Histórias de africanos e seus descendentes no sul da Bahia

Cristiane Batista da Silva Santos · Capítulo 9 de 22

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Histórias de africanos e seus descendentes no sul da Bahia

2.2 Crimes e conflitos entre festividades e resistências cotidianas

2.2 Crimes e conflitos entre

 

festividades e resistências cotidianas

 

Ciryaco, Laurindo, Izidoro, Jeremias e Eduvirgens eram escravizados da lavoura de mandioca. Por conta disto, tinham dias de trabalho pesado, mas, excepcionalmente numa noite fria, como a de 24 de junho de 1877, assistiam à festa de São João, e a mandioca dera lugar ao milho no sítio São João em Maraú, onde viviam com seu senhor, José Calafattes. A preparação para a festa fora longa, e muitas providências entre comidas, bebidas e fogueiras lhes ocuparam, pois muitos moradores da vila foram convidados para vir à fazenda em busca de diversão, dança e comilança. Afinal, festa por aquelas bandas eram sempre concorridas.

Tal cenário foi descrito com riqueza de detalhes, ressaltando que estavam “festejando o mês de São João com maior harmonia”, e a repetição elogiosa àquela festa nos sugere a grande importância da mesma. No entanto, um crime romperia com o clima amistoso reinante ali, na “maior alegria em que estavão (sic)”, disparando tiros de pólvora seca “em louvor do mesmo santo”, quando se ouviu um outro barulho de tiro, e uma pessoa foi ferida. Ocorrera, então, um crime. Festa, divertimento e desordem pareciam estar entrelaçados no imaginário nas últimas décadas do Império Brasileiro. Nestas ocasiões, os lugares sociais e as estruturas econômicas entrecruzavam-se com as questões religiosas e culturais. Não só isso, alianças políticas ou rixas também se potencializavam junto com a cachaça, neste caso, mais provável que tenha sido o licor. Foi assim que a festa de São João transformou-se num cenário de crime, tentativa de homicídio, e os festeiros, em depoentes do processo. Alguém aproveitou a festa de São João para um acerto de contas com um “companheiro de festejo”, Marcos Manoel Ribeiro.

Isto sugere a existência de um grupo de pessoas que iam a festas, que elas eram regulares, que havia um trânsito noturno entre as festas religiosas dos santos padroeiros na vila e a continuidade de festejos na zona rural, que duravam até o amanhecer. Os querelados em tais processos, em uníssono, afirmam que viviam o festejo em grande harmonia, visto “as grandes relações de amisade

( 30 sic ) e parentesco”. Mas, para descobrir os motivos da tentativa de assassinato e o seu autor, depuseram senhores e escravizados, e creio que motivos é que não faltavam.

A escolha da data para o suposto acerto de contas não poderia ter sido mais arquitetada, afinal era festa, momento de desregramento, música, dança e bebida, quando as tensões deveriam estar em suspensão. Teria sido um escravizado que se aproveitou do burburinho da festa para se vingar? Havia muitas suspeitas. O ferido não viu o autor do disparo, senhores e escravizados se defendiam, Ciryaco, Laurindo, Izidoro, Jeremias e Eduvirgens revelaram o que quiseram, a depender de seus

interesses, mas garantiram que nenhum deles atirou.31

Mais tarde, compreendi a suspeição que recaiu sobre esses cinco escravizados. Devia-se a um entrevero ocorrido anos antes, também num período festivo. Estavam em meio às preparações para os festejos do Natal, no ano de 1881. Movido, quem sabe, do espírito cristão e encontrando-se moribundo, na iminência da morte, André Fernandes de Souza prometeu a seis dos seus escravizados que lhes daria a liberdade antes de morrer. Aquele seria o natal mais feliz de Ciryaco, Laurindo, Isidoro, Jeronimo, Eduvirgens e Narena no sítio São João, onde viviam. Mas, temendo não resistir e sem saber ler nem escrever, o senhor pediu a João Evangelista Pinto que escrevesse a sua vontade e que a juntasse ao testamento. No entanto, morreu antes de poder ir à vila registrar seu testamento. O papel em que tal vontade estava expressa desapareceu do processo. Ainda assim, os herdeiros foram à justiça responder perante o juiz com a informação de que “os suplicantes se achão com direito a sua liberdade”. O processo arrastou-se por falta de provas, testemunhas e foi até “o próximo ano depois das

festas do Natal”, sem êxito.32 Portanto, a ocasião da tentativa de homicídio na festa de São João, anos depois, no mesmo sítio, era, no mínimo, suspeita.

