Invocadores do Mal

Cheryl A. Wicks · Capítulo 13 de 27

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Invocadores do Mal

Estudo de Caso Nº 1 - O caseiro fantasma do comandante

Estudo de Caso Nº 1 -

O caseiro fantasma do comandante

 

Todos os nomes e lugares desta história real foram trocados ou

alterados para proteger a privacidade dos clientes.

Ed Warren descreve o caso.

 

O início

Um dia, quando Lorraine e eu estávam os saindo às pressas para tom ar o café da m anhã, recebem os um a ligação de um com andante de subm arino cham ado Carroll. Aparentem ente, ele havia ouvido falar de nós e de nosso trabalho de investigação paranorm al por m eio de um a história recente veiculada pela agência de notícias Associated Press. O com andante explicou que ele e a fam ília haviam testem unhado algum as atividades estranhas em sua casa. Ele estava preocupado por deixar a esposa e três crianças sozinhas na casa quando tivesse que passar vários m eses no m ar.

O que ele m e contou em seguida com certeza prendeu m inha atenção. Obj etos haviam sido derrubados ou tinham sido vistos m ovendo-se sem m eios visíveis por ele e pela esposa, coisas estranhas aconteciam em um dos quartos e seu filho tinha visto um fantasm a. Eu podia entender sua preocupação. Concordam os em fazer um a investigação, m arcam os a data, e anotam os instruções de com o chegar à casa.

Consegui recrutar alguns pesquisadores e, um a sem ana depois, nos enfiam os em m eu carro para explorar o m istério do Com andante. Em um dia frio e lum inoso de fevereiro, subim os ao longo da costa do estado de Connecticut rum o a New London. Com o ex-integrante da Marinha, eu sem pre apreciava a oportunidade de voltar a visitar essa parte do estado.

New London e Groton ficam de frente um a para a outra, em lados opostos

New London e Groton ficam de frente um a para a outra, em lados opostos do rio Tham es. Ali, a navegação m arinha não é apenas parte do passado, m as tam bém do presente. A Academ ia da Guarda Costeira dos Estados Unidos tem um cam pus à beira do rio, em New London. A Marinha norte-am ericana tem um a base de subm arinos ativa em Groton. Neste lugar, há m ais linhas de ferryboats do que em qualquer outra parte de Connecticut – para Long Island, Fishers Island e Block Island. O prim eiro farol na costa de Connecticut foi construído em New London em 1670, para orientar o intenso tráfego m arinho.

A Electric Boat Com pany ainda gera m uitos em pregos em Groton. Essa com panhia construiu e lançou 75 subm arinos durante a Segunda Guerra. Em 1954, lançaram o prim eiro subm arino nuclear, o Nautilus. O Nautilus atualm ente está no Museu da Força Subm arina de Groton, o único m useu de subm arinos adm inistrado pela Marinha. O m useu abriga a m elhor coleção do m undo de artefatos subm arinos, docum entos e fotos. Sua biblioteca inclui 5 m il volum es só sobre a história dos subm arinos norte-am ericanos.

Em m eados do século XIX, New London perdia apenas para New Bedford, Massachusetts, em term os do tam anho da indústria baleeira. O veleiro Morgan está atracado no vizinho My stic Seaport, às m argens do rio My stic. Construído em 1840, o Morgan é o últim o navio baleeiro de m adeira construído nos Estados Unidos que resta. O porto em si recriava um vilarej o de baleeiros do século XIX. O conj unto de prédios históricos, oficinas e navios antigos o tornam o principal m useu m arítim o do país.

Com tanta história na região, não m e surpreendia que houvesse alguns fantasm as. No carro, levava com igo três pessoas que sabiam tudo sobre fantasm as. Assim com o Lorraine, Mary e Steve eram m édiuns de transe leve, o que significa que podiam ver os espíritos presos do lado de cá e se com unicar com eles. Mary era um a m ulher de m eia-idade baixa, m agra, com bastos cabelos escuros e a habilidade incom um de conseguir falar tanto quanto Lorraine. Steve era um indivíduo j ovem , alto e esguio, com cabelo castanho-claro e um rosto com prido. Quando conseguia se fazer ouvir na conversa, em geral era com algum com entário ponderado. Todos havíam os trabalhado j untos em outros casos, e trocávam os piadas enquanto viaj ávam os de m anhã bem cedo para o norte. Desde que evitassem qualquer com entário sobre m inha figura volum osa ao volante, eu continuaria de ótim o hum or.

