Iracema

José de Alencar · Capítulo 8 de 37

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Iracema

Capítulo VI

Martim vae a passo e passo por entre os altos joaseiros que cercam a cabana do Pagé.

Era o tempo em que o doce aracaty chega do mar, e derrama a deliciosa frescura pelo arido sertão. A planta respira; um dôce arrepio irriça a verde coma da floresta.

O christão contempla o occaso do sol. A sombra, que desce dos montes e cobre o valle, penetra sua alma. Lembra-se do lugar onde nasceu, dos entes queridos que alli deixou. Sabe elle se tornará a vel-os algum dia?

Em tôrno carpe a natureza o dia que expira. Soluça a onda trepida e lacrimosa; geme a brisa na folhagem; o mesmo silencio anhela de afflicto.

Iracema parou em face do joven guerreiro:

—É a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do extrangeiro?

Martim pousou brandos olhos na face da virgem:

—Não, filha de Araken: tua presença alegra, como a luz da manhã. Foi a lembrança da patria que trouxe a saudade ao coração presago.

—Uma noiva te espera?

O forasteiro desviou os olhos. Iracema dobrou a cabeça sobre a espadua, como a tenra palma da carnaúba, quando a chuva peneira na varsea.

—Ella não é mais doce do que Iracema, a virgem dos labios de mel; nem mais formosa! murmurou o extrangeiro.

—A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde se enlace. Iracema não vive n'alma de um guerreiro: nunca sentiu a frescura de seu sorriso.

Emmudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a palpitação dos seios que batiam oppressos.

A virgem falou emfim:

—A alegria voltará logo á alma do guerreiro branco; porque Iracema quer que elle veja antes da noite a noiva que o espera.

Martim sorriu do ingenuo desejo da filha do Pagé.

—Vem! disse a virgem.

Atravessaram o bosque e desceram ao valle. Onde morria a falda da collina o arvoredo era basto: densa abobada de folhagem verde-negra cobria o adyto agreste, reservado aos mysterios do rito barbaro.

Era de jurema o bosque sagrado. Em torno corriam os troncos rugosos da arvore de Tupan; dos galhos pendiam occultos pela rama escura os vasos do sacrificio: lastravam o chão as cinzas de extincto fogo, que servira á festa da ultima lua.

Antes de penetrar o recondito sitio, a virgem que conduzia o guerreiro pela mão, hesitou, inclinando o ouvido subtil aos suspiros da brisa. Todos os ligeiros rumores da mata tinham uma voz para a selvagem filha do sertão. Nada havia porém de suspeito no intenso respiro da floresta.

Iracema fez ao extrangeiro um gesto de espera e silencio, e desappareceu no mais sombrio do bosque. O sol ainda pairava suspenso no viso da serrania: e já noite profunda enchia aquella solidão.

Quando a virgem tornou, trazia n'uma folha gottas de verde extranho licor vasadas da igaçaba, que acabava de tirar do seio da terra. Apresentou ao guerreiro a taça agreste.

—Bebe!

Martim sentiu perpassar nos olhos o somno da morte: porém logo a luz inundou os seios d'alma: a fôrça exhuberou no coração. Reviveu os dias passados melhor do que os tinha vivido: fruiu a realidade de suas mais bellas esperanças.

Eil-o que volta á terra natal, abraça sua velha mãe, revê mais lindo e terno o anjo puro dos amores infantis.

Mas porque, mal de volta ao berço da patria, o joven guerreiro de novo abandona o tecto paterno e demanda o sertão?

Já atravessa as florestas; já chega aos campos do Ipú. Busca na selva a filha do Pagé. Segue o rastro ligeiro da virgem arisca, soltando á brisa com o crebro suspiro o doce nome:

—Iracema! Iracema!...

Já a alcança e cinge-lhe o braço pelo talhe esbelto.

Cedendo á meiga pressão, a virgem reclinou ao peito do guerreiro, e ficou alli tremula e palpitante como a timida perdiz, quando o terno companheiro lhe arrufa com o bico a macia penugem.

O labio do guerreiro suspirou mais uma vez o doce nome e soluçou, como se chamara outro labio amante. Iracema sentiu que sua alma se escapava para embeber-se no osculo ardente.

E a fronte reclinava, e a flôr do sorriso desabrochava já para deixar-se colher.

Subito a virgem tremeu; soltando-se rapida do braço que a cingia, travou do arco.