Festas anuais eram sempre esperadas pelos senhores e escravizados nas comunidades rurais. Carmo (2010) explica que, no tempo da escravidão, a festa de São João marcava o fim da safra de cana nos engenhos do Recôncavo. Depois de mais de nove meses de trabalho intenso, mulheres e homens escravizados dos engenhos suspendiam as atividades para festejar o santo. Por isso mesmo que São João Batista era um dos santos mais populares da região. Naquele dia festivo e alegre, a tradição de dar e receber “seu São João” reforçava laços de vizinhança, afetividade e companheirismo entre a gente que vivia no campo. Era uma festa rural que terminou alcançando a cidade com o brilho da fogueira, do forró, dos fogos de artifício e dos licores.

A relação estreita entre escravidão, festa e conflito é, por demais, comum na historiografia. Resta-nos descortinar como as tensões do mundo escravizado revelar-se-iam no cotidiano, nas sociabilidades, seja na festa, no engenho, botequins, vendas ou nas portas vizinhas, em datas comemorativas. Ao final do período escravista, as tensões resultavam em diversos crimes nascidos dos conflitos cotidianos como parte imbricada do viver coletivo no sul da província da Bahia. Os crimes tornaram-se constantes e, em diversos episódios, os escravizados das vilas de Camamu, Maraú, Ilhéus e Canavieiras estiveram envolvidos.

Segundo Pires (2003, p. 22),

 

o auto criminal é um material singular, por captar, registrar as nuanças e tensões sociais que envolveram várias regiões subordinadas ao regime de trabalho escravo. Mostram-se valiosos para a análise dos crimes dos seus mecanismos impulsionadores e possibilitam reconstituições da vida social. Apontam ainda para possíveis significados que dela fizeram os sujeitos envolvidos em situações tidas como infratoras.

 

Em pequenos povoados, distritos, freguesias e vilas do sul da Bahia, entre o permitido, o proibido e o negociado, as festas nunca deixaram de acontecer, mormente no período final de vigência do cativeiro, o certo é que “em lugar de concessão livre de cima para baixo, o direito à festa era resultado da pressão escrava, ou para ser mais equilibrado do engano ou da negociação”, lembra Reis (2002, p. 108). O silêncio dos festejos nas fontes e processos criminais não representa a ausência destas, pois estavam presentes nas dimensões da vida escrava ao lado do trabalho, do pecúlio, do batizado, da sentinela, do casamento, do dia de folga. Estes, aliás, eram os aspectos mais destacados, passíveis de registro.

Mas as festas como parte das sociabilidades cotidianas, ainda que esparsas, em suas realizações, expunham extensa rede de relações familiares consanguíneas ou não, e também funcionavam como anteparo para o enfrentamento de circunstâncias adversas, fortalecendo relações de vizinhança, tecidas com costumes e identidades africanas e crioulas. As festas tanto facilitavam as relações e uniam mais os conviventes, como poderiam gerar ou despertar tensões e rixas. Não havia nem homogeneidade e nem ausência de conflitos entre os escravizados e entre os senhores nas comemorações. Mas o certo é que comemorações não deixavam de acontecer. Nos dois polos opostos, as relações de amizade e parentesco pareciam bem necessárias em momentos de conflitos, seja entre senhores ou escravizados. É o que sugere o caso a seguir.

Era a noite de 29 de junho de 1872, dia de São Pedro, padroeiro das viúvas. Em tal data, era costume que, nas roças, houvesse comemorações – não tão grandiosas como a que vimos anteriormente na noite de São João, no sítio de Calafates, é bem verdade – em louvor ao santo. Eram comuns, pelo menos, uma reza e algumas comidas e bebidas na capela ou diante dos oratórios. O santo católico não costumava ser esquecido conforme os preceitos cristãos. Teria sido esse o motivo da reunião de uma extensa família até tarde na Fazenda Toque, em plena noite de São Pedro? Dona Anna Maria Jesus Oliva, ex-proprietária da Fazenda Toque – localizada na Vila de Taperoá, vila vizinha a Maraú –, encontrava-se junto à sua família, em um rico sobrado dentro da propriedade, quando foi surpreendida pela insurreição de dez escravizados, entre homens e mulheres, que tentaram assassinar a todos, colocando a fazenda em estado de sítio, como informara a dita senhora à polícia. Também tentaram contra a vida do então proprietário, Senhor Augusto Mendes de Moura, que, com a ajuda de alguns empregados, conseguiu contê-los. Dias depois, estavam os dez presos à espera da justiça. Analiso, aqui, esse episódio, pois a festa não se estendeu à senzala.

