Histórias de africanos e seus descendentes no sul da Bahia
4.3 Vulgos de tal: contra a moralidade pública em vadiações, sambas e divertimentos
E neste quesito, as “vadiações” e festas noturnas sofreriam igual perseguição, mas grande sedução no universo de homens e mulheres negras que só queriam dar vazão aos seus desejos, prazeres e liberdades, numa releitura muito clara dos significados que atribuíam à liberdade de ir e vir.
4.3 Vulgos de tal: contra a moralidade
pública em vadiações, sambas e
divertimentos
Além dos crimes cotidianos, da condenação das práticas religiosas, outros aspectos que evidenciavam as vicissitudes das experiências de liberdade (CUNHA; GOMES, 2007) eram certamente o lazer, os divertimentos em sambas, umbigadas. O limite entre o que seria vadiagem, a prostituição, a diversão honesta e os crimes no imaginário das elites ou boa sociedade praticamente inexistiam. Isto se prova nas denúncias feitas pelos jornais.
Nesse contexto, as mulheres negras em diversão eram taxadas de “horizontaes e prostitutas”. Foi neste sentido que a casa de Feliciana foi denunciada pelos moradores da Rua Adão Schaun, que pediam enérgica providência ao coronel intendente para “mandar demolir um casebre de palha que tem nesta rua, que é um foco de imoralidades; reside neste dito casebre uma cabocla de [nome]
Feliciana, que entre as outras, é a que pior procede”. 51
As tentativas de controle iam além da moral e dos bons costumes, recaíam sobre a questão da sexualidade e das diversões que o casebre certamente comportaria com a circulação de outras negras como ela, Feliciana, a de “pior procedência”. Os egressos do cativeiro não deixariam certamente de dar vazão ao lazer e outras experiências de uso do espaço da cidade, ajuntando-se de diferentes formas. Nestas ocasiões, é claro que os conflitos ocorriam, junto com os namoros, os ciúmes, as danças, e que nestas ocasiões a prostituição fosse um dos meios de arranjos de sobrevivência. Mas existem outros fatores que precisam ser considerados. Assim também é preciso levar em conta que as narrativas jornalísticas eram imbuídas de doses de exagero para criminalizar práticas, distorcer situações que moviam a polícia a repeli-los em qualquer situação de festa ou simples descontração. O certo é que esses homens e mulheres acusados de vadiagem experimentariam toda sorte de perseguição, ou seja, a prática do que era a racialização enfrentada cotidianamente no agir social (ALBUQUERQUE, 2009).
Aos poucos, as práticas de diversão e ajuntamentos começaram a ser associadas a alguns bairros da cidade. Em Ilhéus, viam-se “as cenas de desonestidade que se dão todas as noites na Rua do Barroso e Dendê, provocadas por homens e mulheres de má vida que nenhum decoro prestam a moralidade pública, nas ruas e
pensões indecentes”52. Havia um controle, uma publicização de quais seriam esses espaços, e a polícia era logo acionada, pois “o pudor público exige a reprimenda de tais fatos, que certamente será
feita pelo capitão Galdino”.53 Além das supostas casas e pensões, os locais de sambas foram reprimidos. Corria o ano de 1903 em Canavieiras e, numa quinta-feira à noite, Galdino – ironicamente homônimo do alferes e numa escala social e racial oposta – resolveu sair para se divertir depois de um dia de trabalho. Mas a história que poderia ser apenas de paquera, dança e diversão acabou no xadrez, atitude recorrente em caso de diversão de negros onde se chamava a polícia. No discurso racialista do O Monitor do Sul, eis as peripécias do Preto Galdino:
Quinta-feira, à noite, o preto Galdino, que dá a vida por um miudinho, desses que fazem vir agua à bocca das mulatas, entendeu que, num paiz de liberdade, não é preciso o luxo de uma licença, para desenferrujar as pernas, num samba gostoso e... Corria branda a noite quando a policia chegou, vio e
conduzio o caipora [capoeira] Galdino para o xadrez. 54
Fazendo uso do seu pleno entendimento do que seria a liberdade, Galdino foi divertir-se num samba. Entretanto, seu comportamento foi descrito como passível de repressão e prisão, pela prática de uma dança lasciva e sensual, que era o miudinho. Além da sensualidade da dança, aponta a nota que havia mulatas, gente de sua classe certamente.
