Invocadores do Mal
Estudo de Caso Nº 9 Espíritos escoceses
Estudo de Caso Nº 9
Espíritos escoceses
Todos os nomes e lugares desta história verídica foram trocados
para proteger a privacidade dos indivíduos envolvidos.
Ed Warren descreve o caso.
Histórico
Lorraine e eu nos apaixonam os pela Escócia na prim eira vez que a vim os. É o país civilizado m enos desenvolvido que conhecem os. É com o voltar no tem po, sem abrir m ão das conveniências. A cada prim avera tentam os levar um grupo de investigadores conosco para vivenciar a beleza rústica e fazer um tour pelos m uitos castelos e locais assom brados do país.
Em m aio, vastas extensões de colza am arelo-brilhante ilum inam o horizonte com largas faixas douradas. Ovelhas e doces cordeirinhos brancos – alguns com faces e pés pretos – salpicam os vibrantes cam pos verdes. O robusto gado das Highlands, de pelo castanho longo, m ove-se lentam ente ao lado de nosso carro nas estradas sinuosas. Levam os horas para percorrer distâncias curtas por pararm os o tem po todo para apreciar e fotografar vistas espetaculares. Há pouca sinalização viária e inexistem centros com erciais, shopping centers ou condom ínios residenciais. Em vez disso, nossos olhos e câm eras capturam m ontanhas escarpadas com cascatas... penhascos de tirar o fôlego na beira do oceano... vilarej os atem porais... ruínas de castelos... e fazendas com os pôneis Shetland, suas crinas e caudas agitando-se no vento incansável.
Naquele ano em particular, 2000, Lorraine e eu fom os convidados para investigar um hotel na porção norte das Highlands escocesas, às m argens do rio Spey. Soubem os m ais tarde que o hotel com eçara suas atividades com o um a estalagem para caçadores, no século XIX, tendo sido convertido em hotel depois da Prim eira Guerra Mundial. Um velho ferryboat costum ava cruzar o rio – o Boat of Garten, perto de Inverness. Um a ponte substituiu o ferryboat em 1899, e essa ponte foi substituída por outra em 1974.
Em 2000, o grupo era form ado por pesquisadores com idade entre 20 e 50 e tantos anos; havia estudantes, cientistas e escritores. Viaj ávam os j untos em dois carros, e concordam os em encontrar os fotógrafos e repórteres de um a revista am ericana no hotel, em um a data previam ente com binada.
Acrescentam os aquele desvio a nossa viagem j á program ada em resposta à solicitação enviada, via fax, pelo gerente do hotel. Os novos proprietários estavam preocupados com perturbações inexplicáveis, que estavam deixando desconfortáveis tanto funcionários quanto hóspedes. Segundo nos contaram , quadros e m óveis m oviam -se m isteriosam ente... im agens estranhas apareciam refletidas... e pesadas portas de incêndio abriam -se sozinhas. Um dos quartos de hóspedes apresentava tam anha atividade estranha que, segundo eles, precisaram rem over a porta e usar o aposento apenas com o depósito.
Havíam os feito um a longa viagem desde Edim burgo no dia em que chegam os ao hotel. O desvio provocado por um a ponte em obras nos forçou a viaj ar por estradas com as quais não estávam os fam iliarizados. Quando conseguim os chegar a nosso destino, eu estava fam into, e o resto do grupo m e acusava de ser m al-hum orado.
O sol se punha quando param os em frente a um hotel de pedra, de aparência som bria. Ele parecia dissolver-se na lúgubre luz acinzentada, com o se ele próprio fosse um fantasm a. Suas m uitas j anelas negras pareciam olhos vazios. Talvez eu passasse a vê-lo de outro m odo depois de com er algum a coisa. Pedi que Lorraine entrasse e se certificasse de que estavam servindo o j antar, enquanto eu supervisionava o desem barque da bagagem .
Descobri m ais tarde que Lorraine quase tinha caído de cara no chão ao entrar no saguão do hotel. Havia um degrau para baixo que ela não tinha previsto. Um a vez no balcão da recepção, ela anunciou nossa chegada, perguntou sobre o j antar e pediu que cham assem o gerente ou o dono do hotel. Foi quando ficam os sabendo que os donos estavam viaj ando, de férias, e o gerente não estava trabalhando naquela noite. Na verdade, o gerente não estaria ali durante toda nossa estada. Apesar da enxurrada de faxes e de telefonem as que nos havia trazido através de m ilhares de quilôm etros para estarm os ali naquela noite, não havia ninguém para nos receber.
Em todos nossos anos de investigação ao redor do m undo, nunca havíam os tido um a recepção tão estranha. Por sorte, o editor de literatura e os dois fotógrafos da revista am ericana estavam lá, com o planej ado. Eles nos saudaram entusiasticam ente, e pediram que nos j untássem os a eles em sua m esa no salão de j antar. Não precisaram m e convidar duas vezes, e corri para a m esa o m ais rápido que m eus j oelhos duros e envelhecidos m e perm itiram . Outros em nosso grupo rum aram para o bar, para investigar o espírito m ais fam oso da Escócia – o uísque escocês.
Enquanto Lorraine e eu j antávam os, os j ornalistas da revista nos entrevistaram . Term inei m inha sobrem esa e estiquei a m ão para roubar um pouco da porção de Lorraine, perguntando-m e em voz alta quem eu poderia entrevistar quanto aos supostos fantasm as. Cham am os o gerente do turno da noite e descobrim os que sequer os funcionários que haviam testem unhado os eventos estavam presentes. Ele concordou em telefonar para o bartender e para o cozinheiro que estavam de folga e m oravam ali perto e pedir que viessem contar suas experiências.
Depois do j antar, reunim os nossos pesquisadores, que por sorte não haviam bebido de estôm ago vazio. Eles trouxeram e testaram seus equipam entos, enquanto esperávam os a chegada dos funcionários do hotel que nos contariam sobre os eventos estranhos. O j ornalista e os repórteres da revista m antiveram -se por ali. Parecia não haver outros hóspedes no estranho hotel.
Finalm ente, o gerente da noite nos apresentou a dois rapazes. Michael, o bartender, tinha altura m ediana, cabelo m uito preto e era m agro e rij o. Parecia não ter feito a barba em seu dia de folga. Ray m ond, o assistente de cozinheiro, era m ais alto, loiro e esguio. Eles pareciam dar-se bem um com o outro.
Reuni os investigadores e com uniquei m eu plano.
“Vou entrevistar estes dois j ovens cavalheiros, enquanto Lorraine explora o resto do hotel para ver o que consegue perceber por m eio da sua m ediunidade. Alguns de vocês podem ficar com igo e o resto pode ir com Lorraine.”
Em bora a refeição tivesse restaurado m eu tem peram ento gentil e eu não tivesse com ido cebola nem alho no j antar, fiquei com a com panhia apenas dos dois perplexos funcionários do hotel e de um a investigadora, enquanto todos os dem ais foram atrás de Lorraine. Eu conseguiria m ais atenção se fosse invisível, pensei com m eus botões. Abandonado pelas m ultidões, m eu pequeno grupo e eu encontram os um a salinha dim inuta abaixo do salão de j antar e ali nos instalam os. A investigadora ligou o gravador e com ecei m inha entrevista com o bartender do hotel. Um breve olhar para o relógio revelou que passava pouco das 9 da noite – o início das “horas parapsíquicas”.
Entrevista com Michael, o bartender
Michael, parecendo m uito pouco à vontade, sentou-se no sofá diante de m im . Com ecei perguntando há quanto tem po ele m orava na região.
“Mais ou m enos uns quinze anos”, ele disse, com um agradável sotaque escocês.
“Há quanto tem po trabalha aqui?”, perguntei.
“Cerca de um ano... quase um ano, talvez um a ou duas sem anas m enos”, ele respondeu, relaxando um pouco.
“Soube que você passou por algum as experiências fora do com um aqui neste hotel. Pode m e falar sobre isso, por favor?”
“Foi só um a noite... durante o inverno no ano passado. No Ano-Novo, há m uita gente por aqui. Fora isso, som os só eu e um dos cozinheiros, Ray m ond”, disse Michel, indicando com a cabeça seu am igo alto. “Passam os m uitas noites sozinhos aqui, no inverno. É trabalho m eu trancar todo o hotel e checar todas as saídas de incêndio e fechá-las.
“Bom , naquela noite em particular, subi ao prim eiro andar e estava
“Bom , naquela noite em particular, subi ao prim eiro andar e estava com eçando a percorrer o corredor, quando cheguei a um par de portas com m ola... daquelas que você em purra para passar. Eu estava quase em purrando as portas para passar, quando olhei através do vidro delas e vi o par seguinte com eçar a se m over sozinho! Sabe, elas iam para a frente e para trás, com o se alguém tivesse passado correndo por elas. Mas não havia ninguém lá.