Num ofício, dias depois, o caso se esclareceria. O delegado de polícia de Taperoá alertava acerca da “insurreição de escravos ocorrida na Fazenda Toque”. Foram expedidos vários outros ofícios, com riqueza de detalhes, referentes àquele fato tido como absurdo. Ao que parece, e apesar de não explicitar que Dona Anna era odiada pelos escravizados, o tom do relato sugeria ser o ocorrido uma espécie de vingança e ameaça. Que tratamento a mesma lhes havia dispensado ou quais atitudes havia tomado que gerara tal revolta? O certo é que se destaca no texto o pavor de Dona Anna diante dos que não foram presos e estavam na senzala. Ela os temia.

Em outro ofício, o delegado informa que lhe foi pedido para averiguar se ali existiam ainda outros “escravos complicados n’este attentado” e, naquela noite, agiu junto com um advogado e um

tenente, “pessoas de amizade daquela senhora”33. A amizade, pelo visto, unia escravizados nos motins e senhores na repressão. Ainda sobre a fatídica noite, descrevem que adentraram o sobrado e encontraram a família num quarto, sitiada e em pânico.

Depois de acalmá-los, o delegado percebeu que ainda havia agitação e movimento na senzala e logo tratou de requisitar reforços da Guarda Nacional, afinal a madrugada foi complicada. Destacou-se um único nome dentre os dez escravizados: Bento. Seria ele talvez o líder? O delegado o procurava – apontado não se sabe por quem –, mas este não fora encontrado, fugiu. No entanto, seis homens e quatro mulheres ali estavam e foram presos. Dentre os motivos que, segundo o chefe de polícia, desencadearam tal celeuma, estava o fato de dois trabalhadores terem supostamente sido insuflados com alguma informação revoltosa enquanto retornavam, no fim da mesma tarde do ocorrido, da Fazenda Mutupiranga. O que ouviram aquelas pessoas? Alguma decisão de Dona Anna os afetaria? Foram ameaçadas? O certo é que a escravaria partiu para a revolta na noite do mesmo dia. E Bento, o líder, conseguiu escapar.

Mas isto não explicava tudo. Tais escravizados espalharam o terror e, por conta disto, Dona Anna ordenara que fossem castigados por vários dias, recebendo, cada um, quatro dúzias de bolos de palmatórias e outras correções e, em seguida, os vendeu

ao Senhor Augusto, o novo dono da fazenda.34 Ela os queria longe e, junto com eles, a insubordinação. Mas tanto a festa junina do sítio de José Calafates quanto a insubordinação da Fazenda Toque foram uma constante no sul da província da Bahia, estreitando os laços entre cotidiano, trabalho, festa e revolta.

O mundo social escravista revelava-se também nos relatos do chefe de polícia. Eram raros os momentos em que escapavam aspectos culturais ou informações para além do trabalho. Daí surgiu a necessidade de compreender o mundo cotidiano desses sujeitos. Cantavam durante a lida? Dançavam, festejavam, tocavam instrumentos? Por certo que sim, seriam estes momentos aguardados para dar vazão à necessidade de lazer e de desempenhar outro papel.

Dona Anna, a senhora, e Bento, o escravizado líder estavam em lados opostos no tocante à condição social e racial, o que era sabido no relato policial. Mas esses sujeitos tinham suas crenças, seus momentos de sociabilidade e participação religiosa, até na mesma capela, quem sabe? Embora tais momentos sejam pouco citados, eles existiam, visto a presença de igrejas, das inúmeras irmandades e das confrarias, suas procissões e festas concorridas. E, sobretudo, nas denúncias de batuques barulhentos nas madrugadas. Nesses casos, os culpados tinham cor e endereço: os pretos da senzala.

Foi o caso de um crime informado pelo delegado de Camamu, no qual, Coutinho fora assassinado em sua fazenda, Águas Mortas, pertencente à freguesia de Igrapiúna, por Heliodoro, que agiu juntamente com mais dois escravizados de Maraú, remetidos ao delegado do subdistrito. A observação mais atípica era que o “indiciado Heliodoro acha-se em extremo maltrato e em perigo de

vida”. 35 Lamentavelmente, a fonte não nos deixa saber o que alegara Heliodoro, quais sofrimentos lhe empurraram a reagir contra o senhor, no entanto, é fácil inferir que, aos horrores da escravidão, os escravizados reagiam com violência sempre que fosse possível. Este caso encontra-se entre os 76 processos criminais em que escravizados estavam envolvidos em crimes na comarca de Camamu.

Mas senhores que assassinavam escravizados também existiam. Em 1874, em Ilhéus, o escravizado Cornélio foi assassinado no Itariri de Dentro. O motivo alegado é que Cornélio era um escravizado rebelde e agiu assim contra seu senhor, Gustavo Duque, e este mandou assassiná-lo caso resistisse à prisão efetuada por três empregados seus. Questionado, o português afirmou que Cornélio se recusou a trabalhar da forma que lhe ordenara, por isso, pediu aos “sertanejos que o prendessem em sua

casa, onde vivia em ‘companhia dos índios Joanna e Sebastião’”36. Notemos que Cornélio tinha uma relação atípica, não vivia na senzala, mas numa casa da fazenda, em companhia de um casal de índios, entre estes, uma senhora de destacada influência religiosa na localidade, como o caso acabaria nos revelando.