A ação da polícia, elogiada pelo jornal, dava-se no sentido de fazê-lo entender que seu divertimento era fruto de um luxo, o de uma liberdade, a qual ele não sabia fazer bom uso, e esta o possibilitou estar ali livre para “desenferrujar as pernas num samba”. O samba, aliás, era proibido e deveria servir de exemplo como controle disciplinar e coibição, pois evocava costumes antigos e atrasados. Essa liberdade, de tempo e de diversão, junto com a escolha do seu divertimento, enquadrou-o como contraventor e, portanto, fora conduzido ao xadrez, qualificado como preto e enquadrado como capoeirista, já que, ao que aparente, foi esse o seu maior crime. Em literatura vasta sobre o tema, a capoeira aparece como uma verdadeira doença moral na sociedade da
primeira República na Bahia.55
Quanto ao outro crime, o“miudinho”, este pertencia simbolicamente à mesma categoria do samba, visto como perigo, de tal sorte que, nas primeiras décadas do século XX, os praticantes foram vítimas de forte repressão. Além deste negro, outros casos de polícia ganham espaços nos jornais no quais tangia as práticas culturais. Nestas, há o destaque de que seus frequentadores são pretos e mulatos, como no caso em questão: o periódico usa o termo “mulatame” de modo pejorativo, destacando o samba, a cachaça e a umbigada como atos comuns dos negros e, consequentemente, afirma que os espaços onde ocorrem são violentos, contam com brigas e são os espaços privilegiados das narrativas intituladas “chronica policial”.
Um samba não é coisa que se pérca, nestes tempos em que fálhão
completamente os divertimentos públicos; por isso, Candido Leandro dos
Santos, vendo vazio o seu guarda-roupa, arranjou, por empréstimo, um terno
apropriado ao acto e, na noite de 26 do passado, se dirigiu para as bandas
de Areia, onde lhe informarão que fervia um samba de arrojo, com
scintilhações do mulatame e de pinga seductôra. A festa ia no seu auge,
quando quis a fatalidade que o diabo, dissolvido na cachaça, desmanchasse
a alegria de todos. Como não há prazeres que durem, o de Leandro logo
acabou, no momento em que ele entendeu de substituir as umbigadas por
sopapos, no meio de uma fervura geral, acalmada pela agua fria da policia,
que prendeu ao Leandro dos Santos! Dos diabos e que é este Leandro.56
Umbigada, sedução, samba, divertimento, feitiçarias eram iguais a crimes, todos reunidos num texto irônico como este do O Monitor do Sul. Uma vez que falham os divertimentos corretos, o samba seria a saída, ou seja, cair no samba era fraqueza, um erro de conduta. Galdino não era diferente de Cândido Leandro dos Santos em cor e condição social, pois era pobre e lhe faltavam roupas. Areias, o lugar ao qual ele se destina, é longe do centro, desconhecido, lá para as “bandas”, onde ele sabia haver samba. Essa distância enfatizada pelo periódico é alusiva de distanciamento da moral, da boa conduta.
A atração de Cândido Leandro se explica, ele lá estaria “em casa”, afinal, “fervia um samba de arrojo com scintilhações do mulatame e de pinga seductôra”. O discurso que opunha civilização e atraso aponta elementos imbricados aos modos de festejar do negro, entremeando candomblé, samba, cachaça e mulatas. O leitor deve estar reconhecendo um ambiente de pecado.