As instruções m eticulosas do com andante nos levaram a um bairro de casas m odestas j unto à orla, nos arredores de New London. Nosso destino era um pequeno sobrado azul, esprem ido entre outros sobrados parecidos. Não havia árvores e tam pouco m uita privacidade, m as o belo estuário de Long Island brilhava além dos quintais congelados. A casa do com andante estava bem conservada, e a propriedade era cuidada. Eu não esperaria m enos de um oficial da Marinha, m as as aparências dizem m uito a Lorraine e a m im quanto ao tipo de fenôm eno que é atraído para um dado lugar.

Estacionei o carro j unto ao m eio-fio e todos descem os. Depois de esticar m úsculos relutantes e m eu j oelho recalcitrante, com eçam os a j untar nossa parafernália, que incluía bolsas, gravadores, fitas e o equipam ento fotográfico de Steve. Aproxim am o-nos da casa com o se fôssem os invadi-la. Com o de costum e, Lorraine ia à frente.

 

Fazendo as apresentações

Antes que alguém pudesse tocar a cam painha, a porta se abriu. Um hom em m uito alto, esguio e atlético com um corte m ilitar apareceu na soleira.

“Sou o com andante Carroll. Por favor, entrem ”, anunciou.

Me esprem i para passar pela porta com m eu equipam ento e m e perguntei com o alguém que m al tinha deixado as fraldas poderia ser um com andante naval. Algum dia eu tinha sido tão j ovem ou tão m agro? Lorraine tinha fotos para provar, m as não era por isso que eu estava ali. Apresentei m inha equipe e o com andante Carroll apresentou a dele.

“Essa é m inha esposa Lucy, e m eu filho, Donald”, disse, indicando um a m orena bonita e delicada de pé ao lado de um m enino esperto, com uns 10 anos de idade e grandes olhos castanhos. “O bebê está dorm indo e nossa filha Grace está na casa de um a am iga”, explicou.

Nos cum prim entam os e o com andante Caroll foi direto ao ponto.

“Com o é o esquem a? O que vocês gostariam de fazer prim eiro?”, perguntou.

“O que eu gostaria de fazer”, respondi, aprum ando um pouco o corpo, “é ir para a cozinha e m e sentar com você, sua esposa e seu filho ao redor do gravador. Enquanto entrevisto vocês, nossos investigadores parapsíquicos – Lorraine, Mary e Steve – gostariam de sua perm issão para explorar o resto da casa, sem incom odar o bebê. É im portante que eles façam seu trabalho sem serem influenciados por nada que você possa nos contar. Tudo bem para você?”

“Perfeito”, disse nosso anfitrião. “A cozinha é por aqui, a sala de televisão fica ali e os quartos e o banheiro ficam no andar de cim a.”

Segui os Carroll até a cozinha entulhada m as lim pa, enquanto os outros iam para o andar superior. Sentei-m e em um a das cadeiras de m adeira e preparei o gravador. O com andante, sua esposa e o filho sentaram -se em três outras cadeiras ao redor da m esa retangular. Pedi perm issão para gravar nossa entrevista e usar qualquer inform ação obtida; eles concordaram .

 

A entrevista

“O que o levou a nos cham ar depois de ler sobre o nosso trabalho?”

“Creio que o que realm ente nos fez acreditar que havia algum a coisa aqui”, disse o com andante, “foi m eu filho ter visto algo quando estava na escada. Isso foi no m ês passado, j aneiro. Ficam os em dúvida de se devíam os nos preocupar ou não... especialm ente com as crianças.”

“Entendo perfeitam ente, com andante”, eu disse. “Alguém poderia relatar esse incidente, para registro?”

“Posso fazer isso”, ofereceu-se Lucy Carroll. “Um a noite, na prim eira

“Posso fazer isso”, ofereceu-se Lucy Carroll. “Um a noite, na prim eira quinzena de j aneiro deste ano, eu estava na sala de televisão, lendo. Eram um as dez da noite. Donald deveria estar na cam a. Ele gritou lá de cim a pedindo para descer e pegar um a coisa da qual precisava de verdade, e então ele subiria de novo e dorm iria. Respondi que tudo bem .”

“Eu o ouvi descer até m etade da escada, e então houve um silêncio total. Minutos depois, ele entrou correndo na sala de televisão, com os olhos arregalados e disse, ‘vi um hom em no vestíbulo’.”