Os sertanejos que o mataram pareciam cumprir um papel de capitão do mato, pois viviam prendendo escravizados rebeldes. Cornélio havia comprado uma espingarda, acusava o senhor, mas nem chegou a usá-la, foi ferido e, uma semana depois do ataque, morrera. Mas enquanto esteve moribundo, fora tratado por Sebastião e Joana, “segundo as circunstâncias e costumes do logar”, e não fora levado à vila em virtude das chuvas. Joana Senhorinha era uma espécie de curandeira que acudia os moribundos com seus saberes tradicionais. Ela detinha os saberes de cura e o trato dos doentes, sendo respeitada, conforme apurara o processo, por escravizados e índios tratados por ela. Ao redor de sua casa, sociabilidades de crença e reza aconteciam, reunião dos que ali viviam, comiam e bebiam. Seu papel de curandeira fica muito claro perante a justiça. Em juízo, afirmou que não sabia ler nem escrever, nem ao menos sua idade. Confirmou que o escravizado tinha juntado dinheiro para comprar a arma e que Cornélio fora

tratado por ela, “conforme seus costumes, já sabido por todos”.37

Quantas outras senhorinhas curandeiras não viviam nessas roças? O crime contra o escravizado revela não só que este tentava resistir, mas a reunião de forças entre escravizados e índios no mundo do trabalho. A categoria “sertanejo” também indica o uso de migrantes como capangas pelos fazendeiros na opressão contra negros e índios. Eram comuns mortes decorrentes de ferimentos das violências no interior das roças de cacau de acesso difícil nas décadas finais antes da abolição, ocasionadas pela distância das vilas de Ilhéus e Canavieiras.

Nesta última, em 1876, no lugar denominado Sequeiro Comprido, um homicídio envolveu as histórias de José Alexandrino dos Santos e Manoel Zeferino, que morreu nove dias depois dos ferimentos

decorrentes. 38 Escravizados aproveitavam ocasiões de crime para, talvez, vingar-se de seus senhores. Estes, em contrapartida, valiam-se de suas relações políticas para se livrar de acusações. Parte das informações do crime veio à tona nos depoimentos, tendo como cenário anterior os momentos de papo, bebida e diversão no botequim da região, onde os sujeitos arrolados costumavam ir. Os frequentadores de tavernas e botequins foram vistos como desordeiros que buscavam diversão e, depois de beber e jogar, criavam desordens, como se estas estivessem atreladas aos momentos de lazer. O início do caso ocorreu quando José “foi preso fazendo farinha para matar a fome de sua mulher e filhos às sete horas da noite mais ou menos”, a briga envolvia também uma

enxada, “instrumento de seo trabalho como lavradôr” 39. Já o falecido, Zeferino, tinha uma postura “ébria de desregrados costumes”, gostava de festas e foi acusado de andar em farras e bebedeiras, dando vexame nos divertimentos que ocorriam ali. Entre os depoentes, um escravizado de José foi capaz de defender o falecido Zeferino, que, segundo ele, divertia-se de modo comum, como os outros livres, e fora vítima de seu senhor, que era violento. José, então, defendeu-se, dizendo que “seo escravo” queria condená-lo para não mais trabalhar. E afirmara apenas ter se defendido do negro malvado, conhecido na região, principalmente,

na colônia Theodora. 40 A má fama do negro Zeferino justificaria a sua morte? Certamente não, mas a boa fama de José poderia lhe render sua liberdade. Um argumento forte a seu favor foi a sua postura patriótica usada em sua causa, como prova de idoneidade. Ele teria sido um dos “bahianos que voluntariamente expôs seu peito a balla para defender a nação na Guerra do Paraguay, onde como soldado servio sem nota, continuando a servir depois da

guerra” até ser julgado incapaz. 41 Isto parece ter sido o suficiente para sua redenção.

As relações eram permeadas por condições civis opostas entre senhores de um lado e escravizados ou libertos de outro, com frequentes instabilidades marcadas por violências externas e internas, como as que mesclavam brigas cotidianas e as de natureza de sobrevivência. Teria sido o escravizado de José astucioso para se livrar do dono supostamente violento ou falava a verdade em memória da morte de Zeferino? As histórias cujo enredo constava um escravizado envolvendo morte e violência eram cada vez mais numerosas.