“Eu só dei m eia-volta e tipo voltei correndo. Desci para o bar. Havia dois caras, frequentadores locais, ainda lá. Eu não conseguia nem falar. E eles perguntaram ‘Qual o problem a? O que aconteceu com você?’.”
Inclinei-m e na direção de Michael com interesse crescente e perguntei:
“Você estava aterrorizado?”
“Sim ”, adm itiu Mike, “Todos dizem que eu estava branco, com o se tivesse visto um fantasm a. Eu disse, ‘Algo bem estranho acabou de acontecer’. E eles disseram , ‘Bom , o que você viu?’ Na verdade eu não vi nada, sabe, só as portas se m exendo sozinhas.
“Disseram coisas tipo, quando em purrei as portas, devo ter causado um a corrente de ar que fez as outras se m exerem . Então subim os todos j untos. Tentam os tudo que pudem os para que as portas fizessem a m esm a coisa; m as não conseguim os.”
“Essas portas são difíceis de abrir”, observei. Eu tivera que atravessar portas iguais quando fui até m eu quarto depois do j antar, e por isso eu sabia.
“Sim , são”, concordou Michael. “Você precisa em purrá-las. Era literalm ente com o se alguém as tivesse em purrado e passado correndo por elas, com as portas se m ovendo para um lado e para outro depois de terem passado.”
Michael endireitou-se no sofá, debruçou-se para a frente e m e olhou nos olhos.
“Sabe, eu nunca tinha acreditado em fantasm as ou em ghouls, ou sei lá. Eu até trouxe m inha esposa com igo para confirm ar que eu nunca, j am ais, havia vivido e nem acreditado em nada assim antes. Aquela foi a prim eira vez, e todo m undo no bar disse que eu tinha ficado branco.”
Mais tarde descobri que o pessoal da revista havia entrevistado separadam ente o assistente de cozinheiro Ray m ond, que aj udou Michael a trancar o hotel naquela noite de arrepiar. Ray m ond disse sobre Michael: “Ele estava branco com o um lençol e trem endo. Ele não tem atração por essas coisas assustadoras. Por isso, quando ele disse o que havia acontecido, é claro que
acreditei nele”.[36]
Mike prosseguiu sua história.
“Eu m e senti um pouco m ais tranquilo estando acom panhado por m ais três ou quatro pessoas, e todas m e aj udaram a trancar o hotel. Tentaram de todos os m odos m e convencer de que havia sido um a corrente de ar ou algo assim , m as não conseguim os fazer as portas se m overem sozinhas.”
“Não foi o vento ou algum a outra corrente de ar que fez com que as portas se m ovessem sozinhas daquele j eito?”, especulei.
“Não, todas as portas e j anelas j á estavam fechadas”, ele confirm ou. “Fazia frio lá fora. Bom , depois daquilo, eu disse a m eu chefe que não estava a fim de percorrer o hotel sozinho de noite. Eu só estaria disposto a trancar tudo quando houvesse gente por perto... antes de escurecer, ou algo assim ... e só nessa época do ano, quando sei que tem hóspedes nos quartos.”
Fui m ais a fundo.
“Algum a vez você sentiu um a presença no hotel... sentiu que havia algo observando você?”
“A questão é a seguinte, o hotel estava sendo reform ado na época”, explicou Michael. “As paredes estavam sendo derrubadas e coisas assim . E, não sei, m as havia... um a sensação de incôm odo. Um dos eletricistas que estava na obra à época, e que era daqui da região, com entou que sentia estar sendo observado por algo enquanto estava trabalhando.
“Havia um eletricista trabalhando lá em cim a quando sentiu algum a coisa. Estava fazendo algo e se virou, achando que havia alguém ali parado, olhando-o. Depois, ele não veio m ais, porque dizia que cada vez que estava lá em cim a, havia alguém olhando.
“Depois que contei aos poucos clientes locais que estavam no bar naquela noite, todo m undo na vila m eio que sabia que eu tinha passado por aquela experiência. Houve um a certa gozação, digam os. Mas, quando m encionei o episódio, esse eletricista disse, ‘Bom , quando eu estava trabalhando lá em cim a, senti com o se tivesse alguém m e olhando. Tam bém , quando contei a Ray m ond o que tinha acontecido, ele disse que tinha passado por algo parecido no m esm o lugar. Pergunte a ele. Ele só m e falou que teve um a experiência parecida com algo estranho.”
“Essa coincidência assustou você?”
“É, sabe, obviam ente ficam os com um pouco de m edo. Estávam os só nós dois aqui naquelas noites... e ele na verdade está m orando aqui no hotel. Então, era um pouquinho preocupante, se é que m e entende. Especialm ente porque aconteceu exatam ente na m esm a área.”
“E que área é essa, exatam ente?”, perguntei.
“Tanto Ray m ond quanto eu passam os por essas situações no segundo andar, entre os dois conj untos de portas de m ola, onde sobe a escada em espiral. O eletricista estava trabalhando exatam ente no alto da m esm a escada, no terceiro andar.”
A investigadora que estava gravando a entrevista com entou que aquele ponto em particular estava bem no cam inho para m eu quarto. Recordei a ela que o quarto dela e de seu m arido estava logo acim a e dava para o m esm o corredor onde o eletricista sentiu estar sendo observado.
“Que idade tem este hotel?”, perguntei, enquanto pensava em m udar o esquem a de acom odações.
“Acho que deve ter uns 150 anos”, estim ou Mike. “Acho que foi construído para caçadores e pescadores.”
“Além do eletricista e de Ray m ond, alguém m ais algum a vez lhe falou sobre experiências estranhas aqui?”, perguntei.
“Não.”
“Você m encionou um a reform a? Às vezes elas perturbam espíritos que de outra form a estariam adorm ecidos. Que m udanças estavam sendo feitas?”
“Estavam derrubando paredes. As reform as estavam sendo feitas, na
“Estavam derrubando paredes. As reform as estavam sendo feitas, na verdade, na segunda parte do hotel. Vou lhe m ostrar quando subirm os, porque é m ais fácil do que dizer. Esta área principal é a parte m ais antiga, e todas as outras partes foram sendo adicionadas ao hotel com o passar do tem po. É por isso que não posso dizer exatam ente qual a idade do hotel. Ele deve ter com eçado com o um a casa pequena... ou um hotel bem , bem pequeno... nada a ver com o tam anho que ele tem hoj e.”
“Em outras palavras, a área onde você, Ray m ond e o eletricista sentiram algo fora do norm al acontecer era a parte m ais antiga do hotel?”
“Sim ”, ele confirm ou.
“Isso tudo é m uito interessante. Você disse que sua esposa veio com você hoj e. Posso falar com ela?”
“Sim , claro”, disse ele. “Tam bém trouxe m inha filhinha. Se ela tam bém puder vir, não há problem a. Ela tem um ano e m eio.”
“Ah, sim , m as é claro”, eu disse.
Entrevista com a esposa do bartender
Quando Michael deixou o aposento para ir buscar a esposa e a filha, a pesquisadora e eu trocam os a fita do gravador e etiquetam os a que tínham os rem ovido. Ray m ond continuou rígido e silencioso na cadeira do canto, esperando sua vez diante do m icrofone. Daí a um m inuto ou dois, Michael voltou com um a j ovem bonita e m iúda, de cabelos escuros. A filha deles era um a m iniatura da m ãe. Am bas estavam abraçadas a ele.
Apresentei-m e, brinquei um pouco com a garotinha e fiz com que se acom odassem no sofá. Depois de explicar o que estava fazendo, acenei com a cabeça para m inha assistente, que ligou o gravador.
“Quando seu m arido voltou para casa e lhe contou o que havia acontecido aqui no hotel com as portas, o que você pensou?”, perguntei.
O sotaque escocês da m ulher era ainda m ais forte do que o do m arido.
“No com eço eu ri, porque achei que ele não acreditava de form a algum a em fantasm as. Na verdade, ele evitou o assunto durante anos. Mas Michael chegou em casa m uito assustado com aquilo.”
“Você acreditou no que ele contou?”
“Sim ”, ela disse. “Ele estava num estado que... sim .”
“O que ele disse que viu?”, perguntei, buscando consistência.
“Bom , ele só m e contou sobre as portas se m exendo... e que não havia ninguém lá. Ele não conseguia entender por que as portas fizeram aquilo. Disse que só viu as portas se m exendo e saiu correndo.”
A criança com eçou a chorar, então liberei a fam ília para que eles fossem para o saguão, onde esperariam por Lorraine. Pedi a Ray m ond que se sentasse no sofá, para que eu o pudesse entrevistar com relação a seu estranho encontro no hotel. Ele assentiu, ergueu-se e se acom odou no sofá. Cruzou os longos braços e balançou o corpo com nervosism o. Quando lhe perguntei a idade, disse ter 20 anos.
Entrevista com o assistente de cozinheiro
“Há quanto tem po você trabalha no hotel?”, perguntei, tentando fazê-lo relaxar.