“Fiquei apavorada, achando que havia um intruso na casa. ‘Com o assim , você viu um hom em no vestíbulo?’, perguntei. Donald respondeu que estava descendo as escadas quando viu a m etade de cim a de um hom em com um terno m arrom e cabelos grisalhos parado no hall. Os dois se entreolharam por cerca de um m inuto, e então o hom em desapareceu.”

“Isso é notável”, eu disse, virando-m e para o m enino. “Donald, poderia contar com suas próprias palavras o que aconteceu? Não precisa ficar nervoso, apenas conte-m e o m esm o que contou à sua m ãe.”

Encoraj ado pelos acenos de cabeça dos pais, Donald com eçou:

“Eu não estava acostum ado com ele, porque nunca tinha visto ele antes.”

“Com o era o aspecto dele?”, perguntei.

“Ele usava um a daquelas gravatas-borboleta engraçadas, terno m arrom e cabelo grisalho. Só vi a m etade de cim a dele, e aí m e abaixei para ele não poder m ais m e ver.”

“Ele estava olhando para você, Donald?”

“Estava.”

“Parecia calm o ou parecia ter raiva?”

Donald se anim ou e exclam ou:

“Calm o! E sim pático.”

“Muito bem , Donald. Só m ais um a coisa: ele era sólido assim com o eu?”

“Não dá m uito bem pra dizer... dava m eio que para ver através dele, com o um a j anela suj a ou algo assim .”

“Obrigado, Donald.”

O que Donald descrevera m uito provavelm ente era um fantasm a preso à Terra. Entidades com o essas pertencem a um local, não estão ligadas a pessoas específicas. No entanto, pessoas e circunstâncias específicas podem desencadear a aparição do fantasm a ou outras m anifestações. As próprias crianças poderiam ser a atração ou o gatilho para esses fenôm enos. Elas tendem a ter m ente m ais aberta e serem m ais sensíveis. Assim com o as pessoas, os fantasm as se sentem solitários ou desej am atenção. Eles querem ser vistos por aqueles que sabem ter a capacidade de vê-los. A disposição óbvia e espontânea de Donald para descrever com o am istoso quem ou o que havia visto era um sinal prom issor de que essa aparição não era m aléfica. Ainda assim , havia alguns aspectos perturbadores no caso.

“Na verdade, a coisa m ais assustadora que aconteceu foi a prim eira”, observou Lucy. “Uns dois m eses depois de nos m udarm os para cá, m inha irm ã, o m arido e as crianças passaram o fim de sem ana conosco. Um a das crianças estava no andar de baixo, na sala de televisão. As outras estavam por aí. Os adultos estavam conversando na sala de estar.”

“Ouvim os um trem endo estrondo. Correm os para a sala de televisão e encontram os a TV caída no chão, de cabeça para baixo. A parte de trás do suporte estava quebrada, em bora o suporte em si fosse m uito resistente. A TV é bem pesada; precisou de duas pessoas para erguê-la e colocá-la de volta no suporte.”

“Não havia nada de errado com o aparelho; funcionava perfeitam ente. A criança disse que estava longe da televisão quando ela caiu. Ela disse que a televisão se ergueu do suporte e virou de cabeça para baixo sozinha. A m enina não poderia ter em purrado o aparelho, porque ele estava encostado na parede. Apesar do barulho terrível, a televisão estava funcionando m uito bem e não sofreu nenhum dano.”

O que Lucy descreveu é clássica atividade poltergeist. O “barulho terrível” que ela ouviu, sem que nada se quebrasse, provavelm ente deveu-se ao fato de o som ser telepático. Um espírito com energia suficiente para se m aterializar fisicam ente pode m over obj etos. Ele extrai sua energia do estoque abundante que as crianças parecem ter, sobretudo na puberdade. Para confirm ar m inha teoria, perguntei:

“Que idade tinha a criança que estava no aposento quando isso aconteceu?”

“Minha sobrinha tinha 10 ou 11 anos naquela época”, inform ou Lucy.

O com andante se inclinou devagar e disse:

“Um a das coisas m ais perturbadoras que aconteceu aqui envolveu nosso gato siam ês, Jake.”

Lucy assentiu com a cabeça e com eçou a narrar a história seguinte.