Os crimes entre escravizados também eram motivados por tensões cotidianas decorrentes do trabalho na roça. O crime de Cosme da Hora Mina, 49 anos de idade, contra Guido revela as desavenças entre os escravizados. A rixa haveria nascido depois de uma festa que reuniu escravizados e libertos e que terminou em desentendimentos. Um triste exemplo ocorreu em janeiro de 1887, na Fazenda Genipapo, em Taperoá, pertencente a Dona Maria Cunha, situada no Jordão, distrito da Vila. Cosme fez uma emboscada à noite para matar Guido, escravizado de Dona Ignácia Muniz de Assunção. Guido passava todos os dias por aquela estrada conduzindo lenha para a vila e voltando por volta das 19 horas. Podemos vislumbrar aí uma mobilidade do escravizado e a possibilidade de juntar um pecúlio, tendo acesso entre a vila e a roça e meios para que vendesse outros gêneros e amealhasse aos poucos, uns réis. E foi sabendo desta rotina que Cosme planejou sua morte tirando-lhe a vida com uma foice. Neste crime, além dos senhores, o rol das testemunhas envolvia escravizada, costureira, serrador e lavrador. E o sobrinho do falecido também vivia na mesma fazenda. Notemos que às vésperas da abolição algumas famílias já se reuniam no mesmo ofício e lugar. O sobrinho da vítima disse que encontrou com Cosme na cancela. O acusado também tinha parentes ali, como Juvencio que era primo do acusado e ia para um lugar chamado Jacaré quando soube do assassinato. As relações de parentesco por consideração também se fizeram notar. Foi o caso de Venâncio, de 28 anos, escravizado de Dona Úrsula Coutinho Gonçalves que disse ter visto em frente à casa de Mariquinha Cunha um boi solto e Cosme estirado e Guido banhado em sangue. Foi o único que afirmou categoricamente a culpa de Guido. Este quando interrogado negou tudo. Disse que estava naquele dia e hora dormindo na casa do seu senhor Francisco. Reforçou ainda que não considerava seu inimigo o grupo composto pelo finado, por Tude, Manoel Elias, Cabeça Preta e Melcado, que havia lhe dado uma surra de pau depois de uma briga, mas “os

quaes serviu por vezes não havendo entre elles rixa alguma”42. Negou tudo o que as testemunhas disseram ter visto e justificou que era perseguição.

O crime horrendo revelou também como em fazendas vizinhas os escravizados criavam rixas e inimizades na mesma proporção que também existiam as solidariedades, os parentescos simbólicos e a

ajuda mútua43.

Na região, diversos crimes contra a mulher negra e em situação de desamparo eram comuns antes da abolição, como foram os casos de Antônia e de Thereza Rainha de Leão. A liberta Antônia tinha 60 anos e sofreu violência física em Maraú. Silvério de Souza

a agrediu em 1876,44 ela vivia de esmola e fazia alguns pequenos serviços que encontrava para sobreviver. Fora ferida gravemente com pancadas de um cabo de machado e bofetadas. O motivo é que seu filho, Belarmino, e Silvério desentenderam-se por conta de uma canoa. Maria o procurou para questionar e foi recebida com

violência por Silvério. Este, depois, fugiu para Barra Grande. 45 Impossibilitada de ganhar a vida e adoentada, Maria procurou a justiça.

O segundo caso, em 1886, envolveu Thereza Rainha de Leão às margens do rio Salôbro. Thereza havia carregado a garrucha de dois canos, pois iria a uma casa vizinha, mas distante o suficiente, visto existir “caminhos ezolados” e temia encontrar algum malvado que a quisesse ultrajar, visto ir acompanhada apenas de uma menina e um afilhado pequeno. Armada, queria intimidar a quem porventura ameaçasse desmanchar sua honra. Chegou à casa dos devedores de seu marido – sua comadre Apolinária e os irmãos Anedino e Cecundino – e “dirigiu-se por boas maneiras”.

Esta é a versão que os acusados contaram. Das crianças, sobre o que viram ou ouviram, não encontrei indícios. Os acusados afirmaram, ainda, não ter o dinheiro naquele dia, mas que o providenciariam em breve. Ressaltaram a forma amigável como colheram mamão para ser compartilhado com todos e, também, o modo como atenderam a um pedido de Thereza Rainha de que um deles carregasse o cano com pólvora, pois a garrucha estava vazia. Teria sido nesta hora em que houve um disparo acidental e Thereza havia chegado à janela para chamar um dos seus companheiros de viagem, sendo atingida e morta. Sua morte teria sido por um tiro acidental de garrucha ou mais uma das violências contra a mulher?

