Histórias de africanos e seus descendentes no sul da Bahia
3.3 “Vae em marche aux flambeaux”: festas cívicas da cidade republicana
Nesta e em outras ocasiões aludidas aqui, a superioridade da raça branca era reconhecida em legitimidade com os exemplos mais diversos do cotidiano entre os anos de 1880 e 1919. Especialmente nestes anos, vigoravam o pensamento racial e a ideologia do branqueamento (SKIDMORE, 1989), e as elites as interpretavam ao seu modo. Além deste, outros importantes estudiosos são enfáticos ao discutir como as características fenotípicas são frequentemente
tomadas, tendo preto como cor e negro como condição.37
À luz do exposto, se a suposta cidadania em que o negro vivia nessa época suprimia, em tese, sua identificação racial da documentação, o tratamento cotidiano incumbia-se em lhes lembrar de tais categorias e, quando possível, deixar indícios nos casos de denúncia, prisão e outros crimes, que acabavam por envolvê-los na vala comum do “popular” ou nas “demais pessoas do povo”, se tomarmos como parâmetro processos crimes ou notas de jornal que envolviam desordens de negros em práticas culturais atrasadas.
Mas o afã civilizatório das elites só queria lembrar do passado as grandes datas cívicas e os grandes sujeitos, brancos senhores de terras, os quais seriam rememorados em forma de festa cívica no século XX num calendário concorrido como veremos a seguir.
3.3 “Vae em marche aux flambeaux”:
festas cívicas da cidade republicana
O Caboclo Jinitiá era homenageado por três dias, todos os anos, antes e durante o 2 de julho, por mãe Malungo Mônaco, mais conhecida como Percília da Costa Nascimento. Esta se mudara para o bairro do Pontal, em Ilhéus, com o intuito de fundar um terreiro de Angola. E em termos de festas, o bairro não mais será o mesmo, nem o dia da comemoração da Independência da Bahia.
Anualmente, entre outras comemorações, no dia dois de julho, o terreiro
promovia o famoso samba do Caboclo Jinitiá. Eram três dias com três noites
de samba-de-roda, e muitos moradores do Pontal tornaram-se
freqüentadores assíduos da festa. O dia dois de julho, considerado data de
comemoração da independência da Bahia, passou a ter também uma outra
forma de ser comemorada no Pontal: o samba-de-roda em homenagem aos Caboclos, no Terreiro de Dona Percília. (PÓVOAS, 2007, p. 32).
Samba de roda, festa de caboclo e candomblé, estas festas de protagonismo negro têm registro a partir da década de 40 do século passado. O salto cronológico que fiz é ilustrativo de como a data já se consolidara como dia de festa no sul da Bahia. Mas foram as elites que, no limiar do novo século, instituíram quais datas oriundas do Império seriam festejadas com novas roupagens para o governo republicano, afinal, como diz Lúcia Lippi Oliveira (1989, p. 180), “ao proporem a lembrança de fatos, de feitos heroicos passados a serem recuperados, as festas contribuem para ratificar e dar coesão social à nação”.
Um calendário extenso se firmara de festa, inauguração e nomes ligados a tais datas, que marcaram o cotidiano das cidades erguidas com o dinheiro do cacau. Criava-se um elenco de oportunidades para que as roupas novas, a farda da filarmônica, os ternos engomados e os discursos políticos se encontrassem, fossem ao Largo, à Rua, à Praça e à Escola, com os nomes de 2 de julho, 13 de maio, 15 de novembro ou 7 de setembro. As festas cívicas da década de 1910 continham claras mensagens de manipulação do imaginário social, particularmente importante em momentos de mudança política e social, em momentos de redefinição de identidades coletivas (CARVALHO, 1990).