A resposta da polícia a esses ajuntamentos festivos era sempre combativa e perseguidora. Procurando associar a pinga ao ambiente de negros em festa como um lugar perigoso de brigas, desordem, prazeres, e o uso do termo “diabo”, que se desmanchara na cachaça, reforça o lugar dos pecados e das imoralidades. É possível imaginar o tom de contento do redator, ao enfatizar que prazeres não duram, que, da umbigada aos sopapos, por motivos de brigas, Leandro foi parar na prisão, visto estar no samba, na malandragem e na embriaguez, coisas de negro que perturbavam a ordem pública. Essas consequências serviam para ameaçar e evitar tantas outras como no seguinte episódio:
Na madrugada de quarta-feira passada, quando procediamos a tiragem da nossa Folha, fomos perturbados por uma turma de meretrizes, que vinham perseguidas, de um samba, dos lados do ‘Rapapáo’. Os sambistas, embriagados e cheios de ciumes, vieram perseguindo a cacete as tais meretrizes, até a rua ‘General Pederneiras’, debaixo de um barulho infernal Infelizmente, o sr. Gustavo Guerra, Commissario de polícia, não pode dar
caça a esses malandros.57
Nas denúncias, os bairros de maioria negra – como o Rapapao – foram se consagrando como lugar perigoso, donde provinham prostitutas, bêbados e malandros. Não foi mera casualidade, portanto, essa construção reiterada nos discursos jornalísticos e relatos policiais da ideia dos territórios negros configurados como bairros onde a maioria da população teria pele escura embora não tenham sido encontrados dados demográficos específicos sobre a cor destes naqueles espaços. As notas e denúncias acabam por evocar a elevada densidade populacional negra, singularizando seus locais de circulação e moradia. Nestes, era frequente a circulação dos negros que certamente trabalhavam de dia no centro e viviam na periferia à noite. Outra forma subliminar de identificar as práticas ou lugares de negros era pela recorrência de queixas comunicando desordens, arruaças e sambas. Lá estavam, certamente, os negros. E as denúncias não paravam de chegar aos jornais:
Pessoas residentes à Rua Barao de Cotegipe pedem que chamemos á
attenção da polícia para um samba infernal que ahi se realisa quase todas a
noites, perturbando o socego publico. Esse samba que as mais das vezes
vae ate pela manhan é frequentado por horizontaes que representam uma
verdadeira bachanal. Seria muito conveniente que o digno alferes Correia,
delegado de policia entre nós, desses uns passeios às horas mortas da
noite, á Rua Barao de Cotegipe. 58
Se o intuito foi desqualificar, tem, mesmo sem intenção, o mérito de nos informar como, onde e com qual frequência a população negra se divertia. O “samba infernal” que ia até de manhã congraçava a maioria negra e pobre, incluindo as “horizontaes”, expressão com a qual se referiam às mulheres negras pobres e, mormente, às meretrizes. Estes sambas resistiam apesar de toda a ameaça da polícia. Além deste endereço citado, a Rua 13 de Maio, identificada como “lá pra bandas do porto”, despontou como um lugar bastante frequentado por pobres e negros e também contava com intermitente festa. Edmar Ferreira Santos (2009, p. 24) encontra essa constituição também em Cachoeira:
Os sambas e batuques denunciados nos jornais geralmente aconteciam próximos ao cais do porto ou nas ruas periféricas, onde trabalhava ou residia a grande parcela da população pobre da cidade. A maioria dos moradores dessas localidades era negra. Os escritores dos textos da folha caracterizavam esses indivíduos como ociosos, bárbaros e possuidores de tendências criminosas.