“Sou da África do Sul”, ele inform ou com um sotaque que soava britânico. “Faz dois anos que estou aqui no hotel.”
“Perguntei ao outro rapaz se sabia a idade do hotel. Ele não tinha m uita certeza. Você sabe?”
“Hã, assim de cabeça, não”, Ray m ond gaguej ou. “Na verdade, há um a foto antiga no bar. Acho que tem um a data, tipo 1800. Acho que é um hotel bem velho.”
Mais tarde, tive a oportunidade de exam inar a foto a que ele se referiu. Era um a foto grande, e estava datada de 1899. Era de quando a prim eira ponte tinha sido instalada para substituir o ferryboat. Com o o hotel aparecia na foto, ele obviam ente havia sido construído em algum m om ento anterior no século XIX.
Enquanto isso, continuei com a entrevista.
“Que experiência sobrenatural você teve aqui no hotel?”, perguntei ao j ovem bem -apessoado diante de m im .
Ele baixou os olhos para as m ãos que não paravam quietas e com eçou:
“Bom , foi só que eu tinha term inado m eu turno um a noite... eu tinha ficado no térreo, na lavanderia que fica ao lado da cozinha. Quando estava subindo as escadas...” Ele pareceu engasgar. Era com o se ainda estivesse assustado.
“Há quanto tem po foi isso?”, perguntei, na esperança de fazê-lo relaxar um pouco.
Ray m ond ergueu a vista e vi seus olhos verdes, enquanto ele dizia. “Já faz um bom tem po... quase um ano. Foi na época em que o hotel estava sendo reform ado.”
“E quando foi que você passou por essa experiência?”, incentivei.
“Acho que foi por volta do Natal”, respondeu ele.
“Não, quero dizer, a que horas foi?”, esclareci.
“Ah”, ele exclam ou, finalm ente sorrindo um pouquinho. “A hora do dia... foi de noite... um as 10 ou 11 da noite, eu diria.”
Considera-se que as horas parapsíquicas – quando ocorre m aior atividade paranorm al – vão das 9 da noite às 6 da m anhã. Parece ser m ais fácil para os espíritos m anifestar-se na escuridão e, para nós, notá-los. Entidades dem oníacas tam bém preferem evitar a luz de Deus.
“E o que você estava fazendo naquela hora? Aonde você estava indo e o que estava a ponto de fazer?”, perguntei.
“Bom , eu só estava subindo do prim eiro andar, passando pelo segundo para chegar ao terceiro, onde ficam os quartos dos funcionários. Eu estava indo para m eu quarto. Fiquei no Quarto 3 durante a reform a”, ele explicou. Ray m ond sentou-se m ais em pertigado, inclinou-se para a frente e com eçou a falar m ais rápido.
“Eu estava indo na direção das portas duplas. Há dois conj untos delas. Um
“Eu estava indo na direção das portas duplas. Há dois conj untos delas. Um está no alto das escadas que sobem da cozinha. O outro está m ais adiante, seguindo pelo corredor, no m esm o andar.
“Da direção da qual eu estava vindo, é necessário puxar as portas. Cheguei ao alto do prim eiro lance de degraus, e estava a ponto de puxar as portas e abri-las. O que m e aterrorizou foi o fato de que acabava de ver um reflexo na j anela de vidro da porta. O que m e pegou foi que havia luz do outro lado da porta, e estava escuro onde eu estava. Eu não teria pensado que pudesse ver um reflexo.”
Concordei e encoraj ei-o a descrever o que havia visto.
“Parecia só um a som bra cinza. Eu não estava a fim de investigar, para dizer o m ínim o. Sim plesm ente não gostei daquilo. Foi bem perturbador”, ele adm itiu.
“Você conseguiu ver algum a feição nessa im agem ?”, perguntei.
“Parecia... parecia ser com o um rosto, m as não quero dizer isso, porque não tenho m uita certeza do que era, sabe. Parecia um rosto longo e acabado. Com o se fosse um a im agem ... um a im agem cinzenta... e parecia m esm o m uito acabada.”
“Mas era um a face hum ana ou... algo que você não sabia o que era?”, insisti.
“Podia ter sido hum ano. Eu sinceram ente... não, não tenho certeza.”
“Certo. Então, depois de ver essa coisa, o que você fez?”
“O que fiz? Eu só... fui direto para m eu quarto. É, não fiquei ali no corredor, nem nada assim ”, Ray m ond gaguej ou.
“Depois de ter ido para seu quarto, você pensou que havia visto algo sobrenatural?”
“Sim , sim , com certeza!”
“Está m e parecendo que o que você viu realm ente o assustou. É isso m esm o?”, perguntei.
“Tive um a criação bastante religiosa”, revelou Ray m ond. “Vi e ouvi um m onte de coisas, sabe. Mas o que aconteceu foi diferente, pois você não espera que um reflexo apareça de repente quando não tem m ais ninguém . E parecia hum ano! Foi um choque, de verdade.”
“Posso com preender”, disse eu, tentando reconfortá-lo com o se ele fosse m eu próprio filho. “O que você talvez tenha visto é cham ado de ‘cristalom ancia’. Um espírito pode refletir sua im agem em um a superfície luzidia, ou em um espelho, um vidro. Você vê a im agem refletida em vez do espírito em si. O fato de você estar no escuro e de o corredor estar ilum inado do outro lado m e diz que você não estava vendo seu próprio reflexo. O que você viu era provavelm ente sobrenatural. Em outras palavras, o que você viu aconteceu de fato, m esm o não sendo o que em geral se considera norm al.”
Não sei se isso fez com que ele se sentisse m elhor ou pior. Antes que pudéssem os continuar a discussão, vozes agitadas foram ouvidas no saguão. Minha esposa e seu séquito de investigadores, repórteres e fotógrafos haviam se j untado ao bartender e a sua fam ília. Entreabri a porta e todos invadiram a sala, falando ao m esm o tem po. Coloquei ordem naquele caos e perguntei a Lorraine o que havia acontecido.
As im pressões parapsíquicas iniciais de Lorraine
A agitação parecia se concentrar no quarto de hóspedes vazio no segundo andar. Era o m esm o quarto cuj a porta havia sido rem ovida porque ninguém conseguia ficar dentro dele. Por m ais de um ano o côm odo vinha sendo usado apenas com o depósito.
“Certo, Ed, o que senti foi que um hom em foi m orto naquele quarto. Houve bastante agressividade entre os envolvidos no crim e, antes daquela noite”, revelou Lorraine.
“Há quanto tem po você diria que isso aconteceu?”, perguntei.
“Houve dois períodos distintos em que algum a coisa aconteceu aqui. Aconteceu algo nos anos 1920 e depois houve algo m ais recente. Acredito que a aparição fantasm agórica resultou da m orte de alguém nos anos 1920.”
Lorraine explicou que ela sentia que a “outra” aparição era resultado de um a m orte acidental ocorrida havia m enos tem po. Essa segunda aparição era aparentem ente m enos ativa e m enos assustadora, e portanto Lorraine se concentrou no fenôm eno ligado ao evento m ais antigo, o suposto assassinato.
“Você quer que eu m e com unique com esse espírito? Não vou fazer isso sem você”, disse Lorraine. Ela se sentia vulnerável enquanto estava em transe leve, e sem pre queria ter a certeza de que eu estaria presente, para protegê-la da m elhor form a possível. Am bos sabíam os que as coisas podem ficar com plicadas quando não se está alerta ou cauteloso... sem falar que é necessário ser experiente.
Olhei as faces ansiosas a m inha volta e soube que se eu dissesse, “Não, vam os dorm ir”, corria o risco de ser o próxim o fantasm a assom brando aquele lugar. Em vez disso, falei:
“Sim , claro.”
“Mas quero perguntar...”, Lorraine disse, detendo a todos antes que saíssem correndo pela porta. “O que você descobriu nas entrevistas?”
Resum i o que o bartender e o cozinheiro afirm avam ter testem unhado e inform ei onde isso ocorrera. Minha pesquisadora recordou-m e do possível caso do eletricista, m ais ou m enos na m esm a área.
Lorraine exclam ou:
“Eu não sabia nada disso até este m om ento, m as, quando você contou sobre o reflexo pensei, ah, m eu Deus, foi onde aconteceu com igo!”
A seguir, Lorraine explicou que, ao subir pela escada dos fundos, indo da cozinha no andar térreo, ela se aproxim ou do alto da escada e um pesquisador abriu as portas duplas para ela; então ela viu um a som bra escura no par seguinte de portas. Os repórteres da revista e os investigadores vinham logo atrás dela naquele instante, m as quando conseguiram chegar àquele ponto, a im agem havia desaparecido.
Ela tam bém teve um a im pressão parapsíquica de um hom em correndo através das portas e descendo por um a via que não existia m ais ali no hotel. Era essa a entidade que ela queria tentar atingir.