“Um a noite, eu estava sentada no sofá, quando, de canto do olho, notei algo sendo j ogado escada abaixo. Ouvi um baque e, quando virei, vi o pobre gato endireitando-se, sacudindo a cabeça e depois sair andando. Com o as crianças estavam no térreo, concluí que o gato devia de algum a form a ter caído. Mas, várias sem anas depois, estava preparando o j antar quando m inha filha Grace m e disse, ‘Você devia ter visto o que o Jake fez!’. Ela contou que viu o Jake sair do alto da escada, dar um a pirueta no ar e cair de costas.”

“O interessante”, o com andante acrescentou, “é que na época tínham os dois gatos. O outro gato nunca teve nenhum problem a. O gato tigrado subia e descia as escadas à vontade, para usar a caixa de areia que fica no banheiro de cim a. Mas o pobre Jake ficava sentado, olhando para a escada com a cauda se m exendo, nervosa. Ele ficava esperando até não aguentar m ais, então corria escada acim a, ia direto para o banheiro e descia as escadas o m ais rápido que podia. Tem íam os que o fantasm a estivesse fazendo algo a nosso gato siam ês.”

“Vocês ainda têm o Jake?”, perguntei.

“Não. No inverno passado ele dem orou dem ais lá fora e m orreu congelado. Os siam eses não conseguem resistir ao frio por m uito tem po”, explicou o com andante.

Aparentem ente, o pobre bichano tinha m edo dem ais de ficar não só no andar de cim a, m as dentro da casa e isso, claro, no fim o levou à m orte. Mudando de assunto, consultei as anotações que fiz durante nossa prim eira conversa por telefone e perguntei:

“Não havia tam bém algum problem a com um dos quartos da casa?”

“Sim ”, respondeu Lucy. “Era o que usávam os com o quarto de hóspedes antes de o bebê nascer. Quando nos m udam os para esta casa, tentei transform á-lo no quarto de um a das crianças, m as por algum a razão ninguém quis. Depois que nos aj eitam os, às vezes um a delas decidia que gostaria de dorm ir lá, m as nunca conseguia ficar até o fim da noite. Sem pre ficavam assustadas. Nossa filha, Grace, cham ou um a am iga para dorm ir aqui e preparei duas cam as naquele quarto. As duas foram dorm ir, e em m enos de um a hora saíram de lá. Disseram ter ouvido portas se abrindo, rangidos e coisas assim .”

Mal parando para tom ar fôlego, Lucy continuou:

“Em outra ocasião, m inha irm ã estava aqui com seu filho de 7 anos. Ela lhe disse para dorm ir na cam a j unto à parede. Ele queria dorm ir perto da porta. No final, ela cedeu e o deixou dorm ir na cam a perto da porta. Toda noite ele caía da cam a. Na casa dele, nunca havia caído de sua cam a. A única noite em que não caiu da cam a aqui foi quando dorm iu na cam a j unto à parede – onde m inha irm ã de início lhe dissera para dorm ir.”

“Ele insistia em dizer que algo o estava assustando no quarto à noite. Ele cham ou m inha filha, na época com 9 anos, para ir ver um a nuvem no quarto. Ela disse que os dois viram um a nuvem lá. Ficaram apavorados.”

Achei significativo as duas crianças relatarem ter visto a m esm a coisa. Ainda, orbes parapsíquicos e fiapos de energia m uitas vezes são descritos por crianças com o “nuvens”. Em geral, tais im agens dificilm ente são vistas por olhos adultos e só são registradas por câm eras.

“Um outro garoto de 9 ou 10 anos que ficou conosco era bem m aduro para a idade”, prosseguiu Lucy. “No entanto, ele se recusou a dorm ir naquele quarto sem um a luz acesa. Por algum a razão, as crianças não querem ficar naquele quarto... m enos o bebê. O bebê fica bem lá.”

“Um dia, Donald e seu am igo Sam estavam brincando naquele quarto, quando eu ouvi os dois gritando. Subi correndo para lhes dizer que não fizessem barulho. Eles disseram que não conseguiam abrir a porta e com eçaram a entrar em pânico. Abri a porta sem problem as pelo lado de fora. Tentei de novo de am bos os lados, sem nenhum problem a. Mas, por algum a razão, m om entos antes eles não conseguiam abrir a porta.

