Iracema
Capítulo XXIII
Quatro luas tinham alumiado o ceu depois que Iracema deixara os campos do Ipú; e tres depois que ella habitava nas praias do mar a cabana de seu esposo.
A alegria morava em sua alma. A filha dos sertões era feliz, como a andorinha, que abandona o ninho de seus paes, e emigra para fabricar novo ninho no paiz onde começa a estação das flôres. Tambem Iracema achara ali nas praias do mar um ninho do amor, nova patria para o coração. Ella discorria as amenas campinas, como o colibri borboleteando entre as flôres da acacia. A luz da manhã já a encontrava suspensa ao hombro do esposo e sorrindo, como a enrediça, que entrelaça o tronco e todas as manhãs o coroa de nova grinalda.
Martim partia para a caça com Poty. Ella separava-se então d'elle, para mais sentir o desejo de tornar a elle.
Perto havia uma formosa lagoa no meio de verde campina. Para lá volvia a selvagem o ligeiro passo. Era a hora do banho da manhã; atirava-se á agua, e nadava com as garças brancas e as vermelhas jaçanans. Os guerreiros pytiguaras, que appareciam por aquellas paragens chamavam essa lagoa da belleza, porque n'ella se banhava Iracema, a mais bella filha da raça de Tupan.
E desde esse tempo as mães vinham de longe mergulhar suas filhas nas aguas da Porangaba que tinham a virtude de tornar as virgens formosas e amadas pelos guerreiros.
Depois do banho Iracema discorria até ás faldas da serra do Maranguab, onde nascia o ribeiro das marrecas. Ali cresciam na frescura e sombra as fructas mais saborosas de todo o paiz; d'ellas fazia copiosa provisão, e esperava, embalando-se nas ramas do maracujá, que Martim tornasse da caça.
Outras vezes não era a Jererahú que a levava sua vontade, mas do opposto lado, junto da lagoa da Sapiranga, cujas aguas diziam que inflammavam os olhos. Cerca d'ahi havia um bosque frondoso de muritys, que formavam no meio do taboleiro uma grande ilha de formosas palmeiras. Iracema gostava do Murityapuá, onde o vento suspirava docemente; ali espolpava ella o vermelho côco, para fabricar a bebida refrigerante, endossada com o mel da abelha, que os guerreiros amavam durante a maior calma do dia.
Uma manhã Poty guiou Martim á caça. Caminharam para uma serra, que se levanta ao lado da outra do Maranguab sua irmã. O alto cabeço se curva á semelhança do bico adunco da arara; pelo que os guerreiros a chamaram Aratanha. Elles subiram pela encosta da Guaiuba por onde as aguas descem para o valle, e foram até o corrego habitado pelas pacas.
Só havia sol no bico da arara quando os caçadores desceram de Pacatuba ao taboleiro. De longe viram Iracema, que viera esperal-os á margem de sua lagoa da Porangaba. Caminhou para elles com o passo altivo da garça que passeia á beira d'agua: por cima da cariola trazia uma cintura das flores da maniva que era o simbolo da fecundidade. Collar das mesmas cingia-lhe o collo e ornava os rijos seios palpitantes.
Travou da mão do esposo, e a impoz no regaço:
—Teu sangue já vive no seio de Iracema. Ella será mãe de teu filho!
—Filho, dizes tu? exclamou o christão em jubilo.
Ajoelhou ali e cingindo-o com os braços, beijou o ventre fecundo da esposa.
Quando se ergueu, Poty falou:
A felicidade do mancebo é a esposa e o amigo, a primeira dá alegria; o segundo dá força: o guerreiro sem a esposa é como a arvore sem folhas nem dores; nunca ella verá o fructo: o guerreiro sem amigo é como a arvore solitaria no meio do campo que o vento embalança; o fructo d'ella nunca amadura. A felicidade do varão é a prole, que nasce d'elle e faz seu orgulho; cada guerreiro que sahe de suas veias é mais um galho que leva seu nome ás nuvens, como a grimpa do cedro. Amado de Tupan é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; elle nada mais deseja senão a morte gloriosa.
Martim unio o peito ao peito de Poty.
—O coração do esposo e do amigo falou por tua boca. O guerreiro branco é feliz, chefe dos Pytiguaras, senhores das praias do mar; e a felicidade nasceu para elle na terra das palmeiras, onde reacende a baunilha, e foi gerada do sangue de tua raça, que tem no rosto a côr do sol. O guerreiro branco não quer mais outra patria, senão a patria de seu filho e de seu coração.
Ao romper d'alva Poty partiu para colher as sementes de crajurú que dão a mais bella tinta vermelha, e a casca do angico de onde sae a cor negra mais lustrosa. De caminho sua flecha certeira abateu o pato selvagem que planeava nos ares: e elle arrancou das azas as longas penas. Subindo ao Mocoribe, rugiu a inubia. A refega que vinha do mar levou longe o ronco som. O buzio dos pescadores do Trahiry, e a trombeta dos caçadores do Soipé, responderam.
Martim banhou-se na agua do rio, e passeou na praia para secar o corpo ao vento e ao sol. Ao seu lado ia Iracema e apanhava o ambar amarello que o mar arrojava. Todas as noites a esposa perfumava seu corpo e a alva rede, para que o amor do guerreiro se deleitasse n'ella.
Voltou Poty.