Naquele corredor assom brado existe, entre os dois pares de portas com m olas, um a escada em espiral que sobe até o terceiro andar. O eletricista disse que trabalhava no alto dessas escadas quando se sentiu observado. O bartender aproxim ou-se dessa área, vindo da parte da frente do hotel, quando viu as portas m overem -se por conta própria – o m esm o par de portas do qual tanto o cozinheiro quanto Lorraine se aproxim aram pelo outro lado, vindos dos fundos do hotel. O cozinheiro viu um vulto cinzento nesse par de portas que se m oveu m isteriosam ente. Lorraine viu um a som bra negra nas portas através das quais o bartender olhara.
A poucos m etros dali, entre os dois pares de portas de incêndio, estava o quarto de hóspedes que não podia ser usado. Foi ali que decidim os tentar a com unicação com nosso espírito m aroto.
O quarto de hóspedes m al-assom brado
Todos nos esprem em os no pequeno côm odo, que tinha tam anho suficiente apenas para um a cam a de casal e um par de arm ários. Colchões e espelhos em pilhados estavam apoiados na parede que dava para fora, j unto com cabeceiras de m adeira danificadas. Lum inárias extras, com os fios enrolados nas bases, repousavam sobre côm odas descartadas, encaixadas nos cantos. Um a m esa de café e um punhado de cadeiras variadas estavam espalhados pelo aposento. Havia duas j anelas altas – um a se abria para os fundos do hotel e a outra para a lateral. Em bora as j anelas estivessem entreabertas, deixando entrar o ar frio da noite, o quarto tinha cheiro de coisa velha e o am biente parecia abafado e pesado. Lá fora, a noite era tão negra que nada parecia existir além das vidraças.
Logo depois do j antar, dois de nossos investigadores haviam film ado em videoteipe os corredores, as salas de uso com um e especificam ente aquele quarto, antes de irem atrás de Lorraine através do hotel. Tinha sido naquele quarto que a câm era digital deles captou lam pej os de luz branca, m ovendo-se com o “vaga-lum es cafeinados” de um canto a outro. Pudem os ver isso no m onitor do aparelho.
Lorraine e eu tem os visto esses “glóbulos” de energia, de todos os tam anhos e form as, em cem itérios, casas e outros edifícios assom brados, por todo o m undo. Em geral são um indicativo da presença de energia parapsíquica. Às vezes são visíveis a olho nu, m as com frequência aparecem apenas nos registros feitos por câm eras fotográficas e film adoras. Nossos pesquisadores haviam estado no quarto sozinhos e sem qualquer equipam ento de flash quando exam inaram o côm odo. Com base no que sua film adora digital nos dizia, havia ali conosco m ais do que cam adas de poeira.
Lorraine postou-se no centro do quarto.
“Mais cedo, senti que havia ocorrido um confronto violento entre dois hom ens neste local. Foi bem ali que alguém foi assassinado”, disse-m e ela, apontando para onde deveria ter havido um a cam a, diante da j anela lateral.
Naquele m om ento, o fotógrafo da revista, que estava parado à porta, disse:
“Lorraine, não contei a você... Mas acabei de contar a Ed... Quando vim para cim a e estava procurando lugares para tirar fotos, percorri todo este andar, entrei aqui, preparei a câm era e tirei m inha prim eira foto daquele ponto exato. Senti um a espécie de energia bem ao lado daquela j anela. Foi dali que tirei a m inha foto.”
“Você sentiu?!”, respondeu Lorraine. “Bom , definitivam ente, foi nessa área que tudo aconteceu... foi ali, com certeza”, ela confirm ou. A seguir explicou, “Houve bastante agressividade entre os hom ens. Depois do crim e, o assassino correu para as escadas. Segui o m esm o cam inho, m as não consegui encontrar as escadas que ele usou”.
Ela nos conduziu para fora do quarto, até o corredor entre os dois conj untos de portas duplas, e prosseguiu.
“Esta é apenas um a extensão do corredor.”
“Esta é a seção nova do hotel”, observou Michael, o bartender. “Era onde estavam sendo feitas as reform as. Esta costum ava ser a parede externa do velho hotel”, explicou, indicando onde agora existiam novos quartos de hóspedes. “Se você consegue im aginar, era com o um pequeno bloco.”
“Então, é por isso que fiquei confusa quanto às escadas, Ed. O que eu via com a clarividência através dos olhos do assassino era diferente do que existe hoj e”, Lorraine explicou, em polgada.
Isso tam bém explicaria por que tinha havido tantas perturbações desde a reform a do hotel. Havíam os descoberto que a execução de reform as no local de ocorrência de algum evento trágico m uitas vezes pode desencadear fenôm enos paranorm ais. Às vezes a entidade parece perturbada ou confusa com as m udanças.
De repente, Michael parou, retesou-se e em palideceu.
“Tipo, eu não acredito... Bom , eu tento não acreditar nisso, m as aqui em cim a e seguindo pelo patam ar, eu consigo sentir algo, sabe?”
Voltando outra vez para o quarto usado com o depósito, Michael relaxou e continuou o tour pelo hotel.
“O edifício original devia ter só quatro ou cinco quartos”, disse. “No início era um a estalagem .”
“Ah!”, disse Lorraine. “Acho que é daí que vem a fonte deste fenôm eno. Talvez sej a por isso que tive a im pressão de que esses hom ens se conheciam ... que eles tinham se visto m uitas vezes... Isto era um clube m asculino ou um a estalagem . Foi essa a im pressão que tive. Aqueles dois hom ens não eram estranhos um ao outro. E a anim osidade entre eles era algo que alim entavam j á havia algum tem po.”
Michael apontou para as portas de incêndio próxim as e disse:
“Quando vi algo, era com o... se alguém tivesse acabado de... com o se alguém tivesse corrido através das portas.”
“Foi exatam ente o que ele fez. Ele correu através das portas”, confirm ou Lorraine. Ela baseava isso na im pressão parapsíquica que tivera antes de ouvir a história do bartender. “Quando eu estava lá em baixo, alguém abriu aquelas portas e, quando olhei para cim a pelas escadas, vi algo escuro perto destas outras portas”, ela disse, indicando o par de portas seguinte, m ais além no corredor. “Assim , algo esteve bem aqui, poucos instantes atrás! Fiquei confusa com a escada. Eu vi telepaticam ente pelo ângulo em que ele corria, e as paredes estavam então m udadas e diferentes.”
Michael repetiu, para Lorraine, “Minha esposa pode lhe dizer que nunca acreditei nesse tipo de coisa. Quando fui para casa e lhe contei, ela acreditou em m im , porque sabe que eu não inventaria nada desse tipo.”
“Certo, porque você não estava aberto ou inclinado a isso. Faz sentido. Aconteceu de form a espontânea. Vam os voltar àquele quarto e tentar a com unicação com quem ou o que quer que sej a”, sugeriu Lorraine.
Enquanto voltava na direção do quarto, Michael disse, “A im pressão foi com o um lam pej o. Para m im , não era am igável.”
“Não, não é”, confirm ou Lorraine. “É qualquer coisa pouco am igável... qualquer coisa. Sej a qual for sua intenção, é m uito negativa... parece ser bem m alévola.”
Já estava passando de m inha hora de dorm ir. Para digerir o j antar farto e tardio que eu consum ira estava usando toda a m inha energia. Acenei cham ando todo m undo para dentro do quarto sem portas e pedi, “Vam os nos acom odar e tentar a com unicação aqui dentro. Fiquem prontos para dim inuir a ilum inação.”
Nossos pesquisadores se am ontoaram com seus equipam entos de vídeo, câm eras e gravadores. Acom odei Lorraine na cadeira m ais confortável que consegui achar, j unto a um a m esa de centro descartada, e certifiquei-m e de que os gravadores estivessem o m ais perto dela possível. Então postei-m e à entrada, não longe dem ais de Lorraine.
Um fotógrafo da revista ficou no quarto; o outro ficou ali, do lado de fora da porta, com o repórter. Conseguim os que Michael entrasse no quarto conosco, m as sua fam ília e Ray m ond, o cozinheiro, insistiram em ficar do lado de fora. Ray m ond na verdade com eçou a trem er ante a ideia de entrar no quarto.
Um a experiência paranorm al
“Michel vai fazer isto j unto com igo, Ed”, com unicou Lorraine.
“Sim , m uito bom ”, concordei. Com frequência, se um fenôm eno paranorm al se fez notar por alguém , essa pessoa pode ser o catalisador para atraí-lo de novo.
Enquanto posicionávam os outra cadeira j unto à m esa de centro, Lorraine disse, “Acabo de sentir algo m uito, m uito negativo neste m om ento. Ed, há m uita coisa acontecendo aqui.”
Michael em palideceu.
“Tam bém senti. Parecia um form igam ento”, disse ele.