“Outro incidente envolveu o brinco de m inha irm ã. Ela e o m arido passaram a noite aqui. Quando ela entrou no quarto de hóspedes para dorm ir, sentiu um dos brincos de pressão cair, m as não o ouviu bater no chão. Então algo lhe disse: ‘Você deveria furar as orelhas!’. Ela disse que foi quase com o se um a voz dentro da cabeça dela dissesse isso. Ela falou, ‘Tudo bem , se foi um fantasm a que pegou m eu brinco, quero ele de volta am anhã de m anhã’. Tirou a roupa e foi para a cam a.

“Na m anhã seguinte, pediu ao m arido para ter cuidado quando levantasse, porque achava que tinha deixado o brinco cair de noite. Os dois se levantaram e ficaram olhando sem conseguir acreditar. O brinco estava sobre as roupas dela, em cim a do berço.”

“Isso é de fato interessante”, concordei. “Aconteceram outras coisas estranhas desde que vocês se m udaram para cá há três anos?”

“Lem bro-m e de algo”, disse o com andante. “Um a noite eu estava sentado na sala de estar quando Lucy disse, ‘Olha isso’. O candelabro sobre a m esa estava fazendo m ovim entos circulares. Levantei-m e e o fiz parar, e brinquei, ‘deve ser o poltergeist’. Voltei para a sala de estar para ler. Dali a pouco, olhei e vi o candelabro fazendo aquilo de novo. Àquela altura eu j á estava ficando interessado.”

“O bebê estava dorm indo e as crianças estavam fora. Não havia ninguém por perto para fazer trem er o chão. As j anelas estavam fechadas e as espigas secas de m ilho penduradas ali perto estavam totalm ente im óveis. Levantei e fiz o candelabro parar de novo. Instantes depois, ele com eçou de novo. Quando coloquei feltro por baixo, ele parou e desde então não fez m ais isso.”

Lucy quis acrescentar m ais um a história:

“Várias sem anas depois do incidente com a televisão, acordei no m eio da noite com um ruído que não consegui identificar. Levantei para dar um a olhada. Quando acendi a luz da sala de j antar, vi que um a grande gravura com um a cena de caçada havia caído e estava apoiada na parede. O quadro não estava quebrado. Supus que o prego tivesse se soltado da parede, e voltei para a cam a.

“No dia seguinte, descobri que o prego continuava firm e na parede e que o aram e na parte de trás do quadro estava intacto. Pendurei o quadro de volta, e continua no m esm o lugar até hoj e.”

Às vezes os fantasm as perturbam coisas específicas por um a determ inada razão. Quando perguntei à senhora Carroll sobre o quadro que caiu, ela o descreveu com o um a cena de um cavalo com cães de caça – um a antiga gravura de caça inglesa com prada por seu avô.

 

Im pressões parapsíquicas

Eu podia ouvir nossos investigadores conversando fora da cozinha e convidei-os para entrar. Eles acabavam de descer do andar de cim a e não tinham ouvido nada do que os Carroll e eu havíam os discutido. Pedi a todos que se acom odassem . Mary era um a clarividente com provada, m as não participara de tantos casos quanto Lorraine. Steve tam bém era um bom clarividente, m as com m enos experiência, especializado na captura de m anifestações espectrais em film e. Am bos estavam entusiasm ados com o que aparentem ente tinham descoberto. Lorraine deixou Mary falar.

“Vi m ediunicam ente algo totalm ente inesperado”, Mary exclam ou, m al m e dando tem po de colocar um a fita nova no gravador. “Eu esperava algo relacionado aos antigos proprietários da casa, m as o que vi era m ais tipo um hóspede. Mas não era ninguém da fam ília, nem am igo da fam ília. Ele foi um m arinheiro inglês. Soube que era inglês porque tentou m e confundir com seu linguaj ar, usando expressões típicas da Inglaterra, m as não deu certo.”

Os fantasm as m uitas vezes falam de um j eito difícil de entender, de propósito. Tentando colocar Mary de volta ao assunto, perguntei:

“Qual era a relação desse hom em com a casa?”

“Ele trabalhava para o capitão que era dono da casa. Havia algo errado com o braço esquerdo dele. Tinha algum tipo de ferim ento, e o hom em j á não podia m ais trabalhar a bordo de um navio. O capitão o cham ou para que tom asse conta de sua fam ília enquanto estivesse no m ar.”

“Com o era sua aparência?”, perguntei.