Daí que, contaminados com o nacional desejo de ordem e civismo da euforia republicana, nas cidades do sul baiano, espaços públicos foram nomeados em homenagem às tais datas cívicas, comemoradas com filarmônicas, fogos, roupas de seda. Essa era a maneira das elites vivenciá-lo. Lúcia Lippi de Oliveira (1989) analisa as festas cívicas, reportando-se, especialmente, ao calendário republicano das datas nacionais oficiais. Também foi de interesse de Carla Siqueira (1994) analisá-las no Rio de Janeiro, aqui, escolheu a imprensa como foco, destacando-a como cenário dos que disputavam o poder.
As elites utilizam-se da festa com o forte apelo simbólico, tentando aproximar o povo e o novo regime, de modo que lhes fosse conveniente, com as distâncias necessárias, ao que Carvalho (1990, p. 10) explica como “símbolos, imagens, alegorias e mitos da época, na tentativa de avaliar como as visões da República transbordaram o círculo restrito das elites e atingiram a população de modo geral”.
Quanto à população de cor livre e presente, há um silenciamento nos jornais, mas sabemos que estavam presentes entre as “demais pessoas do povo”. E povo não poderia faltar. Em Maraú, numa festa datada de meados de 1850, os escravizados e livres percorriam todo o litoral com atabaques e animação, com chulas alusivas à data da Independência da Bahia, cantando:
Embarcou o Imperador
Do Rio para Portugal
Ô chegou à altura da linha
A tropa mandou Virar...
(FREIRE; GUANAIS, 2008, p. 146-147).
Essa e outras chulas seguiam misturando fatos históricos que reverberavam na memória e eram repassados de geração a geração. As narrativas da tradição oral revelam que a festa do dia 2 de julho contava “com o rufar dos tambores, eram cantadas composições que lembram a guerra da Independência da Bahia” (FREIRE; GUANAIS, 2008, p. 23). Os versos eram reinterpretações criativas do que representava, no imaginário popular, a data 2 de julho. Adentrando a República, décadas mais tarde, seus descendentes continuariam os festejos com a introdução da Catita, cuja imagem mais antiga é exibida com louvor.
Albuquerque (1999), ao discutir as datas cívicas na capital, elucida como essa memória do 2 de julho teve, ao longo do século XIX, espaços de celebração da vitória popular sobre o domínio português. Os versos cantados confirmam essa memória política compartilhada pelos ex-escravizados de Maraú, revivendo, a seu modo, as festas cívicas regionais, nos momentos de máxima expressão da civilidade republicana. Os jornais souberam explorar esse entusiasmo, destacando que “Quase oitenta annos são
passados e ainda pulsa de enthusiasmo o coração baiano”. 38
E o entusiasmo cívico se materializava na realização de festas, na seleção dos heróis, e as comemorações que marcavam essas audiências – como a do 2 de julho – carregadas de muito simbolismo e patriotismo. A única situação em que uma página inteira foi dedicada a uma homenagem foi referente ao 2 de julho, anunciada meses antes, e, até um mês depois, o assunto era recorrente. Não raro, sugeriam os articulistas aquilo que Oliveira (1989) explicou, que festa tem sempre uma função pedagógica e unificadora, reduzindo as diferenças existentes.
No 2 de julho, vivia-se a alegria momentânea, a euforia em todas as classes. O compartilhar do espaço da rua, as músicas, as fantasias e a intenção patriótica alimentavam essa ilusão. A pompa e o luxo também faziam parte desse cenário. Segundo Chartier (1990, p. 17), “as representações não são discursos neutros: produzem estratégias e práticas tendentes a impor uma autoridade, uma deferência, e mesmo a legitimar escolhas”. Na festa cívica, portanto, as posturas e os lugares assumidos nas festas reproduziam o viver cotidiano, o lugar do negro também estava imbuído desta mentalidade republicana de comportamentos excludentes do “povo de toda qualidade”, ao passo que era tentativa de branqueamento das práticas culturais, pois esse tratamento ia esmaecendo a população livre, mas de cor, invisibilizando-os, caso estivessem desfilando ou tocando na filarmônica ou, ainda, nas comemorações do dia 13 de maio, a assistir, de longe, à “bondade” de quem os libertou. Para Oliveira (1989), entre outras festas nacionais, o 13 de maio foi considerado como o dia da “fraternidade nacional” e era feriado em todo o país, conforme o disposto no Decreto n.155-B do Governo Provisório de 14 de janeiro de 1890.