Isto nos sugere que a Rua 13 de Maio e outros espaços tanto lá quanto em Ilhéus, Canavieiras e Maraú iam ganhando rótulo de lugares de pobres e negros e, portanto, perigosos. Na crônica policial, o Rapa-Pao é, ironicamente, chamado de “teatro”, com cenas de brigas constantes, como a ocorrida entre Pedro Martins Ferreira, vulgo Macumba, e Maria Joaquina da Conceição, vulgo
Gererê. 59
As atribuições de vulgo não podem passar despercebidas. O apelido do primeiro está ligado a uma prática tida como religiosa associada aos adeptos do candomblé, e o da segunda, a um instrumento de pesca muito rudimentar, comum entre as mulheres pobres e negras no sul baiano. Violência, macumba, profissões desvalorizadas e, nessas entrelinhas, são sedimentadas ideias sobre a população negra e o incentivo ao temor sobre suas práticas. Não raro a Rua dos Artistas era constantemente citada nos jornais por ser frequentada por negros feito “um preto insolente, José de Tal, que andava com mais três companheiros, Laurindo Boéco, Antonia e Octaviana, e que, juntos, cometiam “scenas abusivas e
actos indecorosos e offensivos à moral pública”.60
Mas era nos momentos de festa que as narrativas de crime mais aconteciam. Em Ilhéus, o Alto da Conquista já era conhecido como lugar de maioria de pretos e adeptos do candomblé. Mas era também lugar de muitas festas que adentravam a madrugada. Numa dessas festas, às 11 horas da noite, José Firmino, vulgo José de Valença, canoeiro, “assassinou fria e barbaramente ao inspetor
de quarteirão José Quintino”61. O motivo alegado teria sido uma rixa
nascida entre o sobrinho do réu e a vítima por conta de um leilão. 62
Nos arrabaldes, os divertimentos passaram a ficar complicados. Amanhecer o dia numa festa bebendo e dançando com amigos, parentes, vizinhos e amasios num botequim parece-nos uma atividade comum. No entanto, não era tão fácil, nem legal, para a população de cor nos arrabaldes da cidade, fosse em Maraú (no Quitungo), em Canavieiras (no Jutahy ou Rapapao) ou em Ilhéus (no Alto da Conquista e no Pontal), entre 1910 e 1919.
Em Ilhéus, motivo de grande burburinho foi a republicação do Código de Posturas, Lei n.º 57. Neste, o intendente Antônio Pessoa reafirmava uma série de normas que incluíam, entre outras questões, as sociabilidades, entendidas como a expressão máxima do desregramento, como os incisos 25 e 26, regulando o uso de fogos de artifício nos dias festivos, informando que estes só poderiam ser usados mediante aviso prévio à prefeitura. Mas, foi no artigo 35 que o conteúdo mais pesou sobre a vida noturna da cidade, pois proibia o “ajuntamento com dansas ou vozerias nas
casas de bebida e tavernas, pagando os infratores 10$ de multa”. 63 Neste quesito, negros do Quitungo, do Rapa-pao ou Alto da Conquista corriam riscos. Entre o código publicado e o comportamento dos negros e pardos, muitas prisões e denúncias acabariam por revelar que ser negro, fazer festa e viver livremente a cidade demandavam atos cotidianos pela luta e sobrevivência de cada um desses aspectos. O sul da Bahia contava com muitos tipos “populares” em trânsito na cidade, e a imprensa preconceituosa estava em constante vigilância em relação às suas andanças e sociabilidades. O Democracia denunciava a existência de casas de jogos, lugares onde os pobres estavam frequentando e que resultavam em festas até a madrugada em verdadeiras desordens,
sendo o “cumulo do vandalismo”, acusava o jornal.64 O jornalista trata indistintamente as duas práticas. Entre os diferentes exemplos negativos sobre o negro na sociedade, a expressão “mão negra” era comumente usada para falar tanto de casos de eventuais roubos quanto para advertir acerca de ladrões que circulavam na cidade. Preto, pobre e ladrão eram sinônimos, implicitamente.