“Sim , e é com o um a pressão – um a pressão forte. Esta coisa não nos quer aqui”, acrescentou Lorraine.
Michael sentou-se relutante ao lado de Lorraine, enquanto todos os dem ais encontravam algum lugar e se instalavam pelo quarto. O cinegrafista da revista perguntou se a luz de sua câm era de vídeo seria brilhante dem ais.
“Sim , querido, não podem os ter luz”, explicou Lorraine. “Sinto m uito, eu
“Sim , querido, não podem os ter luz”, explicou Lorraine. “Sinto m uito, eu gostaria de perm itir, m as não posso.”
Não estávam os tentando criar um a atm osfera sinistra ou disfarçar algum truque de prestidigitação. A escuridão evitava que nos distraíssem os e tornava m ais fácil que os espíritos se m anifestassem e se com unicassem com clareza. Convencem os até os m em bros m ais tím idos do grupo, que estavam no corredor, a apagar as luzes.
Lorraine com eçou tranquilizando o bartender, que agora estava sentado ao lado dela, parecendo pouco à vontade.
“Está tudo bem , Michael. Não vou deixar que nada lhe aconteça, querido. Acredite em m im , não vou deixar que nada lhe aconteça. Você acredita em Deus?”
“Eu costum ava ir à igrej a quando era criança, m as...”
“Você ia à Igrej a da Escócia?”, perguntou Lorraine.
“... e à Igrej a Católica Rom ana”, Michael respondeu.
“Você foi batizado?”
“Não, nunca.”
Lorraine estava tentando descobrir se ele tinha um sistem a de crença ou outra proteção contra possíveis entidades do m al. Nunca sabíam os de fato quem ou o que viria quando convidado. É por isso que sem pre alertam os enfaticam ente as pessoas inexperientes a não fazerem isso por conta própria, nem brincarem com tabuleiros Ouij a ou coisas assim .
Lorraine continuou interrogando Michael:
“Depois da experiência que teve neste hotel, você consegue crer na possibilidade de um m undo espiritual?”
“Precisa haver um a evidência concreta. Preciso que alguém diga que há provas. Todos têm um a crença em algo; m as quando as pessoas dizem , ‘Você acredita em Deus?’... eu não acredito em Jesus nem na Bíblia, e em nada disso, é o que estou dizendo...”, explicou Michael.
“Certo, m as você acredita que existe um Ser Suprem o?”, Lorraine perguntou.
“Sim . De certa form a, sim . Mas nunca tive um m otivo para acreditar em Deus, na verdade”, adm itiu Michael. “Minha esposa acredita firm em ente em Deus e eu m e casei na igrej a. E eu faria qualquer coisa por m inha esposa, m as ela provavelm ente é contra eu estar aqui neste m om ento, porque ela sabe que, no fundo... eu não tenho fé, se é que m e entende. Então, ela na verdade não quer que eu estej a aqui. Por isso, eu lhe digo... se m e der sua palavra...”
“Vou proteger você. Nada vai lhe acontecer, querido”, assegurou-lhe Lorraine. Então ela se virou para m im e repetiu o que acabara de ouvir, para ter certeza de que eu sabia que ele poderia precisar de algum a proteção extra. “Ed, Michael não acredita em Deus. Ele acha difícil crer, e está preocupado e m uito nervoso. Então, ele quer que eu cuide dele. Quando eu rezar pedindo por proteção, vou pedir para ele tam bém , querido.”
Ela estava m e pedindo para fazer o m esm o. Ainda, com o o dem onologista do grupo, eu estava ali com o o “policial”, de guarda contra intrusos dem oníacos. Era útil saber quem poderiam ser os m ais vulneráveis. Minha principal preocupação era sem pre Lorraine, m as nós dois sabíam os que quem carecia de fé corria o risco de ser m ais visado. Mas ele não corria nenhum perigo real desde que soubéssem os disso.
Silenciam os os m urm úrios no corredor lá fora e Lorraine deu início à sessão, fazendo o sinal da cruz e recitando a oração católica de São Miguel...
“Em nom e do Pai, do Filho e do Espírito Santo, am ém . São
Miguel Arcanj o defenda-nos na batalha. Sej a nossa proteção contra
o m al e as arm adilhas do dem ônio. Que Deus afaste o m al, pedim os
com hum ildade. Príncipe das hostes celestiais, pelo poder de Cristo,
lance ao inferno Satanás e todos os espíritos m alignos que vagueiam
pelo m undo buscando a perdição das alm as. Am ém .”
Ela acrescentou, “Olhe por nós, sobretudo por Michael, porque para ele é difícil crer, e está com m uito, m uito m edo. Que ele estej a protegido – e sua esposa e filha – quando tentarm os aj udar o espírito que está aqui. Querem os entender por que ele está aqui e o que podem os fazer para que aceite sua m orte e siga em frente”.
Depois de pedir proteção e explicar nosso m otivo, Lorraine com eçou a cham ar para si o espírito perturbado.
“Quem quer que você sej a, e qualquer que sej a sua intenção... tão negativa, tão m aligna que você persistiu nela até encontrar aquele hom em . Você correu por estes corredores. Você abriu portas. Você ficou com pletam ente alucinado para encontrar aquele hom em a quem tanto odiou. E quando finalm ente o encontrou, você o m atou de form a violenta, e com o um covarde você o m atou e o deixou aqui. Mas todos sabiam quem era você.
“Por que está aqui? Por que continua presente aqui? Está sendo difícil aceitar sua m orte por causa do que fez? O espírito do hom em que você m atou j á não está aqui. Ele encontrou a paz por m eio de sua fé. E espero conseguir aj udar você tam bém , e rezo por isso, para que você não m ais incom ode as pessoas que vivem e trabalham aqui.
“Sei que as pessoas que trabalham aqui dizem que você ainda tenta, de certa form a, incom odá-las. E parece que você persegue principalm ente os hom ens. Não sei qual é o seu problem a... além de ser um a pessoa m uito violenta e m á. Mas tenho esperança, e rezo a Deus por isso, de que você não carregue em si a m arca do dem oníaco e do dem ônio ao realizar seus feitos.”
De repente ocorreu-m e que, dada sua experiência anterior, talvez Michael tivesse m ais êxito em convidar o espírito para vir até nós. Interrom pi e disse, “Michael, diga ao espírito que querem os que ele volte agora... para que possam os nos com unicar com ele. Ele veio até você um a vez e o assustou. Agora querem os que ele volte para que possam os com preender por que fez isso”. Um sim ples pensam ento nesse sentido seria suficiente.
“Vej a os olhos dele... Olhe para ele!”, disse Lorraine, de repente.
“Estou com um a sensação...”, Michael m urm urou.
“O que você está sentindo?”, perguntou Lorraine.
“Eu não sei. Eu... tive um vislum bre de algum as coisas. Não sei. Você
“Eu não sei. Eu... tive um vislum bre de algum as coisas. Não sei. Você consegue ver coisas em sua m ente?”, Michael perguntou, surpreso.
“Sim , é por isso que estam os aqui”, disse Lorraine em um a voz reconfortante.
“Você está vendo um cozinheiro?”, Michael perguntou em um a voz com pletam ente isenta de seu sotaque escocês.
“Um cozinheiro... você quer dizer o hom em que está usando roupas com o as de quem trabalha num a cozinha?”, rebateu Lorraine. Parecia que am bos estavam vendo telepaticam ente a m esm a coisa.
“Roupas brancas de cozinha”, confirm ou Michael.
“Sim ...”, disse Lorraine, de form a sonhadora. “É essa a conexão. Ele está vindo através de você”, ela observou.
Michael prosseguiu em sua nova voz:
“Vej o um cozinheiro e um a... tem tipo... e é com o um a j ovem criada ou com o um a filha... de alguém que é dono do hotel ou algo assim ? Não sei. Só vi a im agem . Não sei. É com o o vulto de um a j ovenzinha... um a estudante.”
“Sim , um a garota em idade escolar”, concordou Lorraine.
“Eu não... algo acaba de relam pej ar em m eus olhos.”
Alguém que deveria saber se com portar acabava de tirar um a foto com flash.
“Sem flash, por favor”, rosnei. Quando o transe de um clarividente é rom pido, pode ser difícil restaurá-lo.
“Não m e agrada que ele estej a falando através de m im , Lorraine. Eu não sei. Posso tom ar um uísque antes de continuar?”, disse Michael, saindo de seu transe. Seu suave sotaque escocês havia voltado.
“Você o vê, Lorraine?”, perguntei, tentando m anter as coisas no rum o.
Até Lorraine estava perdendo o foco.
“Quando m e sentei na escada, m ais cedo, pude ver esse aj udante de cozinha, Ed. Foi isso o que pude ver. Fiquei pensando, na hora, se isso não teria algo a ver com o evento trágico que aconteceu.”
“Parecia um cozinheiro, ou algo assim ”, inform ou Michael. “Im aginei que ele trabalhou com o cozinheiro aqui no hotel.”