Uma expressão francesa era exaustivamente repetida para se referir às festas, marche aux flambeaux, indicando que seriam solenes, tais como inaugurações, desfiles, apresentação das agremiações musicais, clubes e datas cívicas municipais, estaduais e nacionais. Diz o articulista do jornal que “a festa era um modus
vivendi 39 de uma raça com capacidade psicológica superior”. Se a festa era feita pela e para as elites, a racialização traduzia-se pela afirmação da raça branca como detentora da festa e da capacidade civilizada e patriótica.
Neste sentido, a festa era usada como momento de exaltação dos heróis, do passado glorioso e de se empenhar o que estivesse ao alcance da melhor sociedade – termo mais apropriado, segundo os jornalistas – e expô-la na rua, em festa, em traje de gala, racialmente hierarquizada pelos bens exibidos num calendário cativo, cujas descrições nos permitem circular pelas imagens produzidas de si pelas elites.
Tanto nas notas publicadas quanto nas pessoas escolhidas como comissões eleitas para os festejos, a lista de nomes era exposta algumas vezes com o valor da contribuição ao lado do sobrenome. Portanto, nada mais simbólico dos anseios civilizatórios do que expor nas praças, em desfiles, discursos, nos jornais, criando uma imagem civilizada da região cacaueira. Entre a abolição até o primeiro decênio do século XX, estas festas deram muito que falar: jornais e memorialistas contavam suas versões, publicavam reclamações de uns, elogios a outros.
Mas os negros estavam lá, apesar de todas as tentativas de silenciamento. Analisarei as três principais datas comemoradas no sul da Bahia, buscando compreender o modo como o civismo, as questões raciais e as representações se imbricavam. Em tese, as comemorações pelo advento da abolição seriam o campo mais propício para se perscrutar as festas de protagonismo negro no período pós-abolição. No entanto, o silenciamento e a inversão de valores foram constantes nos jornais.
Na primeira edição da Gazeta de Ilhéus, a data da passagem do dia 13 de maio foi comemorada. Não recebeu as honrarias e a amplitude do dia 2 de julho, já que os sujeitos envolvidos seriam outros, mas, para não deixar sem nota, o jornal afirma ter havido “certa festa” com alvorada, às 5 da manhã, ao som da filarmônica, em passeata pelas ruas da cidade, e outra festa ocorrida à noite, na Sede Social. Neste clube das elites, onde certamente os descendentes de africanos não estariam em trajes de gala, houve uma “tocata” com vivas, hino nacional e o hasteamento da
bandeira.40 Tomando por primeiro exemplo uma data de valor histórico tão grande para a população negra, contraditoriamente, esta festa ocorre sem a participação popular e num clube, nada mais excludente. Vigorava o silêncio sobre outras formas de comemoração pela passagem da data. O dito jornal não faz nenhuma menção aos populares dos arrabaldes.