“Era um hom em antiquado. Vestia um terno m arrom e um a gravata- -borboleta engraçada. Ele m e lem brou aquela expressão ‘os m eninos viram hom ens, m as as m eninas sem pre serão m eninas’. Gostava de cavalos e cachorros. Não gostava de gatos, especialm ente de gatos que não se parecem com gatos, com o os siam eses. Talvez tivesse aceitado um gato com aparência de gato. Mas um siam ês não se parece com um gato, parece m ais um rato ou coisa assim . Olhos oblíquos... Era um tipo de gato estranho para ele.”

Em seu relato breve, m as intem pestivo, Mary tocara em alguns dos m istérios que atorm entavam os Carroll. Prim eiro, ela descreveu o m esm o fantasm a que o m enino tinha visto ao pé da escada. Aparentem ente, era inglês e tinha um a afinidade por cavalos e cachorros. Pensei na gravura de cena de caça rem ovida da parede. Além disso, sem o gato estar na casa, Mary havia descrito a confusão do fantasm a com o gato siam ês dos Carroll e sua anim osidade contra ele.

Segundo Lorraine, a inform ação parapsíquica tende a j orrar de um a vez, com o nesse caso. É quase com o se os fantasm as tivessem tanto a contar que não conseguissem fazê-lo rápido o bastante ao encontrarem alguém que pode ouvi-los. Perguntei a Steve o que tinha captado com a sua m ediunidade.

“Era um hom em de uns 45 anos, com cabelos grisalhos. Parecia estar vagando perdido. Havia paredes ou algo assim que não estavam no m esm o lugar. As coisas não eram exatam ente com o tinham sido antes. Quando lhe perguntei, ‘O que está fazendo aqui?’, ficou um pouco irritado e disse, ‘Estou tom ando conta da casa, naturalm ente, o que m ais estaria fazendo?’... ou algo do gênero. Quando Mary perguntou-lhe o nom e, ela captou ‘William Rogers’.”

“O nom e poderia estar invertido, ‘Roger William s’, com o o fam oso reverendo batista”, sugeriu Mary. “Parecia fam iliar. Receei estar tirando esse nom e do subconsciente. Fiquei rej eitando-o e invertendo-o. A palavra ‘Bristol’ tam bém ficava aparecendo. Não sei se o hom em era de lá ou se era o nom e do navio de seu capitão.

“Minha im pressão geral é que ele serviu sob o com ando do capitão, e com o era um hom em valioso que j á não podia trabalhar a bordo, recebeu a incum bência de tom ar conta da casa do capitão quando este estivesse fora. Ele voltou porque não term inou seu trabalho aqui. Está procurando algum a coisa.”

“O que era o recipiente quadrado de m etal com cilindros se proj etando?”, perguntou Steve.

“Não sei”, respondeu Mary. “Parecia um a caixa de m etal quadrada com vários pequenos bastões redondos de pé, proj etando-se para fora. E ainda, a parte traseira da casa era diferente? Havia um quarto com m uitas j anelas com vidros pequenos? Em algum m om ento houve um a estufa no quintal?”

O com andante adm itiu:

“A parte de trás da casa j á foi diferente, m as não sei nada quanto a vidros pequenos ou um a estufa.”

“Era diferente”, disse Mary, com segurança. “A parte onde o piso é de tij olos costum ava ser um a varanda, e o côm odo j unto aos três degraus externos era a estrebaria. Correto?”

“Correto”, concordou o com andante Carroll, “de acordo com a planta original que vim os, é isso m esm o.”

“Ótim o!”, disse Mary. “De qualquer form a, ele sabe onde está. O lugar onde ficava a varanda é por onde ele costum ava entrar e sair da casa.”

Lorraine acrescentou que o aposento do hom em era aquele onde agora ficava o quarto do bebê – o m esm o quarto do qual as outras crianças não gostavam . Mary sugeriu que talvez o tal caseiro tivesse saído de sua aposentadoria espectral devido à presença do “novo” com andante naval e de sua fam ília na casa.

 

A casa e a história de fam ília

“Desde o início, esta casa sem pre pareceu ter um a personalidade bem definida”, afirm ou o com andante. “Tanto Lucy quanto eu sentim os isso quando viem os vê-la pela prim eira vez. Era calorosa, alegre e acolhedora. Quando Lucy com eçou a m e contar sobre as coisas estranhas que estavam acontecendo, não m e surpreendi. E, por algum a razão, sem pre senti que havia um a presença m asculina protetora na casa.”