Lorraine acrescentou:
“Pergunto-m e se... quem sabe foi algum utensílio da cozinha o que a pessoa usou. Ele pode ter usado algo da cozinha, Ed, para m atar aquele hom em . E a garota... Não creio que ela tenha visto algo, m as acho que um dos hom ens sabia que o outro havia feito algo à criança.”
“Consegue ver o hom em , Lorraine?”, perguntei, em outra tentativa de fazer com que ela e Michael retornassem às im agens telepáticas dentro de suas m entes.
“O hom em parece ter cabelo escuro”, respondeu Lorraine, voltando a olhar para dentro.
“Sim ”, Michel disse baixinho, abandonando de novo seu sotaque.
“Você tam bém está vendo?”, ela perguntou.
“Sim ...”, Michael disse, com olhar perdido.
“E não é...”, Lorraine com eçou.
Michael com pletou:
“O cabelo não é com prido, só chega à altura do om bro.” O bartender parecia estar lendo a m ente de Lorraine além de estar com partilhando a m esm a visão telepática.
“Isso m esm o”, confirm ou Lorraine. Ele parece vestido de form a adequada, ao m enos isso. Eu diria que tem altura m ediana, e as roupas que usa são brancas. Mas ele é, tem ...”
“Tem a barba por fazer”, Michael com pletou para ela.
“É, ele não está bem barbeado, m as com o você diz, querido, tem um a intenção bem m aldosa no rosto. O rosto dele não... o rosto dele tem expressão enlouquecida, querido”, disse Lorraine para Michael.
“Quantos anos ele tem ?”, perguntei a am bos.
“Trinta”, respondeu Michael.
“Eu diria que ele tem por volta de 30”, disse Lorraine ao m esm o tem po. “Oh, falam os j untos! Assim , estam os os dois olhando para a m esm a pessoa, Ed”, acrescentou ela, quase com alegria.
“Lorraine, com o ele está vestido?”, perguntei, tentando fazer com que ela focalizasse de novo.
“Está vestido todo de branco. E seus sapatos parecem suj os. Parecem bem suj os. Não sei, ele pisou na terra, não sei. E está usando...”
“Roupas escuras por baixo”, inform ou Michael.
“Não, eu não vej o isso; m as vej o um daqueles grandes aventais longos que passam por cim a da cabeça e cobrem tam bém o peito. Ele está usando esse avental... e tem um a arm a na m ão”, acrescentou Lorraine.
“Que tipo de arm a?”, perguntei.
“É...”, Lorraine com eçou.
“... um a faca”, disse Michael, “e ela é com prida assim e tem uns dentes afiados”. Ele traçou um a silhueta no ar com a m ão e o braço, e então deixou-os cair de novo a seu lado.
“É, é isso m esm o, Ed, sim ”, disse Lorraine sem olhar para Michael.
“Foi com isso que ele m atou aquele hom em ?”, perguntei.
“Sim , bem ali”, Lorraine disse, virando o corpo na cadeira e indicando um ponto diante da j anela alta que se abria para a rua lateral. “Bem naquele lugar.”
“Você pode cham ar esse hom em até você?”, perguntei a ela.
“Creio... creio que o nom e dele é Gus, Ed”, disse-m e. Ela então com eçou a tentar se com unicar com o indivíduo. “Gus, se puderm os, querem os apenas aj udá-lo a sair deste lugar. Você está assustando m uita gente. Você está escolhendo algum as pessoas que se parecem com alguém que conhece ou que de algum m odo lhe são fam iliares. Você está tentando se com unicar ou está tentando reviver aquela noite? Você está entrando neste quarto e fazendo as coisas que faz no corredor porque está procurando por ele? Ele não está m ais aqui.”
“Ele não quer falar com você”, Michael interrom peu. “Ele não fala com m ulheres.”
“Não, ele não fala”, ela adm itiu. “Então fale com ele”, Lorraine disse a Michael. E ao espírito desgarrado, “Então fale com ele, Gus.”
“Ele não quer falar”, disse Michael.
“Ele tem que falar, ou vai ficar aqui”, explicou Lorraine. “Por que ele não gosta de falar com m ulheres?”
“Ele estava preocupado com a filha do dono do hotel”, respondeu Michael.
“Sim , certo, o que tem essa filha?”, perguntou Lorraine.
“Esse outro hom em feriu a filha.”
“A raiva que eu senti que ele tem é por causa disso”, confirm ou Lorraine.
“E agora ele está se afastando”, disse-nos Michael.
“Diga a Gus, Michael, que querem os aj udá-lo... que tudo... que m uito tem po j á se passou”, insistiu Lorraine.
“Ele está bem ... ele está seguindo em frente... está tudo certo com ele”, Michael tranquilizou-a.
Lorraine insistiu.
“Ele tem que sair daqui. Tem que ir para a luz... tem que ir na direção de entes queridos que tenha conhecido em vida, e que seguiram em frente. Ele tem que ir com eles em espírito e sair daqui. O tem po seguiu em frente. Tudo que ele sente...”
“Mas ele está se sentindo pressionado com todo m undo aqui”, explicou Michael.
“Pressionado por todas essas pessoas?”, indagou Lorraine.
“Só pelo barulho que faz clic, ele não se sente relaxado.”
“Tudo bem , não tirem fotos. Não façam ruídos”, Lorraine advertiu a todo m undo no quarto.
“Não são as pessoas, é só qualquer som incom um ...”, repetiu Michael.
“Isso o deixa nervoso”, ela afirm ou, tranquila. “Porque ainda sente que estão atrás dele.”
“O dono do hotel está atrás dele... era a filha do dono do hotel”, revelou Michael.
“Isso, certo”, concordou Lorraine.
“Ele está indo em bora”, disse Michael.
“Está nos deixando?”, Lorraine perguntou.
“Acho que sim . É. Ele está flutuando para longe”, Michael confirm ou.
O espírito não estava apenas deixando Michael e Lorraine, ele estava deixando este m undo. Já presenciei sessões suficientes para ser capaz de reconhecer a diferença.
“Você pode sentir”, m urm urou Lorraine, relaxando em sua cadeira.
“É, ele se foi”, disse Michael.
“Tam bém posso sentir a energia se dissipando. Alguém m ais sente? Ele se foi, querido”, disse Lorraine, de olhos m uito abertos.
“Ele se foi para sem pre ou apenas se foi?”, perguntei para confirm ar m inhas próprias im pressões.
“Espero que tenha ido em bora para sem pre, m as não sei”, adm itiu Lorraine.
“É com o se ele estivesse se afastando m ais e m ais”, explicou Michael.
“É, e aquela sensação de aperto na garganta desapareceu. Meu braço estava j unto ao braço de Michael e tam bém não sinto m ais nenhum a tensão nele”, acrescentou Lorraine.
“Talvez você o tenha aj udado a passar para o outro lado”, sugeri, referindo-m e a Gus.
“Pode ser”, disse Michael. E isso vindo de um cara que m om entos antes afirm ava não acreditar no outro lado.
Michael de repente com entou em seu sotaque escocês original, “Foi a coisa m ais bizarra... im agens estranhas aparecendo em m inha cabeça.”
“É isso que é enxergar parapsiquicam ente”, explicou Lorraine.
“Era com o um desenho anim ado.”
“Sim , é com o um desenho anim ado”, Lorraine concordou.
“Mas, diferente de um desenho, era com o se estivesse lá, de verdade.”
“Com o se estivessem lá”, confirm ou Lorraine. “Sim , eles estão lá.”
“Mas estava tudo saindo de m inha cabeça”, disse Michael, sacudindo a cabeça. “Logo depois que entrei aqui, eu não vi a im agem dele. Tudo que vi foi a im agem da j ovenzinha. Mas ela não usava roupas de criada, nem nada assim . Ela era a filha do dono do hotel, ou coisa parecida; porque todo m undo... tipo todo m undo devia respeitá-la. Não sei. Só tive a sensação de que era a filha do dono do hotel.”
“Talvez vocês devessem tentar falar com Ray m ond, para ele fazer o m esm o”, sugeriu Michael. “Quero dizer, ele é um cara m ais religioso. Talvez isso aj ude. É o que digo, nunca precisei acreditar em nada, m as tem algo m uito esquisito acontecendo.”
“Ah, sim , para dizer o m ínim o”, riu Lorraine, e disse, m ais baixinho, “Ray m ond está com m edo”. Ela então se debruçou e gritou para o corredor. “Ray m ond, j á acabou tudo, querido. Term inam os.”
As luzes se acenderam , e agradeci a Michael por sua cooperação. Os fotógrafos da revista queria tirar fotos de m im e de Lorraine no quarto. Depois de ser fotografado, Michael reuniu-se a sua fam ília e a seu am igo no corredor.
