Invocadores do Mal
Seção I. Conheça os Warren
SEÇÃO I
Conheça os Warren
Quem são os Warren?
“Ed e eu estam os casados faz quase sessenta anos”, contou-nos Lorraine à época em que este livro estava sendo escrito. “Tem os um a filha e um genro incrível, e tam bém som os avós e bisavós!”
Ed e Lorraine Warren vivem na Nova Inglaterra, em um a casa m odesta, um chalé aninhado entre as árvores e os arbustos que eles próprios plantaram , décadas atrás. Dividem seu lar com anim ais de estim ação resgatados e são visitados regularm ente por um guaxinim , um peru e um gam bá silvestres, que vêm atrás das guloseim as que se acostum aram a receber. O interior da residência é acolhedor, repleto de coleções dos m ais variados obj etos, que cobrem cada superfície. Anj os e crucifixos de todos os tipos, tam anhos e m odelos se encontram em toda parte e se destacam . No porão, Ed e Lorraine têm seus respectivos escritórios, separados pelo Museu do Ocultism o que o casal m antém .
No escritório de Lorraine, os arquivos transbordam com os contratos para conferências, acordos de livros, m ilhares de palestras proferidas, centenas de program as de televisão e rádio para os quais foram convidados e num erosos artigos em periódicos que abordam o trabalho deles. Vídeos de participações em program as de televisão, de suas próprias investigações parapsíquicas e de seu próprio program a de TV a cabo lotam o pequeno espaço. O aposento é ilum inado por três j anelinhas e suavizado por um a profusão diversificada de quadros, alm ofadas e graciosas criaturinhas de cerâm ica. Um a coleção com pleta do periódico da New England Society for Psy chic Research (Sociedade de Pesquisas Psíquicas da Nova Inglaterra) [NESPR] está em pilhada a um canto. Correspondência via fax, e-m ails im pressos e cartas do m undo todo acum ulam -se em pilhas indisciplinadas. Cada peça detalha fenôm enos que vão de fotografias de fenôm enos paranorm ais a aparições espectrais e infestações do m al.
Do lado de fora do escritório de Lorraine, e ao pé da escada que desce ao porão, há um aposento m al ilum inado e sem j anelas. Grandes m esas form am um “T”. Um grupo eclético de cadeiras rodeia a m esa e espalha-se pelo côm odo. A decoração do local é do tipo “Halloween m al-assom brado”. Os artefatos refletem , além dos trabalhos dos Warren, tam bém seu senso de hum or. É aqui que m uitos curiosos têm sido apresentados ao trabalho dos Warren, alertados quanto a seus perigos e esclarecidos pelas descobertas fascinantes reunidas ao longo de cinquenta anos de investigação paranorm al.
Os visitantes m ais curiosos do que nervosos vão se aventurar por um longo corredor repleto das dram áticas pinturas a óleo produzidas por Ed, retratando casas m al-assom bradas. Na outra ponta desse túnel fica o Museu do Ocultism o dos Warren.
“Dizem que é um dos lugares m ais m al-assom brados do m undo”, diz Ed a seus convidados. “A m aior parte da coleção do m useu foi usada para finalidades diabólicas, com efeitos terríveis... resultando em pessoas aleij adas, enlouquecidas ou m ortas. Alguns desses artefatos ainda são perigosos.”
O salão em form a de L está repleto, do chão ao teto. Os itens vão de
O salão em form a de L está repleto, do chão ao teto. Os itens vão de crânios, m áscaras horrendas, esculturas perturbadoras e um caixão, a obj etos de aparência benigna, um órgão e um a boneca de pano não tão inocente, confinada em um a vitrine de vidro. É j unto à porta de saída desse aposento que Ed tem seu escritório.
Lá dentro há um a grande escrivaninha, rodeada por estantes que acom odam com pêndios sobre o conhecim ento ancestral da dem onologia. Fotos de Ed com m onges e exorcistas de expressão dura pontilham a pequena extensão de parede acim a de sua escrivaninha. Gravações de áudio de m ilhares de entrevistas, feitas durante as investigações parapsíquicas ao redor do m undo, preenchem cada espaço possível. Um velho relógio de capela m arca o tem po com um tique-taque forte e badaladas potentes que a cada m eia hora reverberam não apenas no escritório de Ed m as tam bém no m useu contíguo.