Ainda que a comemoração pela abolição estivesse entre as datas mais festejadas, ela acontecia do modo que as elites se permitiam interpretar, homenageando os “sujeitos ilustres”, desde a princesa Isabel até o coronel local, que fora possuidor de muitos escravizados e os libertara contra sua vontade, em face da lei, invertendo, assim, os sentidos e os sujeitos que deveriam ser lembrados, as homenagens e claro, a programação. Em 1903, ironicamente um coronel era o homenageado na passagem do 13 de maio:
Lutador incansável pela vitória dos ideais liberais alcançou, entre outras glorias, a de ver seu nome figurado junto aos daqueles que trabalharam em prol das vítimas da escravidão e que viram triunfante a nobre causa que defenderam com a áurea lei de 13 de maio de 1888. De 1886 a 1888, trabalhou incessantemente pela causa da abolição dos cativos, conseguindo libertar grande número destes nesta cidade, onde por tal motivo não poucas
contrariedades e perseguições sofreu. 41
Enquanto isso, as reais “vítimas” da escravidão, que nunca viram o aludido trabalho realizado pelo coronel, eram ainda sujeitos do pós-abolição destituídos de tudo e transitando entre as roças de cacau e a cidade, tentando construir meios de sobrevivência. Outra prova de esvaziamento do sentido do 13 de maio foi aproveitar-se do dia “cívico” para já antecipar a preparação do futuro “Dous de Julho”, ou seja, a festa é pensada dentro de outra festa, já na ocasião do dia 13 de maio, – aproveitando-se certamente do feriado para os acertos –, diminuindo a importância da comemoração pela abolição. O aviso era que, depois da rápida comemoração do 13 de maio, a “boa sociedade” se reuniria para organizar o 2 de julho. No entanto, o jornal chega a afirmar, na passagem da data, que “nenhum outro assunto é tão polêmico quanto a Lei Áurea” e, sem maiores explicações, prefere dela não falar.
Noutra ocasião, a data foi lembrada apenas por um breve “salve a redentora princesa Izabel”. Tal frase resumiu a lembrança do dia, cuja comemoração acontecia em sentido invertido, sem mencionar, em nenhum momento, a questão do negro ou da vida difícil pós-liberdade que os fazia protagonizar as ocorrências policiais do mesmo jornal. O jornal O Monitor do Sul descrevia o cenário do que tinha sido ali, um “magno dia” festivo, narrando que não passou despercebida, “como nos annos transactos, nesta cidade a grande e inolvidável dacta de confraternisação dos brasileiros. A esforços do major Gustavo Guerra houve illuminação em frente à sua casa e
espetáculo de gala no pavilhão 42 Lusitano”. Quem participaria daquela comissão? Ao mencionar a “dacta de confraternisação dos
brasileiros” 43, quem seriam estes? É notável o destaque ao esforço do major, sua classe pressupõe que iria para a festa, bem como que foi um espetáculo de gala, logo pobres e a população de cor, em geral, não tinham como participar. A festa da abolição foi descrita apenas no aspecto das pompas e se atribui a organização ao grupo de artistas e das elites políticas. O mais grave, porém, é o destaque
dado ao major e ao grupo de ex-escravocratas da localidade.44 Inverteram o sentido da festa.
Em 14 de maio de 1907, mais uma vez, o dia 13 de maio foi tematizado nos jornais, com louvações à princesa Izabel, mas O Monitor do Sul queixava-se de que a sociedade notara que a
comemoração ocorrera sem a realização das “festas do passado”.45 O jornal não relata, no entanto, quais festas fazem falta naquele contexto, nem qual segmento social sentia esta necessidade.
Provavelmente, queixava-se da ausência das festas das elites, com filarmônicas, roupas de gala, banquetes que sempre os reuniam depois etc. Não há relato de qualquer manifestação das populações negras, nem dança de música ou participação em protesto ou de festas nos terreiros. Aliás, esta sim seria um crime. Não registraram também o que certamente deve ter ocorrido não na praça, mas nos arrabaldes da cidade, o modo como o povo se apropriou dessa memória festiva até a década de 1910.
