Iracema

José de Alencar · Capítulo 9 de 37

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Iracema

Capítulo VII

Iracema passou entre as arvores, silenciosa como uma sombra: seu olhar scintillante coava entre as folhas, quaes frouxos raios de estrellas: ella escutava o silencio profundo da noite e aspirava as auras subtis que afflavam.

Parou. Uma sombra resvallava entre as ramas; e nas folhas crepitava um passo ligeiro, se não era o roer de algum insecto. A pouco e pouco o tenue rumor foi crescendo e a sombra avultou.

Era um guerreiro. De um salto a virgem estava em face d'elle, tremula de susto e mais de colera.

—Iracema! exclamou o guerreiro recuando.

—Anhanga turvou sem duvida o somno de Irapuam, que o trouxe perdido ao bosque da jurema, onde nenhum guerreiro penetra sem a vontade de Araken.

—Não foi Anhanga, mas a lembrança de Iracema, que turvou o somno do primeiro guerreiro tabajara. Irapuam desceu de seu ninho de aguia para seguir na varzea a garça do rio. As vozes da taba contaram ao ouvido do chefe que um extrangeiro era vindo á cabana de Araken.

A virgem estremeceu. O guerreiro cravou n'ella o olhar abrazado:

—O coração aqui no peito de Irapuam, ficou tigre. Pulou de raiva. Veio farejando a presa. O extrangeiro está no bosque, e Iracema o acompanhava. Quero beber-lhe o sangue todo: quando o sangue do guerreiro branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de Araken.

A pupilla negra da virgem scintillou na treva, e de seu labio borbulhou como gottas do leite caustico da euphorbia, um sorriso de despreso:

—Nunca Iracema daria seu seio, que o espirito de Tupan habita só, ao guerreiro mais vil dos guerreiros tabajaras! Torpe é o morcego porque foge da luz e bebe o sangue da victima adormecida!...

—Filha de Araken! Não assanha o jaguar! O nome de Irapuam voa mais longe que o goaná do lago, quando sente a chuva além das serras. Que o guerreiro branco venha, e o seio de Iracema se abra para o vencedor.

—O guerreiro branco é hospede de Araken. A paz o trouxe aos campos do Ipú, a paz o guarda. Quem offender o extrangeiro, offende o Pagé.

Rugiu de sanha o chefe tabajara:

—A raiva de Irapuam só ouve agora o grito da vingança. O extrangeiro vae morrer.

—A filha de Araken é mais forte que o chefe dos guerreiros, disse Iracema travando da inubia. Ella tem aqui a voz de Tupan, que chama o seu povo.

—Mas ella não chamará! respondeu o chefe escarnecendo.

—Não, porque Irapuam vae ser punido pela mão de Iracema. Seu primeiro passo, é o passo da morte.

A virgem retrahiu d'um salto o avanço que tomara, e vibrou o arco. O chefe cerrou ainda o punho do formidavel tacape; mas pela vez primeira sentio que pesava ao braço robusto. O golpe que devia ferir Iracema, ainda não alçado, já lhe trespassava, a elle proprio, o coração.

Conheceu quanto o varão forte, é pela sua mesma fortaleza, mais vencido das grandes paixões.

—A sombra de Iracema não esconderá sempre o extrangeiro á vingança de Irapuam. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher.

Dizendo estas palavras, o chefe desappareceu entre as arvores. A virgem sempre alerta volveu para o christão adormecido; e velou o resto da noite a seu lado. As emoções recentes, que agitaram sua alma, a abriram inda mais á doce affeição, que iam filtrando n'ella os olhos do extrangeiro.

Desejava abrigal-o contra todo o perigo, recolhel-o em si como em um asylo impenetravel. Acompanhado o pensamento, seus braços cingiam a cabeça do guerreiro, e a apertavam ao seio.

Mas quando passou a alegria de vêr o extrangeiro salvo dos perigos da noite, entrou-a mais viva a inquietação, com a lembrança dos novos perigos que iam surgir.

—O amor de Iracema é como o vento dos areaes; mata a flôr das arvores: suspirou a virgem.

E afastou-se lentamente.