Ainda assim , este não é um local som brio. Foi aqui que Ed escreveu alguns de seus pensam entos m ais pacíficos e inspiradores. É aqui que Ed tenta aj udar o m áxim o de pessoas que pode, e se esforça para distinguir entre os clientes que estão sendo sinceros e aqueles que são instáveis ou que apenas buscam atenção. Com um a xícara fum egante de café diante de si, ele se recosta em sua cadeira e ouve as fitas várias e várias vezes. É tam bém aqui que Ed reza para pedir orientação e am paro.
Ed é um hom em corpulento, de rosto barbeado, cabelo grisalho raleando e alegres olhos verdes. Sua voz grave atrai a atenção de anim ais de estim ação, netos e investigadores assistentes. Seu senso de hum or provoca tanto risadinhas nervosas quanto sorrisos. Tem um conhecim ento excepcional sobre o oculto, que não decorre apenas de leituras. Sua com preensão vem do estudo e da experiência pessoal com as consequências de tais práticas. Ele tam bém lhe dirá que boa parte de seu conhecim ento parece ter origem em algum ponto além de sua experiência hum ana. Os estudiosos m ais eruditos vão adm itir que Ed tem percepção e com preensão fora do com um quanto aos fenôm enos paranorm ais.
Lorraine, por outro lado, é um a dam a, tanto nos gestos quanto na aparência. Seu cabelo está sem pre arrum ado num penteado que lhe cai m uito bem . Ela parece ter um estoque inesgotável de echarpes e j oias que com plem entam seus traj es sem pre com binando. Sente-se à vontade usando saia, m eias de náilon e sapatos de salto, m esm o enquanto investiga ruínas m al-assom bradas na Inglaterra e na Escócia. Tem preferência pelos tartans, padrões quadriculados irlandeses e escoceses, que caem m uito bem em sua silhueta esguia e de estatura elevada. Tem um a voz sem pre anim ada e m em ória fenom enal. Adora fazer novos am igos e sem pre foi descrita com o um a pessoa extrovertida. Sente um a em patia genuína pelas pessoas e anim ais silvestres e dom ésticos. Lorraine é sensitiva. Seus sentim entos são m agoados com facilidade... e ela tem o dom de ver aparições espectrais de pessoas m ortas.
“Meu nom e de batism o é Lorraine Moran. Nasci em 1927, em Bridgeport, Connecticut, em um a fam ília irlandesa am orosa, devotada à alegria, ao estudo e à religião”, explica Lorraine. “Minha m ediunidade surgiu quando eu tinha 9 anos de idade. Foi enquanto frequentava a Laurelton Hall (um a renom ada escola particular em Milford, Connecticut) que descobri que nem todo m undo tinha a m esm a capacidade que eu de ver auras e espíritos”, ela acrescenta, rindo. “Minhas professoras, as freiras, expressaram horror e assom bro quando descrevi as luzes coloridas que eu via delineando o corpo das pessoas. Foi m inha prim eira experiência com a incom preensão, o m edo e a exclusão com que costum o m e deparar devido a m inha clarividência.”
Por sorte, em bora Lorraine possa ter sofrido discrim inação, ao m enos não foi queim ada na fogueira. Desde o final do século XIX, os fenôm enos de clarividência, telepatia e PES (percepção extrassensorial) foram obj eto de estudos sérios ao m enos de um a parte da com unidade científica, trabalho que prossegue até os dias de hoj e.
Em 1976, Lorraine ficou sabendo que havia na UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles) um a câm era Kirlian, de fabricação russa, que podia detectar e fotografar auras. Ela ficou intrigada com tal instrum ento que podia registrar as m esm as luzes coloridas que ela conseguia ver, desde criança, ao redor das pessoas. No m esm o ano, ela tom ou um avião e foi até essa universidade, logo após a investigação do caso “Pé Grande no Tennessee”.
