Iracema

José de Alencar · Capítulo 32 de 37

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Iracema

Capítulo XXX

Iracema cuidou que o seio se lhe rompia: e buscou a margem do rio, onde crescia o coqueiro.

Estreitou-se com a haste da palmeira. A dôr lacerou suas entranhas; porém logo o choro infantil inundou todo o seu ser de jubilo.

A joven mãe, orgulhosa de tanta ventura, tomou o tenro filho nos braços e com elle se arrojou ás aguas limpidas do rio. Depois suspendeu-o á teta mimosa; seus olhos então o envolviam de tristeza e amor.

—Tu és Moacyr, o nascido de meu soffrimento.

A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacyr; e desde então a ave amiga em seu canto unia ao nome da mãe, o nome do filho.

O innocente dormia; Iracema suspirava.

—A jaty fabrica o mel no tronco cheiroso do assasfraz; toda a lua das flores vôa de ramo em ramo, colhendo o suco para encher os favos; mas ella não prova sua doçura, porque a irara devora em uma noite toda a colmeia. Tua mãe tambem, filho de minha angustia, não beberá em teus labios o mel do sorriso.

A joven mãe passou aos hombros a larga faxa de macio algodão, que fabricara para trazer o filho sempre unido ao flanco; e seguiu pela areia o rastro do esposo, que ha tres sóes partira. Ella caminhava docemente para não despertar a creancinha adormecida como o passarinho sob a aza materna.

Quando chegou junto ao grande morro das areias, viu que o rastro de Martim e Poty seguia ao longo da praia; e adivinhou que elles eram partidos para a guerra. Seu coração suspirou; mas seus olhos sêccos buscaram o semblante do filho.

Volve o rosto para o Mocoribe.

—Tu és o morro da alegria; mas para Iracema tu não tens senão tristeza.

Tornando, a recente mãe pousou a creança sempre dormida na rêde de seu pae, viuva e solitaria em meio da cabana; ella deitou-se ao chão, na esteira onde repousava, desde que os braços do esposo se não tinham aberto mais para recebel-a.

A luz da manhã entrava pela cabana, e Iracema viu entrar com ella a sombra de um guerreiro.

Cauby estava em pé na porta.

A esposa de Martim ergueu-se de um impeto e saltou ávante para proteger o filho. Seu irmão levantou da rêde a ella uns olhos tristes, e falou com a voz ainda mais triste:

—Não foi a vingança que arrancou o guerreiro Cauby aos campos dos Tabajaras; elle já perdoou. Foi a vontade de ver Iracema, que trouxe comsigo toda a sua alegria.

—Então bemvindo seja o guerreiro Cauby na cabana de seu irmão: respondeu a esposa abraçando-o.

—O nascido de teu seio dorme n'essa rede; os olhos de Cauby gostariam de vêl-o.

Iracema abriu a franja de pennas; e mostrou o lindo semblante da creança. Cauby depois que o contemplou por muito tempo, entre risos, disse:

—Elle chupou tua alma.

E beijou nos olhos da joven mãe, a imagem da creança, que não se animava tocar com receio de offender.

A voz tremula da filha resoou:

—Ainda vive Araken sobre a terra?

—Pena ainda; depois que tu o deixaste sua cabeça, vergou para o peito e não se ergueu mais.

—Dize-lhe que Iracema é morta já, para que elle se console.

A irmã de Cauby preparou a refeição para o guerreiro, e armou no copiar a rêde da hospitalidade para que elle repousasse das fadigas da jornada. Quando o viajante satisfez o appetite, ergueu-se com estas palavras:

—Dize onde está teu esposo e meu irmão, para que o guerreiro Cauby lhe dê o abraço da amizade.

Os labios suspirosos da misera esposa moveram-se como as petalas do cacto que um sopro amarrota, e ficaram mudas. Mas as lagrimas debulharam dos olhos e cahiram em bagas.

O rosto de Cauby annuviou-se:

—Teu irmão pensava que a tristeza ficara nos campos que abandonaste; porque comtigo trouxeste todo o riso dos que te amavam!

Iracema seccou os olhos:

—O esposo de Iracema partiu com o guerreiro Poty para as praias do Acaraú. Antes que tres sóes tenham allumiado a terra elle voltará e com elle a alegria á alma da esposa.

—O guerreiro Cauby o espera para saber o que elle fez do sorriso que morava em teus labios.

A voz do tabajara enrouquecera; seu passo inquieto volveu a esmo pela cabana.