Vale lembrar que Thereza fora à casa cobrar um dinheiro que Apolinária e seu marido lhe deviam. Misteriosamente, lá, foi ferida e morreu. Uma testemunha disse ter ido ao mato colher piaçava e que os viu em casa, em boa harmonia, conversando. Apolinária, a acusada, contou sua história. Ela e seu marido, Joventino, que, no momento, estava preso na cidade de Ilhéus, eram de Inhambupe e

viviam há 14 anos como lavradores. 46

Nos processos crimes, encontramos a formação de um corpus documental que pouco revela das sociabilidades cotidianas, expõe a violência que marcou os anos anteriores à abolição e dá a alguns lugares uma identidade social associada a redutos de negros e índios, resultando em violências cotidianas. Dois lugares ficaram marcados quando tratamos dos escravizados e libertos: Quitungo, em Maraú; e o outro, às margens dos rios, em Canavieiras.

No povoado de Quitungo, vivia a maioria dos africanos, libertos e livres pobres, e era lá que as autoridades afirmavam ocorrer a maior parte dos crimes. Para comprovar, o juiz relatara que era comum a ocorrência de crimes como o da Fazenda do sertão do Quitungo, [no qual] o ‘cabra’ de nome Vicente, escravizado do fazendeiro João Bernardo do Carmo, matou com um tiro de espingarda uma escrava crioula de nome Josefa e, em seguida, recarregou a arma e

suicidou-se com tiro dado sobre [a] cabeça. 47 O crime passional chocara.

A relação entre crime, cor e lugares de maioria negra era recorrente nos relatos policiais. O Quitungo era considerado perigoso pelos senhores. E mesmo num crime aparentemente passional, não sabemos em qual medida as vicissitudes e os limites da vida no cativeiro o influenciaram. Mas não só este. Dias depois, “um indivíduo, Pedro Gomes de Araújo, foi acusado de dar três facadas no inspetor e em seu irmão no Quitungo, escapando depois

do crime”. E esse sujeito teve incentivo e proteção do povo de lá. 48

Nos crimes, a questão étnica era enfatizada, como o crime cometido pelo crioulo João Francisco da Luz, conhecido por João Dodó, que sofreu um ferimento causado por outro crioulo, Manoel

Marcelino Caito 49, que afundou seu crânio. Tudo isso, é claro, à

noite, em meio a uma diversão.50 Esses crimes reiteravam a ideia de que festas no Quitungo eram perigosas, em sua maioria, nos momentos em que não estavam trabalhando, mas procurando diversão, como neste último caso, que ocorrera à noite. E as queixas não paravam. No mesmo lugar, noutra ocasião, tomaram uma espingarda de espoleta e uma faca de ponta das mãos de um tal de Manoel. O fato deu-se num amanhecer, envolvendo outro preto conhecido por José Cutia. O entrevero mobilizou moradores locais na chamada Rua de Cima. Entre os brigões, José Cutia levou três facadas nas costas, desferidas por Manoel, que tomou

cacetadas por outras pessoas que assistiram ao crime. 51 Ressalto que este crime ocorreu no amanhecer, possivelmente, depois de uma farra, danças e bebedeiras, cristalizando, no imaginário local, que o reduto dos negros era, também, o das desordens.

Assim, também, vigorava a ideia da criminalidade, pois era o lugar preferido dos outros pretos para se esconder em caso de fuga. Das margens do Rio Maraú até as margens do Rio Pardo, crimes envolvendo escravizados repetiam-se. Na parte sul, a partir de 1881, uma série de conflitos envolvia índios, escravizados e libertos, todos vítimas constantes do aumento da extensão de terras que

produzissem mais cacau.52 Um longo processo culpabilizou Theodomiro Celestino de Brito e mais 17 pessoas contra os índios

Noc-noc53 em Canavieiras. O Rio Pardo era cenário importante, tal qual o Rio Cachoeira, para Ilhéus, e o Rio Maraú, para a vila homônima, pois o cacau vicejava em suas margens e, dali mesmo, facilitava-se o transporte em canoas e barcos.

Na Fazenda Paraíso, pertencente ao coronel Augusto Frederico de V. de S. Bahiana, no distrito de Bôa-Vista, às margens do Rio Pardo, os fazendeiros utilizaram-se de escravizados para atacar os índios. Escolheram como data um período de festa indígena, apostando na distração e na vulnerabilidade dos índios. Os depoimentos revelam uma série de crimes ocorridos sete anos antes da abolição. Dois fazendeiros depuseram sobre a morte de “trinta e tantos índios Camacans, a apreensão de cinquenta arcos e