Nos jornais entre 1888 e 1910, diante da quantidade de notas com o título “Festa”, inferimos tratar-se de uma sociedade ávida em festejar. E para a maior das festas, as melhores roupas e sapatos eram preparados, com anúncios intitulados no aguardado 2 de julho, como neste que valeria o investimento para abrilhantar os festejos
“d’este immortal dia (..) Cortes de cassa, Faustão, cassemira preta e
phantasia, cretone frances acompanhado de gaze, suráh, requifes, plicés,
bordados, soutache de sêda e outros enfeites para o mesmo, e belbutina
preta. 46
A demanda fazia jus ao valor que as festas cívicas tinham para a demonstração social de inclusão e exclusão por meio delas. Observadas desde 1889, o crescente desejo de participação, organização e mobilização por tais festas mesclavam sentimentos cívicos/patrióticos. O 2 de julho era a data de comemoração obrigatória nas diversas cidades logo após a abolição. Em 1º de junho de 1901, com antecedência já se convocavam reuniões em Ilhéus e adjacências para organização da “immortal data” e era convidado “o povo em geral”. Cinco dias depois, repetia-se a nota, com acréscimo de que deveria ser escolhida uma comissão, – aí entravam em questão a diferenciação social de status, cor e classe na escolha desta – e que o encontro seria no paço municipal. Novamente, a cada cinco dias, publicava-se outra nota até a chegada do grande dia. O termo “povo”, meu caro leitor, é por demais problemático e provocador, uma vez que, em geral, era utilizado para falar dos não ilustres, mas a participação numerosa do povo era capaz de conferir foro de legitimidade à festa, mensurada pela quantidade de espectadores presentes no evento. As elites queriam ser vistas e admiradas por quem não fazia parte dela e, neste caso, povo eram os outros, os afrodescendentes, desempregados, mães de família que lavavam de ganho, vendiam nas feiras, limpavam e serviam nestas casas entre outros.
Observa-se que nesta repetição de notas no ano de 1901, informações importantes podem ser aferidas, era uma festa cara e os “eleitos” a sustentavam em rateio. No entanto, o major Rodolpho Melo Vieira avisava que quem não concordasse com tal deliberação era convidado a declarar isso na imprensa, em 12 de junho de
1901. 47 A nota associava a doação da quantia como prova material do “sentimento patriótico”. A partir desta demarcação social de status e poder atrelados, visualizados sob a demonstração de civismo, a festa era um campo de conflitos e poderes, com lugares anunciados e demarcados. Imaginemos, é claro, que as Marias e Josés não poderiam rateá-la.
Em Canavieiras, o Conselho Municipal atribuía ao grupo de artistas locais a organização da festa com apoio das autoridades. Eram festas pensadas para o “povo em geral” assistir, admirar e reconhecer a classe da qual não fazia parte. Disseminando novas e velhas ideias, o jornal fomentava esses momentos festivos, e como fonte produzida intencionalmente, as notas analisadas são discursos falíveis e passíveis de desconfiança, visto que sempre se afirmava, um dia depois de ter acontecido a festa, mil maravilhas daquele acontecimento e uma harmonia e celebração entre as classes presentes, sem críticas a essas posturas. Observemos que, neste caso, usavam classes no plural e uma união na qual não houvera tampouco compartilhamento de algo para além do rito festivo.
E o povo em geral, de fato, comparecia. As fotografias é que rompiam com o silêncio sobre a população de cor, nestas aparecem ocupando as praças homens, mulheres e crianças que circulavam com suas roupas novas, chapéus e bandeirinhas debaixo do sol, imprimindo suas possíveis leituras da festa e da sociedade, numa participação sempre registrada como passiva, de condição de espectadores. Desconheciam, porém, os articulistas que o povo bebia, xingava, dançava, ria, encontrava-se, distraía-se naqueles momentos e alguns deveriam olhar com sarcasmos para aqueles espetáculos polidos. Mas se apropriavam a seu modo.
Com espetáculo de gala e iluminação e coreto decorado, O Monitor informava ser essa “a efeméride de maior envergadura”, o 2 de julho. Depois de acompanhá-la por anos, entre 1901 e 1919, em dois jornais diferentes, alguns elementos constituintes do festejo tornaram-se mais comuns, como a longa preparação dos eventos entre os comerciantes, artistas e a boa sociedade e, talvez, uma parte do povo que envidasse esforços para adquirir os preparativos para a festa, como o traje adequado. Afinal a festa era do povo ao modo do povo.