Ao m esm o tem po que Lorraine ficou curiosa com relação à câm era, a dra. Thelm a Moss, psicóloga na Escola de Medicina da UCLA, ficou curiosa com Lorraine e sua clarividência. Lorraine foi testada e suas habilidades foram verificadas e identificadas com o sendo as de um “m édium de transe leve”. Diferentem ente de um “m édium de transe profundo”, Lorraine não perm ite que entidades incorpóreas falem por m eio dela, usando suas cordas vocais.
Ed depende de seus sentidos hum anos, m ais m undanos, para observar o paranorm al. Ele nasceu em 1926, apenas quatro m eses antes de Lorraine. Sua fam ília m orava no andar de cim a de um a casa que com partilhava com outra fam ília, na calçada em frente a um a igrej a, em Bridgeport, Connecticut. A m ãe adorada de Ed passou a m aior parte da vida lutando contra o alcoolism o. Não aj udava em nada o fato de que a casa onde Ed m orou na infância fosse m al-assom brada.
“Dos 5 aos 12 anos, eu estava convencido de que ouvia passos, e tam bém sons de pancadas e golpes quando ninguém estava em casa. De noite eu via o rosto hostil de um a m ulher de idade na escuridão do arm ário de m eu quarto”, explica Ed.
“Meu irm ão m ais velho nunca estava por perto quando eu era criança. Ele sem pre dorm ia na casa dos am igos, em vez de dorm ir em casa. Foi só quando j á éram os am bos hom ens-feitos que ele adm itiu ter m edo dem ais, quando criança, de ficar num a casa repleta de visões e sons inexplicáveis, que nenhum adulto percebia.”
“Um a noite, m inha irm ã gêm ea e eu ouvim os passos hesitantes j unto com o som de um a bengala, com o se nosso avô estivesse subindo as escadas depois do café da m anhã de dom ingo. No entanto, não era m anhã de dom ingo... e nosso avô j á tinha m orrido! Os sons assustadores pararam quando nossa m ãe foi ao nosso quarto, para nos tranquilizar. Mais tarde, porém , soubem os que nossa m ãe havia passado a noite toda fora de casa, cuidando de nossa avó, que m orreu m ais tarde, naquela m esm a noite. Então passam os a acreditar que havíam os visto um anj o com a aparência de m am ãe.”
Essas experiências com certeza pareceram sobrenaturais a Ed e sua irm ã, m as o pai deles, um policial, insistia em dizer que deveria haver um a explicação lógica. No entanto, nenhum a causa plausível era sugerida ou encontrada. Em vez disso, os pais dele atribuíam esses estranhos eventos à im aginação infantil. O pai de Ed era um hom em extrem am ente religioso, que frequentava a igrej a todos os dias e encoraj ava Ed a confiar em Deus com base na fé. Ao m esm o tem po, porém , Ed era desestim ulado a crer no que seus próprios ouvidos e olhos lhe diziam . A solução de Ed foi crer em am bos.
Lorraine e Ed conheceram -se no cinem a Colonial, na Boston Avenue, em Bridgeport, Connecticut. Ed estava trabalhando no local com o lanterninha quando Lorraine foi ao cinem a com outras garotas do Grupo da Juventude Cristã St. Charles. Ed e Lorraine tinham apenas 16 anos na época.
Enquanto todos estavam no cinem a, houve um ataque aéreo, forçando-os a abandonar o edifício. Ed ofereceu-se para levar Lorraine e as am igas para um a lanchonete cham ada Rich’s, onde o piso e os tam pos das m esas eram de m árm ore, fazendo daquele um lugar seguro em caso de um novo ataque. As am igas de Lorraine pediram refrigerantes de cinco cents, m as Lorraine quis um a vaca-preta (preparada com sorvete e Coca-Cola). Ed cham ou-a de “aproveitadora”. Apesar disso, Lorraine ficou im pressionada com aquele rapaz tão alinhado, asseado e educado.
Mais tarde foram todos j untos para casa, a pé, andando com um pé na calçada e o outro na rua. Chegaram prim eiro à casa de Ed. Enquanto o j ovem subia de dois em dois os degraus da frente, Lorraine teve um a visão de Ed com o adulto. Naquela noite, ela escreveu em seu diário, “Acabei de conhecer Ed. Vou passar o resto de m inha vida com ele”.