“É verdade, ele sentia isso m esm o”, confirm ou Lucy. “Foi por isso que não ficam os surpresos quando o que Donald viu foi um hom em . Mas foi um pouco perturbador m esm o assim , especialm ente com a queda de um a TV tão pesada e o gato sendo j ogado escada abaixo.”

“Com andante, você sente que tem algum grau de clarividência?”, perguntou Lorraine.

O hom em alto e severo deu um a risada.

“Bom , na verdade... Quando era criança, tinha sensações de déjà-vu com frequência. Até hoj e tenho, de vez em quando. Acho que, quando envelhecem os, ficam os m enos sensíveis a essas coisas.”

“É verdade”, Lorraine assentiu com a cabeça.

“Ainda tenho m uitos pressentim entos”, o Com andante acrescentou. “Tenho pressentim entos quanto a navios, m aquinário, pessoas, carros e outras coisas. É quase com o se as coisas tivessem alm a ou personalidade.”

“Com andante, com o se sente a respeito dessa presença m asculina em sua casa?”, perguntou Mary. “O senhor acredita que ele sej a um suj eito decente?”

O com andante riu m ais um a vez.

“Não, com certeza não... não m esm o. Deve ter sido um velho m arinheiro durão e safado.”

Mary sorriu, concordando, e o resto de nós riu.

“Sra. Carroll”, perguntei, “a senhora algum a vez sentiu m edo enquanto estava sozinha nesta casa? Já sentiu estar sendo observada?”

“Não”, ela respondeu, “nunca senti m edo. Sem pre m e senti m uito, m uito segura. Mesm o David ficou m ais surpreso do que assustado com a im agem do hom em . Ele disse que o hom em parecia m uito sim pático.”

“Isso é bom ”, eu disse. “Parece que seu fantasm a sente-se responsável pela proteção de vocês. Ele pode estar apenas cham ando atenção para si ou expressando sua opinião sobre televisão, gatos, brincos, crianças obedecerem aos pais quanto à cam a em que devem dorm ir e candelabros que podem arranhar a m esa. Provavelm ente, estava brincando com os m eninos quando eles não conseguiram abrir a porta do quarto. Tudo isso parece se encaixar com sua ‘personalidade’ protetora e ao m esm o tem po durona.”

“Mas por que ele está aqui? Por que não fez a passagem ?”, perguntou Lucy.

“A história da casa talvez lance algum a luz sobre tais questões e sobre esse personagem ”, sugeriu Lorraine.

Lucy concordou.

“Não sei se aj uda, m as fizem os algum as pesquisas quando essas coisas com eçaram a acontecer”, disse. “A casa foi construída em 1745, por William Wadsworth, para sua filha, que se casou com um tal Douglas. A residência perm aneceu na fam ília Douglas até 1938.”

“Algum a inform ação sobre um capitão naval?”, perguntou Mary.

“Não que tenham os encontrado”, respondeu Lucy. “Tam bém não vim os qualquer m enção a ‘William s’ ou ‘Rogers’. Mas eu não estava procurando nada específico, só inform ação geral. Não sei no que Wadsworth ou Douglas trabalhavam .”

“Havia alguém de nom e ‘Rogers’ ou ‘William s’ na fam ília de vocês?”, quis saber Mary.

“Não”, responderam os Carroll, em uníssono, balançando a cabeça.

“Mas a fam ília de Lucy estava no ram o da navegação”, inform ou o com andante. “Os antepassados dela eram capitães de navios e alguns tios-avós bem afastados m orreram no m ar. Poderia esse fantasm a ser um de seus antepassados ou alguém atraído pelo histórico fam iliar dela?”

“Um parente falecido que fez a passagem tem a capacidade de ir a qualquer lugar, em qualquer m om ento. Mas tais entidades não costum am ficar por perto e derrubar televisões ou provocar crianças. O m ais provável é aparecerem num a situação de crise e depois sum irem . Mas conte-m e um pouco sobre sua fam ília, Lucy.”

“Eram donos de um a linha de navios a vela”, ela disse. “Construíram clíperes e paquetes depois de m igrar para cá vindos das Ilhas Virgens, em 1848.”

“Teria sido algum tem po depois de o hom em ter m orrido, em 1842, se m inha im pressão parapsíquica da data estiver correta”, com entou Mary. “O ano que captei para a m orte do hom em foi 1842. Teria sido 97 anos depois da construção da casa.”

Lorraine e Steve concordaram com essa inform ação adicional.

