Iracema

José de Alencar · Capítulo 10 de 37

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Iracema

Capítulo VIII

A alvorada abriu o dia e os olhos do guerreiro branco. A luz da manhã dissipou os sonhos da noite: e arrancou de sua alma a lembrança do que sonhara. Ficou apenas um vago sentir, como fica na moita o perfume do cacto que o vento da serra desfolha na madrugada.

Não sabia onde estava.

Á sahida do bosque sagrado encontrou Iracema: a virgem reclinava n'um tronco aspero do arvoredo: tinha os olhos no chão: o sangue fugira das faces; o coração lhe tremia nos labios, como gôtta de orvalho nas folhas do bambú.

Não tinha sorrisos, nem cores, a virgem indiana; não tem borbulhas, nem rosas, a acacia que o sol crestou; não tem azul, nem estrellas, a noite que enluctam os ventos.

—As flôres da matta já abriram aos raios do sol; as aves já cantaram: disse o guerreiro. Porque só Iracema curva a fronte e emmudece?

A filha do Pagé estremeceu. Assim estremece a verde palma, quando a haste fragil foi abalada; rorejam do espato as lagrimas da chuva; e os leques ciciam brandamente:

—O guerreiro Cauby vae chegar á taba de seus irmãos. O extrangeiro poderá partir com o sol que vem nascendo.

—Iracema quer vêr o extrangeiro fora dos campos dos Tabajaras; então a alegria voltará ao seu seio.

—A juruty, quando a arvore secca, abandona o ninho em que nasceu. Nunca mais a alegria voltará ao seio de Iracema: ella vae ficar, como o tronco nú, sem ramas, nem sombras.

Martim amparou o corpo tremulo da virgem; ella reclinou languida sobre o peito do guerreiro, como o tenro pampano da baunilha que enlaça o rijo galho do anjico.

O mancebo murmurou:

—Teu hospede fica, virgem dos olhos negros: elle fica para ver abrir em tuas faces a flôr da alegria e para colher, como a abelha, o mel de teus mimosos labios.

Iracema soltou-se dos braços do mancebo, e olhou-o com tristeza:

—Guerreiro branco, Iracema é filha do Pagé, e guarda o segredo da jurema. O guerreiro que possuisse a virgem de Tupan morreria.

—E Iracema?

—Pois que tu morrias!

Esta palavra foi sopro de tormenta. A cabeça do mancebo vergou e pendeu sobre o peito: mas logo se ergueu.

—Os guerreiros de meu sangue trazem a morte comsigo, filha dos Tabajaras. Não a temem para si, não a poupam para o inimigo. Mas nunca fóra do combate elles deixaram aberto o camocim da virgem na taba de seu hospede. A verdade falou pela bôcca de Iracema. O extrangeiro deve abandonar os campos dos Tabajaras.

—Deve: respondeu a virgem como um ecco.

Depois a sua voz suspirou:

—O mel dos labios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da guabiroba: tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azues e dos cabellos do sol guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel da assucena.

Martim afastou-se rapido, e voltou, mas lentamente, A palavra tremia em seu labio:

—O extrangeiro partirá para que o socego volte ao seio da virgem.

—Tu levas a luz dos olhos de Iracema, e a flôr de sua alma.

Reboa longe na selva um clamor extranho. Os olhos do mancebo alongam-se.

—É o grito de alegria do guerreiro Cauby: disse a virgem. O irmão de Iracema annuncia a sua boa chegada aos campos dos Tabajaras.

—Filha de Araken, guia teu hospede á cabana. É tempo de partir.

Elles caminharam par a par como dois jovens cervos ao pôr do sol atravessam a capoeira recolhendo ao aprisco d'onde lhes traz a brisa um faro suspeito.

Quando passavam entre os joazeiros, viram que atravessava além o guerreiro Cauby, vergando os hombros robustos ao peso da caça. Iracema caminhou para elle.

O extrangeiro entrou só na cabana.