Um dia depois da comemoração, o relato descrevia, geralmente, o ritual da queima de fogos, depois, o desfile dos oficiais da Guarda Nacional, junto com todo o aparato para abrilhantar a festa: cavaleiros, com seus caros animais; os professores recitavam poesias; funcionários acendiam a luz à base de acetileno; a filarmônica executava os hinos e outras músicas; um palanque era armado na praça da igreja para dar vez e voz aos sujeitos ilustres; tudo isso, depois, é claro, de o padre rezar uma missa organizada pelas boas senhoras da sociedade, brancas, católicas e obedientes. Somente às três horas da tarde, o préstito voltava, onde a filarmônica executava outras composições e, em seguida, cada grupo tomava seu posto, era a hora de desfilar pela cidade, uns a pé, outros a cavalo. O leitor consegue, é claro, imaginar os que iam a pé.
Albuquerque (2009) nos oferece ricos detalhes sobre a festa da capital. E as elites liam essas notícias. No sul, alguns elementos eram similares. Havia grande préstito e um carro alegórico, o “Carro Triunphal”, que costumava retornar ao barracão somente no dia 5 de julho, ou seja, a festa era extensa. O jornalista não economizava nos adjetivos, nem nos pormenores de cada momento da festa, informando que à noite houve o retorno dos cavaleiros, da filarmônica e de “grande massa popular”. Nesta expressão, estava velada a divisão social, onde subjazia a racial, ficando implícita nestes textos. Voltando à festa, a noite era a esperada hora dos discursos de palanque, momento importante em que os ambíguos usos da festa se mostravam.
Uma queixa, certamente nunca vista, seria a de que a festa do dia 2 de julho não recebesse as devidas homenagens. Já quanto as outras datas cívicas, era comum que a sociedade fosse culpabilizada nas notas por não dar o destaque devido. E por falar em acusação, o jornal Nova Religião, em 1903, afirmava que, no dia 2 de julho, ficava ainda mais evidente a vontade de festejar e lembrar os heróis do passado, o modo como as oligarquias estavam se comportando com ambição e sem critérios. E reiterava: “a Bahia inteira festeja esse dia que nós julgamos santo”; o coreto era preparado para o 2 de julho, para o qual “pedia-se auxílio de todas
as classes”.48 Sabemos que era só formalidade o uso de todas e, na prática, apenas algumas serviriam. O passado era lembrado pela festa na qual se reafirmavam antigas posições de poder, que, ao se moverem no novo regime, deveriam ser mantidas. Ademais, os repetidos apelos de apoio – ora das demais classes, ora do “povo em geral” – eram a forma mais clara de instituir o distanciamento daqueles que só deveriam assistir, não participar, nem mesmo pensar nos rumos da festa em si. Havia de modo não dito um lugar para o povo ficar.
Entre os jornais, ou seja, entre as elites, as desavenças quanto aos sentidos da festa também tiveram espaço. A Razão e O Monitor do Sul estranharam-se em virtude dos sentidos atribuídos aos festejos do 2 de julho. A Razão teceu críticas severas, por ser esta uma festa em que o “povo em geral” não tinha participação ativa, afirmando ser “triste e vergonhoso” e, ainda, concluiu com críticas à filarmônica, pelo caráter não popular da mesma. Neste sentido, a população de cor estava contemplada, mesmo sem a intenção de fazê-la. Afinal, o ser ou não “popular” os incluía.
