes para observação. Havia, sim, outros professores – mas sem contar com um sobrenome familiar respeitado na cidade – que conviviam onde “o racismo já era um componente ‘natural’ da sociedade, com suas práticas discriminatórias inoculadas na estrutura social, constituído em princípio básico de sua estratificação”, conforme observa Bacelar (1994, p. 133). Considero ilustrativo um caso, em que o jornal sugeria um problema com um tal professor de cor e deu grande realce a um episódio de castigo por parte deste a um certo aluno. Primeiro, o jornal alegou tal destaque ao caso, por primar pelo “ministério sagrado das funções jornalísticas que visam ao

alevantamento moral”35. Neste lastro, a educação foi tema de longo debate, e logo voltou à tona a questão dos castigos perpetrados pelos professores aos alunos. Mas o motivo do escândalo passava por questões menos pedagógicas, ou seja, era porque “Eustachio é

de côr branca”. 36 Está claro, portanto, que castigos aos alunos brancos por um professor negro seriam inadmissíveis.