“Pelo m enos agora tem os alguns nom es, datas e ideias específicas para investigar”, eu disse, com eçando a recolher m inhas coisas. Já fazia várias horas desde nossa parada para com er donuts, na viagem para a casa do com andante. Um a pessoa pode m orrer de fom e enquanto discute possibilidades históricas.

“Vam os investigar”, concordou o com andante. “Muito obrigado. Ficam os gratos a vocês por virem até aqui nos aj udar a solucionar a situação.”

“É bom saber que não estam os m alucos”, acrescentou Lucy. “E é tranquilizador saber que as crianças não correm perigo.”

“Vocês não estão m alucos”, confirm ei. “Lorraine e eu j á vim os esse fenôm eno talvez m ilhares de vezes. Mas fizeram bem em nos cham ar para constatarm os que é inofensivo. Agora, som ente pesquisas adicionais poderão responder a nossas últim as perguntas.”

Despedim o-nos, pegam os nossas coisas e fom os para o carro, ainda discutindo o caso. Os assentos estavam frios, e dei partida para com eçar a aquecer o m otor. À m edida que as j anelas degelavam , o único m istério que ocupava m inha m ente era quando e onde com eríam os.

 

Descobertas posteriores

Com o tinham prom etido, os Carroll fizeram m ais pesquisas e em um fim de sem ana nos ligaram , ansiosos, com inform ações. Um ex-m arinheiro originário de Bristol, Inglaterra, cham ado Chester Hubbard, tinha servido sob as ordens do capitão que era dono da casa. Fora cham ado para cuidar da fam ília do capitão depois que um ferim ento o incapacitou com o m arinheiro. Deprim ido por não poder voltar para o m ar, em 1842 ele se explodiu com três bananas de dinam ite am arradas ao corpo. Sua cabeça nunca foi encontrada.

Os nom es “William Rogers” ou “Roger William s” nunca apareceram . Isso significa que podem m uito bem ter vindo do subconsciente de Mary, com o ela pensou a princípio. No entanto, “a m isteriosa caixa de m etal com cilindros em pé dentro” provavelm ente era a caixa que continha a dinam ite usada por Chester. E havia outra coisa. O navio em que Chester serviu no início do século XIX cham ava-se Polaris – o m esm o nom e da classe de subm arinos na qual o com andante Carroll servia.

Mas isso não foi tudo. Quase dois anos depois, o com andante voltou a com unicar-se com igo. Aparentem ente, seu filho Donald estava brincando com am igos no quintal quando desenterraram um crânio hum ano. A polícia e os especialistas forenses afirm aram que a caveira datava de m eados do século XIX.

“Poderia ser isso o que nosso fantasm a procurava?”, perguntou o com andante.

“É possível”, concordei. “Ao longo da história, particularm ente na Inglaterra, existem relatos de gritos e outras perturbações em lugares onde um esqueleto não foi enterrado de m odo apropriado. Esse fenôm eno pode ter sido o que m anteve o seu fantasm a preso à Terra.”

O com andante riu e adm itiu:

“Todas as peças se encaixam . É difícil crer que estam os lidando com algo tão... tão intangível.”

“Os fantasm as fazem todo o sentido...”, disse Lorraine, na extensão do telefone, “... depois que você os entende. Pode ser m uito frustrante para am bas as partes quando tentam os descobrir do que necessitam e o que estão tentando nos dizer.”

“O que recom endam que façam os agora?”, perguntou o com andante.

“Tentem fazer com que esse pobre hom em descanse em paz. O crânio deve ser enterrado em solo consagrado ou então crem ado e ‘enterrado no m ar’. De um j eito ou de outro, façam um a oração... desej ando a paz eterna ao crânio e ao fantasm a.”

“Sim , entendo com o isso poderia aj udar, e vam os providenciar”, concordou o com andante. “Mas acho que vam os sentir falta do bom e velho grosseirão.”

“Ele sem pre será capaz de voltar, com o um espírito guia”, disse Lorraine, “m as ao m enos agora ele pode finalm ente deixar para trás sua antiga vida na Terra.”

“Sim , sim , entendo. Vam os dar um bom destino ao crânio do senhor Hubbard”, prom eteu o com andante. “Obrigado por toda a aj uda.”

Depois de trocarm os m ais algum as gentilezas, por fim nos despedim os do com andante, de sua fam ília... e de seu caseiro fantasm a.