Aquele hotel não m e parecia o tipo de lugar onde eu encontraria um chocolatinho sobre m eu travesseiro, m as eu estava ansioso para voltar para m eu quarto e m inha cam a. No entanto, quando tentam os deixar para trás aquele aposento desarrum ado e o fotógrafo satisfeito, Michael nos abordou no corredor.
O clarividente relutante
“Eu gostaria de saber, de fato... eu gostaria de saber o que você fez com igo lá dentro”, disse ele, enfrentando-nos e parecendo agitado.
“Oh, eu não fiz nada a você, querido”, Lorraine garantiu.
“Mas Ray m ond e sua nam orada Dee estavam olhando pela porta e disseram que eu parecia estranho... Que não estava em m eu eu norm al. Era por isso que Ray m ond estava com m edo de entrar e ficar com igo.”
“Ed, você tem que explicar a Michael que eu não fiz nada com ele”, pediu Lorraine.
“Você apenas visualizou um a luz de Cristo”, tranquilizei a am bos, envolvendo Lorraine com um braço.
“Sim , foi só isso que fiz”, disse Lorraine, olhando para Michael. “Rezei por você. Apenas visualizei você em um a luz de Cristo. Rezei por você e dei proteção a sua fam ília. Mas não fiz m ais nada a você.”
“Desde que m inha esposa e m inha filha estej am bem e não sej am afetadas por isto de m odo algum ”, disse Michael, acalm ando-se.
“Não, elas não serão tocadas por isso de m odo algum ”, Lorraine confirm ou.
Tentando deixar m ais leve a situação, eu disse:
“Pessoalm ente, gosto de m e visualizar em um aposento cheio de donuts de geleia.”
Lorraine e Michael riram . Então, m udando de assunto e referindo-se ao fantasm a, Gus, Michael disse:
“Bom , ele não queria falar com m ulheres de form a algum a, desculpa.”
“Você não m e ofendeu!”, interrom peu Lorraine, depressa.
Acrescentei, à guisa de explicação:
“Esse tal Gus aparentem ente tinha m edo de m ulheres, e não sabia com o se com unicar com elas. É por isso que ele estava vindo através de você, Michael.”
“Talvez ele se sentisse intim idado por elas”, Lorraine sugeriu.
“Ele não disse... ele não disse nada”, com entou Michael.
“Você recebeu im pressões em vez de palavras”, sugeri.
“É, era... era com o um desenho anim ado, ou algo assim ”, ele repetiu.
“É o que cham am os de ‘clarivisão’”, expliquei. “A ‘clariaudição é quando você escuta coisas telepaticam ente. Há pessoas que podem até sentir cheiros ou o toque de coisas. Você estava enxergando por m eio do que é conhecido com o os olhos da m ente.”
“Ele nunca passou por nada parecido antes”, observou Lorraine.
Depois de tantas décadas, ela provavelm ente estava recordando com o havia sido estranho e assustador quando descobriu suas habilidades clarividentes.
Enquanto m antínham os essa conversa, o pessoal da revista tom ava notas e ficava por ali com o m orcegos, nos cantos escuros do corredor acarpetado.
“O flash incom odou você lá dentro?”, um dos fotógrafos perguntou a Michael.
“Não, na verdade foi o barulho”, explicou ele. “Clic, e ele fugiu correndo para as m ontanhas. Foi a im pressão que deu... que ele estava descendo por um vale; e ele apenas se distanciou m ais. Agora não há m ais nada aqui. Não há m ais nada.”
“Não, eu não sinto nada. Não sinto m ais”, confirm ou Lorraine.
“Mas eu podia sentir lá em baixo, na cozinha, enquanto subia”, recordou Michael.
“Bom , eu tam bém senti”, concordou Lorraine. “Mas foi para lá que Gus correu depois de com eter o assassinato.”
O rosto de Michael se ilum inou.
“É isso m esm o, é para onde ele estaria correndo quando vi as portas se m ovendo naquela noite”, disse.
“Sim , ele estava revivendo aquele m om ento, provavelm ente o m om ento m ais terrível de sua vida”, explicou Lorraine. “Você sabe quanto tem po faz que a reform a aconteceu?”
“Tudo que sei é que este hotel m udou de dono faz oito m eses, m ais ou m enos em agosto do ano passado. Desde então ele vem sendo reform ado”, respondeu Michael.
“E foi isso que desencadeou esses eventos paranorm ais”, Lorraine explicou.
“É verdade... nesses pontos, dá para sentir algo, m as na parte nova, não. Não há nada. Não se sente nenhum enj oo, frio na barriga, nem nada assim . Mas quando a gente fica parado naquele andar de cim a... e você fica parado aqui, e na área da cozinha...”, Michael disse, sacudindo a cabeça, assom brado.
Lorraine concordou.
“Todos esses lugares estão em sintonia. Estão na parte velha do edifício, onde a tragédia aconteceu... e você consegue perceber isso!”
“Era o m ais estranho”, recordou Michael. “Eu fechava o pub às 11 horas da noite. Servia a últim a bebida aos fregueses, baixava as persianas e dizia, ‘Tudo bem , volto em cinco m inutos’, e subia para trancar o hotel.”
“Então, eu subia e exam inava as saídas de incêndio e tudo o m ais. Naquela noite eu subi e voltei para baixo logo em seguida. Não disse nada às pessoas no bar. E eles com eçaram , ‘Que foi? Que houve? Aconteceu algum a briga, alguém foi esfaqueado ou algo assim ? Que foi que aconteceu?’
“Eu disse: ‘Acabei de ver algo esquisito de verdade. Vocês poderiam subir com igo? Três eu quatro pessoas subiram . Posso dar os nom es. Se eu estivesse aqui m ais cedo, vocês poderiam ter conversado com elas. Eu tam bém podia ter pedido que ficassem aqui à espera de vocês. Elas subiram , m as não sentiram nada.
“Acho que, se tem m ais de um a pessoa, nunca acontece nada, entendem ? Tam bém levei m inha esposa e outras pessoas lá em cim a. Pensei: vam os levar o cachorro lá, porque os cachorros podem sentir essas coisas. Eles podem perceber.”
“Isso é verdade, eles podem , sim ”, concordou Lorraine.
“Mas nunca fizem os isso porque, sabe, o cachorro é tipo um cachorrinho de colo, entendem ? Mas, quando Ray m ond soube da história, ele m e procurou e disse: ‘Ah, não, Michael, eu vi algo no vidro da porta, no m esm o lugar’. Ele estava m eio perturbado.”
Todos concordam os com a cabeça, e Lorraine e eu tentam os ir em bora, cruzando as m esm as portas, rum o ao nosso quarto. Mas Michael ainda tinha algo a dizer.
“Juro a vocês... não estou m entindo.”
“Acreditam os em você”, disse Lorraine. Na verdade, ela acreditava em sua própria percepção extrassensorial, e sua im pressão não conflitava com a de Michael.
“Bom , a m aioria das pessoas não tem tanta certeza”, refletiu Michael, parecendo cansado. “Vocês entendem o que digo... não estou inventando essas histórias nem nada. Vocês sabem disso. Juro por Deus, eu não faria isso.”
“Sim , e obrigada por voltar ao hotel para falar conosco em sua noite de folga”, disse Lorraine.
“Sem problem as. Quando o gerente do hotel ligou para m inha esposa e disse que vocês estavam aqui e queriam falar com igo, vim na hora; m as sinto... em bora eu tenha tom ado um ou dois drinques... Não m e entendam m al. Não estou bêbado nem nada. Hoj e é o prim eiro dia de férias. Tirei um a sem ana de férias.”
“Está tudo bem . Não foi um problem a”, tranquilizei-o, enquanto continuava a em purrar Lorraine para nosso quarto.
“Sabe, quando eu estava naquele côm odo com vocês”, ele continuou, “na m aior parte do tem po fiquei olhando para o corredor. Eu preferia olhar para onde eu pudesse sair... por onde eu pudesse escapar.”
“Michael, você nunca vai poder ser um de nossos investigadores”, brinquei.
Ele tam bém riu, e adm itiu:
“Vou lhes dizer um a coisa. Bebo m uito m ais agora do que quando com ecei a trabalhar aqui!” Então acrescentou: “Meus pais deixaram a m eu critério decidir se acreditava ou não em ... Deus e tudo o m ais. Eles não m e batizaram nem nada. Disseram que eu é que deveria decidir. Minha esposa acredita... não fervorosam ente, m as acredita. E ela acredita no que digo. Não queria que vocês achassem que sou algum idiota, m e entendem ?”
“Acreditam os em você, querido”, tranquilizou-o Lorraine, olhando por cim a do om bro.
Dem os boa-noite a todo m undo e finalm ente conseguim os chegar a nosso quarto e a nossa cam a. No entanto, todos nossos investigadores planej avam ficar acordados e fotografar, film ar e fazer gravações de áudio do hotel, durante as “horas parapsíquicas”. Com binam os nos reunir no saguão em algum m om ento antes do m eio-dia, no dia seguinte, para revisar nossas experiências ou descobertas.