Em distritos, arraiais, vendas, botequins, arrabaldes, porta das igrejas, teatros e cinemas, as ações, os usos e, de fato, abusos – visto que brigas e desordens eram efetivamente comuns – da cidade pela população de cor alimentavam ainda mais o racismo nos jornais de então. Os modos de se divertir e as confusões decorrentes destes espaços de aglomeração, pobreza e tensão social se entremearam a tal ponto que se tornaram sinônimos no jargão da imprensa regional e se fizeram preocupações centrais das autoridades policiais, que, munidas do delegado da higiene, faziam frequentes visitas, prisões e excessos de violência. As elites pareciam ter muitas certezas sobre a população que vivia nos arredores. Uma delas é que lá seria o foco das endemias como a varíola, e quanto a isso pediam providências, para o lugar chamado Burudanga. Segundo o jornal, neste local, deveria existir um “lazareto” para os pobres, uma vez que eram estes fadados a ter
doença, e essa era uma urgente questão da delegacia de higiene. 65
Além de associados a doenças da alma e do corpo, todos os tipos sociais que se juntavam nos arrabaldes eram perseguidos tenazmente. Nesta categoria, estavam migrantes, negros, pardos e, sobretudo, os ciganos. Num episódio, com o pretexto de anunciar um clube de natação e regatas como esporte moderno da cidade, o articulista desnecessariamente apontava uma contradição de que ainda existiam alguns problemas de atraso na cidade, entre eles, o
fato de que a mesma estava “infestada pelos ciganos”.66
Além de doença e racismo, incutiam na cabeça dos leitores que negros eram sempre violentos. Os relatos sobre navalhadas ou brigas tinham cor e endereços presumíveis. Eram reuniões dos “horizontaes” vagabundos, mendigos, prostitutas, pobres e pretos em geral – além de festas envoltas em candomblé, jogos, bebedeiras e brigas que deveriam ser vigiadas e, mais que uma questão de moral, passou a ser um caso do delegado de higiene. E as cartas denunciando os sujeitos suspeitos não paravam de chegar aos jornais. Diversos casos assemelhados e descritos amiúde no jornal traduzem a ideia vigente de inferioridade da raça negra que se provava nas práticas de curandeirismo e candomblé. Mas não era só isso, era ser negro e viver a cidade para além do trabalho em momentos de sociabilidades quaisquer.
Rotineiramente, crimes envolvendo mulheres pobres e negras apontadas como pivô da contenda não escapavam dos aterradores relatos jornalísticos. Tomadas como exemplo de reforço argumentativo, eram descritas da pior forma possível, em contraste às gentis senhorinhas brancas dos bailes e quermesses, a fim de que as autoridades, policiais e de higiene pudessem coibi-las, motivo pelo qual – relembrava o Código de Posturas – previa-se, neste caso, até cinco dias de prisão correcional. E relatos de prisão não faltavam.
O domingo, um dia de lazer e descanso, deveria ser destinado a ir à missa, como indicava o jornal. Pelo menos, a “fina flor da sociedade” ia. Maria, vulgo “Cabeça Mordida”, e Amélia de Tal não. Foram para uma festa no Beco do Convento. Lá, a confusão
terminou com Maria sendo navalhada.67 No mês seguinte, a nota pedia a atenção dos policiais para este e para a Rua dos
Pescadores, onde ocorriam “arrelias e falta de respeito à moral”.68 E o alferes era cobrado reiteradamente, provando o entrelaçamento entre a violência cotidiana e o racismo existente.
Em algumas ocasiões, o desfecho dos divertimentos dos finais de semana era motivo de orgulhoso controle da ordem e da moral no relato de prisões de pobres e negros, como se a cidade estivesse realizando uma limpeza social. Dessa forma, prisões depois de festas eram chamadas de “prisão correcional”, a exemplo de dois sujeitos que foram presos pelo abuso de dormir na porta da Igreja de São Sebastião. Outros negros também: Marcos, por ter ido à rua armado; Carlos de Tal, por desordens numa festa do Pontal; João, Gabriel e mais quatro mulheres, Maria da Conceição, Maria da Luz, Maria Ribeiro e Maria Isidora, por desordens numa festa no Alto da Conquista. “É possível presumir que a cor era o motivo maior para a
tenaz atuação contra os divertimentos dessa população”. 69
Os desordeiros Antônio Francisco, Estácio e Marciana Maria da Conceição brigaram por ciúme e foram presos pelo crime de desordem. A nota encaminhava o leitor a compreender que as
sociabilidades e lazer de negros eram sempre arruaças perigosas70 ameaçadoras na cidade. Logo, deveriam ater-se ao trabalho e, caso rompessem essa fronteira em festas e desordem, deveriam ocorrer mais prisões para “limpar” a cidade.