Isto foi suficiente para haver uma reação em cadeia. E rebatendo, O Monitor do Sul lançou uma série de perguntas, as quais ofereciam respostas. “A festa do 02 de Julho já foi alguma vez
singularisada?”49 Ou seja, para que mudar uma ordem social que já era reafirmada pela festa? E o jornal insistia, provocando: “A festa
do 02 de julho não é uma festa de rua?” 50 Continuava o jornal a perguntar: “E se vai para a rua e o povo a vê não seria o suficiente”? Era este o máximo de democratização pretendida. E a rua, neste caso, era, por excelência, o espaço do povo, supostamente. Depois de uma série de insultos trocados entre as folhas, as justificativas são disparadas pela queixa de que as festas de datas gloriosas perderam “enthusisasmo dos tempos pretéritos. Vede o 07 de setembro no Rio de janeiro, olhae mesmo para o 02 de Julho na Bahia. Sabei que o 13 de maio a áurea data que glorificou a nossa
Patria nem delle se fala”.51
O Jornal A Razão, que parecia antagonizar-se com O Monitor do Sul, não possuía um perfil militante das causas dos pobres e negros, mas teve, nas festas, motivo para reiterados debates e trocas de acusação. As elites e a filarmônica, velhas aliadas, estavam sendo acusadas de só promoverem festas reservadas para si na data de 2 de julho. A queixa era procedente. A Razão citava textos de Ruy Barbosa e outros contemporâneos como Mello Moraes Filho (1999), no seu livro Festas e Tradições Populares (1901), e conclamava: “se quizerdes saber como neste paiz liga-se
pouca importância aos grandes dias, lede Mello Morais Filho”. 52 As festas eram de suma importância para a sagração das elites, de suas vontades, figurinos, posições e imposições sociais. Enquanto a leitura do dito autor não era feita, outras datas festivas moviam debates, tais como os exemplos de uso adequado da festa: “vede o 07 de setembro no Rio de janeiro”. E o Rio era visto pelo sul como o símbolo máximo da elegância, não tendo sido evocado ali à toa. Ao contrário, parecia receber pouca importância, criticava o jornal. A sede deste, inclusive, localizava-se junto ao Hotel Pátria, na praça onde as festas cívicas tinham ponto de partida e chegada, desde a década de 1890. O prédio do Hotel Pátria era enfatizado como símbolo de modernidade, oriunda do Rio de Janeiro, copiada ali na arquitetura com primeiro andar. Imagine caro leitor, essa modernidade atraía os olhares de todos.
Ademais, a comemoração pelo dia 7 de setembro não vingou muito nas terras do cacau. Mesmo sendo esta, desde 1881, proposta pelos positivistas para ser o dia da Festa Nacional no plano local, o sentido da festa para a nacionalidade estava sendo discutida assim como a importância dos escritos de Mello de Moraes no estudo das festas, na seleção da memória do que deveria ser festejado do passado, “em certos dias, as festas de um povo nada mais são do que a romaria da posteridade às tradições que ficaram
no passado”. 53
Esta consagração sobre o popular talvez tenha sido uma ilusão das elites, por certo que o povo as tenha subvertido. Mais à frente, o jornalista parece querer insistentemente atrair os leitores para as obras do folclorista, como se este pudesse guardar em registro os sentidos hierárquicos de outrora, fato que novas festas na concepção dele não o fariam. E arremata que “nos refere o cidadão patriota dr. Mello Moraes Filho. Hoje, no regimem das publicas liberdades, as festas das consagrações phostumas vão arrefecendo
de modo lamentável” 54.
Outro jornal local, A Democracia, de inspiração operária, segundo se intitula, e surgido no ano de 1907, indica que haveriam festas especiais para a pátria marcadas para a data de aniversário do Barão do Rio Branco, com inauguração de uma escola local do
mesmo nome!55 A nota saiu no mês de abril, no entanto, para o grupo que dirigia o jornal, com suposta ideologia diferente dos antecessores, aquela festa teria tanta importância que estava sendo pensada meses antes. Será mesmo que queriam fazer frente aos outros discursos em circulação? No entanto, em suas notas, a população de cor não era citada, salvo nos casos, é claro, de convite geral, o famoso “demais pessoas do povo”. Neste ano, o povo assistiria a uma festa da independência duplamente concorrida e mais uma vez em seu nome.