flechas e “quatro creanças sendo uma ainda de peito”54, que estavam sob o poder de um caboclo famoso, Manoel Manjorra, a serviço deles. E uma testemunha afirmara que, dias antes da “entrada”, foi perguntada por Jorge Stolze se queria encomendar uma “indiasinha”. Mas que este recusou-se a recebê-la, para não ter culpa na entrada em que foram extintos os infelizes índios.A questão desta tomada de terras era para expandir a lavoura cacaueira. E na dizimação dos povos, usavam da força de alguns capangas, como o negro Antônio Grande, ao qual venderam alguns arcos e flechas e que, ali, foram entregues ao delegado. Outro depoente, oriundo da Vila Vitória, narrou que lhe foi oferecido um conto de réis e garantia de que nada lhe pesaria na lei para participar da ada. Os índios Joaquim, Gregório, Gerônimo e Militão se encontravam na Cachoeirinha, no Rio Pardo. Distante do rancho, faziam uma algazarra, estavam num dia festivo.

Os Camacans ou Noc-noc foram surpreendidos pelo grupo que disparou tiros, e estes índios fugiriam, restando apenas quatro indiozinhos. Os tiros foram disparados, coincidentemente, pelos negros da tropa acusada – repetiam os coronéis em uníssono –, Manoel Bagajá e Antonio Grande. Relatam, ainda, que, ao amanhecer, perceberam o derrame de muito sangue dos índios no lugar. Por essa missão, o chefe, o negro Manoel Bagajá, recebeu um valor em torno de 600 mil réis. E criou fama de cruel, contaram os depoentes. Um deles, recém-chegado de Santo Amaro da Purificação, Felix Marques, fora viver às margens do Rio Pardo, investiu em terras e fora convidado a participar do extermínio dos Noc-noc, para aumentar sua extensão.

O crime revela que os espaços de sociabilidade por aquelas paragens eram as vendas, onde se comprava e se sabia de tudo, ponto de encontro de libertos, que ali frequentavam, compravam, bebiam e socializavam. Assim contou o preto Manoel, pedreiro que viera de Maragogipe para o Rio Pardo e estava no botequim, quando viu o chefe do bando comprar as armas para matar os índios Noc-noc e, depois, um deles dissera que haviam “matado caboclo como o diabo” e soube que, ao final, conduziam uma canoa com os indiozinhos, estando um deles ferido na perna. Segundo ele, na casa de negócio, “se ouviu contar que era para se escravisar os

índios ou matá-los no caso de não conseguirem”55. Pelo visto, todos ali sabiam da carnificina e dos mandantes. No caso do preto pedreiro, também lhe foi proposto “ir a este negócio” ao que nega a participação e diz que fora iludido pelo alemão Jorge Stolze e por Carlos Varnout. Estes dois, inclusive, promoviam festas com bailes e muitas bebidas em suas fazendas constantemente, no intuito de angariar a benevolência do delegado e demais autoridades, além dos negros capangas, seis escravizados e índios amansados por dois meses para a operação. O mundo cotidiano escravista no sul da província da Bahia revelava-se, portanto, tenso, amalgamando europeus, sertanejos, migrantes, índios, escravizados e libertos. Seja no trabalho, seja nos espaços de sociabilidade, como a festa do fazendeiro ou as portas da venda, interagiam e expunham ali as tensões que as lavouras e roças de cacau abrigavam. Num ambiente hostil, os fazendeiros Jorge Stolze e Carlos Varnout bem sabiam que, no momento festivo, podiam estreitar laços com o delegado para que fizesse vista grossa às violências.

A festa congraçava e suavizava o cotidiano tenso entre poder, crime, mando e obediência de uma terra em crescente disputa junto com o preço da safra de cacau. Norberto Guarinello (2000) sugere que a festa é uma dimensão da estrutura do cotidiano e que dele não se desvincula. Essas tensões sociais não se dissociam do sujeito na festa, e ele as usa ali. Para outros, tomar cachaça, comprar víveres e saber das notícias na venda da roça eram momentos também de lazer e descanso. Lá iam escravizados a mando ou libertos em necessidade.

Um episódio é bastante ilustrativo. Escravizados proseavam às portas de um botequim e outros formaram uma roda e dois deles iniciaram uma dança que parecia luta ou divertimento. Aqueles pretos teriam brechas, entre os momentos de trabalho, para vivenciar momentos de descontração, visto ser um misto de dança? Seria uma forma mais elaborada e ritual de manifestação cultural afro-brasileira? Acredito que tenha sido um espetáculo bonito de se ver.