Além do Alto da Conquista, o Pontal também era apontado como cenário de desordens e desrespeito ao código de posturas. Era proibido gritar pelas ruas, andar vestido de modo indecente, proferir
palavrões e ofender a moral e os bons costumes.71 A bebida espirituosa também teve a venda regulada. A Democracia denunciava os tipos sociais que ali viviam em devassidão e jogo,
assim como mulheres que viviam “inoculando as syphiles”. 72 A desqualificação do comportamento do negro era sempre crescente, atribuindo-lhes os males da sociedade, desde o charlatanismo, a varíola, a sífilis até a imoralidade.
Em Água Preta, onde já tinha um “feiticeiro”, a desfaçatez com que os jogos aconteciam foi denunciada. E as duas atrações, o feiticeiro e os jogos, deram ao lugar uma fama de foco dos problemas morais da cidade, que seduzia fazendeiros, empregados, administradores trabalhadores, macaqueiros, crianças, mulheres,
tudo enfim. O que era entendido por ócio ou vadiagem 73 pelos olhares da sociedade, para os homens pobres e livres, poderia se configurar no estabelecimento dos espaços de atuação que eles consideravam próprios a si mesmos. Vagar pela cidade em busca de trabalho os colocava em contato com as marginalidades e toda sorte de tensões sociais e agruras que só seriam retratadas pelos jornais depois de prisão ou morte. Um destes sujeitos cometera o ato mais extremado, o suicídio, com um punhal atravessado na garganta, num quarto de pensão da Rua Sá e Oliveira, rua identificada como reduto de pobres, marginais e mulheres de “vida livre”.
Deduzimos ser um quarto barato, o qual José Ferreira dos Santos, vulgo “Pé Espalhado”, estava tentando pagar. De marginal ele não tinha nada. José veio duma localidade chamada Mutuns, em Itabuna, tentar a sorte como jogador num dos times de Ilhéus, mas sem sucesso. Na sua mala, foram encontradas roupas e três notas
falsas de 50 mil réis. 74 O desalento deste é representativo de tantos outros negros. Diversão de negros era realmente entendida como crime, de algum modo, para além das navalhadas, perseguição aos feitiços ou arruaças ocorridas. O crime estava deveras na cor e na ousada apropriação por esses sujeitos dos espaços da cidade.
Três décadas depois da abolição, a sociedade local ainda não havia se acostumado a ver os negros para além das cozinhas ou confinados nas roças de cacau. Libertos mas sem cidadania, os recém-emancipados e seus filhos ainda estavam atrelados ao estigma que a cor lhes impunha. Mais distante desses centros, em comunidades rurais, onde a vida cotidiana também se desenrolava de modo difícil, viviam as mulheres pardas/mestiças que, embora mantivessem relações com a cidade, seus espaços de vivências eram as roças de cacau e as povoações entre as vilas. Suas sociabilidades, diversões, assim como suas vicissitudes, passavam igualmente por uma gama de estratégias de sobrevivência, e a luta para manter a honra era uma delas. Intencionalmente, esta discussão é arrematada ao final, trazendo as histórias dessas mulheres em suas condições de vida, trabalho e momentos de festa. Mas e as mulheres que estavam para além dos becos e vielas da cidade, chamadas de “horizontaes”, e nas cozinhas dos palacetes dos coronéis da cidade? Seus destinos nos espaços rurais teriam tido as mesmas dificuldades? São dessas histórias atravessadas por dificuldades de várias naturezas que trato a seguir.