O sul parecia estar movimentado. Outro acontencimento dividiria as atenções, a festa de retorno de um jornal de nome curioso, O Feitiço – implícito neste estava a dimensão desta terminologia associada a algo justamente vinculado ao povo – que prometia nos seus proclames continuar voltado para esta classe, a “do povo”. Segundo o jornal Democracia, o povo estava limitado a só encontrar nos jornais locais assuntos sobre política e fatos das elites. Por sua vez, O Feitiço prometia trazer uma versão com mais notas sobre o mundo cultural, reforçando que teria a mesma orientação do passado (não ofereceu mais informações a respeito de qual
passado seria esse), além de oferecer muita distração.56 Já no distrito de Negrinhas, sabia-se das festas populares através do jornal O Periquito, órgão literário que se intitulava crítico e noticioso e que causou verdadeira confusão na cidade, acusado de atacar a reputação das pessoas, tecendo críticas às elites. Essa ousada postura não seria bem-vinda, mas o Periquito voltou à cena. Se ao leitor despertou curiosidade, lamento. Também não consegui encontrar as edições do famigerado O Periquito.
Por fim, a terceira data mais celebrada nos jornais, como festa cívica quase obrigatória, era o 15 de novembro. Esta festa gerava debates seguidos por parte dos articulistas que, em certa ocasião, assim expressaram-se: “Republica maldicta? Não. República infeliz, pátria infelicitada pela ganância dos politiqueiros. Consequências
funestas”.57 O desalento com a República foi recorrente nos cinco anos em que acompanhei a comemoração da data no O Monitor do Sul. Já sobre Ilhéus, o memorialista estava mais sossegado e a narrou como uma festa de grande vulto e crítica à monarquia, explicando que a passagem do primeiro aniversário da proclamação da República comemorou-se com uma sessão solene do conselho municipal, e uma procissão cívica naqual tomou parte numerosa massa popular, encabeçada pelas autoridades locais. “Naquela sessão um orador profligou veementemente o período de crimes e violências reinante no município aos derradeiros anos da monarquia” (CAMPOS, 2006, p. 236). Mas as elites ilheenses não deixaram de salientar que a massa popular estaria encabeçada pelas autoridades locais. Ou seria encabrestada, limitada, oprimida? Qual rima melhor? O fato é que povo era encabeçado pelas “autoridades locais”: isto era o controle social do Estado sobre as populações pobres de maioria negra e não a vontade da “massa popular”. Na consulta de Campos (2006) aos jornais, ele não deixa de exaltar a festa pelo advento da República, e, como foi observado em outras festas, fora “encabeçada pelas autoridades locais” de Ilhéus, assim como em Maraú, Camamu, Canavieiras. Nesta última, o clube republicano informava que suspenderia a passeata, por conta da onda de varíola que grassava o povo, motivo pelo qual, “com a maior indiferença, passou entre nós o 20º aniversário da proclamação da República”, com bandeira hasteada no paço municipal e em alguns edifícios e uma improvisada passeata, para
não deixar despercebida, organizada pela filarmônica. 58
Na cidade, doenças da periferia e questões de higiene pública afetaram a festa do governo republicano. Preocupado com o vigor desta festa, em Ilhéus, um grupo que se apresentava no carnaval, os Cavalheiros da Turquia, que se autodenominava de “clube popular”, nos próximos anos observados, assumiria a festa do dia 15 de novembro na praça São Jorge, realizando uma quermesse em benefício do seu cofre. Para isso, convocava os adeptos e o povo em geral, embora fossem distintas apenas algumas participações.
Em linhas gerais, pode-se afirmar que, nas festas cívicas, a participação da população de cor não era citada. Essa era a forma mais racializada de expor os ideais de “civilidade”, excluindo pobres e negros, demarcando como seriam construídos os discursos e lugares sociais definidos pelo controle social e moral. Por fim, resta-nos observar essas relações em mais uma festa, onde as populações afrodescendentes e as suas práticas eram citadas diretamente e de maneira combativa: o carnaval.