Iracema

José de Alencar · Capítulo 6 de 37

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Iracema

Capítulo IV

O Pagé vibrou a maracá, e sahiu da cabana: porém, o extrangeiro não ficou só.

Iracema voltára com as mulheres chamadas para servir o hospede de Araken, e os guerreiros vindos para obedecer-lhe.

—Guerreiro branco, disse a virgem, o prazer emballe a tua rêde durante a noite; e o sol traga luz aos teus olhos, alegria á tua alma.

E assim dizendo Iracema tinha o labio tremulo, e humida a palpebra.

—Tu me deixas? perguntou Martim.

—As mais bellas mulheres da grande taba comtigo ficam.

—Para ellas a filha de Araken não devia ter conduzido o hospede á cabana do Pagé.

—Extrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ella que guarda o segredo da jurema e o mysterio do sonho. Sua mão fabrica para o Pagé a bebida de Tupan.

O guerreiro christão atravessou a cabana e sumiu-se na treva.

A grande taba erguia-se no fundo do valle, illuminada pelos faxos da alegria. Rugia o maracá; ao quebro lento do canto selvagem, batia a dança em torno a rude cadencia. O Pagé inspirado conduzia o sagrado tripudio e dizia ao povo crente os segredos de Tupan.

O maior chefe cia nação tabajara, Irapuam, descêra do mais alto da serra Ibyapaba, para levar as tribus do sertão contra o inimigo Pytiguara. Os guerreiros do valle festejam a vinda do chefe e o proximo combate.

O mancebo christão viu longe o clarão da festa, e passou além, e olhou o céo azul sem nuvens. A estrella morta que então brilhava sobre a cupula da floresta, guiou seu passo firme para as frescas margens do Acaraú.

Quando elle transmontou o valle e ia penetrar na matta, o vulto de Iracema surgiu. A virgem seguira o extrangeiro como a brisa subtil que resvalla sem murmurejar por entre a ramagem.

—Porque, disse ella, o extrangeiro abandona a cabana hospedeira sem levar o presente da volta? Quem fez mal ao guerreiro branco na terra dos Tabajaras?

O christão sentiu quanto era justa a queixa, e achou-se ingrato.

—Ninguem fez mal ao teu hospede, filha de Araken. Era o desejo de vêr seus amigos que o afastava dos campos dos Tabajaras. Não levava o presente da volta; mas leva em sua alma a lembrança de Iracema.

—Se a lembrança de Iracema estivesse na alma do extrangeiro, ella não o deixaria partir. O vento não leva a areia da varzea, quando a areia bebe a agua da chuva.

—A virgem suspirou:

—Guerreiro branco, espera que Cauby volte da caça. O irmão de Iracema tem o ouvido subtil que pressente a boicininga entre os rumores da matta; e o olhar do oitibó que vê melhor na treva. Elle te guiará ás margens do rio das garças.

—Quanto tempo se passará antes que o irmão de Iracema esteja de volta na cabana de Araken?

—O sol, que vae nascer, tornará com o guerreiro Cauby aos campos do Ipú.

—Teu hospede espera, filha de Araken: mas se o sol tornando, não trouxer o irmão de Iracema, elle levará o guerreiro branco á taba dos Pytiguaras.

Martim voltou á cabana do Pagé.

A alva rêde que Iracema perfumara com a resina do beijoim guardava-lhe um somno calmo e doce. O christão adormeceu ouvindo suspirar, entre os murmurios da floresta, o canto mavioso da virgem indiana.