Mais tarde naquela noite e a m anhã seguinte
Dois investigadores desceram com um gravador de fita para o saguão, a cozinha, a escada dos fundos, o corredor entre os dois pares de portas com m ola, e o quarto de hóspedes – agora depósito –, onde Lorraine havia feito a sessão j unto com Michael. Eles ficaram fazendo perguntas... dando tem po para possíveis respostas que não podiam ouvir com seus ouvidos. Em alguns casos, quando a fita é tocada de novo, um a voz pode ser ouvida respondendo às perguntas. No entanto, isso não aconteceu nesta investigação.
Outro par de investigadores gravou em videoteipe o hotel, na esperança de capturar m ais “glóbulos fantasm as”. Fora o que haviam film ado m ais cedo no quarto abandonado, nada foi observado. Outros pesquisadores usaram luxím etros, para m ensurar a ilum inação, e galvanôm etros, registrando fluxos de energia inexplicáveis, para m onitorar quaisquer anom alias. Nada incom um apareceu.
Depois que Michael, Ray m ond e sua nam orada, e um ou dois outros m oradores locais ficaram sabendo que nosso grupo estava na Escócia para investigar diversos locais assom brados, levaram um outro grupo dos investigadores em um a busca que não teve qualquer êxito. Prim eiro exploraram um cem itério onde teria sido praticada feitiçaria. Então foram a um local afastado que parecia ter sido um abatedouro. Am bos os locais deixaram nossos pesquisadores pouco à vontade, e eles insistiram em voltar ao hotel.
Um a vez de volta ao silêncio sepulcral do hotel, então escuro e soturno, eles se despediram de seus novos am igos e foram dorm ir. Com o parecia não estar acontecendo nada no hotel, os dem ais investigadores tam bém se recolheram , depois do longo e exaustivo dia de viagem . Às 4 da m anhã, as únicas criaturas que se m oviam fora de nossos quartos eram som bras passageiras. Ou assim acreditávam os.
O próxim o dia estava lum inoso e ensolarado e cheio de surpresas perturbadoras. Um pneu de nossa van tinha sido cortado. Quando o bar foi aberto para a lim peza, todas as fotos haviam sido rem anej adas. Mesas e cadeiras do salão de j antar, bem com o colchões de alguns quartos desocupados, estavam em pilhadas no m eio do aposento. Tam bém havia, espalhadas pelo local, m ontes de terra que parecia ter sido despej ada através de um funil.
Quando a governanta abriu a área de serviço, encontrou um a cam ada de sabão em pó cobrindo tudo de form a uniform e, com o um a nevasca bizarra. Maldições estavam escritas no pó que cobria um e m esinha no côm odo. Ninguém além da governanta tinha a chave do local e não havia sinais de que tivessem m exido na fechadura.
Os funcionários estavam visivelm ente perturbados. Muitos estavam irritados. Alguns culpavam Michael e Ray m ond. Outros não sabiam o que pensar. Mesm o Lorraine e eu não tínham os certeza.
Os m óveis em pilhados e a terra afunilada eram m uito fam iliares para nós. Ainda era difícil crer que ninguém tivesse ouvido tanta m obília sendo levada de um andar a outro. A m aioria de nossos investigadores não foi dorm ir até as prim eiras horas da m adrugada, e eles ainda ficaram acordados para escrever suas observações, checar o que tinham capturado com seu equipam ento e discutir o caso. Por outro lado, Lorraine e eu costum am os acordar cedo... do m esm o m odo que os funcionários do hotel. Ainda, se aquilo tudo fosse um a encenação, de que form a os responsáveis sabiam o que fazer e de que m odo?
Lorraine e eu, bem com o outras pessoas fidedignas do m undo todo, j á testem unham os o m ovim ento silencioso de m óveis. A explicação que tem os é de teletransportação. Não é sem m otivo que os poltergeists associados com esse fenôm eno são cham ados de “fantasm as travessos”. Em alguns de nossos casos m ais horrendos, Lorraine e eu vim os obj etos grandes desm aterializando-se e voltando a se m aterializar em outro local, diante de nossos olhos... m óveis m ovendo-se, dançando e voando por si m esm os. Tudo isso ocorre em silêncio. Num m inuto a coisa está ali, no m inuto seguinte você tropeça nela em algum outro local. Infelizm ente, tal atividade geralm ente ocorre onde existe um a infestação m aligna.
Antes que pudéssem os contar o ocorrido a um a das investigadoras que acordou tarde, ela relatou que sua caneta favorita havia desaparecido de seu quarto de m anhã, depois de ter sido usada para tom ar notas de noite. Ela exigiu que fosse devolvida, em nom e de Jesus Cristo, e encontrou-a do lado de fora de seu quarto. Estava caída no chão, no ponto exato em que o eletricista disse ter sentido que estava sendo observado.
Lorraine e eu sentim os que precisaríam os de m uito m ais tem po para determ inar se aquele fenôm eno era espectral, dem oníaco ou obra de algum funcionário m al-intencionado. Tam bém podia ser um pouco de tudo isso. Afinal de contas, o m au com portam ento atrai m aus espíritos, e os m aus espíritos inspiram o m au com portam ento. Tam bém é com um que o dem oníaco isole suas vítim as e as faça parecerem culpadas ou loucas. Ainda, no passado j á havíam os denunciado fraudes em que alguém , desesperado por atenção ou ávido pelo dinheiro que pensava poder atrair, queria enganar ou atem orizar as pessoas.
No entanto, sem o apoio da presença dos proprietários do hotel ou do gerente principal, Lorraine e eu decidim os não investigar m ais as coisas naquele m om ento. Já tínham os um a agenda toda planej ada para nosso tem po lim itado na Escócia. Antes de fazerm os alterações em nosso itinerário, sentim os que aqueles que haviam pedido nossa aj uda podiam ao m enos ter tido a cortesia de estar ali para nos receber.
Epílogo
Quando retornam os aos Estados Unidos, os proprietários e o gerente j á tinham voltado ao hotel. Quando retom am os contato, eles afirm aram que todas as perturbações haviam parado. Talvez nunca saibam os se pararam com o resultado de os funcionários terem sido disciplinados, por nosso sucesso em fazer um espírito desgarrado ir em bora para casa, ou por não estarm os nós m esm os presentes para desencadear um a resposta parapsíquica.
O m al é inteligente e pode se com unicar de continente a continente. Em vez de perm anecer dorm ente, com o tende a fazer quando abordado por investigadores hesitantes e clérigos, j á houve casos em que ele nos desafiou, por estar fam iliarizado com nosso trabalho.
O m al tam bém é atraído por alm as atorm entadas. Ao liberar aquele espírito, podem os ter perturbado algum a coisa. Ainda, Michael havia estado vulnerável, m as nós o protegem os. Esse poderia ser um outro m otivo para a anim osidade sobrenatural. O dano que encontram os na m anhã seguinte pode ter sido desencadeado por nossa intervenção em am bos os casos. Se foi isso, entretanto, não é de surpreender que tais fenôm enos retom assem a dorm ência, sem novas fontes de encoraj am ento ou convites.
Existe tam bém a possibilidade de que os novos donos do hotel quisessem atrair a atenção e clientes para seu hotel. O convite para que nós e a equipe de televisão fôssem os ao seu estabelecim ento pode ter satisfeito essa necessidade.
São tais am biguidades o que torna tão difícil esse tipo de investigação. Estam os tratando com a psicologia das vítim as, e não só com as entidades paranorm ais. E estão todos entrelaçados. Motivos egoístas ou destrutivos atraem e alim entam a energia negativa. Energia negativa alim enta os m otivos e ações egoístas e destrutivos.
No entanto, Ray m ond e Michael pareceram genuinam ente assustados com
No entanto, Ray m ond e Michael pareceram genuinam ente assustados com suas experiências. Ainda, Lorraine viu telepaticam ente as m esm as coisas que Michael descreveu naquela estranha noite. Além disso, os dois j ovens e Lorraine sentiram e viram coisas sem elhantes na m esm a parte do hotel. E os glóbulos espectrais capturados em vídeo, gravados por investigadores independentes, confirm am a presença de energia espiritual.
Nunca fom os capazes de encontrar qualquer relato de assassinato no hotel, m as os registros históricos são escassos nesse vilarej o rem oto. Lorraine tam bém faz notar que um crim e não reportado ou im pune pode ele próprio ser o m otivo para um a aparição fantasm agórica... e a reform a pode ser o gatilho.
Esse caso tam bém ilustra com o as energias e entidades paranorm ais parecem estar sem pre a nossa volta, em todos os lugares. Nosso com portam ento, nossas atitudes, razões e crenças – e os das pessoas ao nosso redor – desem penham um im portante papel no tipo de coisa que atraím os e no que podem os liberar sem querer.