Iracema

José de Alencar · Capítulo 22 de 37

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Iracema

Capítulo XX

A lua cresceu.

Tres sóes havia que Martim e Iracema estavam nas terras dos Pytiguaras, senhores das margens do Camocim e Acaraú. Os extrangeiros tinham sua rêde na vasta cabana do grande Jacaúna. O valente chefe guardou para si a alegria de hospedar o guerreiro branco.

Poty abandonou sua taba, para acompanhar seu irmão de guerra na cabana de seu irmão de sangue, e gosar dos instantes que sobejavam do amor de Iracema para a amisade, no coração do guerreiro do mar.

A sombra já se retirou da face da terra: e Martim vio que ella não se retirara ainda da face da esposa, desde o dia do combate.

—A tristeza mora na alma de Iracema!

—A alegria para a esposa só vem de ti; quando teus olhos a deixam as lagrimas enchem os seus.

—Porque chora a filha dos Tabajaras?

—Esta é a taba dos Pytiguaras, inimigos do meu povo. A vista de Iracema já conheceu o craneo de seus irmãos espetado na caiçara; o ouvido já escutou o canto de morte dos captivos tabajaras; a mão já tocou as armas tintas do sangue de seus paes.

A esposa pousou as duas mãos nos hombros do guerreiro, e reclinou ao peito d'elle:

—Iracema tudo soffre por seu guerreiro e senhor. A ata é doce e saborosa; quando a machucam azeda. Tua esposa não quer que seu amor azede teu coração; mas que te encha das doçuras do mel.

—Volte o socego ao seio da filha dos Tabajaras; ella vae deixar a taba dos inimigos de seu povo.

O christão caminhou para a cabana de Jacaúna. O grande chefe alegrou-se vendo chegar seu hospede; mas a alegria fugio logo de sua fronte guerreira. Martim dissera:

—O guerreiro branco parte de tua cabana, grande chefe.

—Alguma cousa te faltou na taba de Jacaúna?

—Nada faltou a teu hospede. Elle era feliz aqui; mas a voz do coração o chama a outros sitios.

—Então parte, e leva o que é preciso para a viagem. Tupan te fortaleça, e traga outra vez á cabana de Jacaúna, para que elle festeje tua boa vinda.

Poty chegou: sabendo que o guerreiro do mar ia partir, falou:

—Teu irmão te acompanha.

—Os guerreiros de Poty precisam de seu chefe.

—Se tu não queres que elles vão com Poty, Jacaúna os conduzira á victoria.

—A cabana de Poty ficará deserta e triste.

—Deserto e triste será o coração de teu irmão longe de ti.

O guerreiro do mar deixou as margens do rio das garças, e caminhou para as terras onde o sol se deita. A esposa e o amigo seguem sua marcha. Passaram além da fertil montanha, onde a abundancia dos fructos creava grande quantidade de mosca, do que lhe veio o nome de Meruoca.

Atravessam os corregos que levam suas aguas ao rio das garças, e avistam longe rio horisonte uma alta serrania. Expira o dia; nuvem negra voa das bandas do mar: são os urubus que pastam nas praias a carniça que o oceano arroja, e com a noite tornam ao ninho.

Os viajantes dormem em Uruburetama. Quando o sol voltou, chegaram ás margens do rio, que nasce na quebrada da serra e desce a planicie enroscando-se como uma cobra. Suas voltas continuas enganam a cada passo o peregrino, que vae seguindo o tortuoso curso: por isso foi chamado Mundahú.

Perlongando as frescas margens, viu Martim no seguinte sol os verdes mares e as alvas praias onde as ondas murmurosas, ás vezes soluçam e outras raivam de furia, rebentando em frocos de espuma.

Os olhos do guerreiro branco se dilataram pela vasta immensidade; seu peito suspirou. Esse mar beijava tambem as brancas areias do Potengi, seu berço natal, onde elle vira a luz americana. Arrojou-se nas ondas e pensou banhar seu corpo nas aguas da patria, como banhara sua alma nas saudades d'ella.

Iracema sentiu chorar-lhe o coração; mas não tardou que o sorriso de seu guerreiro o acalentasse.

Entretanto Poty, do alto do coqueiro, flexava o saboroso camoropim que brincava na pequena bahia do Mundahú; e preparava o moquem para a refeição.