Quando o relacionam ento pareceu estar ficando sério, o pai deu a Ed um único conselho: “Vej a com o ela trata os pais, e será assim que ela tratará você”. Lorraine e seus pais eram m uito próxim os, com um a relação baseada em respeito m útuo e am or – um a relação que ela repetiria em seu casam ento.
O garoto durão e a dam a de Bridgeport se apaixonaram e noivaram na época em que Ed fez 17 anos e se alistou na Marinha. Ele serviu na guarda arm ada da Marinha dos Estados Unidos, a bordo de um navio da Marinha Mercante durante a Segunda Guerra Mundial. Em 5 de fevereiro de 1945, o navio de Ed sofreu um ataque inim igo e pegou fogo, enquanto navegava no Mar do Norte. Ed estava a ponto de pular da proa do navio quando alguém gritou seu nom e e lhe j ogou um colete salva-vidas. Enquanto lutava para m anter-se à tona nas águas geladas, outro m arinheiro, do Texas, subiu em suas costas.
“Com dificuldade, chegam os a outro barco que tam bém pegou fogo”, recorda-se Ed. “Enquanto isso, nós dois corríam os o risco de ser totalm ente engolidos pelas cham as, na água repleta de óleo. Pedi a proteção da Santíssim a Virgem Maria e, de repente, as labaredas m ilagrosam ente se abriram a nossa volta. Um barco torpedeiro conseguiu se aproxim ar e resgatar o hom em que estava em m inhas costas. No entanto, nossos salvadores tem iam que o segundo navio estivesse prestes a explodir, e eu os ouvi dizer, ‘Vam os deixá-lo’. O hom em que eu tinha salvado insistiu para que m e salvassem , e senti quando m e puxaram pelo braço.”
Lorraine interrom pe, “Eu, nos Estados Unidos, estava desesperada. Apenas 69 hom ens, dos dois navios, sobreviveram àquela provação, e a m aioria deles sofreu queim aduras graves. Por 24 horas, Ed não figurou na lista de sobreviventes. Mais tarde, descobri que havia sido enviado para o hospital da Marinha em Staten Island, Nova York, para tratar um ferim ento na cabeça. Eu m e recuperava de um a cirurgia de apendicite. Pedi para o m édico m e enfaixar para que eu pudesse visitar Ed”.
Enquanto Ed estava de licença do serviço m ilitar, os Warren se casaram , em 1945. Ed retornou ao Teatro de Operações do Pacífico pouco depois. Ele recebeu a notícia do nascim ento de sua filha única enquanto estava em Nagoy a, no Japão, após Hiroshim a.
Quando voltou para casa, Ed ainda estava tão m agro que podia se esconder atrás de um poste. Os anos arredondaram -lhe a silhueta, m as nunca dim inuíram seu senso de hum or, o sorriso caloroso, a abordagem direta e a curiosidade por sua infância incom um e por sua a m iraculosa experiência m ilitar. Ele tam bém perm aneceu devoto da Santíssim a Virgem Maria e convicto do poder da oração.
Os Warren com plem entam um ao outro, com a força de caráter de Ed e sua astúcia adquirida nas ruas equilibrando a graça sofisticada e o caráter sensitivo de Lorraine. Juntos, am bos partilham um firm e senso de propósito e m oralidade. Tam bém desfrutam de um a am izade confortável em seu casam ento de longa data. Seus constantes em bates verbais divertem a todos que entram em contato com o casal.
Ed e Lorraine são devotados católicos rom anos e sentem que seu trabalho e suas descobertas apenas fortaleceram suas crenças religiosas. Suas investigações tam bém lhes deram o respeito sincero e a reverência por todas as religiões que encoraj am o am or incondicional. Sua única obj eção a ateus e agnósticos é a vulnerabilidade em potencial às forças do m al.
“Se inadvertidam ente convidam ou encontram um a infestação do m al, eles não têm defesas”, explica Ed, que acrescenta, “De fato, o m al visa-os especificam ente, por essa razão. Dizem que não existem ateus nas trincheiras. Lorraine e eu podem os lhe garantir que tam pouco há m uitos ateus em casas m al-assom bradas.”