Para outros, não era bonito, mas sim perigoso, conforme atestou o escravizado Manoel. O divertimento terminou em processo de

crime de lesões corporais.56 Em seu depoimento, ele identificou que os autores foram os escravizados José, propriedade de Francelina Mendes, e outro, filho da escravizada Josepha, Manoel dos Anjos. Mandu fora comprar linha de costura na dita casa de negócios e acabou ferido com a brincadeira ou o divertimento entre os dois escravizados, considerando ser uma prática perigosa, pois envolvia uma faca de ponta, que terminou ferindo-lhe quando este estava próximo ao balcão. No entanto, não disse se estava parado, assistindo à brincadeira, ou por qual motivo não desviara do golpe de faca. Tudo sugere que a venda era bem frequentada, constituindo-se no espaço de sociabilidade e comércio de sortimentos. Também assistia ao divertimento um sapateiro que contou ter visto o “crime com grande faca de ponta”, quando também foi comprar linha na venda.

A tão citada venda estava localizada na Rua do Beco, ponto de encontro que supria as fazendas do entorno, entre Camamu e Maraú. É presumível que a “brincadeira” ou dança tenha tomado o espaço tanto da rua quanto do interior da venda, uma vez que Mandu alegou ter sido ferido sob o balcão e dentro da venda. O rol das testemunhas era tão grande quanto o dos apreciadores do divertimento dos pretos. Um deles era de Valença, funcionário público, o outro, de Alagoinhas, era artista, e outro, natural de Curralinho; todos apreciavam o divertimento de faca de ponta, e os escravizados faziam desses instrumentos uma adjacência de seu corpo. A linha que divide a brincadeira de arruaça e possível desordem é muito tênue. O detalhe é que, sobre o crime, o juiz concluiu que Mandu fora ferido na imprudência por culpa do divertimento dos pretos. Haveria ali regularidade? Pelo público cativo assistindo, certamente, sim.

Quanto à natureza deste divertimento, envolvendo um misto de dança e luta com facas, é tentador sugerir que se tratava do

maculelê 57, embora não haja, no caso, nenhuma menção à dança com madeiras, conforme descreveu Manoel Querino (1938). Para ele, o maculelê é um fragmento de cucumbi, dança dramática em que os negros batiam pedaços roliços de madeira, acompanhados por cantos (QUERINO, 1938). Não há como afirmar que, ali, fosse maculelê, mas era divertido.

Embora, nas portas da venda, o crime tenha se dado em virtude da diversão, outros esperavam justamente o dia festivo para dar vazão a rixas e desforras, inclusive, às da vida amorosa. Foi o que aconteceu com a crioula Luiza do Patrocínio em Ilhéus. Era noite e corria a festa de Sebastião, no dia 20 de janeiro. Depois dos ritos costumeiros na igreja e quando as pessoas já estavam embriagadas, Manoel Arcanjo, vulgo Manoel da Praia, aproveitou o rebuliço da festa e do trânsito de pessoas na cidade para, talvez, movido pela bebida, invadir a casa onde Luiza fora acolhida – depois dele tê-la expulsado – e, armado com um facão, causar-lhe ferimentos tão graves que a impossibilitou de trabalhar. O caso era complicado. Luiza do Patrocínio era casada com Manoel da Praia, um alfaiate vindo de Camamu.

Ela era espancada constantemente, e ele nunca “a tratou como era mister”. Depois de seguidas violências domésticas, expulsou-a de casa, e esta não tinha como sobreviver, passou fome e foi obrigada por seu marido a ir para o “lodaçal do crime, prostituir-

se”.58

Em seu triste depoimento, Luiza destacava que ela deu “este passo indecoroso por seu estado de casada e a não preocupação

daquele que fôra a causa da sua desgraça” 59. Luiza lamentou que ele não nutrisse nenhum sentimento por sua pessoa e que fora viver na casa de Tereza Januária. Tudo indica que Tereza tinha uma casa com mulheres que se prostituíam. A favor de Luiza, depôs Francisca Maria da Victória – escravizada de Antonio Lopes da Silva, de 28 anos de idade – que se lembrou do dia do crime, tendo como referencial a noite da festa. Seu tom era o de que jamais esqueceria a data, em virtude de um distinto fato, a festa. Contou, ainda, que, na hora do ocorrido, não saíra para a rua, estava numa casa próxima e não pôde sair para ajudá-la, mas foi testemunha ocular do espancamento, viu tudo. Assim “que pôde”, trespassou a calçada da casa onde vivia, na Rua Direita do Comércio, e a acudiu. O que Francisca não disse, mas sua condição lhe impunha, é que, numa noite importante com uma festa na rua, onde outros libertos, escravizados e livres tinham ido apreciar o festejo, ela estava presa ao serviço doméstico. Será que seus senhores eram por demais rígidos, que não lhe consentiam uma brecha para o lazer? Ou Francisca teria sentido medo diante da violência de Manoel da Praia com Luiza, armado a facão? Nem Luiza retomou o casamento, nem Francisca divertiu-se.